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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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A mãe é que sabe

De longe o projecto de Ridley Scott mais entusiasmante em décadas enquanto realizador, "RAISED BY WOLVES" é uma das grandes novidades televisivas da rentrée. A primeira temporada já estreou na HBO Portugal e propõe um retrato da maternidade a partir da ficção científica.

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Embora Ridley Scott tenha tido um percurso regular no pequeno ecrã nos últimos anos como produtor executivo, é preciso recuarmos até à década de 60 para o vermos no papel de realizador na televisão - quando dirigiu episódios de "The Informer" ou "Adam Adamant Lives!". Ou assim era até há muito pouco tempo, porque os dois primeiros capítulos de "RAISED BY WOLVES", uma das novas apostas da HBO Portugal, são realizados pelo britânico, que também está entre os nomes da produção executiva. E é um regresso a louvar: independentemente do que se seguir nesta saga, o arranque é facilmente o melhor que o autor de "Alien - O 8.º Passageiro" e "Blade Runner: Perigo Iminente" fez desde os dias de... "Alien - O 8.º Passageiro" e "Blade Runner: Perigo Iminente". Exagero? Não para quem considera que a sua filmografia nunca chegou a cumprir a promessa dos primeiros dias, apesar de Scott já ter regressado ao sítio onde foi feliz mais de uma vez, do frustrante "Prometheus" ao fraquíssimo "Alien: Covenant".

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Criada pelo norte-americano Aaron Guzikowski (argumentista de "Raptadas", de Denis Villeneuve, e showrunner da série "The Red Road"), "RAISED BY WOLVES" decorre num contexto pós-apocalíptico, seguindo dois andróides num planeta distante após a Terra ter sido destruída. Os protagonistas, Pai e Mãe, acompanham o crescimento de um pequeno grupo de crianças humanas, mas a tragédia não demora a atraiçoar esta família de contornos singulares. E a série também não tarda a colocar em jogo temas-chave das obras mais influentes de Scott, das muitas questões levantadas pela inteligência artificial ao conflito entre religião e ciência.

Ao longo dos três primeiros episódios (os únicos estreados até agora, na passada sexta-feira), o argumento passa ainda por um olhar sobre a colonização e o controlo, os contrastes entre o maquinal e o humano e a natureza da maternidade e paternidade, através do percurso de dois casais de faces opostas do conflito.

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Sem obrigar o espectador a escolher um dos lados da disputa que se vai adensando, "RAISED BY WOLVES" mostra-se uma proposta de ficção científica menos simplista do que outras que Scott já ofereceu enquanto deixa uma protagonista feminina que honra a herança de Ripley: Mãe, a andróide que leva o seu nome à letra, custe o que custar e a quem custar. É ela o motor narrativo e emocional deste início, e em especial de um primeiro episódio que salta de uma atmosfera densa e intrigante para um remate desvairado sem fazer prisioneiros.

A construção deste mundo é coesa e envolvente, apesar das muitas comparações inevitáveis, a realização e direcção artística estão à altura e Amanda Collin é perfeita no papel de matriarca obstinada. Abubakar Salim, como Pai, é outra escolha feliz de um elenco que conta ainda com Travis "Vikings" Fimmel e Niamh Algar na pele do outro casal desta história. Se os restantes quatro episódios confirmarem a solidez e os rasgos ocasionais dos três primeiros (a primeira temporada tem apenas sete), pode estar aqui uma série a juntar a "Humans" e "The Expanse" na lista de ficção científica imperdível nascida no pequeno ecrã nos últimos tempos.

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