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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A loucura deles tem trilha sonora (e o Carnaval também)

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Numa altura em que a pandemia afecta e geralmente impede todo o tipo de celebrações, o Carnaval não foge à regra. Mas há quem procure alternativas para não deixar passar a data em branco. É o caso dos NOPORN, dupla brasileira que fez questão de assinalar uma das tradições mais expressivas do seu país através de três showcases online gratuitos, nas noites de 13, 14 e 15 de Fevereiro, a partir da sua conta do Youtube.

Em cada actuação caseira, a vocalista Liana Padilha e o produtor Lucas Freire propõem alinhamentos e cenografias diferentes enquanto revisitam um percurso iniciado em 2002. A primeira noite passou pelo álbum de estreia homónimo, editado em 2006, a segunda centrou-se no sucessor, "BOCA", de 2016, e a terceira vai dedicar-se a singles e música feita para outros contextos, como campanhas de moda.

"A minha loucura tem trilha sonora", diz Padilha em "Xingu", um dos primeiros temas do duo inicialmente formado com Luca Lauri (que entretanto se afastou das actuações mas continua como curador musical do projecto). E em versos como esse ia revelando o que esperar dos NOPORN, que começaram por dar eco musical e poético a noites loucas e longas em São Paulo.

Num registo mais falado do que cantado, a vocalista narrou histórias de amor e sexo gráficas e explícitas q.b. sem que o resultado soasse a um esforço de provocação gratuito, deixando também um olhar bem humorado sobre cenários e comportamentos em temas como "Maiô da Mulher Maravilha" ou o single 'clássico' "Baile de Peruas" - os títulos não enganaram. Cinco anos depois do segundo álbum, a proposta mantém-se, apesar de já não poder inspirar-se num circuito nocturno boémio e estonteante - sintomas de um mundo pós-COVID-19. Mas continua a haver espaço para a reflexão sentimental e sexual num terceiro disco a editar este semestre e que promete olhar para a monogamia, a violência, o ciúme, a posse ou o sexo digital. "Escolhemos começar no Carnaval, porque o Carnaval é fervo, é sobre corpos, liberdade. E essa é a nossa massa", explica Padilha nas redes sociais.

Apesar de brasileiro, musicalmente o Carnaval dos NOPORN deve mais à electrónica do que ao samba, com uma linguagem mestiça entre synth-pop, house, techno, pós-punk, descendências do electroclash ou mesmo acessos EBM (sobretudo nas versões das canções ao vivo, com um apelo rítmico atiçado pela percussão de Lucas Freire).

Se Rita Lee é apontada como referência identitária, pelo sentido de liberdade feminina da qual foi voz precursora e transgressora, temas como "Dois", "Preferia Nunca" ou "Tanto" estão mais próximos do frenesim tropical de conterrâneos como Letrux e Tetine (com quem o duo colaborou em "Fumaça") ou, fora de portas, com o embalo sintético e noctívago de Miss Kittin, dos Vive La Fête e até dos portugueses Micro Audio Waves. Música de e para quem se atreve a "misturar chantily e desespero" correndo o risco de "explodir de curiosidade", como atira Padilha no crescendo cacofónico de "Sonia", outra das canções a ouvir no alinhamento deste Carnaval improvisado: