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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Drama e comédia em Berlim, no Porto ou em Barcelona

 

Depois de vários filmes centrados na classe trabalhadora britânica, Mark Herman vira-se para um retrato da Alemanha nazi onde permanece, contudo, o seu habitual - e equilibrado - misto de drama e comédia.

 

Se no cativante (e injustamente ignorado) "Na Maior!" (Purely Belter, 2000) o realizador focou a amizade de dois adolescentes suburbanos, aqui o olhar dirige-se para a relação entre um rapaz de oito anos, filho de um oficial nazi, e um outro, judeu, e prisioneiro de um campo de concentração.

 

A Segunda Guerra Mundial pode ser um tema já estafado, mas a perspectiva de "O Rapaz do Pijama às Riscas" (The Boy in the Striped Pyjamas) ainda consegue ser refrescante e, sobretudo, comovente, para a qual contribui a sensibilidade singular de Herman e a óptima direcção de actores - atenção à excelente Vera Farmiga e ao jovem protagonista Asa Butterfield.

Um belo pequeno filme que não merece passar despercebido no meio das muitas estreias candidatas aos Óscares.

 

 

 

Em "Rasganço" (2001), Raquel Freire apresentou uma longa-metragem de estreia que, mesmo com limitações, exibiu uma ousadia e irreverência que fizeram dessa uma primeira obra curiosa.

 

No recente "Veneno Cura" estas características continuam presentes, mas infelizmente são levadas ao extremo e tornam o filme numa experiência que, se tem o mérito de dificilmente deixar alguém indiferente, não conta com muitos mais.

O resultado é uma colecção dos piores estereótipos associados a algum cinema português "de autor", o que aqui inclui figuras com uma amargura sem fim à vista, uma linha narrativa incipiente, diálogos simultaneamente ingénuos e pretensiosos e tentativas de choque que envolvem doses generosas de incestos, orgias, violações ou degolações.

 

Saúda-se o gosto pelo risco, mas lamenta-se que neste caso não ofereça mais do que sequências cansativas onde personagens sem substância deambulam pelo Porto, e cujas cenas alternam entre o penoso e o risível. Uma (segunda) oportunidade desperdiçada.

 

 

 

Não sendo um marco, "Vicky Cristina Barcelona" é, pelo menos, dos filmes mais divertidos de Woody Allen em muitos, muitos anos e o melhor desde "Match Point" (2005).

 

É verdade que o retrato de Barcelona é o de postal ilustrado, que as temáticas são as habituais do realizador e que a sua musa mais recente, Scarlett Johansson, não tem o talento interpretativo das anteriores (ou pelo menos ainda não o demonstrou).

 

Mas isso não importa assim tanto num filme tão fluído como este, capaz de conjugar leveza e densidade como poucos e de disparar alguns diálogos inspirados.

E depois há os actores, desde a quase revelação Rebecca Hall à presença discreta de Patricia Clarkson, passando, claro, pelos delirantes Javier Bardem e Penélope Cruz (com uma personagem directamente saída de uma comédia de faca e alguidar de Almodóvar). 

Ocasionalmente ainda é um Woody Allen em piloto automático, mas é tão contagiante que quase nem se dá por isso.

 

 

Um romance de cordel com tempero bucólico e erótico

Um dos nomes fortes da Nova Vaga francesa, Eric Rohmer alia a esse estatuto o facto de ser um dos cineastas mais velhos em actividade, tendo ultrapassado a barreira dos noventa anos mas apresentando novos filmes regularmente.

 

Infelizmente, esta persistência nem sempre é sinónimo de qualidade, algo que o seu filme anterior, "Agente Triplo" (2004), já denunciava e que "Os Amores de Astrea e de Celadon" (Les Amours d'Astrée et de Céladon) vem agora confirmar.

Inspirada no livro de Honoré d'Urfé, escritor dos séculos XVI e XVII, a sua nova obra decorre na antiga Gália e narra uma história de equívocos amorosos, onde o nobre e belo pastor Celadon, dado como morto por afogamento, está afinal vivo mas para voltar a contactar com a sua amada, Astrea, tem que se fazer passar por uma ninfa.

 

 

O ponto de partida talvez funcionasse com outra abordagem, já que a de Rohmer apenas oferece um filme que arranca de forma pouco estimulante e, à medida que avança, torna-se tão constrangedor como risível.

 

Os problemas começam logo no elenco, com actores que, em vez de pastores, mais facilmente se assemelham ao grupo de estrelas de uma agência de modelos, prontos a desfilar com criações inspiradas na antiguidade.

Nenhum consegue ter uma interpretação minimamente credível, debitando frases de forma demasiado teatral e apresentando expressões e posturas que não andam longe de um kitsch involuntário, uma vez que "Os Amores de Astrea e de Celadon" pretende ser poético e profundo.

 

 

 

Especialmente falhados são os abruptos momentos musicais, que quebram uma narrativa já por si frágil, com canções e vozes que não chocariam muito numa peça de teatro de uma turma do secundário mas que aqui causam embaraço.

 

Também amador, um guarda-roupa inacreditavelmente limpo e por estrear em nada ajuda à credibilidade dos acontecimentos - a menos que a Gália tivesse poções mágicas para detergentes -, pormenor de um falhanço estético mais agravado por uma realização banal, semelhante à de uma série televisiva histórica sem grande orçamento nem ideias.

Nem mesmo as belas paisagens campestres que são palco da acção conseguem ser bem aproveitadas, funcionando apenas enquanto cenário para clichés bucólicos e não encorajando qualquer momento de considerável fôlego cinematográfico.

 

 

 

Pobre em quase todos os aspectos, o filme acaba ainda por ser vítima de um argumento que não demora muito a cair no ridículo, com personagens sem espessura presas a dramas imberbes - muito longe do romantismo trágico que se pretende e bastante perto de uma vulgaridade folhetinesca.

 

As tentativas de erotismo resultam forçadas e as discussões acerca do amor são episódios de pretensão insuflada numa obra que nunca sai de uma ligeireza enfadonha, cujas quase duas horas de duração parecem o dobro.

 

Se o próximo filme de Rohmer mantiver a baixa fasquia deste (e do anterior), talvez seja melhor alguém começar a mostrar-lhe as vantagens da reforma, já que apesar de estar carregado de jovens actores "Os Amores de Astrea e de Celadon" traz muito pouco sangue novo ao cinema.

 

 

Por Toutatis!

 

"Astérix nos Jogos Olímpicos" (Astérix aux Jeux Olympiques) deita por terra a esperança de que a saga do herói gaulês no grande ecrã tinha encontrado um rumo seguro a partir do filme anterior, o surpreendente "Astérix e Obélix: Missão Cleópatra".

 

A milhas dos anacronismos e gags nonsense que o seu antecessor tao bem conseguiu transpor para a tela, esta aventura nunca se desprende de básicas tentativas de humor, cujo único mérito será não cair no mau gosto de algumas "comédias" americanas.

Não que lhe sirva de muito, já que não são tropeções ou socos repetidos até à exaustão que lhe dão qualquer piada, e a realização exibicionista e televisiva de Frédéric Forestier e Thomas Langmann também não ajuda. O resultado não ofende ninguém mas é tão insosso que se torna quase tão difícil de aguentar como um concerto do bardo Chatotorix.

 

 

Um filme fal(h)ado

E se Cristóvão Colombo tivesse sido português? É esta a ideia que Manoel de Oliveira tenta comprovar em "Cristóvão Colombo - O Enigma", em que parte de investigações que defendem que o navegador que descobriu a América não era italiano mas originário da aldeia de Cuba, no Alentejo.

 

Os protagonistas do filme são, por isso, Manuel Luciano da Silva e Sílvia Jorge da Silva, casal que na década de 40 realizou estudos com vários indícios de que a nacionalidade de Colombo era portuguesa. Oliveira começa por se concentrar nas pesquisas da dupla, nos tempos em que eram mais jovens, e acaba com o foco na sua relação nos dias de hoje, já na velhice, debruçando-se sobre a sua experiência conjugal.

 

 

Infelizmente, "Cristóvão Colombo - O Enigma" nunca se revela muito interessante em nenhum dos cenários, sendo até bastante insípido durante grande parte da sua duração. A História de Portugal é abordada com num misto de didactismo gritante e uma nostalgia excessivamente reverente pelas glórias dos Descobrimentos, através de diálogos demasiado explicativos e sem qualquer traço de espontaneidade.

As interpretações não disfarçam essa falta de subtileza, já que tanto Ricardo Trêpa como Leonor Baldaque não concedem qualquer espessura dramática às personagens, mantendo sempre uma rigidez exasperante e debitando texto sem convicção.

 

 

Ao fim de poucos minutos, o filme vai caindo num esquematismo incapaz de seduzir, e nem mesmo a sobriedade da câmara de Oliveira é capaz de compensar a mediocridade de tudo o resto, até porque a iluminação do interior dos locais por onde o casal vai passando deixa muito a desejar.

 

Admita-se que o cineasta gera, pontualmente, alguns pequenos milagres, como a criação de uma Nova Iorque dos anos 40 envolta em nevoeiro ou o modo como a retrata hoje em dia, a milhas da forma como esta costuma ser filmada.

Mas por cada oportuna ideia visual há duas ou três fragilidades do argumento ou das interpretações, o que leva a momentos dispensáveis como as aparições do anjo de Portugal ou a declamação de um poema de Pessoa por Luís Miguel Cintra, um dos maiores picos de pretensão do filme.

 

 

Quando a acção foca o casal na velhice torna-se um pouco mais entusiasmante, até porque a reflexão sobre a experiência conjugal se sobrepõe, e ainda bem, à vertente histórica. Aqui, o par protagonista surge interpretado por Oliveira e a sua esposa, o que talvez ajude a explicar o intimismo e cumplicidade que resulta de algumas cenas, contrapondo-se à postura forçada de Trêpa e Baldaque.

 

Quando, nestes momentos, "Cristóvão Colombo - O Enigma" se debruça na relação amorosa - que parece não ser tanto a das personagens mas a daqueles que as interpretam - até oferece algumas sequências curiosas e enternecedoras, embora deite tudo a perder quando se entrecruza com a História e volte aos tiques de vídeo institucional amador. E são esses que, por serem quase omnipresentes, tornam o filme numa experiência cinematográfica pesada e mortiça, que apesar de não ir além dos 70 minutos parece durar o dobro do tempo, resultando num enigma que não desperta muita curiosidade.