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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Sonho de uma noite de depressão

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JACK COLWELL tem levado o seu tempo a preparar o álbum de estreia. Depois de um percurso ao lado dos The Owls e de um primeiro EP em nome próprio, "Only When Flooded Could I Let Go" (de 2015, que incluía o single "Don't Cry Those Tears"), o cantautor australiano revelou poucas canções, embora se tenha mantido próximo dos palcos nos últimos anos.

 

Mas agora já há, pelo menos, pistas de um longa-duração, mesmo que ainda não tenha título nem data de lançamento anunciados. "IN MY DREAMS" mantém o fôlego épico de alguns temas anteriores, arrancando ao piano antes de ganhar contornos orquestrais, com uma intensidade que também passa pela entrega vocal.

 

Patrick Wolf, com quem COLWELL actuou recentemente, parece ser um parente próximo desta pop grandiosa, e não é uma companhia estranha numa obra que já tinha Rufus Wainwright ou Kate Bush como referências maiores. E também elas definiram um caminho entre o belo e o tortuoso, contraste que foi ponto de partida para uma canção que deve alguma coisa à violência de pinturas renascentistas, aponta o músico de Sydney. Uma aura que também passa pelo videoclip, teatral e sombrio, num relato de romantismo trágico:

 

 

Liberdade, igualdade, fraternidade (via Love Parade)

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"Alientronic", o oitavo álbum de ELLEN ALLIEN, editado em Maio, não será dos mais coesos e memoráveis da DJ e produtora alemã, mas não deixa de conter algumas faixas certeiras para uma pista de dança.

 

Entre os temas a reter está o novo single, "FREE SOCIETY", seis minutos de techno directo e propulsivo a pedir reacções físicas à altura. É o que acontece num videoclip que parte sobretudo de imagens de arquivo a preto e branco da Love Parade, em Berlim, captadas no início dos anos 90, com a rave e manifestações LGBTQI+ a céu aberto a irem de encontro ao apelo hedonista da música.

 

 

"A liberdade é sermos quem quisermos", assinala ALLIEN, no Facebook, enquanto também ela se rende à dança num vídeo que, tal como o evento que homenageia, dá palco à diferença e à diversidade - em modo do it yourself, com uma estética VHS e a sugerir afinidades com o também recente "Send Me A Vision", dos Boy Harsher, igualmente ambientado na capital alemã.

 

Além do videoclip, a alemã tem mais novidades para os próximos dias: a edição (pela sua BPitch Control) de "Alientronic Rmxs 2", EP com remisturas do último álbum entregues a Alien Rain, Shlømo, Hector Oaks e Fjaak. Um outro exercício de liberdade a escutar a partir de 27 de Setembro.

 

 

O momento de apresentar um inédito

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Enquanto se prepara para a nova fase da digressão europeia, este Outono - depois de ter passado por palcos portugueses no Verão -, JONATHAN BREE deu a conhecer o primeito tema inédito desde "Sleepwalking", o seu terceiro álbum, editado no ano passado.

 

Dominado por arranjos de cordas e com uma presença mais discreta de sintetizadores, "WAITING ON THE MOMENT" mantém-se fiel à pop de câmara do disco mais recente do neo-zelandês, com a sua voz de barítono a deixar um novo relato do final de uma relação amorosa. Mas o desgosto não impede que a letra contenha alguma ironia nem que a canção, das mais orelhudas do ex-mentor dos The Brunettes, aposte num sentido melódico onde a luminosidade sai a ganhar ao negrume.

 

Na actuação do videoclip, BREE e a sua banda mantém-se de rosto coberto, como tem acontecido nos concertos, a sugerir que o capítulo de "Sleepwalking" talvez ainda não esteja encerrado:

 

 

Depois da Eurovisão, o regresso ao bairro

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Deu que falar na edição deste ano do Festival da Eurovisão, na qual se destacou com o segundo lugar na final, por "Soldi", tema que representou a Itália. Mas se essa projecção acabou por dar outro embalo ao seu álbum de estreia,  "Gioventù bruciata", editado em Fevereiro (e sucessor de um EP homónimo, de 2018), MAHMOOD parece estar mais interessado em dar o próximo passo do que em capitalizar o que está para trás.

 

Em vez de apostar num novo single do disco, o italiano de ascendência egípcia apresenta "BARRIO", o primeiro inédito depois do patamar de visibilidade internacional. E como o título sugere, é uma canção que vinca mais um regresso a casa do que uma viragem sonora, ao voltar a apostar no cruzamento de influências que já dominava as antecessoras.

 

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Ainda assim, o resultado não se limita ao regime de mais do mesmo: mantém-se a herança da música árabe na produção, assim como a mistura de hip-hop, R&B e pop na composição, mas há espaço para contaminações do flamenco, audíveis logo no arranque - com uma ponte entre o tradicional e o contemporâneo que será estranha ao universo de Rosalía.

 

Tal como "Soldi", é um tema autobiográfico, que deixa uma homenagem à amálgama cultural com que Alessandro Mahmoud cresceu em Milão. Não admira, por isso, que o videoclip esboce um retrato da cumplicidade entre a comunidade hispânica e árabe, enquanto ajuda a explicar a escolha do italiano para actuar na sede do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, em Outubro - antes do arranque da digressão "Good Vibes" por várias cidades europeias. A estadia no bairro não vai ser longa, afinal...

 

 

Da zona de conforto à zona de perigo

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Uma das grandes canções de 2019 já tem videoclip. "DEADZONE", pico do novo álbum dos LADYTRON, homónimo, é também o novo single do quarteto de Liverpool, sucessor dos promissores mas não tão intensos "The Animals" e "The Island"

 

Se o título do tema já parecia dever alguma coisa ao universo de David Cronenberg (a remeter para o filme de 1983 traduzido em Portugal como "Zona de Perigo"), o videoclip leva mais longe essa aproximação ao lembrar situações e ambientes de "Crash" (1996). Faz sentido: a canção é uma das mais densas e opressivas do disco, com o quarteto a abordar a pop electrónica como poucos nos últimos anos, e as consequências de um acidente automóvel dão imagens apropriadas aos tormentos a que a letra alude.

 

Ecos da mitologia dos zombies, de George Romero a "The Walking Dead", também parecem contaminar o vídeo de Bryan M. Ferguson, realizador que já está familiarizado com cenários negros (através de colaborações anteriores com os Ladytron ou os Boy Harsher, por exemplo). "Imaginem estar no meio de um sonho e serem incapazes de gritar ou de se mexer e de, em última instância, não saberem se estão vivos ou mortos. Essa é a zona da morte", explica à FLOOD Magazine a vocalista Helen Marnie, cujos sussuros se conjugam com a dinâmica críptica da canção e apresentam uma banda no seu melhor: