Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Mãe há só uma

Embora conte com mais de dez filmes no currículo, o japonês Tatsushi Ohmori será pouco ou nada familiar para os espectadores portugueses. Uma falha agora colmatada graças à Netflix, que acolheu "LAÇO MATERNO", o seu novo drama - e um dos mais secos e angustiantes dos últimos tempos.

Laço Materno.jpeg

Estudo de duas personagens unidas por uma relação tóxica, "LAÇO MATERNO" é um olhar sobre a manipulação e a codependência ancorado numa mãe que vive à margem da família e da sociedade, sem trabalhar nem ter residência fixa, e que arrasta consigo o filho para uma experiência de alienação sem que se vislumbre uma luz ao fundo do túnel.

Mãe há só uma, mas para o pequeno Shuei (que o filme acompanha da infância à adolescência), além da mãe não há mesmo mais nada - pelo menos até ao nascimento da irmã, que o leva a reavaliar uma rotina de abandono e precariedade.

Filme duro e implacável, "LAÇO MATERNO" deixa um relato sobre aqueles para quem o sistema prefere não olhar ou que não consegue salvar ainda que tente - a segurança social entra em cena a certa altura -, deixando perpetuar uma situação de abusos físicos e psicológicos sobre quem não sabe defender-se deles.

Laço Materno 2.jpg

Ohmori pode ser repetitivo ao passar essa mensagem, e talvez não precisasse de mais de duas horas para a transmitir - sobretudo quando o ritmo moroso nem sempre ajuda. Mas também é coerente ao não poupar os protagonistas nem os espectadores, numa narrativa com tanto de inquietante como de exasperante. O mais assustador, no entanto, é saber que parte de uma história verídica, num caso em que a realidade provavelmente ultrapassa a ficção.

Felizmente, o resultado, mesmo com desequilíbrios, mantém-se longe da linguagem de um telefilme de pretensões sociológicas: o realizador acompanha esta mãe em roda livre, na sua frieza e negligência, sem procurar explicações óbvias (e muito menos reconfortantes) de causa e efeito. Uma opção valorizada por Masami Nagasawa, num desempenho implosivo e certeiro, e pelo estreante Daiken Okudaira, também muito bom a traduzir a vulnerabilidade do filho na adolescência. Não chegará para que "LAÇO MATERNO" atinja o patamar dramático e formal de "Ninguém Sabe" (2004), do conterrâneo Hirokazu Koreeda, mas é um descendente a ter em conta dessa crónica familiar memorável.

3/5

Cenas da vida conjugal (e de uma gravidez por concretizar)

Disponível na Netflix, "AQUILO QUE MAIS QUERÍAMOS" é a crónica de um casal incapaz de sair de um impasse emocional enquanto não consegue ter filhos. Um drama adulto e a revelação de uma cineasta, a austríaca Ulrike Kofler.

Aquilo que Mais Queríamos.jpg

Representante austríaco na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional, este drama sóbrio é a primeira longa-metragem de uma realizadora que até aqui tinha assinado uma curta e contava com uma experiência considerável na montagem de vários filmes e séries (incluindo a de "O Chão Debaixo dos Pés", cuja autora, Marie Kreutzer, é aqui uma das argumentistas).

Baseado num conto do suíço Peter Stamm, deixa um retrato realista sobre um casal que apesar de várias tentativas para ter um filho, nunca conseguiu - e vê as hipóteses mais distantes depois da frustração acumulada e limitações financeiras. "AQUILO QUE MAIS QUERÍAMOS" não opta por acompanhar os passos sucessivos desse processo e segue antes os protagonistas numa temporada em que saem de Viena rumo a um resort na Sardenha, para umas férias onde equacionam o futuro próximo sem a pressão da rotina urbana. Mas a estadia acaba por ser pouco idílica quando a aproximação a um casal vizinho, com dois filhos, insiste em lembrá-los do que querem esquecer.

Relato contido e envolvente, esta é uma primeira obra que mostra uma voz que sabe como falar de relações humanas e das conjugais em particular, com uma sensibilidade e ambiguidade que se mantêm na entrega do elenco: Elyas M'Barek (actor principal do também recente "O Caso Collini") e Lavinia Wilson (que participou nas séries "Alemanha 86" e "Alemanha 89") compõem um par verosímil e o olhar dela, pensativo e magoado, está no centro de algumas das cenas mais fortes - e às quais a realizadora dá tempo e espaço, numa atmosfera de melancolia veraneante.

"AQUILO QUE MAIS QUERÍAMOS" só força a nota na recta final, quando uma guinada (melo)dramática relacionada com as personagens secundárias quase eclipsa o dilema dos protagonistas, sem que o filme saia a ganhar com a troca. O drama de câmara do casal era suficientemente interessante por si só - e na maior parte do tempo Kofler faz-lhe justiça, apesar de tudo.

3/5

Confinados, mas não derrotados

"SWEET HOME", uma das novas séries sul-coreanas da Netflix, traz uma visão especialmente negra da experiência de um confinamento, cruzando terror e ficção científica de forma tão inesperada como inspirada - apesar de partir de premissas familiares. Imperdível para quem gosta do género (e recomendável mesmo para quem não gosta assim tanto).

Sweet Home.jpeg

Ainda a recuperar da morte dos pais e da irmã num acidente automóvel, Cha Hyun-su, um adolescente de Seul e protagonista de "SWEET HOME", é obrigado a encarar outra situação-limite quando a capital da Coreia do Sul começa a ser atormentada por criaturas bizarras. E o cenário complica-se quando o adolescente se junta à lista de infectados que se vão transformando em monstros aos poucos, o que faz dele uma figura temida pelos vizinhos num prédio que mostra resistência à invasão através da colaboração gradual entre os moradores.

Baseada na BD online homónima de Kim Kan-bi e Hwang Young-chan, editada desde 2017, a nova série sul-coreana disponível na Netflix é tão ou mais devedora de influências que vão da literatura ao cinema ou televisão, ao propor um derivado da mitologia dos zombies, de histórias de contaminações letais ou dos códigos do filme de cerco. E embora esse território tenha sido amplamente percorrido no pequeno ecrã nos últimos tempos - basta pensarmos em "The Walking Dead" e nas doses de mais do mesmo dos seus spin-offs -, "SWEET HOME" sobressai ao desenhar um universo personalizado, empolgante e muitas vezes inventivo (sobretudo na morfologia e tipos de ameaça das criaturas, que ao contrário dos mortos-vivos, são todas bem diferentes entre si).

Sweet Home 2.jpg

Aproximando-se da claustrofobia sugerida por "O Nevoeiro", de Stephen King, das visões pós-apocalípticas de George Romero ou do pânico de um jovem confinado do igualmente recente "#Alive", do conterrâneo Jo Il-hyeong (também disponível na Netflix), a série dirigida por Lee Eung-bok, Jang Young-woo e Park So-hyun sai-se bem a moldar a atmosfera com tanto de entreajuda como de desconfiança, acompanhando vizinhos obrigados a colaborar para sobreviver enquanto tentam gerir a convivência com o protagonista - autêntica bomba-relógio que tanto pode revelar-se o seu maior aliado como um atalho para o fim. Mérito de uma escrita capaz de dar tempo e voz própria às dezenas de personagens em jogo, todas tratadas como gente de corpo inteiro em vez de carne para canhão - mesmo quando o argumento  acelera na onda de tragédia na recta final destes dez episódios. E mérito, também, de um elenco que confere espessura a várias figuras memoráveis, de uma aspirante a bailarina insolente a um espadachim que insiste em seguir os valores do catolicismo no meio do caos, de mães que tentam manter a sanidade durante o luto dos filhos a um homem circunspecto que faz justiça pelas próprias mãos ou um líder estratega que procura conciliar razão e coração.

"SWEET HOME" é tão bom a desenvolver essas relações que a vertente íntima e dramática acaba por gerar a maioria das suas melhores cenas (e as mais comoventes), entre os momentos de descompressão de várias ameaças. E é admirável como se mostra capaz de conjugar essas sequências (que além da perda, são marcadas por casos de violência doméstica ou de abuso sexual) com a crueza gore de outras ou descargas de adrenalina ou suspense que obrigam a mudanças bruscas de tom, sem que a coesão narrativa esmoreça.

Sweet Home 3.jpg

Essa desenvoltura lembra a de filmes do conterrâneo Bong Joon-ho ("The Host - A Criatura", "Parasitas"), acessos de humor negro incluídos (não deixa de haver muitas situações hilariantes), embora a série mostre as costuras do orçamento nos efeitos digitais utilizados para dar vida a algumas criaturas - com o cenário a escorregar para o de um videojogo pouco convincente. Mesmo que não durem muito, esses momentos mais explosivos são, de longe, os menos entusiasmantes de uma saga que também sairia a ganhar sem uma canção-título a temperar tantas sequências - e a cortar a tensão de algumas. Mas nem estes beliscões pontuais impedem "SWEET HOME" de se manter num patamar habitualmente elevado de rasgo criativo, agilidade narrativa ou envolvimento emocional. Pode estar aqui uma das novas propostas de binge-watching mais viciantes em tempos de serões confinados - e felizmente menos atormentados do que os de Cha Hyun-su e seus vizinhos.

4/5

Alice já não mora aqui

Arranque muito inspirado, o da nova aposta da Apple TV+. "LOSING ALICE" é a mais recente série israelita do serviço de streaming e traz um olhar perspicaz sobre uma realizadora assombrada pela crise de meia-idade e a frustração criativa. Mas em vez de um drama pesadão, os primeiros episódios moldam um thriller psicológico hipnótico.

Losing_Alice.jpg

Alice parece ter tudo o que muitos passam uma vida a pedir. Uma carreira aclamada enquanto cineasta, um marido dedicado e igualmente respeitado pelo percurso como actor, três filhas adoráveis e uma casa luxuosa que também é um feito arquitectónico (as paredes transparentes são todo um programa e fazem brilhar a direcção artística da série enquanto servem o argumento).

Mas tudo isso ainda não parece ser suficiente, ou então talvez até seja demais, sobretudo quando a protagonista de "LOSING ALICE" conhece Sophie, uma jovem e desprendida argumentista com uma rotina menos pacata e metódica. A genialidade e arrojo praticamente consensuais desse novo talento lembram-na de outros dias, muito antes de o conforto familiar e a veterania desinspirada terem conduzido a um quotidiano repetitivo. E de uma relação de admiração mútua que junta percursos profissionais começa a nascer uma dinâmica revigorante, ainda que assente num modelo de sedução e manipulação progressivas.

Losing_Alice_Photo_010204.jpg

Retrato do universo feminino criado por uma mulher, Sigal Avin, que assume as funções de argumentista e realizadora depois de uma experiência considerável no pequeno ecrã, "LOSING ALICE" demarca-se de grande parte das séries israelitas que têm concentrado atenções fora de portas nos últimos anos. Estamos longe dos ambientes policiais e militares de "Fauda", "Valley of Tears", "Our Boys" ou "Tehran" (esta também uma aposta da Apple TV+), e mesmo que os moldes do thriller ganhem terreno no que começa como um drama familiar, Avin opta por um olhar mais contido e introspectivo. Mas que não deixa de ser provocador q.b., ao desconstruir, com algum sentido lúdico, os códigos de histórias obsessivas e vincadas por um crescendo de erotismo.

À medida que tenta agarrar o fulgor de uma segunda juventude, a protagonista entra numa espiral de desejo e morte que promete acentuar-se, embora só seja sugerida nos três primeiros episódios - estreados na Apple TV+ na passada sexta-feira, depois de a temporada ter sido emitida pelo canal israelita Hot 3 em 2020.

Losing_Alice_Photo_010202.jpg

O rastilho para a auto-destruição, no qual o real, o ficcional e o ilusório se confundem, surge ao lado de um mergulho nos bastidores do cinema e da criação artística, a deixar no ar eventuais influências da obra de David Lynch "(Mulholland Drive" em particular) ou François Ozon. As camadas narrativas, com saltos temporais e história(s) dentro da história incluídas, reforçam essa aproximação, que pode alargar-se ao mais adocicado "Tully", de Jason Reitman. E a tensão que se vai gerando entre as protagonistas também lembra a de "Killing Eve", caso essa série trocasse o espalhafato pelo realismo.

Ayelet Zurer, actriz que participou em "Demolidor" ou "Homem de Aço", é brilhante na pele de uma mulher a tentar recuperar as rédeas da sua vida e Lihi Kornowski também convence ao encarnar a instigadora Sophie. Avin valoriza as suas interpretações numa narrativa paciente e intrigante, mais interessada na ambiguidade do que na reviravolta gratuita, enquanto Kate Bush se destaca na banda sonora, com "Hounds of Love" a ter acompanhamento visual perfeito na atmosfera turva e magnética desenhada pela realizadora. Esperemos que, ao contrário de Alice, Avin não se perca no caminho dos próximos cinco episódios...

Os três primeiros episódios de "LOSING ALICE" estão disponíveis na Apple TV+ desde 22 de Janeiro. A plataforma de streaming estreia um episódio todas as sextas-feiras.