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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Da fábula para adultos aos corredores de um hospital

A FESTA DO CINEMA FRANCÊS está bem e recomenda-se. Ou pelo menos foi essa a impressão que ficou com dois dos primeiros filmes exibidos na 20.ª edição, a decorrer no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.

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"BRANCA COMO NEVE", de Anne Fontaine: Numa altura em que a Disney insiste em rapar o tacho com a enésima versão em imagem "real" das suas adaptações de clássicos infantis, esta revisão para adultos da história da Branca de Neve é um antídoto a ingerir sem contra-indicações. Afinal, quem precisa de derivados na linha de "Maléfica" quando tem Isabelle Huppert como sucessora espiritual da Rainha Má, aqui consumida pelo ciúme face à capacidade de sedução da sua enteada?

Em vez de sete anões, a protagonista, encarnada com desenvoltura por Lou de Laâge, cruza-se com sete homens que não demoram a ceder aos seus encantos, caracterizados com doses variáveis de insegurança, vulnerabilidade e neurose. Os encontros sucessivos dão à narrativa um registo demasiado episódico e a realizadora demora algum tempo a acertar o tom, que vai do realismo ao thriller, do burlesco ao onírico, e com muitas insinuações eróticas. Mas a viagem física e emocional desta "princesa" que não precisa de ser salva vai-se tornando mais convidativa à medida que vai avançando, num relato de emancipação feminina e descoberta da sexualidade avesso a puritanismos e capaz de atrevimentos arriscados (mas muito franceses, dirão alguns) na era #MeToo e Time's Up.

Além de ser divertido ver Huppert a fazer o número maléfico com uma perna às costas, consecutivamente frustrada enquanto tenta despachar a protagonista, os secundários (Vincent Macaigne, Benoît Poelvoorde, Damien Bonnard...) são outro trunfo, e o filme consegue dar tempo e especificidade a cada relação deles com a heroína. Fontaine também se sai bem a desenhar uma atmosfera entre o reluzente e o nebuloso, sem precisar de um catálogo de CGI pronto a impressionar, mesmo que esta fábula adulta e deliciosamente adulterada não tenha a força emocional dos antecessores "Agnus Dei - As Inocentes" (2016) e "Marvin" (2017). Mas quem decidir aceitar os contornos peculiares da proposta não deverá dar o tempo por perdido.

3/5

 

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"VERDADE E CONSEQUÊNCIA", de Thomas Lilti: Ora aqui está um belo exemplo de cinema do meio, que não tendo grandes pretensões autorais é capaz de se dirigir ao grande público com sensibilidade e inteligência. Essa tem sido, aliás, uma característica habitualmente louvada na obra de um realizador que também é médico, conjugação com reflexo na temática dos seus filmes. Em França, foram acolhidos por milhares de espectadores enquanto vão acumulando aplauso crítico, embora fora de portas a recepção tenha ficado aquém desse fenómeno.

"Médico de Província" (2016) estreou em Portugal há uns anos sem grande alarido, mas a caminho estão o recente "Os Caloiros da Medicina" (2018) e o mais distante "Verdade e Consequência" (2014), ambos apresentados em ante-estreia nacional na Festa do Cinema Francês. Este último foi, aliás, a segunda longa-metragem e a grande rampa de lançamento para Lilti, enquanto avançou um olhar personalizado (e inspirado em algumas experiências do realizador) sobre o universo da medicina.

Os primeiros dias de um interno num hospital de Paris, à partida semelhantes às peripécias de tantos dramas médicos (sobretudo televisivos), são o mote para a radiografia minuciosa do quotidiano de uma equipa de profissionais de saúde, feita com um cruzamento de realismo e humanismo pouco habitual. E este retrato dos bastidores torna-se especialmente forte ao acompanhar os danos colaterais de dois casos de negligência, com a aventura iniciática do protagonista (Vincent Lacoste) e a sua cumplicidade com um colega mais velho (Reda Kateb) a abrir portas para o foco num sistema em crise.

Apesar de se tornar algo panfletário mais para o final e de resolver tensões de forma um tanto conveniente, "VERDADE E CONSEQUÊNCIA" mantém intacto e credível o seu estudo de personagens, auxiliado por um elenco sem mácula, dos protagonistas ao secundário mais discreto - todos pessoas com qualidades e falhas de carácter,  mesmo que Lilti não seja tão simpático com os que ocupam os lugares mais altos da hierarquia. E antes de apontar o dedo ao desleixo estatal pela Saúde (infelizmente, não exclusivo da realidade francesa), arrisca-se a deixar o espectador com o coração nas mãos em duas ou três sequências dramáticas filmadas com uma justeza emocional invulgar - que talvez ajudem a explicar porque é que esta história acabou por ter continuidade numa série televisiva. 

3/5

Uma canção para dizer adeus ao Verão

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Prestes a terminar a digressão centrada em "Overcome" (2018), o seu segundo álbum, os KEEP RAZORS SHARP revelaram um tema que acabou por não chegar a entrar no alinhamento do disco, mas que nem por isso ficou esquecido.

Experiência que se distingiu das outras canções mais recentes (como "Always and Foverer" ou "Overcome"), "SUMMER NIGHTS" marcou a primeira colaboração entre a banda de Afonso (Sean Riley & The Slowriders), Rai (The Poppers), Bráulio (ex-Capitão Fantasma) e Bibi (Pernas de Alicate) e outro artista. Mas espera-se que não seja a última, já que a voz de Teresa Castro (Calcutá) dá-se especialmente bem com um clima de melancolia indie rock tão familiar como intemporal, entre ecos de noites de verões intermináveis e amores adolescentes de memória já esbatida.

O novo single deverá ser um dos que farão parte do próximo concerto do quarteto, na EA LIVE, no Campo Pequeno, em Lisboa, já a 12 de Outubro, evento partilhado com Gabriel O Pensador, The Gift ou PAUS, entre outros. O videoclip, realizado por Joana Linda e protagonizado pela actriz Mia Tomé, acentua o travo nostálgico da canção em modo road trip sépia e veraneante:

Mika e o desejo

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"Everybody's gonna love today", cantava MIKA num dos singles mais populares do seu álbum de estreia, "Life In Cartoon Motion" (2007). No mais recente, mantém-se fiel a esse princípio, ao celebrar um amor idílico numa canção aparentemente optimista.

É curioso, por isso, que o videoclip de "SANREMO" subverta o lado reluzente da melodia e da letra ao situar a acção na Itália dos anos 50, com um retrato de inquietação amorosa e sexual vivivo pelo próprio cantor - na pele de um homem casado e intrigado pelos recantos LGBTQ+ da cidade que dá título ao tema, numa época na qual a homossexualidade era mais estigmatizada.

"Esta canção é sobre desejo, mesmo que às vezes inacessível. Este filme é a espaços uma realidade, em parte um sonho e também um pesadelo. Mas contém beleza, mesmo que não convencional, e desejo no seu centro", assinala o britânico ao apresentar "SANREMO" nas redes sociais, acrescentando que se inspirou nas suas férias em Itália durante a infância e adolescência.

O realizador, W.I.Z., descreve o resultado como um hino ao sentimento de pertença e ao sonho de libertação e transcendência, acompanhando o cantor num ambiente sinuoso e noir, onde não faltam hommes fatales num submundo fotografado a preto e branco. Um contraste refrescante com os tons habitualmente garridos de MIKA, como os de "Ice Cream" e "Tiny Love", os singles anteriores do recém-editado "My Name Is Michael Holbrook". A nível sonoro, a mudança também é bem-vinda, ao deixar os pastiches Queen enquanto se aproxima de George Michael ou Jake Shears:

Ecos da pop electrónica de 2009

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Ao lado dos La Roux ou de Marina and the Diamonds, LITTLE BOOTS foi uma das vozes femininas que despertaram atenções há dez anos, ao propor novas pistas para uma pop electrónica imediata e cintilante.

"Hands" (2009), estreia promissora para o projecto de Victoria Hesketh, contou com gente como Joe Goddard (dos Hot Chip), Jas Shaw (dos Simian Mobile Disco) ou Greg Kurstin na produção e teve direito a Philip Oakey (dos Human League) como convidado em "Symmetry", um dos pontos altos de um alinhamento quase sempre enérgico e sedutor, algures entre os universos de Annie, Kylie Minogue ou Girls Aloud.

Dez anos depois, o álbum foi agora reeditado, com uma dose generosa (e apetitosa) de lados B, raridades e remisturas. Entre os extras consta "ECHOES", canção que esteve para ser a sucessora de singles como "Stuck On Repeat" ou "New In Town" mas acabou descartada - apesar da presença habitual nos palcos.

Resultado de uma parceira com RedOne, que já tinha colaborado em "Remedy", o tema é, à semelhança desse, o que mais lembra a produção da fase inicial de Lady Gaga. O que não será de estranhar, tendo em conta que o produtor marroquino-sueco também participou em boa parte de "The Fame". Ainda assim, não teria destoado em "Hands", tal como outras canções que têm uma segunda oportunidade de (re)descoberta na reedição. O vídeo junta imagens da digressão do lançamento do álbum numa altura em que LITTLE BOOTS se prepara para o voltar a levar a palcos norte-americanos e britânicos em Novembro:

Vive la fête!

Mantendo-se em Lisboa até 13 de Outubro antes de ir passando por outras cidades, a FESTA DO CINEMA FRANCÊS chegou este ano à 20.ª edição. Na capital, o Cinema São Jorge e a Cinemateca acolhem novidades e retrospectivas nos próximos dias. Por onde começar? Ficam cinco sugestões.

 

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Retrospectivas de Agnès Varda (que morreu em Março) e de Jean Louis Trintignant (um dos convidados desta edição), uma secção dedicada a obras seleccionadas pelo Festival de Cannes (que inclui "Indianara", exibido há poucos dias no Queer Lisboa), filmes de animação e uma masterclass de Thomas Tilti (realizador de "Médico de Provícia" e "Hippocrate - Verdade e Consequência") estão entre as apostas da iniciativa que, até 8 de Novembro, também vai chegar a salas de Almada, Setúbal, Coimbra, Porto, Portimão, Leiria e Beja. 

 

Entre novidades, incluindo antestreias, e revisitações de clássicos ou de títulos esquecidos, o percurso pode começar, por exemplo, por uma destas cinco sugestões (algumas escolhas seguras, outras das mais intrigantes da programação):

 

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"A TURMA", de Laurent Cantet: Um dos melhores filmes da secção 20 Anos de Festa continua a ser também o mais recomendável do autor de "O Emprego do Tempo" (2001) ou do recente "O Workshop" (2017). Vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2008, este olhar sobre o quotidiano de um liceu de um bairro problemático parisiense, a partir das experiências verídicas do professor François Bégaudeau (que encarna o protagonista), é uma obra a (re)descobrir, até porque o conflito cultural e geracional que a orienta está hoje tão ou mais presente em escolas como a que serve de palco à acção. O efeito realista da realização e de um elenco de jovens actores não-profissionais também não deve ter perdido o impacto.

 

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"BRANCA COMO NEVE", de Anne Fontaine: Depois de dois filmes especialmente inspirados, "Agnus Dei - As Inocentes" (2016) e sobretudo "Marvin" (2017), a autora de "Coco Avant Chanel" (2009) está de volta num registo aparentemente mais lúdico e cómico, ao propor uma versão muito livre da história da Branca de Neve. O ponto de partida é a relação tensa entre uma rapariga muito disputada e a sua madrasta, que vai ter consequências no dia-a-dia da pequena localidade onde vivem. A dupla de actrizes principais alimenta a curiosidade: Lou de Laâge (de "Agnus Dei - As Inocentes") interpreta a protagonista, Isabelle Huppert dá corpo à "descendente" da Bruxa Má. Anne Fontaine vai estar presente na sessão.

 

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"FUNAN", de Denis Do: Apesar de integrarem a secção Para os Mais Jovens, os filmes de animação desta edição merecem um público dos 7 aos 77 (pelo menos) e são das novidades mais promissoras. Além de "Le voyage du prince", de Jean-François Laguionie, ou de "Les hirondelles de Kaboul", de Eléa Gobbé-Mévellec e Zabou Breitman, um dos destaques é esta estreia na realização que conquistou o prémio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Animação de Annecy em 2018. História de uma família separada durante a revolução dos Khmer Vermelhos no Camboja, nos anos 70, acompanha uma jovem mãe que procura o filho, levado pelas forças do regime.

 

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"MAYA", de Mia Hansen-Løve: Depois de ter ficado em cativeiro na Síria durante quatro meses, um jornalista de guerra volta a Goa, onde passou a infância, para visitar a mãe. E acaba por conhecer uma jovem indiana, mote para o mais recente estudo de personagens da autora de dramas contidos como "Um Amor de Juventude" (2011) ou "O Que Está Por Vir" (2016). Desta vez, o trauma (depois da tortura) e a tentativa de recomeço do protagonista moldam o início de um relacionamento que vai influenciando e reajustando as visões do mundo dos protagonistas.

 

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"MUSTANG", de Deniz Gamze Ergüven: Candidata francesa ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2016, esta estreia na realização é uma ode à resiliência defendida com graça e garra por um quinteto de jovens actrizes. Integrada na secção 20 Anos de Festa, acompanha cinco irmãs adolescentes do interior da Turquia privadas de qualquer contacto com exterior, depois de terem sido obrigadas a viver em casa do tio e da avó. Da repressão à revolta, este drama comparado a "As Virgens Suicidas", de Sofia Coppola, estabelece o seu próprio espaço e é um retrato da entrada na idade adulta (à força) que não merece ficar esquecido.