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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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A mulher invisível

O dia a dia de uma empregada de um hotel de luxo inspira uma das revelações do cinema mexicano dos últimos anos. "A CAMAREIRA", primeira aventura cinematográfica da actriz e dramaturga Lila Avilés, é uma pequena pérola de contenção a descobrir.

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As primeiras impressões contam e a estreia de Lila Avilés na realização arranca logo com uma das cenas mais insólitas do ano, quando a protagonista descobre um cliente num emaranhado de lençóis no quarto de um hotel da Cidade do México onde trabalha como empregada de limpeza. É quanto basta para despertar o interesse pelo olhar de uma autora que adapta aqui uma das suas peças, sem que "A CAMAREIRA" alguma vez se aproxime das limitações do teatro filmado - apesar de nunca sair do mesmo edifício.

Se o contacto inicial pode sugerir aproximações ao também recente e conterrâneo "Roma" (2018), a câmara da mexicana recusa a faceta ostensiva da de Alfonso Cuarón, optando por uma escala minimalista que resulta a favor de um estudo de personagem mais intrigante - que não só poupa nos sublinhados sociológicos como acompanha uma mulher menos passiva do que a protagonista desse filme. 

"Que Horas Ela Volta?" (2018), da brasileira Anna Muylaert, será outro eventual ponto de contacto, embora "A CAMAREIRA" prefira um realismo às vezes quase documental à dramaturgia novelesca ao seguir uma jovem mãe solteira, Eve (Gabriela Cartol, sempre credível), que o espectador apenas vê a falar com o filho por telefone. Aliás, todas as figuras mais próximas desta empregada de hotel estão ausentes da acção, num retrato de confinamento laboral que desenha um microcosmos mecanizado e cinzento (literalmente, em algumas sequências).

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Avilés oferece aqui um drama de câmara tão discreto e esmerado como a sua protagonista, e igualmente atento aos detalhes. Enquanto a personagem principal se vai surpreendendo com os objectos que encontra nos quartos a seu cargo, a realizadora tem a mesma curiosidade respeitosa pelas pessoas e cenários em que se move. Um humanismo que surge associado a uma precisão formal ancorada em planos fixos e longos, com um recurso nunca casual à câmara à mão. E com um sentido de espaço invulgar numa primeira obra, reforçado pela montagem de som de Guido Berenblum, colaborador da argentina Lucrecia Martel ("O Pântano"), a tornar a experiência mais imersiva.

Com a esfera pessoal e profissional tão interligadas, a jornada de Eve não pode dissociar-se do conflito de classes, especialmente nos contrastes com o estilo de vida, postura e preocupações dos clientes do hotel - invariavelmente a sujeitarem a protagonista à indiferença e condescendência, no seu melhor, e à pura desconsideração, no seu pior. A acumulação de micro-agressões, de resto também veiculada pela chefia e alguns colegas da personagem principal, faz de  "A CAMAREIRA" um relato conseguido do desespero em surdina vivido por alguém sujeito à precariedade e exploração laboral e sem poder contar com a meritocracia.

Mas apesar da denúncia da injustiça e do silenciamento, Avilés não cai na vitimização nem num relato plano e determinista. Por um lado, faz conviver a monotonia frustrante com um humor seco, através de alguns imprevistos num sistema estandardizado. Por outro, vai documentando a resiliência de Eve e a busca de uma individualidade que a distinga de mais uma peça na engrenagem, seja a retoma dos estudos ou a (re)descoberta dos prazeres do sexo e sobretudo da leitura, esta uma via de afirmação e escapismo encoraja pelo professor. O final, em aberto, também rompe com essa atmosfera sufocante, sem propor soluções fáceis nem cair no derrotismo. E deixa Lila Avilés na lista de novas cineastas a seguir com atenção, numa altura em que já prepara o segundo filme, de contornos autobiográficos.

3,5/5

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