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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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A estranha em mim

Entre o drama adolescente, o thriller psicológico e o mistério sobrenatural, "THELMA" nasce do cruzamento de territórios sem nunca optar por um, mas também nem precisa: o novo filme de Joachim Trier revela-se mais intrigante quanto mais vai diluindo géneros e fronteiras.

 

thelma

 

Revelado internacionalmente ao segundo filme, "Oslo, 31 de Agosto" (2011), ao qual se seguiu o menos consensual, mas ainda assim bem interessante "Ensurdecedor" (2015), Joachim Trier tem-se mantido um cineasta confiável enquanto vai deixando olhares íntimos e personalizados sobre a solidão, a entrada na idade adulta ou a falta de comunicação, temáticas habituais nos seus estudos de personagem meditativos e claustrofóbicos q.b..

 

"THELMA" não é excepção, embora marque uma viragem no percurso do realizador norueguês ao se desviar para o cinema de género, mesmo que à partida mantenha a base realista associada aos seus filmes. Há até quem descreva esta quarta longa-metragem como uma incursão "nórdica" pelas aventuras de super-heróis, ainda que Trier não chegue a ir tão longe. Sim, há por aqui semelhanças ocasionais com "O Protegido", de M. Night Shyalaman, que também já tentava contornar lugares comuns desse filão, mas as capacidades especiais da protagonista nunca chegam a dominar tanto a acção como noutras abordagens a esse universo.

 

thelma 2

 

O resultado não destoará ao lado do recente "A Lua de Júpiter", de Kornél Mundruczó, outra conjugação de superpoderes num contexto realista, apesar de uma das heranças óbvias de "THELMA" ser "Carrie", de Brian De Palma, já que ambos acompanham o terror quotidiano de uma adolescente oriunda de uma família religiosa e conservadora (neste caso, com o controlo atento de pais protestantes) cuja conduta impoluta é repentinamente atormentada pelo despontar da sexualidade.

 

Para a jovem (anti-)heroína de Trier, estudante da universidade de Oslo que cresceu no interior, a entrada na idade adulta é especialmente tensa quando surge associada a uma relação demasiado próxima com uma colega. E o descontrolo sentimental, vincado por um braço de ferro entre a repressão e a entrega, tem reflexos nas capacidades sobrenaturais que entretanto começam a tornar-se mais evidentes.

 

Além deste caos emocional, que toma de assalto um dia-a-dia até então equilibrado, ainda que fechado em si mesmo, Thelma tem de lidar com as perguntas que se vão acumulando sobre o seu passado e as suas origens familiares, obrigando-a a questionar a relação respeitosa com os pais. E aqui o filme arranja forma de juntar uma investigação quase detectivesca ao que era uma tapeçaria formal já de si ecléctica.

 

Thelma 3

 

Felizmente, Trier consegue garantir que "THELMA" não resulte num agregado de pontas soltas e faz com que a jornada de auto-descoberta da protagonista seja uma aventura envolvente e até comovente, apesar de um olhar tão distanciado (mas não frio) como nos seus filmes anteriores. Mais uma vez, mostra-se também um director de actores sem falhas, com destaque para uma Eili Harboe convincentemente desamparada e desnorteada no papel principal. E continua a fazer da contenção o seu maior trunfo: veja-se como menos pode ser mais nas cenas em que as capacidades especiais de Thelma conduzem os acontecimentos, com a elegância e minimalismo a imporem-se à pirotecnia (a sequência durante uma ópera, por exemplo, é uma masterclass de atmosfera e suspense).

 

A banda sonora do conterrâneo (e cúmplice habitual) Ola Fløttum, serena e nunca intrusiva, ajuda a moldar este universo particular que só se torna menos fascinante no terceiro acto, quando o filme começa a acusar a duração (talvez não precisasse de quase duas horas) e deixa algumas sequências arrastarem-se (sobretudo as que insistem em levar o espectador questionar, demasiadas vezes, se são oníricas ou não). Mas se alguma modorra narrativa e redundância do argumento comprometem parte do entusiasmo, "THELMA" continua a ter lugar cativo entre as boas surpresas da rentrée - e Joachim Trier entre os novos realizadores europeus a manter debaixo de olho.

 

3,5/5