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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O prazer não ocupa lugar

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Os singles não enganaram: "WHAT'S YOUR PLEASURE?", o quarto álbum de JESSIE WARE, é de longe o melhor desde "Devotion" (2012), o primeiro, e também o mais enérgico e hedonista da britânica.

Embora o flirt com o R&B e a soul não tenha ficado esquecido, as novas canções devem mais ao disco, às vezes entrosado com alguma electropop ou house, num convite à dança com inspiração assumida em divas como Donna Summer e Lisa Stansfield (esta já mais presente nos registos anteriores).

Os ensinamentos lúdicos e expansivos de Róisín Murphy também serão uma referência próxima do ambiente de festa que domina o alinhamento, com um dos pontos altos logo ao início, na faixa-título, single óbvio de um álbum ao qual não faltam singles óbvios.

Canção produzida por James Ford, dos Simian Mobile Disco (à semelhança da maioria das restantes), é a aposta oficial mais recente, servida com um videoclip tão exuberante, solto e nocturno como a música:

A malta dos bairros (dos arredores de Paris aos de Londres)

Duas das séries a ter em conta na Netflix mergulham nos subúrbios de capitais europeias e nas alianças e conflitos de comunidades imigrantes, sem generalizações nem maniqueísmos. E com música entre os elementos-chave, embora de formas distintas: jazz em "THE EDDY", hip-hop em "TOP BOY".

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"THE EDDY" (T1), Netflix: O arranque não é muito convidativo. Dois episódios com mais de uma hora de duração cada, marcados por um ritmo irregular e um protagonista às vezes exasperante, deixam algumas reservas quanto à minissérie franco-americana que tem sido vendida como a nova aposta de Damien Chazelle. Mas na verdade o realizador de "Whiplash - Nos Limites", "La La Land: Melodia de Amor" e "O Primeiro Homem na Lua" dirige apenas os primeiros dois dos oito capítulos e, embora seja um dos produtores executivos, não é o criador deste drama urbano com tentações de musical (neste aspecto, é coerente com a sua obra).

Os créditos de showrunner pertencem ao britânico Jack Thorne, argumentista de "Skins", "Wonder - Encantador" ou "His Dark Materials", a coordenar aqui uma equipa nascida de várias geografias - multiculturalidade aliás reflectida num retrato parisiense nada turístico. A ele juntam-se, na realização, a francesa Houda Benyamina ("Divinas"), a marroquina Laïla Marrakchi ("Marock") e o norte-americano Alan Poul (veterano de televisão que passou por "Sete Palmos de Terra" ou "The Newsroom"), e apesar da diversidade de origens e visões, a coerência formal não sai beliscada: a atmosfera realista e suja, por vezes quase documental, é um dos trunfos deste mergulho no quotidiano de um clube de jazz ameaçado pelas dívidas e pelo assassinato de um dos seus músicos, a cargo da máfia local.

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Outro ponto a favor é o elenco, que junta os norte-americanos André Holland ("Moonlight") e Amandla Stenberg ("The Hunger Games: Os Jogos da Fome"), a polaca Joanna Kulig ("Cold War - Guerra Fria") ou os franceses de ascendência argelina Tahar Rahim e Leïla Bekhti (ambos do elenco de "Um Profeta"), além de vários actores amadores. Se as interpretações são irrepreensíveis, o argumento nem sempre lhes faz justiça, embora "The Eddy" não só vá melhorando à medida que vai avançando como até tem alguns episódios muito conseguidos e envolventes, à medida que aprofunda as personagens - cada capítulo foca-se numa.

"Amira", centrado na viúva do músico desaparecido, "Slim", que acompanha o empregado do bar do clube, ou "Katarina", retrato da baterista da banda, equilibram um arranque a meio gás ou as demasiadas cenas de ensaios e actuações, ancoradas num jazz ameno, para não dizer insípido - música criada especificamente para a série por Glen Ballard (produtor e co-compositor de "Jagged Little Pill", de Alanis Morissette) e Randy Kerber, este também um dos actores secundários.

Mas mesmo sem canções memoráveis, "The Eddy" sai-se bem na plausibilidade que imprime a este microcosmos revelado a partir das sintonias e crispações dos elementos de uma banda e dos que lhes estão mais próximos, com uma amálgama cultural que, ao contrário de outras ficções recentes, não parece existir para cumprir quotas de representatividade e faz todo o sentido nestas ruas de uma Paris pouco glamorosa. Um caso em que dar o benefício da dúvida compensa.

3/5

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"TOP BOY" (T1), Netflix: A série britânica criada pelo irlandês Ronan Bennett (argumentista de "Inimigos Públicos", de Michael Mann) arrancou no início da década passada e teve duas temporadas no Channel 4, mas ficou praticamente esquecida até Drake se ter tornado não só um dos maiores fãs como também o grande impulsionador do regresso. O rapper tratou de se reunir com a Netflix e de propor uma nova temporada, assumindo o cargo de produtor executivo, e acabou por ser bem sucedido.

Resultado: a terceira época estreou no serviço de streaming no final de 2019 mas as anteriores também ficaram disponíveis, embora com um novo título, "Top Boy: Summerhouse", e por isso a mais recente é considerada a primeira de "Top Boy" no catálogo da plataforma. Confuso? Um bocado, mas vale a pena recuar a ver tudo desde o início.

Recuperando personagens e actores do drama protagonizado por dois traficantes de droga de um bairro londrino com uma grande comunidade negra, introduzindo em paralelo outras figuras e conflitos, os novos episódios beneficiam de valores de produção visivelmente mais elevados enquanto mantêm a crueza e o rasgo realista dos primeiros tempos, percorrendo subúrbios raramente vistos na ficção. Felizmente, não serão os últimos, uma vez que a segunda temporada (ou a quarta, se as duas de "Top Boy: Summerhouse" entrarem nestas contas), já está assegurada e deverá chegar ainda este ano.

Até lá, há tempo de (re)descobrir um olhar sobre realidades marginalizadas e desfavorecidas capaz de englobar conflitos sociais e culturais ou o fenómeno da gentrificação sem simplismos sociológicos. E a ligação à música, e ao hip-hop em particular, não se faz só através de Drake: os rappers Asher D e Kano encarnam os protagonistas, Little Simz, Dave ou Blakie têm papéis secundários igualmente carismáticos e todos contribuem para a sensação de autenticidade de "Top Boy", que nem um desenlace com algumas conveniências de argumento atraiçoa.

3,5/5

Um aquecimento para festas de pijama (ou de quimono?)

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Com regresso aos discos marcado para 4 de Setembro, data da edição de "L’Ère du Verseau", os YELLE abriram caminho para o quarto álbum em tom de balada, através de "Je t'aime encore", mas é no segundo single de avanço que recuperam a sua faceta mais entusiasmante.

Dançável, acelerada e repetitiva, "KARATÉ" mostra a dupla francesa a apostar no contraste de ritmos e de jogos de palavras iniciado nos dias do registo de estreia, "Pop Up" (2007), e mantido em "Safari Disco Club" (2011), "Complètement fou" (2014) e no EP "BOPS" (2018). A arrancar com balanço house, a canção aproxima-se da synth-pop mais para o final sem perder o embalo e conta com sugestão de coregrafia no videoclip, protagonizado pelo bailarino Joris Wolfy Gangzi em modo karateca frenético. Aquecimento mais do que conseguido para um disco a juntar à lista de espera da rentrée:

A bordo de um thriller confinado

Joseph Gordon-Levitt é o copiloto da viagem de "7500", que convida o espectador para uma experiência tensa num avião ameaçado por terroristas. O arranque acaba por ser mais conseguido do que a aterragem, mas o actor e o realizador Patrick Vollrath não deixam de levar o filme a bom (aero)porto.

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"7500" é a antítese de blockbusters como "Non-Stop" (2014) e aventuras aéreas comparáveis onde Liam Neeson ou outro herói hollywoodesco salvam o dia, depois de tornarem o interior de um avião num campo de batalha. E a primeira longa-metragem do alemão Patrick Vollrath, até aqui realizador de várias curtas, nem precisa de ser uma pedrada no charco para se afastar desse modelo de thriller espalhafatoso, optando por um formato escorreito que alia sobriedade, nervo e inteligência, mesmo que o terceiro acto pudesse atingir outros voos (já lá vamos).

Uma das particularidades desta experiência a bordo é a de decorrer quase sempre na cabine do piloto, e durante boa parte da duração em tempo real, sem que essas limitações auto-impostas sejam um entrave. Pelo contrário, revelam um exemplo conseguido e engenhoso da máxima "menos é mais", numa aposta que lembra a lógica próxima da série-B dos também interessantes "Enterrado" (2010) ou "Locke" (2013), circunscritos ao espaço de um caixão e de um automóvel, respectivamente.

Partindo da decolagem de um A320, saído de Berlim rumo a Paris, "7500" resulta de uma aliança feliz entre um realizador com um sentido apurado de economia narrativa e um actor à altura da confiança que lhe é depositada.

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Assumindo o papel protagonista e estando presente na esmagadora maioria das cenas, Joseph Gordon-Levitt evita um exibicionismo eventualmente tentador e entrega-se a uma contenção decisiva para que esta viagem seja verosímil. É uma pena que não o tenhamos visto muito nos últimos anos, uma vez que se tem revelado um dos actores norte-americanos mais confiáveis da sua geração graças a desempenhos como o deste copiloto do qual o espectador facilmente se torna cúmplice (sem que o argumento force a nota).

Já Vollrath trata de garantir que o protagonista não tenha de carregar o filme às costas. Entre a utilização oportuna da câmara à mão, a assegurar um sentido de espaço invulgar numa primeira longa, ou a recusa de sublinhar este exercício de suspense com música, optando por um trabalho de som que reforça a sensação de confinamento com grande eficácia (ouçam-se as tentativas de arrombamento da porta da cabine), o realizador vai vincando sinais de personalidade que também passam pelo recurso à semi-improvisação ou pela forma como se serve uma televisão a preto e branco do cockpit como única janela para o interior do avião.

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Ao deixar a personagem de Gordon-Levitt tão descoordenada como o espectador quanto à situação dos passageiros e da tripulação, o argumento leva mais longe uma premissa mais inquietante do que surpreendente, ainda que bem aproveitada. Mas se é difícil não estar com protagonista empático, com tanto de vulnerável como de resiliente, também há que reconhecer que os antagonistas são o elemento menos conseguido de "7500". Quando não faltam críticas a estereótipos de muçulmanos em muita ficção, este é mais um caso a colocá-los na pele de terroristas, e sem mergulhar a fundo nas suas motivações.

É verdade que uma outra personagem ajuda a contrariar esse maniqueísmo ou que, mais para o final, Vollrath vai tentando mostrar mais dimensões de um dos sequestradores, embora esse esforço não se mostre tão convincente como o tom meticuloso da primeira metade do filme. Em todo o caso, quem não exigir uma viagem sempre em primeira classe não dará o tempo por perdido, sobretudo face a muita concorrência de low cost duvidosa. E não se podia pedir mais ao copiloto...

3/5

"7500" está disponível em streaming na Amazon Prime Video.

Anos 90 bem dançados (e estudados)

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Editado há poucas semanas sem pré-aviso, "Love + Light" veio reforçar um ano particularmente agitado para DANIEL AVERY, que já tinha lançado nos últimos meses "Illusion of Time", disco feito a meias com Alessandro Cortini, e "Meeting Of The Minds", EP de um novo projecto, Noun, que formou com Roman Flügel - colaborações que se juntaram à parceira com Richard Fearless (dos Death In Vegas) nos PSSU.

Às primeiras audições, o terceiro álbum a solo, sucessor de "Song for Alpha" (2018), não parece ter a coesão nem a capacidade de surpreender do registo que fez do produtor e DJ britânico um nome a seguir - o já distante "Drone Logic", de 2013, graças a faixas como "All I Need". Mas mesmo assim, entre um alinhamento que doseia momentos expansivos e mais contidos, "Love + Light" ainda vai deixando alguns temas ao nível da estreia, sobretudo os que apontam às pistas.

É o caso de "DUSTING FOR SMOKE", proposta de alma raver que passa pelo techno, house ou domínios ambient e volta a comprovar que a escola da música de dança britânica da década de 90 foi especialmente influente para este percurso. Tanto que o resultado não destoaria num armazém repleto, a altas horas da madrugada, entre clássicos dos primeiros tempos dos Orbital, Fluke ou Aphex Twin - muitos anos antes de uma celebração dessas proporções ser comprometida por uma pandemia. Em 2020, terá de ficar como sugestão de dança caseira, mas também não vai nada mal nesse departamento - pelo menos em horários mais controlados: