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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma banda que vai além do resumo da matéria dada

Nova Materia

 

Caroline Chaspoul e Eduardo Henriquez não são propriamente novatos em aventuras musicais. Desde meados da década de 90, a francesa e o chileno fizeram parte dos Panico, uma das principais bandas de rock alternativo do Chile, antes de iniciarem um segundo capítulo como NOVA MATERIA.

 

O duo radicado em Paris tem dito, aliás, que os Panico eram uma banda tipicamente do século XX e o projecto mais recente tem uma linguagem adaptada ao século XXI, ao diluir géneros e referências numa música que respira outra liberdade. Em vez das guitarras e das influências pós-punk que dominaram o grupo anterior, as canções dos NOVA MATERIA são mais insistentemente percussivas e mais difíceis de catalogar, como atestará quem ouvir o álbum de estreia, "It Comes", editado no final de Setembro e sucessor de dois EP.

 

It Comes

 

Aposta da Crammed Discs, a dupla tem entre os colegas de editora nomes como Matias Aguayo, Konono N°1, Juana Molina, Yasmine Hamdan ou Acid Arab, todos conhecidos por conciliarem tradição e modernidade, com ferramentas electrónicas entre as principais aliadas. "It Comes" dá seguimento à tendência em canções que tanto juntam traços tribais de alguma música sul-americana ("Procession", "Amuleto") como se deixam contagiar pela EBM (com tempero latino, na infecciosa "Nov Power), pelo electro ("On/Av", próximo dos momentos mais agrestes de uns Vive la Fête) ou pelo dance punk ("Speak in Tongues", a lembrar The Juan MacLean e outras revelações da DFA Records).

 

A viagem vai de um transe hipnótico, a caminho do místico, e o desvario rítmico sincopado, facetas que também marcaram o concerto de estreia da dupla em Portugal, na passada quinta-feira, no Musicbox Lisboa. E se foi uma noite infelizmente muito pouco concorrida, numa sala quase vazia, Chaspoul e Henriquez mostraram merecer mais público e atenção por cá - como têm tido, de resto, noutros palcos.

 

Nova Materia Musicbox

 

À semelhança do disco, encarregaram-se ambos dos instrumentos e das vozes, com uma profusão de idiomas a incluir castelhano, francês, inglês e até japonês - na sorumbática mas envolvente "Kora Kora", que no álbum tem Narumi Hérisson, dos Tristesse Contemporaine, como cantora convidada. A diversidade instrumental foi ainda maior ao juntar recursos sintéticos e orgânicos, combinação suficientemente determinante para inspirar o nome da banda. As barras de metal, pedras e madeira, reveladoras da postura experimental desta música, ficaram quase sempre a cargo da francesa enquanto o chileno se ocupou dos bombos e programações.

 

Mais intensas e dançáveis do que no álbum, em palco as canções reforçaram as pontes com territórios do krautrock ou do industrial já sugeridas no disco (este de arestas mais polidas através da produção da francesa Chlóe) e provaram que está aqui uma banda capaz de encontrar um espaço próprio dentro da indietronica dos últimos anos. Matéria nova, de facto, além de tão consistente como desafiante. E a descobrir nos vídeos abaixo: o videoclip do novo single, "Follow You All the Way", realizado pela portuguesa Catarina Limão e gravado em Sintra (embora até seja das canções mais convencionais do disco); o do mais frenético "On/Av" e o excerto de uma actuação com "Nov Power" (que não anda longe da que se viu em Lisboa).

 

 

 

O romance morreu, viva o romance!

Ex Re

 

"Romance is dead and done", garante Elena Tonra na primeira canção do seu projecto a solo EX:RE, depois de ter dado voz aos Daughter desde inícios da década. Com o grupo a passar por um hiato (embora com regresso assegurado), a britânica aproveita para editar o seu álbum de estreia em nome próprio, do qual "ROMANCE" é a faixa homónima.

 

Como o título e a citação acima insinuam, o disco partiu do final de um relacionamento amoroso. Mas ao contrário de outros álbuns assentes nessa temática, a cantautora está pouco interessada em esmiuçar a relação, optando por relatar como lidou com um dia a dia mais solitário desde a separação.

 

Canções (ou capítulos) como "Liar", "Too Sad", "I Can't Keep You" ou "5AM" não prometem uma crónica especialmente animadora, embora até se ouça mais candura do que azedume no primeiro single. "ROMANCE" também sugere que, apesar de se aventurar a solo, Elena Tonra está bem acompanhada pelo produtor Fabian Prynn e pela violoncelista Josephine Stephenson. As cordas, no entanto, são uma presença discreta nesta primeira amostra, cedendo o protagonismo a ondulações electrónicas, percussão e piano, num belo exemplo de pop confessional e catártica, mas ainda assim delicada - a meio caminho entre os universos dos Braids e de Bat For Lashes.

 

Uma história para continuar a acompanhar já a partir desta sexta-feira, data da edição do álbum, através da 4AD. E a prometer várias deambulações nocturnas, como a de um videoclip que aponta a pista de dança como refúgio:

 

As mecânicas da transgressão, 20 anos depois

Mechanical Animals

 

Duas décadas passadas sobre a edição e a controvérsia, a capa do terceiro álbum dos MARILYN MANSON dificilmente chocará alguém. Mas se esta música nunca foi tão transgressora como a imagem, as canções de "MECHANICAL ANIMALS" não perderam o apelo, naquele que ainda é o álbum mais fulgurante da banda.

 

É um homem? É uma mulher? É um alien? Dois anos após ter sido o anticristo mais popular do rock da década de 90, Brian Warner (cujo ater ego deu nome ao grupo) conseguiu não só reinventar-se como chocar ainda mais famílias, comunidades, imprensa e até mesmo fãs - muitos a alinhar de braços abertos no imaginário de subversão religiosa mas nem todos preparados para uma viragem tão desconcertante e (trans)sexualizada.

 

Editado em Setembro de 1998, "MECHANICAL ANIMALS", o terceiro álbum dos MARILYN MANSON, foi mais um portento capaz de alimentar mitos urbanos, desde logo a partir da imagem andrógina do vocalista. Não faltou até quem garantisse que a mudança era resultado de uma cirurgia plástica, um dos vários rumores (alguns bem macabros) que alimentaram o culto e cimentaram o estatuto de lenda viva de Warner.

 

Marilyn Manson 1998

 

Mas a operação cosmética teve, afinal, muito pouco de esotérico e foi antes resultado de uma estratégia desenhada ao pormenor para se disseminar num clima de tensão fim de milénio, assente num imaginário com tanto de futurista como de satírico - e apontado aos excessos e frivolidade da fama ou da alienação através do entretenimento desregrado. Foi, claro, uma visão de futuro com raízes no passado - e influências assumidas da escola de glam de David Bowie, T. Rex ou Queen -, embora com um update inegavelmente pessoal e muito do seu tempo.

 

Capítulo intermédio de uma trilogia que tinha arrancado com "Antichrist Superstar" (1996) e terminaria em "Holy Wood" (2000), "MECHANICAL ANIMALS" é facilmente o mais coeso e versátil dos três e também de toda a discografia do grupo. E a capacidade de transfiguração e captação de atenções de Warner nunca viria a ter uma fase tão apoteótica, com os álbuns seguintes a alternarem entre variações do que se viu e ouviu nos dos anos 90.

 

Se o afastamento de Trent Reznor da produção, depois de um papel essencial nos discos anteriores, foi muito falada na altura, a banda teve aqui o aconselhamento de Billy Corgan - também ele a optar pelo reforço electrónico no mesmo ano, com o muito diferente "Adore" - e chamou para a produção Michael Beinhorn, decisivo para uma sonoridade mais polida, orelhuda e, sim, pop - tendência que o produtor encorajou ainda em "Celebrity Skin", dos Hole, outro dos álbuns obrigatórios de 1998 e também com o mentor dos Smashing Pumpkins entre os cúmplices.

 

Mechanical Animals inlay

 

Os singles "The Dope Show" e sobretudo "I Don't Like the Drugs (But the Drugs Like Me)", acesso funk/gospel irresistível, mostraram uns MARILYN MANSON mais directos e imediatos do que nunca, prontos a propagarem-se por toda a geração MTV em vez de continuarem a insistir no nicho industrial/gótico. Brian Warner confessou-se entediado com essa agressividade fechada em si mesma e atirou-se de cabeça à excentricidade, teatralidade e exuberância, num alinhamento mais ambicioso do que os de discos anteriores.

 

O tom épico e pós-apocalíptico de "Great Big White World" dá o mote para um álbum onde cabe a desolação inesperada de "Disassociative" e "The Speed of Pain", a explosão em forma de hino de "Rock Is Dead", "Posthuman" e "New Model No. 15", a penumbra synthpop da excelente "The Last Day on Earth" ou a marcha fúnebre de "Coma White" (esta a provar que o videoclip foi das ferramentas-chave da fase inicial do grupo, partindo aqui da visão trágica de uma certa família norte-americana).

 

"User Friendly" aplicou o cinismo que percorre o disco aos relacionamentos ("I'm not in love, but I'm gonna fuck you 'til / somebody better comes along"), noutra conjugação aliciante de guitarras e sintetizadores, e "Fundamentally Loathsome" aprofundou o lado crooner de Brian Warner, num dos desvios mais contidos e surpreendentes.

 

Do conjunto, com uma lógica de álbum conceptual, sai a crónica rocambolesca de uma estrela rock alienígena, toxicodependente e sexualmente ambígua - qualquer semelhança com Ziggy Stardust não será pura coincidência - , que chega à Terra para se juntar à banda Mechanical Animals. Se o relato é quase sempre decadente, a polémica e popularidade geraram o último grande triunfo da história dos MARILYN MANSON - e um dos últimos grandes álbuns de rock dos anos 90, apesar de às vezes sufocado pelo ruído à sua volta.

 

 

 

Uma família japonesa, uma dupla de culto e o astronauta melancólico

Estreia da semana? "SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", o novo filme de Hirokazu Koreeda. Mas além do drama muito elogiado do realizador japonês, ficam também duas sugestões em cartaz há algum tempo: uma entre as apostas mais arriscadas da temporada, outra das mais aguardadas do ano.

 

Shoplifters

 

"SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", de Hirokazu Koreeda

 

Por um lado, o último filme de Hirokazu Koreeda não acrescenta nada de particularmente novo à sua obra, cuja fase mais recente (e mais popular) já conta com vários exemplos de dramas familiares (do emblemático "Ninguém Sabe" a "Tal Pai, Tal Filho"). Por outro, é bom ver aquele que será talvez o principal realizador japonês do momento regressar ao que sabe fazer melhor depois de "O Terceiro Assassinato", viragem para o thriller pouco entusiasmante que parecia encontrá-lo fora do seu ambiente (e que também chegou às salas nacionais este ano).

 

Sem se aventurar por rumos inesperados, "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões" volta a valer-se das qualidades associadas aos seus melhores filmes, com uma direcção de actores certeira (a imprimir uma espontaneidade invulgar) e um tom observacional que tanto acolhe o drama como a comédia, esquivando-se à manipulação e ao gag gratuito num relato do quotidiano familiar em ambiente tendencialmente caseiro.

 

Das cenas ancoradas nos pequenos roubos que inspiram o título à revelação (paciente) das ligações entre os protagonistas, Koreeda vai desenvolvendo um olhar sobre o amor e a cumplicidade que acaba por questionar as fronteiras que delimitam o conceito de família - às vezes de forma demasiado sublinhada, mas igualmente desarmante. E sabe como comover tanto nas sequências de partilha como nas de uma solidão retratada sempre com justeza e a serenidade possível, ainda que nem sempre agarre o ritmo narrativo com o mesmo equilíbrio - a recta final acaba por se mostrar algo arrastada, apesar de a última cena ser tão brilhante como implacável. A Palma de Ouro na mais recente edição do Festival de Cannes não foi mal entregue, portanto.

 

3,5/5

 

O Interminável

 

"O INTERMINÁVEL", de Aaron Moorhead e Justin Benson

 

O culto em torno de Aaron Moorhead e Justin Benson já começou há uns anos mas só agora chega a Portugal, uma vez que nem "Resolução Macabra" (2012) nem "Spring" (2014) tiveram direito a estreia comercial por cá - e as curtas metragens que o duo também assinou, muito menos.

 

Além de realizarem este híbrido de drama e ficção científica, os norte-americanos são protagonistas e produtores - Benson encarrega-se ainda o argumento - e essa dedicação é evidente num filme com uma aura particular de "labour of love", no qual os meios parcos não comprometem (aliás, até parecem encorajar) a profusão de ideias. E não faltam conceitos intrigantes nesta história de dois irmãos que escaparam de uma seita no interior dos EUA, durante a adolescência, e decidem regressar ao local já na idade adulta, procurando respostas que o espectador vai conhecendo em simultâneo.

 

Se a primeira metade do filme sugere traumas nascidos de possessões macabras ou invasões extraterrestres, a segunda encontra a dupla a afastar-se de lugares comuns rumo a territórios inclassificáveis q.b., numa das propostas mais arrojadas da temporada (tanto a nível narrativo como formal, com efeitos especiais lo-fi capazes de ofuscar muito CGI avultado). Só é pena que parte da tensão se esbata quando o argumento prefere ir dando mais espaço ao humor, nem sempre muito conseguido ou oportuno, diluindo a força de um exercício de suspense personalizado como poucos. Mas fica claro que Moorhead e Benson são nomes a ter debaixo de olho - e fica também a vontade de espreitar os filmes que estão para trás.

 

3/5

 

O Primeiro Homem na Lua

 

"O PRIMEIRO HOMEM NA LUA", de Damien Chazelle

 

Depois da garra de "Whiplash - Nos Limites" e da ligeireza de "La La Land: Melodia de Amor", Damien Chazelle parece confundir dolência (e alguma auto-indulgência) com maturidade no biopic de Neil Armstrong. Se é verdade que este retrato do primeiro astronauta a pisar a Lua é imune aos excessos glorificadores que contaminam tantos outros baseados em histórias verídicas e marcantes, essa contenção não chega para justificar as mais de duas horas que o jovem realizador norte-americano reclama para seguir os treinos e missão do seu protagonista.

 

Tecnicamente competente, e com uma atenção ao pormenor que agradará aos mais interessados por viagens espaciais, este não deixa de ser um drama de câmara tão ensimesmado como o desempenho de Ryan Gosling, num papel pouco desafiante e a encorajar mais um exemplo de underacting (ou apenas de um olhar pouco expressivo). No extremo oposto, Claire Foy tenta injectar algum rasgo à mulher do protagonista, uma das vozes mais críticas desta aventura histórica, mas a dinâmica do casal não foge muito à de outros onde o trabalho limita a relação. E como os restantes secundários ficam por explorar, o centro emocional do filme acaba por ser o luto de uma filha, para o qual Chazelle também não chega a ter uma perspectiva especialmente forte ou intrigante. Um grande passo para a humanidade, um biopic demasiado comedido...

 

2/5