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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O sabor da maçã

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BLANCK MASS arrancou como projecto paralelo a solo de Benjamin John Power, metade dos Fuck Buttons, em 2011, mas nos últimos anos tem-se mostrado mais prolífico do que a discografia da banda matriz (cujo disco mais recente é o distante "Slow Focus", de 2013).

 

"Animated Violence Mild", o quarto álbum do britânico, está prestes a chegar, já a 16 de Agosto, e os avanços iniciais não traíram a fasquia que esta aventura lateral (mas cada vez mais central) tem imposto. E se "House Vs. House" e "No Dice" prometiam, "LOVE IS A PARASITE" é bem capaz de ser a melhor amostra do disco até agora, num novo acesso distorcido que volta a ir além dos seis minutos de duração sem perder o rasgo - e mantém o desvario entre o electrónico, o industrial e o noise no qual o seu autor se tem especializado como poucos.

 

A acompanhar, o videoclip de Craig Maurray (que já colaborou com os Mogwai ou Converge) surge como paródia gore à sociedade de consumo, um dos pontos de partida do álbum, enquanto deixa uma homenagem aos primeiros dias da filmografia de David Cronenberg, influência decisiva para este universo - e já evidente num vídeo como o de "Dead Format".

 

Não admira, por isso, que a estética recue até inícios dos anos 80, com uma fronteira ténue entre o humor e o terror, à medida que o saborear de uma maçã se vai revelando problemático. Power diz que as imagens estão à altura da junção de grotesco e belo da sua música, mas fica o aviso de que a primeira vertente sai à ganhar à segunda, e com alguma vantagem. Nada contra:

 

 

Os demónios de néon

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Para celebrar a sua primeira digressão norte-americana, que arranca no final do mês, as KAELAN MIKLA apostam na divulgação de mais um tema do seu segundo álbum, "Nótt eftir nótt" (editado no final do ano passado), e num videoclip que revela parte do que esperar, uma vez que tem o palco como cenário.

 

Depois de "Draumadís" ou da faixa-título do disco, as islandesas escolheram outro ponto alto do alinhamento, "HVERNIG KEMST ÉG UPP?", mais um exemplo de ambientes góticos que lembram a urgência de algumas fases dos Crystal Castles ou Fever Ray mas nem por isso perdem em personalidade. E ao vivo a experiência parece ser ainda mais intensa, ou não tivesse já convencido gente como Robert Smith, que convidou o trio para primeiras partes de concertos dos Cure e para o cartaz do Meltdown Festival, em Londres, do qual foi curador.

 

Com parte da Europa já percorrida e os EUA a juntarem-se ao roteiro, calhava bem que Portugal também pudesse fazer parte desta agenda em breve. Um vídeo como este reforça o apetite, ao lançar um feitiço do qual não queremos sair tão cedo:

 

 

A coisa esteve preta, a coisa esteve boa

Um dos artesãos da palavra mais promissores da nova música brasileira trouxe o seu "verso livre" a Portugal. Na passagem pelo Festival Músicas do Mundo, RINCON SAPIÊNCIA deixou Sines entregue às suas crónicas e ritmos a altas horas da madrugada.

 

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Foto: FMM

 

"Se eu te falar que a coisa tá preta/ A coisa tá boa, pode acreditar", entoou RINCON SAPIÊNCIA no arranque do concerto junto à Praia de Sines, na passada sexta-feira, numa das suas passagens por palcos nacionais nos últimos dias (também subiu ao do Musicbox, em Lisboa, e ao do coreto de Santa Maria de Lamas, em Santa Maria da Feira).

 

Recebido por uma multidão entusiasta já depois das 3 da manhã, o MC tem sido apontado como um dos nomes em ascensão do hip-hop brasileiro, embora esteja longe de se limitar a esse género quando as suas canções são um testemunho da diversidade da música negra. É o próprio que o assinala, aliás, em "Mete Dança (Verso Livre)", numa declaração de intenções sem meias palavras: "Música, minha companhia/ Muito amor pela boémia/ Fodo com o rap, o funk, o pagodão/ Vivo na poligamia".

 

A uma obra que começou a ganhar corpo em 2011 podem ainda juntar-se samba, acessos rock, ritmos africanos, R&B ou trap, condimentos de um álbum de estreia elogiado ("Galanga Livre", de 2017) e que deverá ter sucessor este ano. A música é festiva, nascida de "batida, rima, DJ e um bom flow/ quatro integrantes clássicos, que nem os Beatles", como o rapper, compositor e produtor paulista enumera em "Linhas de Soco", um dos seus primeiros temas. Mas também é música socialmente consciente: "A batida é um soco, rap, a voz da plebe (...) Microfone é que nem o coelho na mão da Mônica".

 

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Desta conjugação nascem temas tão assertivos como lúdicos, que têm revelado um contador de histórias com um sentido de observação apreciável. Como outros, RINCON SAPIÊNCIA não se esquiva a apontar o dedo às clivagens sociais, racismo, insegurança ou sexismo, mas evita o recital de vitimização sisuda que acaba por dominar algum hip-hop activista (inclusive por cá). Aqui o humor também é uma arma e instrumento essencial de alguém que se deixou seduzir pela música urbana graças às possibilidades que abre aos jogos de palavras. "Essa é a parte que eu gosto mais: fazer um rap, umas rimas, uma levada", confidencia no final de "Linhas de Soco".

 

Comparado aos conterrâneos Criolo e Emicida, com os quais já colaborou, o MC também não anda longe da fluidez de alguns retratos quotidianos de Carlão ou de uma linguagem híbrida que chega a lembrar os Throes + The Shine mais recentes (sobretudo quando mergulha na exploração electrónica). Já Michael Jackson, Marvin Gaye ou Jorge Ben despertaram-lhe a curiosidade musical nos tempos da adolescência, antes de fazer parte de grupos como Ébanos, Plano B ou Equilíbrio Insano.

 

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Hoje, o rapaz que distribuía panfletos num bairro social de São Paulo tem a sua própria editora, MGoma, e uma banda que acompanha a sua entrega ao vivo. Uma percussionista, um guitarrista e um DJ partilharam o palco de Sines, por onde desfilaram temas do disco de estreia e canções reveladas nos últimos meses.

 

Depois "A Coisa Tá Preta", a vincar um início celebratório, a noite passou por portentos como "Afro Rep", um dos maiores hinos de "Galanga Livre" ("Quando dizem que é mimimi/ É assim que nascem os meus inimi") ou "Ponta de Lança (Verso Livre)", cuja viagem foi além de África para se envolver em música de dança baleárica na recta final (e incluiu Wesley Snipes, Lupita Nyong’o ou o Django de Tarantino no namedrop que foi deixando pelo caminho).

 

 

"Que delícia", atirou o brasileiro mais de uma vez, confessando-se surpreendido com a adesão generalizada a altas horas mas sem se alongar no discurso. Deixou-o antes para as canções, num espectáculo praticamente sem pausas, servido por um rapper com um flow seguro e instrumentais versáteis q.b.. Apesar de já tardia, foi uma hora que passou a correr. Mas que também poderia ter sido mais galvanizante se tivesse encontrado espaço para um encore ou para canções como "Moça Namoradeira" - uma das mais fortes deste catálogo e com potencial para aumentar ao vivo o estrondo que deixa no disco.

 

Uma limitação compreensível, tendo em conta que o concerto arrancou com quase uma hora de atraso porque o anterior, noutro palco do festival, se alongou. Para muitos dos que lá estiveram, terá servido de pretexto convidativo para (re)descobrir "Galanga Livre" (que pode ser ouvido acima e está disponível para download gratuito aqui) e retratos tão eloquentes como o de "A Volta pra Casa" ("Ela caminha, semblante preocupado/ Escuridão, o bar da rua se encontra fechado/ Quanto vale uma vida? Pensa no seu pivete/ Na bolsa tem a Bíblia, também tem canivete") ou "Ostentação da Pobreza" ("Criança não 'trabaia', criança dá 'trabaio'/ Maioridade penal eles querem a redução, caraio!"). E não será tempo perdido: a rima de RINCON SAPIÊNCIA tá boa, pode acreditar.

 

 

Este "black mirror" não desilude

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Ao anunciar o lançamento do próximo álbum, "ALL MIRRORS", para 4 de Outubro, ANGEL OLSEN aumenta a curiosidade ao estrear uma canção que eclipsa praticamente todo o alinhamento do antecessor, o algo tépido (mas tão sobrevalorizado) "MY WOMAN", de 2016.

 

A faixa-homónima e single de apresentação do quarto disco propõe uma viragem sonora que troca o rock indie e a folk pelos sintetizadores, aos quais se juntam orquestrações que reforçam uma grandiosidade a milhas das origens lo-fi da norte-americana. E se é verdade que o resultado não anda longe das atmosferas de muitas descendentes de Kate Bush surgidas nos últimos anos (e da faceta electrónica de Susanne Sundfør em particular), deixa um belo ponto de partida para um álbum inspirado pelo lado sombrio, por uma capacidade renovada de amar e pelos desafios da mudança - além de marcar o reencontro com John Congeleton, produtor de "Burn Your Fire For No Witness" (2014), o registo mais recomendável da cantautora até agora.

 

O videoclip, assinado por outro colaborador habitual, Ashley Connor, aprimora a carga onírica e cinematográfica da canção, que talvez também vá dominar os concertos anunciados para Portugal em 2020: a 23 de janeiro no Capitólio, em Lisboa, e a 24 no Hard Club, no Porto. Para já, vale a pena ir contemplando (e escutando) estes espelhos:

 

 

Um lugar ao sol (mesmo que seja pela noite dentro)

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Foto: FMM

 

Foram uma das boas surpresas da edição mais recente do Festival Músicas do Mundo e também dos maiores responsáveis pela festa que se instalou no Castelo de Sines no sábado passado, o último dia do evento.

 

Radicados em Nova Iorque mas com uma formação que inclui elementos de várias origens, os UNDERGROUND SYSTEM deram uma lição de ritmo e versatilidade pela noite dentro, numa viagem que teve o afrobeat como mote mas que foi capaz de se estender a outras paragens sem grande esforço.

 

A destacar-se como mestre de cerimónias de uma banda coesa, a afro-italiana Domenica Fossati terá sido das frontwomen mais magnéticas do festival, entregando-se à flauta, canto e dança com a mesma desenvoltura e a comandar uma actuação bamboleante. Ao terminar com uma (conseguida) versão de "Blue Monday", dos New Order, o colectivo deu conta da postura aglutinadora que orienta a sua música e que o álbum de estreia, "What Are You", já tinha exposto no ano passado.

 

 

"JUST A PLACE", o novo single, também recorda os inícios de uns certos anos 80 ao mergulhar no lado mais febril da new wave, com descendência directa de uns Tom Tom Club e de alguns caminhos percorridos pelos Blondie (ou ainda dos primeiros dias das Luscious Jackson ou dos New Young Pony Club). Sobretudo nos minutos iniciais, com o baixo e palmas a marcarem o ritmo, lado a lado com as palavras de ordem de Domenica, antes de os sopros entrarem em cena num combo disco/funk. O jogo de memórias também acaba por dominar o videoclip, sem deixar de acompanhar uma banda pronta a fazer uma festa (e a ganhar outros contornos nas muitas remisturas do tema editadas há poucos dias):