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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Fundo de catálogo: Marina and the Diamonds

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Dez anos depois da edição, "THE FAMILY JEWELS" não só mostra que é um álbum que envelheceu bem como se destaca, com alguma distância, enquanto jóia da coroa da discografia de MARINA AND THE DIAMONDS. Fazem(-lhe) falta mais destes.

Depois de Florence and the Machine, La Roux ou Little Boots terem editado discos de estreia no ano anterior, Marina Diamandis apostou no formato longa-duração no início de 2010 e deixou mais um contributo para uma colheita refrescante e idiossincrática de pop no feminino, frequentemente em terreno electrónico e com influências claras de nomes dos anos 80. Ao lado de Florence Welch, a galesa propôs um dos conjuntos de canções mais teatrais e exuberantes, mas não se levou tão a sério como a voz de "Dog Days are Over" e fez mais vezes mira às pistas.

Apesar do apelo dançável, as letras não se esgotaram na celebração do hedonismo e apresentaram alguns dos retratos mais incisivos, singulares e espirituosos desse tempo em cenário pop, onde tanto cabiam as inevitáveis reflexões sobre relacionamentos amorosos mas também um mergulho interior e existencial ou farpas à obsessão pela fama e tentações consumistas.

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Teclados, sintetizadores e arranjos de cordas sobressaíram entre as camadas de uma produção barroca, manta instrumental para a voz imponente e maleável de Diamandis, com maneirismos a sugerir audições atentas de Kate Bush, Tori Amos ou Leve Lovich. O alinhamento, que contou com Liam Howe (ex-Sneaker Pimps), Greg Kurstin ou Starsmith na equipa de produtores, não defraudou a promessa de "The Crown Jewels EP" (2009) nem os sinais de confiança da BBC Poll of 2010 ou dos BRIT Awards (cuja nomeação para o Critics' Choice Award ajudou a despertar as primeiras atenções).

Singles como "Shampain", "Oh No!" ou "Hollywood" foram exemplos eloquentes de uma pop tão borbulhante como irónica, "I Am Not a Robot" mostrou que também havia por aqui uma sensibilidade melancólica, que passaria ainda por "Numb" ou "Rootless", e "The Outsider" e "Hermit the Frog" são talvez as duas jóias mais esquecidas - a primeira um hino sobre a diferença nascido da new wave, a segunda a mostrar que a distância entre as arábias e o cabaret pode ser curta, naquele que é talvez o pico de criatividade e delírio desta estreia.

"Electra Heart" (2012), o álbum sucessor, alargou o jogo entre realidade e ilusão, embora poucas canções tenham estado à altura da ambição conceptual. E se "FROOT" (2015) reacendeu a chama com alguns momentos de inspiração ao nível dos primeiros tempos, "Love + Fear" (2019) foi um quarto disco tão demorado como anémico, e já com a sua autora a editar apenas como MARINA. Decididamente, e como "The Family Jewels" tão bem comprova, os diamantes não deveriam ter deixado de ser os seus melhores amigos.

Um bailado muito lá de casa

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Incialmente agendado para 24 de Abril, o novo disco dos BRAIDS, "Shadow Offering", foi um dos muitos adidados nos últimos tempos devido ao coronavírus. O quarto álbum dos canadianos chegará assim a 19 de Junho, mas a espera faz-se com pelo menos mais uma canção revelada depois dos três primeiros singles ("Eclipse (Ashley)", "Young Buck" e "Snow Angel").

"JUST LET ME" mostra o trio no registo mais contido, com a voz de Raphaelle Standell-Preston a destacar-se entre um novelo de teclados, guitarra e sintetizadores. A cantora, que também compôs o tema, inspirou-se nos obstáculos físicos e emocionais de um relacionamento amoroso, da perda de autonomia ao arrefecimento do desejo, e esse confito tanto individual e conjugal surge reflectido num videoclip que marca a estreia de Standell-Preston como realizadora (ao lado de Derek Branscombe). E não se sai nada mal, ao acompanhar os movimentos e coreografias da esfera íntima de dois bailarinos, olhar que lembra uma variação mais elegante do também recente "On the Floor", de Perfume Genius,  ou o combate simbólico de "Submission", dos The Irrepressibles. Assim, vale a pena ir esperando mais uns meses pelo disco:

O sol nasce para todos

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MOULLINEX tem tido uma rotina consideravelmente agitada durante o período de isolamento social, mantendo uma agenda que inclui DJ sets online aos sábados à noite (o mais recente, ao lado de Xinobi) ou actuações caseiras, a solo ou com a sua banda, na série de vídeos The Lockdown.

Foi, aliás, num desses episódios gravados em casa que Luís Clara Gomes começou por apresentar uma nova canção, um instrumental sem título nascido de teclados e sintetizadores, a meio caminho entre a euforia e a melancolia. Mas entretanto o tema não só ganhou nome, "LUZ", como passou a contar com a voz de GPU Panic (Guilherme Tomé Ribeiro, dos Salto).

Outra novidade é o videoclip, gravado com um iPhone dentro de um carro já na fase de quarentena, recorrendo a binóculos para observar momentos do quotidiano lisboeta de várias pessoas (convidadas a participar no projecto) nas suas janelas, varandas ou telhados.

Resultado de uma colaboração com o artista Bráulio Amado e filmado por Bruno Ferreira, tem a premissa da distância social mas não pretende ser um vídeo sobre o vírus ou a quarentena, sendo antes descrito como "quase uma curta-metragem sobre expressão individual, capaz de superar as restrições de isolamento, em casa. Sobre a arte quebrar as barreiras físicas em que vivemos e poder acontecer mesmo nestas circunstâncias".

Além de "LUZ", MOULLINEX partilhou nos últimos dias outros dois inéditos, "Ergo" e "Galesa", criados durante um encontro de músicos nos estúdios Key+Needle, em Nova Iorque, no ano passado. Tão ou mais direccionados para a pista de dança, podem ser ouvidos no EP "Nervous Brooklyn Sessions 2020", disponível nos serviços de streaming, tal como o novo single.

Sair ou não sair, eis a canção

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Ao contrário de outras canções surgidas por estes dias, o novo single dos PET SHOP BOYS não deriva da experiência do confinamento, embora se centre num rapaz decidido a não sair de casa. Mas essa reclusão parte da timidez e insegurança, não da obrigatoridade de uma quarentena, até porque "I DON'T WANNA" já conta com uns meses: é uma das faixas de "Hotspot", o 14.º álbum da dupla britânica, editado em Janeiro.

O disco, sem trazer nada de particularmente inesperado à obra de Neil Tennant e Chris Lowe, é pelo menos um fecho de ciclo seguro para a trilogia produzida por Stuart Price, que arrancou em 2013, com "Electric", e continuou em 2016, com "Super", talvez o registo mais consistente dos três. E tem no novo single um dos momentos mais imediatos, com uma carga dançável ampliada nas três remisturas que acompanham o lançamento: uma a cargo de Mano Le Tough, duas assinadas por David Jackson e todas recomendáveis, entre o electro e o italo disco. A edição completa-se com um inédito, o lado B "New Boy", a lembrar os episódios mais meditativos do álbum.

Também vale a pena espreitar o lyric video, um dos mais criativos dos últimos tempos, que ilustra o relato da canção com a linguagem da BD. Simples, directo, e a confirmar que afinal o rapaz retratado na letra até muda de ideias e sai de casa para ir ter com os amigos. Tendo em conta o panorama actual, já é quase uma história de ficção científica:

Um regresso a festejar, entre Scissor Sisters e Sylvester

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Editado há dois anos, o álbum de estreia a solo de JAKE SHEARS, homónimo, era surpreendentemente recatado tendo em conta um percurso até então quase sempre festivo, ao lado dos Scissor Sisters. Não que o alinhamento não tivesse algumas canções dançáveis, mas nenhuma fazia sombra aos momentos mais efusivos da banda nova-iorquina que mantém o hiato criativo desde 2012.

O registo sucessor, no entanto, deverá ter uma proposta bem diferente, com uma atmosfera mais ritmada e enérgica, num concentrado de "pop dançável sinistra e distópica". É esta a descrição que o cantor apresenta para a nova fase, que corta com a vertente introspectiva para retomar a celebratória. E o primeiro single, "MELTDOWN", já aponta para esse caminho através de um fulgor disco infeccioso a cruzar guitarras, sintetizadores e um falsete reconhecível.

Composto em Nova Iorque num dia particularmente quente, é um tributo a Sylvester, que SHEARS destaca como uma das suas maiores referências vocais e espiriruais. Hot Chip, Cerrone, Prince e The Presets também são mencionados enquanto inspirações do tema, juntamente com David Bowie, cujo álbum "Diamond Dogs" (1974) deixou pistas para o que aí vem. Ao vivo, o efeito não parece ficar a dever nada aos melhores tempos dos Scissor Sisters: