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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Depois do poder, a violência

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Longe vão os tempos em que GRIMES era um segredo bem guardado e partilhado através de rebuçados dream pop como "Vanessa" ou "Crystal Ball". Sete anos depois de "Visions", terceiro álbum e alavanca de uma maior projecção internacional, cada nova canção (ou até cada demo) do projecto de Claire Boucher é recebida e dissecada nas redes com uma expectativa que "Art Angels" (2015), ainda o álbum mais recente da canadiana, ajudou a reforçar (apesar do alinhamento desequilibrado).

 

Nem sempre é falada pelos melhores motivos: "We Appreciate Power", revelada em 2018, não escapou a várias alusões à relação da cantora com Ellon Musk. Mas era um single que mostrava que a música ainda contava mais do que as produções fotográficas ou os videoclips, ferramentas que se foram tornando mais decisivas neste percurso.

 

Menos musculado e sem descendência tão evidente da electrónica industrial, "VIOLENCE", a nova amostra do próximo disco, mantém a moldura sintética numa colaboração com o DJ e produtor i_o. É das canções mais directas de GRIMES, e uma forma eficaz de ir mantendo o compasso de espera até "Miss_Anthrop0cene" (prometido para este ano, mas o adiamento já vai longo). Quem quiser entrar no fim de semana pela pista de dança, pelo menos, não ficará mal servido com um single que sobrevive às primeiras audições e se vai tornando viciante. O videoclip dá o mote e sugere a coreografia:

 

 

Um protesto brega wave com tolerância zero

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É uma das revelações da pop brasileira e acabou de editar um álbum que ainda vai a tempo de se juntar à banda sonora deste Verão. Originário do interior de Pernambuco, ROMERO FERRO cresceu a ouvir conterrâneos como Cazuza, Lenine ou Rita Lee enquanto idolatrava estrelas internacionais, de Madonna aos Queen, passando por David Bowie - que aponta como uma das suas maiores referências.

 

No EP "Sangue e Som" (2013) e no álbum "Arsênico" (2016), o cantor e compositor movimentou-se entre heranças da MPB e alguma soul, disco e rock, mas o recém-editado "FERRO" propõe uma viragem sonora que tanto deve às canções populares românticas do Recife como aos ritmos da new wave.

 

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Desta mistura saiu um álbum que o brasileiro define como brega wave, naquele que considera o seu registo mais directo e tropical. O alinhamento até inclui uma versão de "Você Vai Ver", da dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano, mas é especialmente convincente em "FAKE", candidata a hino viral enquanto retrata o narcisismo em rede, ou nos sintetizadores irresistíveis da dançável "Cansei de Você".

 

 

Produzido por Leo D., teclista dos Mundo Livre/SA, e Benke Ferraz, guitarrista dos Boogarins, o disco junta a voz de Ferro à de Otto, Duda Beat, Mel (da Banda Uó) e Hiran. Os dois últimos participam em "TOLERÂNCIA ZERO", a nova aposta promocional e uma das canções reveladoras da faceta mais politizada do seu autor nesta nova fase.

 

Manifesto contra a homofobia, o tema surge acompanhado de um lyric video com imagens de arquivos públicos (norte-americanos, africanos e brasileiros) de militância LGBTQIA+. "Imagens de amor, de luta e afecto da nossa comunidade LGBTQIA+. Pra mostrar como todo o nosso amor é tão amor quanto qualquer forma de amor", defende.

 

 

Além de "TOLERÂNCIA ZERO", fica aqui o videoclip de um dos primeiros singles do disco (e talvez o tema mais popular até agora), "ACABAR A BRINCADEIRA", e também o de "O MEDO EM MOVIMENTO", um dos melhores momentos do álbum de estreia:

 

 

De Seattle a Cabul, com desvios por Lisboa e Porto

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"Is there gold?", questiona "NIGHT FLIGHT TO KABUL", o novo single da MARK LANEGAN BAND, ao longo do qual o vocalista e mentor do projecto vai lançando farpas ao imperialismo norte-americano (sem se tornar demasiado óbvio ou panfletário).

 

A canção é a mais recente a abrir caminho para o próximo álbum do veterano de Seattle e ex-Screaming Trees, "Somebody’s Knocking". O sucessor de "Gargoyle" (2017) tem edição prevista para 18 de Outubro e parece seguir as pistas lançadas nesse disco, ao conjugar a voz rugosa e imediatamente reconhecível do seu autor com uma presença mais forte de sintetizadores - mas sem abdicar das guitarras.

 

A linhagem entre o pós-punk e o gótico já marcava presença nas amostras anteriores, as igualmente propulsivas "Stitch It Up" e "Letter Never Sent" e a mais meditativa "Playing Nero", todas a apontar um regresso convincente.

 

Além do álbum, o grupo está de volta aos palcos e Portugal não vai ficar de fora: há concertos a 30 de Outubro, no Lisboa ao Vivo, e no dia seguinte no Hard Club, no Porto. E se Lanegan se mantiver em forma como há dois anos, na primeira parte dos Guns N' Roses no Passeio Marítimo de Algés, são datas a considerar seriamente (sobretudo num último trimestre parco em actuações imperdíveis por cá).

 

 

Uma dupla dinâmica, entre a devoção e a superação

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Trip-hop gótico? R&B industrial? Os RITUALS OF MINE ainda não parecem ter decidido para onde levar a sua música, mas a procura de rumo tem sido intrigante. Formada há dois anos, a dupla da cantora e compositora Terra Lopez e do percussionista Adam Pierce encara a sua colaboração como uma forma de catarse e o primeiro passo, o álbum "Devoted" (2016), apresentou uma montra promissora desse universo.

 

Canções como a tremenda faixa-título (PJ Harvey meets Light Asylum?) ou a mais contida "Your Girl" foram exemplos de uma electrónica negra e versátil, com descendência de alguns cruzamentos dos anos 90 devidamente actualizados. Não admira, por isso, que o duo de Los Angeles tenha assegurado as primeiras partes de concertos dos Garbage (Shirley Manson é fã), Tricky ou Deftones, alguns dos nomes cuja influência se pressentia no registo de estreia.

 

Com o regresso aos discos prometido para 4 de Outubro, data de lançamento do EP "Sleeper Hold", os norte-americanos revelam por agora a amostra inicial. "BURST" marca, avança Lopez, o mergulho numa escrita mais auto-biográfica, vincada pelo ultrapassar de traumas antigos, e o processo de superação tem eco num videoclip descrito como um "Space Jam" queer. O single, não sendo dos episódios mais explosivos da dupla, também não vê a intensidade habitual beliscada, numa abordagem mais directa a um R&B claustrofóbico q.b.: