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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Alemanha, ano 2019

De 24 a 30 de Janeiro, a KINO - MOSTRA DE CINEMA DE EXPRESSÃO ALEMÃ volta a instalar-se no Cinema São Jorge, em Lisboa. O muito elogiado "3 Dias em Quiberon", biopic de Romy Schneider assinado por Emily Atef, abre a porta às 20 longas-metragens de produção não só alemã, mas também austríaca, suíça e luxemburguesa. As cinco abaixo podem ser um bom ponto de partida para a 16ª edição do evento que também passa pelo Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, a 2, 26 e 27 de Fevereiro:

 

Mario

 

Sexta-feira, 25, às 21h00: "MARIO", de Marcel Gisler - A homofobia no futebol é o ponto de partida do mais recente filme do realizador suíço radicado na Alemanha, que explora há muito questões LGBTQ+ - desde um drama realista como "Die blaue Stunde" (1992) ao documentário "Electroboy" (2014). O argumento, centrado na relação de dois futebolistas, começou a ser preparado em 2010 mas o resultado de uma longa pesquisa só foi visto em 2018, quando "Mario" estreou na Alemanha. A premissa lembra a de outro filme germânico relativamente recente, "Em Queda Livre", que seguia o relacionamento amoroso de dois polícias, inicialmente mantido em segredo. Tal como nesse caso, algumas reacções apontam que esta história não traz muito de novo ao cinema (queer ou não), mas também há quem garanta que este drama não se esgota no tema (abordagem que já lhe valeu distinções nos festivais de Hamburgo ou Chicago).

 

Vacuo

 

Sábado, 26, às 16h30: "VÁCUO", de Christine Repond - Assente na interpretação da veterana Barbara Auer, a segunda longa-metragem da realizadora suíça (com um percurso iniciado no documentário) acompanha uma mulher de meia-idade que descobre ser seropositiva. E descobre ainda que o marido não só a contaminou como a tem traído com prostitutas. Se daqui poderia sair um drama de faca e alguidar, "Vácuo" promete responder à inquietação da protagonista com sobriedade e rigor, num thriller psicológico que o The Hollywood Reporter compara ao universo de Michael Haneke (ressalvando que não carregue tanto na frieza emocional). É bem capaz de estar aqui um dos retratos mais fortes desta edição...

 

IN DEN GÄNGEN (R: Thomas Stuber); v.l.: Sandra Hüller und Franz Rogowski

 

Sábado, 26, às 21h00: "ENTRE CORREDORES", de Thomas Stuber - E se o romance nascer entre a rotina do trabalho num supermercado? A segunda longa-metragem do realizador alemão avança um cenário possível, com algum realismo mágico à mistura, e tem feito um percurso invejável em muitos festivais (chegando à KINO já com prémios e a nomeação para o Urso de Ouro no de Berlim). O par romântico desta história ambientada numa pequena localidade desperta logo alguma confiança, ou pelo menos simpatia: é composto por Sandra Hüller, de "Toni Erdmann", e Franz Rogowski, que protagoniza "Em Trânsito" (o novo e aconselhável filme do também alemão Christian Petzold, que estreia em Portugal esta semana).

 

O Gene de Casanova

 

Sábado, 26, às 23h15: "O GENE DE CASANOVA", de Luise Donschen - Um dos títulos da secção Perspetivas, que pretende romper fronteiras entre géneros e formatos, este olhar documental da realizadora alemã (e a sua primeira longa) debruça-se sobre as leis do desejo e as convenções de género, identidade e sexualidade. E parte de uma investigação de horizontes vastos e díspares, que tanto junta depoimentos de biólogos e relatos da vida animal como a participação de uma dominatrix ou do convidado especial John Malkovich, que discute o legado de Casanova. Carta fora do baralho da KINO 2019?

 

Aeroporto Central THF

 

Segunda-feira, 28, às 19h00: "AEROPORTO CENTRAL THF", de Karim Aïnouz - O autor de "Madame Satã" (2002) ou "Praia do Futuro" (2014) tem conciliado um interesse pela ficção e pelo documentário, e aqui retomou a segunda vertente. Num filme que já passou por cá no Festival Porto/Post/Doc do ano passado, o realizador brasileiro centra-se em Berlim (onde reside) e em particular no Aeroporto de Tempelhof, que começou como projecto megalómano do regime nazi, tornou-se num espaço de lazer décadas depois e é hoje um abrigo para refugiados cada vez mais concorrido. Foi através do olhar destes últimos, aliás, que o filme nasceu, e tem sido alvo de aplauso dentro e fora de portas (o prémio da Amnistia Internacional no Festival de Berlim de 2018 está entre as distinções que tem somado).

 

 

Respirar (debaixo d'água)

 

Crescer custa. E ao protagonista de "Atmen", cujo dia-a-dia decorre entre um centro de detenção juvenil e o trabalho numa agência funerária, custa especialmente. Não que esta obra do austríaco Karl Markovics alguma vez caia no miserabilismo: o actor principal de "Os Falsificadores" (vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2008), que aqui se estreia na realização, oferece quase sempre um retrato cru, por vezes duríssimo, mas também estranhamente terno, sobre um adolescente de 18 anos que tenta encontrar o seu rumo.

 

Embora demore algum tempo a vincar o tom, ninguém diria que "Atmen" é resultado de um estreante. Markovics tira o maior partido do plano fixo, consegue enquadramentos tão rigorosos como impressionantes e quando move a câmara nunca o faz por acaso.

 

Mas além de tecnicamente admirável, este olhar seco sobre a morte, a solidão ou a redenção deve ainda muito ao jovem Thomas Schubert - outro estreante, desta vez como actor, cujo underacting é perfeito para carregar um protagonista que acumula emoções reprimidas. "Atmen" permite-nos conhecê-lo melhor do que os que o rodeiam e também aí o seu realizador mostra subtileza, revelando informação de forma paciente e optando, e bem, pela ambiguidade em vez de respostas fáceis. No final, temos uma primeira obra tão angustiante como imersiva - combinação com expoente máximo nas muitas e belas sequências na piscina, apenas alguns dos seus momentos de antologia.

 

 

"Atmen" foi o filme da sessão de encerramento da nona edição da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã

 

De Lisboa a Lissabon

 

"Lollipop Monster" mistura animação e imagem real e marca a estreia na realização de Ziska Riemann, até aqui mais conhecida como autora de BD. Além de despertar curiosidade, este drama adolescente é um dos destaques da KINO 2012 - Mostra de cinema de expressão alemã, que está de regresso ao Cinema São Jorge e ao Goethe-Institut, em Lisboa.

 

A nona edição da iniciativa é inaugurada esta noite na sala da Avenida da Liberdade, às 21h30, com a comédia "Almanya - Bem-vindos à Alemanha", de Yasemin Samdereli, e até 3 de Fevereiro apresenta sessões de manhã, à tarde e à noite.

 

Apostando nas secções "Next Generation Short Tiger 2011", "Mostra para Escolas" e "Cinema para Jovens" e tendo o "Ciclo Áustria" como tema principal, a KINO volta a trazer muito cinema germânico recente (e não só) que dificilmente veríamos por cá de outra forma. Se se mantiver como nas edições anteriores, a programação deverá reservar algumas boas surpresas.

 

Um é pouco, dois é bom...

 

Tom Tykwer tem construído a sua filmografia a saltitar entre géneros, mas ainda não tinha passado pela comédia romântica.

"Drei" não será propriamente uma - pelo menos não apresenta muito em comum com a maioria -, embora ande lá perto.

 

O novo filme do alemão tem o mérito de não seguir o determinismo de demasiados exemplos do género - característica que chega a ser comentada por uma das personagens - e de não se amparar numa realização tarefeira - ao contrário de outros títulos de Tykwer, aqui as ideias visuais servem a narrativa e não o inverso.

 

A partir do jogo de enganos entre dois elementos de um casal que iniciam uma relação com o mesmo homem - sem que o outro cônjuge saiba -, desenha-se um filme que, apesar do humor, também consegue ser amargo - ao insinuar, por exemplo, que a solidão mais dolorosa é a partilhada.

Mas esse contraste entre ligeireza e densidade, por vezes excessivamente abrupto, também faz de "Drei" um filme tão indeciso como os seus protagonistas.

Em todo o caso, antes esta indecisão que a adrenalina inconsequente de "Corre, Lola, Corre" (1998), a poesia insípida de "Heaven - Por Amor" (2002) ou o thriller à americana (versão rotineira) de "The International — A Organização" (2009).

 

 

"Drei" foi o filme de abertura da oitava edição da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, que decorre até 4 de Fevereiro