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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Música e palavra

 

A decorrer em Lisboa até dia 27, o Festival Silêncio! divide-se em várias áreas (concertos, poetry slam, debates, conferências, audiolivros, leituras encenadas) e tem como tema nuclear as ligações entre a música e a palavra.

Esta noite, a programação propõe duas iniciativas especialmente sugestivas.

 

Às 21h30, o espectáculo "Tout ira bien" reúne Alex Beaupain, Kéthévane Davrichewy e Valentine Duteuil num encontro entre spoken word e os temas de "As Canções de Amor" - o melhor filme de Christophe Honoré, cuja banda-sonora foi composta por Beaupain.

Para ver e ouvir no Instituto Franco-Português, num evento de entrada livre.

 

Uma hora depois, Os Malditos sobem ao palco do MusicBox. O quarteto formado por Rodrigo Leão (teclados), Rogério Samora (voz), Gabriel Gomes (acordeão) e Viviena Tupikova (violino) debruça-se sobre a obra de Mário Cesariny num espectáculo também alicerçado no spoken word.

No vídeo abaixo, Rodrigo Leão comenta o festival e revela um pouco do que pode esperar-se mais logo:

 

 

Rodrigo Leão e o Festival Silêncio!

 

A turma de Honoré

Ainda há poucos meses "A Turma", de Laurent Cantet, apresentou um olhar sobre o ensino através do quotidiano de um liceu francês, e agora o novo filme de Christophe Honoré, "La Belle Personne", volta apostar nos mesmos ambientes como centro da acção.

 

Os contrastes, contudo, dificilmente poderiam ser maiores. Onde os alunos de Cantet eram exemplo do melting pot parisiense, frequentemente desordeiros e muito pouco interessados no que a escola lhes propunha, os de Honoré são filhos da classe média alta, emocionam-se ao ouvir Maria Callas, discutem literatura e aprendem italiano ou russo.

 

 

Mas "La Belle Personne" também não tem, de resto, ambições de ser um ensaio realista sobre o ensino, desde logo porque adapta (mesmo que de forma livre) o romance do século XVII "A Princesa de Clèves", de Madame de La Fayettel, cuja carga de romantismo quase fora de moda e aura trágica em crescendo assentam como uma luva ao universo de Honoré - ou não fosse ele o autor de um filme tão apaixonado (e apaixonante) como "As Canções de Amor".

 

O realizador francês não volta a oferecer, infelizmente, o encanto desse brilhante antecessor, mas esta história sobre um triângulo amoroso centrado numa adolescente (Léa Seydoux, magnética) indecisa entre um colega tímido e fiel (um genuíno Grégoire Leprince-Ringuet) e um jovem professor carismático e sedutor (Louis Garrel, quem mais?) ainda tem os seus méritos.

 

 

Se nos seus primeiros filmes Honoré era muitas vezes comparado (nem sempre de forma elogiosa) a referências da nouvelle vague, nos últimos tem conseguido criar um estilo singular e reconhecível, não obstante essas heranças assumidas.

 

Prova disso são os absorventes planos-sequência pelas ruas de Paris, cuja atmosfera ora lacónica ora melancólica é reforçada pela determinante presença da banda-sonora - embora desta vez as canções de Nick Drake ganhem espaço às de Alex Beaupain (que assina apenas uma).

 

Curiosamente essas "marcas de estilo", embora resultem em belos momentos, são parte do que impede o realizador de dar continuidade a um percurso criativo em fase ascendente - contrariando o que tinha acontecido nos trabalhos anteriores.

 

 

Agora há reconhecimento em vez de surpresa (nem sequer faltam as habitués Clotilde Hesme ou Chiara Mastroianni em pequenas aparições), e mesmo o modo como as personagens se entrecruzam é menos fluído do que se esperaria.

 

Mas se "La Belle Personne" não se junta aos melhores filmes de Honoré sai-se bem em vários aspectos: como adaptação de um romance de época aos dias de hoje (transpondo o cenário de uma corte para o de uma escola), como abordagem sensível e adulta aos dramas da adolescência (que são figuras tridimensionais e nunca caricaturas) e como envolvente retrato de alguns ambientes de Paris (onde a fotografia de tons azulados volta a conjugar o simples e o sublime).

Já é muito, e compensa largamente alguma falta de arrojo formal e a intromissão de demasiados (embora interessantes) sub-enredos na narrativa nuclear.

 

 

"La Belle Personne" integra a sexta edição do IndieLisboa e é reexibido no Cinema City Alvalade hoje às 21h45 e domingo às 18h15

 

As canções voltam a tocar

 

Acima, Jodie Foster num dos filmes estreados no ano passado que perdi quando esteve nas salas mas que consegui, finalmente, ver hoje no ciclo "Um Ano de Cinemas", no Nimas (cujo programa completo está aqui).

 

Tal como esperava, "A Estranha Em Mim" vale a pena, confirmando a quase sempre criteriosa escolha de papéis da sua actriz principal e a solidez da realização de Neil Jordan (mesmo que o argumento não seja dos mais plausíveis).

Sem dúvida mais interessante do que o título reposto no dia anterior, "Morte Num Funeral", de Frank Oz, comédia previsível e desinspirada que se assemelha a um longo episódio-piloto de uma britcom fraquinha.

 

Mas o motivo deste post é mesmo chamar a atenção para o filme em reposição nesta quarta e quinta-feira, o musical "As Canções de Amor". É não só o melhor dos que conheço de Christophe Honoré como um dos mais memoráveis de 2007, e merece muito ser visto ou revisto. Também em reposição aqui no blog, deixo a entrevista ao realizador e ao protagonista, Louis Garrel, feita perto da estreia:

 

 

Louis Garrel e Christophe Honoré

 

ESTREIA DA SEMANA: "AS CANÇÕES DE AMOR"

Christophe Honoré intrigou-me em "Minha Mãe", interessou-me mais no superior "Em Paris" e agora convenceu-me plenamente em "As Canções de Amor" (Les Chansons d'Amour), um belo musical alicerçado num jovem triângulo amoroso criado e destruído na Paris dos dias de hoje.
É um dos grandes filmes do ano, para o qual contribui, claro, a igualmente recomendável banda-sonora composta por Alex Beaupain e interpretada pelos actores - entre estes constam Louis Garrel, Ludivine Sagnier ou Chiara Mastroianni (crítica ao filme aqui).

Honoré e Garrel passaram por Lisboa a propósito da ante-estreia do filme na Festa do Cinema Francês e eu e o Eduardo Santiago falámos com eles. A reportagem pode ser vista no vídeo que está aqui em baixo.

Outras estreias:

"A Estranha em Mim", de Neil Jordan
"El Cantante", de Leon Ichaso
"Eles", de David Moreau e Xavier Palud
"Um Azar do Caraças", de Judd Apatow, o realizador de "Virgem aos 40 Anos"




Entrevista a Christophe Honoré e Louis Garrel