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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Aqui há gato (envenenado)

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É um dos primeiros lançamentos de 2020 e chega já esta quinta-feira, 9 de Janeiro. "Faits-divers" marca finalmente a estreia em álbum dos DAISY MORTEM, dupla francesa que começou por se descrever como uma banda entre a Eurovisão e Apocalipse, embora a segunda vertente tenha sido bem mais acentuada nos últimos tempos.

"L'EMPOISONNEUR DE CHATS", uma das novas canções, é a prova mais recente, ao voltar a mergulhar na tragédia como inspiração para um petardo electro-punk, algures entre os Soft Cell mais decadentes, a fúria de uns Atari Teenage Riot e o frenesim dos Kap Bambino. "Uma canção sobre gatos mortos", assim a apresenta o duo de Bordéus, e o tema não destoa depois de singles como "L'accident est inévitable", "Arêtes" e dos EPs "Better!Better!Better!" (2016) e "La vie c'est mort" (2018).

Enquanto não é divulgada a versão de estúdio, pode ouvir-se a que ficou registada ao vivo há poucas semanas, num concerto em Berlim, no vídeo abaixo. Entretanto, este mês Cindy Bluray e Vampiro Maracas voltam a espalhar o caos por palcos franceses, belgas ou espanhóis, mas os portugueses também são território provável neste início de ano (até porque o grupo já actuou cá algumas vezes). Por agora, ficamos à espera do disco...

65 de 2019

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"Parasitas" no cinema, Boy Harsher nos discos, "Pico da Neblina" nas séries, Mashrou' Leila nos concertos. Estas estiveram, por aqui, entre as maiores surpresas de um ano que também valeu pelos regressos de Abdellatif Kechiche, Marco Bellocchio, Clint Eastwood ou Christophe Honoré ao grande ecrã enquanto "Watchmen" alargou os limites das aventuras de super-heróis (e do próprio storytelling de uma série, aliás) no pequeno, mesmo que no final tenha cedido à convenção.

Na música, Ladytron, Blanck Mass, TR/ST ou Bat for Lashes ajudaram a continuar a ter confiança no formato álbum, ainda que 2019, como muitos dos últimos anos, pareça ter sido mais forte em canções do que em discos. Ao vivo, manteve-se a sensação de que a grande quantidade de festivais nem sempre equivale a uma oferta assim tão diversificada - o que também explica que alguns dos melhores concertos da lista abaixo tenham decorrido fora de portas, com artistas que continuam sem passar por cá.

Talvez a aposta em nomes menos habituais esteja entre as resoluções de ano novo para uma ou duas promotoras... E, já agora, para três ou quatro exibidoras e distribuidoras de cinema, já que aí o panorama ainda é pior, com cada vez menos salas a acolher filmes que escapem ao rótulo de blockbuster. Nesse aspecto, é difícil não concordar com o diagnóstico de Martin Scorsese (polémica cinematográfica do ano?), por muito que "O Irlandês" não se possa queixar de falta de mediatismo (sobretudo face a outros títulos que estrearam directamente na Netflix, como "Atlantique").

Enquanto 2020 não traz novidades, fica aqui a sugestão de (re)descoberta de 65 propostas de 2019, dos ecrãs aos palcos, e com passagem cada vez mais obrigatória pelos serviços de streaming:

10 FILMES

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"Agradar, Amar e Correr Depressa", Christophe Honoré
"Brightburn - O Filho do Mal", David Yarovesky
"Correio de Droga", Clint Eastwood
"Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro", Abdellatif Kechiche
"Mirai", Mamoru Hosoda
"Mulher em Guerra", Kona fer i Strid
"Nunca Deixes de Olhar", Florian Henckel von Donnersmarck
"O Traidor", Marco Bellocchio
"Parasitas", Bong Joon-ho
"Toy Story 4", Josh Cooley

Fora de circuito: "And Then We Danced", Levan Akin; "Bangla", Phaim Bhuiyan; "Les hirondelles de Kaboul", Eléa Gobbé-Mévellec e Zabou Breitman; "Mario", Marcel Gisler; "Wardi", Mats Grorud

Filme português: "A Herdade", Tiago Guedes

Desilusão do ano: "Bacurau", Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

10 DISCOS

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"Amadeus", Wolfram
"Animated Violence Mild", Blanck Mass
"Careful", Boy Harsher
"Hyper Cristal", Irène Drésel
"Immanent Fire", Emily Jane White
"In Plain Sight", Honeyblood
"Ladytron", Ladytron
"Lost Girls", Bat for Lashes
"Mirages au futur verre-brisé", Automelodi
"The Destroyer - 1", TR/ST

Álbuns portugueses: "Desalmadamente", Lena D'Água; "Do Outro Lado", PZ; "Enza", Throes + The Shine

10 SÉRIES

Pico da Neblina.jpg

"Big Mouth" (T3), Netflix
"Das Boot" (T1), AMC Portugal
"GLOW" (T3), Netflix
"Gomorra" (T4), HBO Portugal
"Insecure" (T3), HBO Portugal
"Mrs. Fletcher" (T1), HBO Portugal
"Pico da Neblina" (T1), HBO Portugal
"Pose" (T1), Netflix/HBO Portugal
"The End of the F***ing World" (T2), Netflix
"Watchmen" (T1), HBO Portugal

Desilusão do ano: "A Guerra dos Tronos" (T8), Syfy/HBO Portugal

10 CONCERTOS

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Automelodi no Maravillas Club, Madrid
Boy Harsher em Conne Island, Leipzig
dEUS no Coliseu dos Recreios, Lisboa
Hot Chip na Columbiahalle, Berlim
Javiera Mena na Sala Mon Live, Madrid
Mark Lanegan Band no Lisboa ao Vivo, Lisboa
Mashrou' Leila na Botanique/Orangerie, Bruxelas
Nitzer Ebb no Lisboa ao Vivo, Lisboa
Rincon Sapiência no Festival Músicas do Mundo, Sines
Throes + The Shine no B.Leza, Lisboa

Desilusão do ano: Massive Attack no Campo Pequeno, Lisboa

25 CANÇÕES

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Haddaway e o amor, duas décadas depois

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"What is love?", perguntava Haddaway no single que ficou como um dos maiores hinos eurodance dos anos 90. Duas décadas depois, e com um percurso musical regular mas sem tanta visibilidade pelo meio, o cantor de Trinidade e Tobago radicado na Alemanha volta às questões amorosas em "MY LOVE IS FOR REAL".

O tema resulta de uma colaboração com WOLFRAM e é um dos singles de "Amadeus", o segundo álbum do músico, produtor e DJ austríaco. A dupla já se tinha juntado, aliás, no primeiro - "Wolfram", de 2011, na faixa "Thing Called Love", claramente a vincar um assunto de eleição - e volta aqui a territórios de electrónica dançável entre a house, o electro e, sem vergonhas, o eurodance.

Mas se a história de Haddaway parece ter ficado reduzida à de um one hit wonder, a de Wolfram não merece passar despercebida. O novo álbum, tal como o anterior já fazia, oferece um sortido apetitoso tanto nas colaborações - Peaches ou Pamela Anderson(!), creditada como Pam, também se juntam à festa - como nos temas instrumentais, num alinhamento relativamente curto mas capaz de conciliar ainda italo disco, synth pop ou ecos Hi-NRG.

A canção escolhida para single, no entanto, foi mesmo "MY LOVE IS FOR REAL", com a voz de Haddaway a impor-se entre teclados e sintetizadores (parentes próximos de uns Röyksopp ou Kleerup) sem que os anos pareçam ter passado por ela. O videoclip recém-estreado mostra a dupla num cenário idílico, não se levando muito a sério numa Chill Out Zone dominada pelo (b)romance:

Esta festa serve-se crua

Neneh Cherry.jpg

É, desde já, um dos grandes lançamentos de 2020: "Raw Like Sushi" (1989), o primeiro álbum de NENEH CHERRY, vai ser reeditado numa versão remasterizada para celebrar os seus 30 anos. Demos, remisturas, um booklet de 48 páginas e fotos inéditas estão entre os extras que serão conhecidos a 31 de Janeiro, mas a festa vai continuar numa digressão centrada no disco.

Portugal não fica de fora das comemorações e recebe a sueca no Verão, no EDP Cool Jazz, depois de já a ter acolhido este ano no NOS Primavera Sound, no Porto (no seu primeiro concerto em nome próprio por cá). Se um regresso da voz de "Buffalo Stance" já seria por si só imperdível, o facto de revisitar o alinhamento do registo de estreia é um grande valor acrescentado, até porque essas canções tiveram pouco espaço nos espectáculos dos últimos anos (quase inteiramente dedicadas a "Broken Politics", o álbum mais recente).

Raw Like Sushi.jpg

Ao unir hip-hop, R&B, soul, funk ou jazz, "Raw Like Sushi" fez da fusão de géneros uma bandeira que a década seguinte levaria mais longe em novos territórios como o trip-hop, para o qual NENEH CHERRY também abriu caminho (basta recordar "Manchild", produzido por Robert Del Naja, dos Massive Attack, antes da estreia discográfica do trio de Bristol). E a crueza do título do disco foi levada à letra por uma atitude inconformada e declaradamente feminista, anos antes de o girl power ser tendência da indústria, com um impacto não terá sido acidental nos percursos de gente como Missy Elliot, Kelis, M.I.A., Robyn ou FKA Twigs.

Um dos melhores exemplos dessa postura sem papas na lígua continua a ser "INNA CITY MAMMA", que teve direito a recuperação, esta semana, com a estreia do videoclip na conta oficial da cantora no Youtube. Para quem não o viu na MTV há décadas, pode ser mesmo uma estreia absoluta (embora o vídeo já estivesse disponível na rede numa versão de qualidade inferior). E até Julho ainda há tempo para ir ensaiando estas coreografias: