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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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A fúria do dragão e o travo a desilusão

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Nota: texto com spoilers de "A Guerra dos Tronos" (T8E5)

 

E de repente, parece que estamos a ver uma versão alternativa (e muito esbatida) de "A GUERRA DOS TRONOS"... daquelas que não andam longe das teorias de alguns fãs. Tem sido esta a sensação deixada pela oitava e última temporada da série da HBO - e que o quinto episódio veio, infelizmente, reforçar.

 

A construção de personagens meticulosa e exigente, estabelecida pelos livros de George R. R. Martin e em boa parte mantida durante a maioria dos capítulos da série, parece ter ficado para trás para dar prioridade a um inventário de eventos, com os protagonistas quase todos tornados meros peões de um tabuleiro cujo jogo perdeu a graça. 

 

Esse avanço mecânico foi especialmente notório em "The Bells", por muito que as acções de Daenerys Targaryen tenham incendiado as redes sociais. O problema nem foi tanto a mudança de postura da Mãe dos Dragões, já sugerida em acontecimentos anteriores, mas a forma apressada como este episódio a colocou em marcha (sem direito a especiais nuances trabalhadas pelos mais recentes). E mesmo com um desenvolvimento mais complexo, a decisão de "Khaleesi" chegar ao ponto de assassinar inocentes (e particularmente crianças) em massa seria sempre pouco compatível com o percurso da personagem.

 

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Essa viragem não teria sido tão grave caso se tratasse de um equívoco isolado, mas o argumento também não ajudou noutros arcos. A despedida de Varys nem conseguiu ser morna e resultou de uma quebra de calculismo e subtileza do conselheiro que também tem afectado Tyrion Lannister de forma penosa. De repente, parecem ambos tão ingénuos como Jon Snow, mesmo que a passividade deste tenha atingido máximos históricos (ao ponto de nem sequer tentar qualquer pedido de clemência à sua rainha - com a qual continua a não ter química - quanto ao destino de Varys).

 

Menos sorte teve Euron Greyjoy, figura que arrancou como versão abonecada do já de si caricatural Jack Sparrow para morrer sem qualquer tipo de progressão. O combate com Jaime Lannister fica entre os momentos mais ridículos (e ridiculamente convenientes) de um episódio que também apostou na violência extrema no encontro entre Cão e Montanha - muito aguardado pelos fãs e com um desfecho que terá surpreendido poucos.

 

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Mais imprevisível, apesar de tudo, foi o modo como a série se despediu de Cersei Lannister, concedendo-lhe uma fragilidade que tinha andado ausente nos últimos episódios. E até acabou por ser dos momentos mais aceitáveis de "The Bells", muito por culpa do empenho de Lena Headey, embora tenha ficado aquém do grande final que esta personagem e esta actriz mereciam.

 

Também mais frágil do que nunca, Arya Stark deixou de ser um símbolo de vingança ou heroísmo e teve de se contentar com o estatuto de sobrevivente. Tendo em conta o panorama geral, já não é nada pouco, ainda que a adesão tão repentina ao pedido emotivo de Cão (com direito a agradecimento e tudo) tenha vincado outro momento que desafiou a suspensão da descrença. Mesmo assim, foi a única personagem que ganhou alguma coisa num episódio dominado pela perda, com a câmara de Miguel Sapochnik a olhar de frente para o terror da guerra. Nada a apontar ao cenário de barbárie desenhado pelo realizador britânico, mas é pena que a construção dramática nunca se tenha mostrado tão robusta.

 

 

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