Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

No escurinho da TV

Ao chegar à quarta temporada, "BLACK MIRROR" continua igual a si própria: um dos laboratórios de ideias mais efervescentes do pequeno ecrã, que mesmo quando falha (ou não acerta tanto) é mais desafiante do que quase tudo o resto.

 

Metalhead

 

Os mais cépticos com a mudança da criação de Charlie Booker do Channel 4 para a Netflix podem ficar descansados: a quarta temporada da série britânica arranca com um dos seus melhores episódios de sempre, o que aliás também já tinha acontecido com a anterior (a primeira desenvolvida através do serviço de streaming). Por outro lado, "USS CALLISTER" é tão bom que também acaba por impor um patamar que os restantes cinco capítulos desta safra, estreados a poucos dias do final de 2017, não chegam a atingir por completo - mesmo que alguns sirvam sequências ao seu nível.

 

Carta de amor à ficção científica, o episódio dirigido por Toby Haynes ("Doctor Who", "Sherlock") começa como uma homenagem sentida à saga "Star Trek", mas em vez de se ficar pelo pastiche levezinho (como a também recente "The Orville", série de Seth MacFarlane), deixa um retrato mais inventivo e desconcertante que cruza uma história de solidão com limites éticos associados à inteligência artifical.

 

Black Mirror

 

À medida que acompanha o codirector de uma marca de videojogos e a sua rotina quase inescapável entre o trabalho e o lar, "USS CALLISTER" vai desviando, pacientemente, a simpatia do espectador para os seus colegas - até daqueles que à partida pareciam ostracizá-lo -, através de uma combinação de drama urbano, aventura espacial e um sentido de humor que nunca trai a força da vertente mais angustiante deste relato.

 

Esse tom, impecavelmente gerido por Haynes e auxiliado por um elenco imediatamente icónico (com destaque para Jesse Plemons e Cristin Milioti), é talvez o maior trunfo de uma das ideias mais felizes da ficção científica recente, aqui defendida num episódio mais longo do que o habitual (76 minutos) e quase com fôlego de longa-metragem - ou talvez de super-episódio piloto para um spin-off deste universo do qual já se fala...

 

4,5/5

 

Black Mirror

 

Um arranque do calibre de "USS Callister" já justificaria por si só o regresso de "BLACK MIRROR", mas há mais olhares sobre a relação com a tecnologia a motivar o investimento nesta segunda vida na Netflix. "HANG THE DJ", outra aposta na realidade virtual, leva ao limite a dependência das aplicações de encontros num embate contínuo entre romantismo e frustração. Realizado por Tim Van Patten ("BoarDwalk Empire", "Os Sopranos") e protagonizado pelos óptimos Georgina Campbell ("Murdered by My Boyfriend") e Joe Cole ("Peaky Blinders"), que mantêm uma química decisiva para o resultado final, o quarto episódio da temporada é bem capaz de ser a comédia romântica mais contagiante de 2017. não admira que muitos fãs o encarem como descendente espiritual de "San Junipero", capítulo de referência da série (e em modo optimista, uma raridade).

 

 4/5

 

Crocodile

 

Num comprimento de onda completamente diferente, "CROCODILE" é um exemplo das visões mais pessimistas e sufocantes de "BLACK MIRROR", à medida de um realizador como John Hillcoat ("A Proposta", "Dos Homens Sem Lei"), que assina este ensaio sobre culpa sem redenção possível. O que começa com um homicídio involuntário torna-se num ciclo alimentado pelo confronto entre o remorso e a auto-preservação, exercício de suspense de cortar à faca que ameaça cair num calculismo demasiado denunciado mas é salvo, em grande parte, pela excelência da actrizes protagonistas - Andrea Riseborough num papel tão ingrato como marcante, Kiran Sonia Sawar a dar algum capital de simpatia a um dos contos mais negros de Charlie Booker.

 

 3/5

 

Metalhead

 

Negríssimo é também "METALHEAD". Literalmente, até, pela fotografia a preto e branco (com curiosas variações púrpura) a forrar uma abordagem com aura de série B pós-apocalíptica, despachada nuns muito sucintos 41 minutos. Em parte uma variação de "Alien" - protagonista continuamente perseguida por criaturas mortíferas num cenário inóspito -, surge como confirmação algo tardia do que de muito bom se dizia de David Slade na altura do seu primeiro filme, "Hard Candy" (2005), antes de o britânico ter chegado à saga "Twilight". Mas aqui parece ter reencontrado o seu lado primitivo e impiedoso, numa das viragens mais inesperadas da colheita recente de "BLACK MIRROR".

 

 3/5

 

Arkangel

 

Embora estes quatro episódios mostrem a série no seu melhor ou, pelo menos, num patamar recomendável, a nova temporada acaba por ser algo irregular, aliás como as anteriores. "ARKANGEL", drama entre mãe e filha ancorado nas possibilidades e ameaças do controlo parental, segue-se com algum interesse (ter Rosemarie DeWitt entre as protagonistas ajuda), mas Jodie Foster parece não ter mão para levar esta história para territórios tão inexplorados quanto isso. O problema nem é que a tecnologia aqui lembre a do superlativo "The Entire History of You", outro mergulho em memórias alheias avançado por "BLACK MIRROR", antes a forma previsível e até moralista como a realizadora a trabalha - e sobretudo como encerra um drama a caminho do dramalhão -, mesmo que este argumento de Booker também não seja dos mais aventureiros.

 

 2,5/5

 

Black Mirror

 

Pouco entusiasmante é também "BLACK MUSEUM", capítulo ambicioso mas que nunca consegue dar grande densidade às suas personagens. Pelo contrário, é dos casos em que estas são pouco mais do que marionetas de conceitos especialmente extremos, algures entre o terror gráfico q.b. e a sátira escarninha uns tons ao lado. Fechar uma temporada de uma série antológica com uma antologia de três histórias é apenas o ponto de partida do episódio mais auto-referencial de "BLACK MIRROR", assinado por Colm McCarthy ("Peaky Blinders", "Injustice"), embora as piscadelas de olho aos fãs não cheguem a aprimorar uma combinação requentada - com cereja em cima do bolo numa reviravolta final inócua e facilmente antecipável.

 

 2/5

 

As quatro temporadas de "BLACK MIRROR" estão disponíveis na íntegra na Netflix.

 

 

Quando o sonho comanda a vida

Candidato húngaro a Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, "CORPO E ALMA" é um belo retrato de duas solidões partilhadas captado pela veterana Ildikó Enyedi. Entre o real e o onírico, está aqui um dos dramas românticos mais curiosos e sensíveis dos últimos tempos.

 

Corpo e Alma

 

Há quase 20 anos sem assinar uma longa-metragem - a mais recente até agora era "Simon mágus", de 1999 -, Ildikó Enyedi dedicou-se este milénio à realização de dezenas de episódios da série "Terápia" e de duas curtas, quando parecia deixar para trás um dos percursos mais celebrados do cinema húngaro contemporâneo (e com maior expressão internacional a partir de finais da década de 80).

 

Mas se o regresso ao grande ecrã demorou, não tem passado despercebido: "CORPO E ALMA" foi dos títulos europeus mais elogiados de 2017, contou com o Urso de Ouro do Festival de Berlim entre as muitas distinções e está bem colocado na corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, sendo um dos nove finalistas. E traz de volta a obra da cineasta a salas nacionais, onde teve distribuição irregular ao longo dos anos.

 

O regresso também se faz sem pressas na própria acção do filme. Enyedi leva o seu tempo a apresentar as personagens e sobretudo a interligá-las com as sequências centradas em veados numa floresta, à partida pouco mais do que separadores do olhar sobre o quotidiano de um matadouro nos arredores de Budapeste. O director financeiro da empresa, um homem reservado de meia-idade, e a recém-chegada inspectora de qualidade, ainda mais circunspecta e tímida, além de algumas décadas mais nova, são alvo de especial atenção num drama assente na esfera laboral e pessoal - que se tornam cada vez mais próximas pelas viragens oníricas da narrativa.

 

Corpo e Alma

 

Ao acompanhar a rotina diurna e nocturna da dupla protagonista, "CORPO E ALMA" vai movendo um par improvável entre a solidão e a comunhão, com os avanços e recuos que não andam longe da dinâmica de uma comédia romântica. Só que aqui o humor é quase sempre tão árido e subtil como o drama e o romance nunca se instala como uma solução fácil e milagrosa para a inadaptação quase irredutível das personagens.

 

Se noutras mãos o cruzamento de um tom clínico com aproximações ao realismo mágico poderia resultar indigesto, Enyedi prova saber sempre como quer apresentar e para onde quer levar esta história, num retrato nem impossivelmente esperançoso nem demasiado desesperado. Talvez não precisasse de duas horas para a contar: a meio o filme acusa alguma redundância, em cenas como as muitas dos protagonistas nos seus apartamentos, à noite, nas quais a solidão parece ser a única companhia para a vida. Mas o último terço confirma que quem sabe nunca esquece, em particular numa sequência ao som de um tema de Laura Marling, provavelmente a mais perturbante (e na qual o filme poderia autodestruir-se se conduzido por uma cineasta menos capaz).

 

Muito bem defendido pelos desempenhos de Géza Morcsányi, sexagenário que se estreia aqui na interpretação, e da mais jovem Alexandra Borbély, uma revelação num papel ainda mais extremo mas que nunca cai numa amostra de tiques, este estudo de personagens e das suas dificuldades de socialização justifica a (re)descoberta de uma realizadora e, por arrasto, de uma cinematografia que bem podia passar mais vezes por cá. Talvez a noite dos Óscares até acabe por ajudar desta vez...

 

 3/5

 

 

Brava dança dos heróis

Da revolta nas ruas à libertação na pista de dança, "120 BATIMENTOS POR MINUTO" mergulha fundo no flagelo da sida a partir da Paris dos anos 90. Mas se a acção é datada, o drama de Robin Campillo tem sido um dos filmes-chave do cinema europeu em 2017, com destaque para o Grande Prémio do Júri na última edição de Cannes - e merecidamente, apesar dos desequilíbrios ocasionais.

 

120BattementParMinute2

 

Cinema de guerrilha? Teria sido fácil tornar "120 BATIMENTOS POR MINUTO" num petardo de militância, tendo em conta que Robin Campillo se debruça aqui na história real da organização activista Act Up, dedicada à prevenção e tratamento contra o alastrar do HIV em França, no início dos anos 90. O realizador franco-marroquino sabe do que fala, uma vez que foi membro da associação nessa época e algumas das suas experiências estão muito próximas das de um dos protagonistas deste drama. Mas se é nítido que o autor de "Les Revenants" e "Eastern Boys" está do lado do grupo de jovens que lutou pelos direitos dos seropositivos face à indiferença quase geral - da classe política, da comunidade médica ou dos meios de comunicação social -, o seu olhar vai muito além de um panfleto com uma visão maniqueísta do mundo.

 

Da mesma forma que denuncia a estigmatização de uma comunidade (e em especial dos homossexuais, que juntamente com as prostitutas, toxicodependentes e imigrantes eram automaticamente associados aos casos crescentes de sida), "120 BATIMENTOS POR MINUTO" também é revelador do modo voluntarioso e incisivo, embora amador e até desastrado, como a Act Up empreendia muitas das suas chamadas de atenção. Mas essa postura crítica não é incompatível com um relato que abraça a obstinação e idealismo do grupo, conjugação especialmente inspirada quando Campillo se concentra nas discussões internas com um nível de detalhe quase documental.

 

120BattementParMinute

 

O filme parte mesmo dessa dinâmica comunitária, com um relato minucioso dos comprissos e antagonismos, ideais e contradições, antes de se focar no diálogo e conflito da Act Up com a sociedade de então e, mais à frente, de forma gradual, na relação gay entre dois dos seus membros. Co-argumentista de "A Turma", de Laurent Cantet, o realizador está familiarizado com o entrosamento narrativo entre o colectivo e o individual e essa alternância volta a ser um elemento distintivo em "120 BATIMENTOS POR MINUTO", mas fica a sensação de que o primeiro elemento é mais conseguido do que o segundo.

 

Apesar de contar com um elenco uniformemente credível, Campillo não tira grande partido de alguns actores e personagens (como a de Adèle Haenel, uma das revelações francesas dos últimos anos), entregando o protagonismo a um relacionamento amoroso que, embora envolvente, não acrescenta muito a tantos outros filmes LGBTQ - sobretudo àqueles marcados pelos dramas da sida, como o também relativamente recente "Um Coração Normal", de Ryan Murphy, que até era menos disperso e mais complexo no retrato íntimo.

 

O argentino Nahuel Pérez Biscayart, que já se tinha destacado em "Glue", de Alexis dos Santos, e "Je Suis à Toi", de David Lambert, exibidos em Portugal no festival Queer Lisboa, impõe-se de vez como actor a seguir na pele de um activista tão revoltado quanto vulnerável, ainda que o arco da sua personagem não se desvie dos moldes de "filme de doença" (por muito que o realizador tente fintar esse conformismo com uma cena "crua" num quarto de hospital, entre outras), e por isso "120 BATIMENTOS POR MINUTO" acaba por não ser uma experiência tão desafiante na segunda metade - e as quase duas horas e meia chegam a acusar a duração em algumas sequências, impressão confirmada na recta final.

 

120BattementParMinute3

 

Entre as acções de protesto nas ruas, escolas ou laboratórios e o drama conjugal de câmara, Campillo encontra ainda espaço para a descompressão na pista de dança, com o hedonismo dos corpos entregue à música electrónica e ao hino synthpop "Smalltown Boy", clássico dos Bronski Beat pioneiro na abordagem à temática gay (com enfoque na marginalização) em terreno mainstream.

 

A nível formal, estes episódios são alguns dos mais inventivos do filme, com a fuga para a frente das personagens a ter cruzamentos inesperados com o lado mais clínico desta história num cenário nocturno. Só é pena que a fusão vá perdendo o impacto à medida que é repetida, com ligeiras variações que não disfarçam o cansaço do modelo. Não é que "120 BATIMENTOS POR MINUTO" não conte com mais imagens fortes, com menção inevitável para uma vista do Sena inédita e arrepiante, mas Campillo mostrava outra capacidade de manter essa energia visual (e até emocional) em "Eastern Boys", filme mais livre e imprevisível. O estatuto de cineasta a ter debaixo de olho, no entanto, não sai beliscado num drama ainda pessoal e transmissível q.b. - e nos seus melhores momentos, urgente como pouca oferta a chegar às salas este ano.

 

3/5

 

 

O lado selvagem

"O QUADRADO" confirma o interesse de Ruben Östlund por situações-limite, falhas morais e humor truculento, mas apesar do embalo da Palma de Ouro em Cannes, o novo filme do realizador sueco tem tanto de estimulante como de frustrante.

 

O Quadrado

 

Apresentado a um público mais vasto ao quarto filme, o bem recomendável "Força Maior", há três anos, Ruben Östlund tem despertado atenções ainda maiores com o seu ensaio mais recente, e novamente cínico q.b., sobre as assimetrias e hipocrisias do mundo ocidental contemporâneo.

 

Mas se a fita anterior era um drama (polvilhado por alguma comédia negra) relativamente contido e conciso, não falta pompa e circunstância a "O QUADRADO", obra com uma estrutura mais fragmentada e episódica e uma ambição formal e temática reforçada.

 

Do fosso entre o individualismo e o altruísmo ao olhar sobre tendências da arte moderna, passando pela crise migratória, pelos limites do politicamente correcto ou por um retrato das relações laborais e familiares, não faltam temas da ordem do dia, cujo aglomerado deve ter contado alguma coisa para distinções como a da mais recente edição do Festival de Cannes.

 

O Quadrado 3

 

Sim, este é um relato muito do seu (nosso) tempo e Östlund faz questão de salientar que também tem muito a dizer. Mas o que diz, ou a forma como opta por o dizer, nem sempre é tão interessante, desconcertante ou consequente como parece querer dar a entender.

 

Mesmo que não faltem aqui cenas inspiradas, no seu melhor "O QUADRADO" não chega a ser tão astuto nem incisivo como os episódios mais memoráveis de "Força Maior", por muito que o realizador tenha pontaria para vinhetas dominadas pelo sarcasmo e desconforto.

 

Sequências como as que se atiram, sem reservas, a uma suposta sátira aos ridículos da arte contemporânea não são tão subtis nem originais como se esperaria, e os resultados tornam-se ainda mais irregulares quando, noutros momentos, Östlund trata os refugiados como marionetas do seu ensaio com qualquer coisa de laboratorial (ainda que o filme acabe por assumir essa limitação mais à frente).

 

O Quadrado 2

 

Por outro lado, os desequilíbrios são parcialmente compensados quando "O QUADRADO" acaba por ser menos obstinadamente misantrópico do que o que sugere na primeira metade, já que o quotidiano conturbado do protagonista, o curador de arte de um museu, vai encontrando um caminho humanista no meio da frieza emocional. E à medida que a personagem, bem encarnada por Claes Bang, se vai revelando ambígua e complexa, o realizador distancia-se dos habitualmente comparados Lars Von Trier ou Michael Haneke, muito mais implácáveis e pessimistas quando mergulham na condição humana.

 

Curiosamente, "O QUADRADO" até chega a ser mais contundente e ácido nos pequenos momentos e detalhes do quotidiano, como o de uma esclarecedora conversa a dois sobre assédio sexual, do que nas muito comentadas longas sequências, caso daquela que desmascara o animal social num jantar de gala da elite supostamente esclarecida. Östlund quer tanto impor-se como agente provocador que às vezes se perde em sublinhados num filme que ultrapassa, desnecessariamente, as duas horas de duração, mesmo que deixe um desafio que se segue sempre com alguma curiosidade.

 

3/5