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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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A sangue frio

Comandado por uma Chloë Sevigny magnética e sem travão numa espiral de revolta, "A VINGANÇA DE LIZZIE BORDEN" não é só mais um drama de época a acompanhar uma mulher enclausurada. Mérito da actriz e de Craig William Macneill, realizador que transforma esta história verídica numa experiência agreste e sufocante.

 

LIZZIE

 

Chloë Sevigny confessou não ter ficado completamente satisfeita com esta adaptação de um caso verídico (já muitas vezes ficionado do outro lado do Atlântico) que foi o seu projecto de sonho durante os últimos anos - e do qual é actriz principal e produtora. Mas mesmo que algumas opções do realizador tenham colidido com as suas (incluindo várias sequências cortadas pelo caminho), o resultado está longe de a envergonhar.

 

A história trágica que abalou Massachusetts e os EUA em finais do século XIX, onde uma mulher da alta sociedade terá assassinado o pai e a madrasta (embora não tenha chegado a ser condenada), é retratada com um sentido atmosférico singular num biopic que junta traços de um drama a caminho do gótico, do thriller psicológico ou mesmo de sugestões de terror, evitando a familiaridade de tantos outros filmes de época baseados em episódios reais (e até pode ser visto, em parte, como um sucessor estimável do algo esquecido "Amizade sem Limites", de Peter Jackson).

 

Lizzie 2

 

Craig William Macneill (na sua segunda longa-metragem, depois de "The Boy", de 2015) não chega a escapar de alguma modorra narrativa, mas compensa através de uma câmara com um sentido de espaço evidente, que sabe tirar partido dos vários recantos da casa onde decorre quase toda a acção. Essa vertente sensorial sai reforçada pela fotografia de tons sépia de Noah Greenberg e de um trabalho de iluminação minucioso, que às vezes recorre apenas a velas e prova que menos pode ser mais.

 

A banda sonora de Jeff Russo também ajuda a desenhar este minimalismo com qualquer coisa de enigmático (ainda que conduza a um desfecho inevitável e já conhecido), com a música a complementar a tensão das imagens em vez de ser uma presença demasiado gratuita e sublinhada.

 

Entre uma direcção de actores igualmente segura, Sevigny tem o desempenho mais exigente e memorável, nunca atirando a protagonista para o estereótipo de vítima nem de vingadora e dando conta de um turbilhão emocional sem ceder à histeria. A câmara de Macneill consegue captar a insolência e ressentimento do seu olhar, elevando uma interpretação tão imponente como estranhamente arredada dos holofotes nesta temporada de nomeações (só as sequências dos homicídios, das mais cruas do filme, deveriam seriam suficientes para despertar atenções).

 

Lizzie 3

 

Kristen Stewart, na pele de empregada da família sujeita a ainda mais humilhações do que a protagonista (com a qual forma um par amoroso mais ficcionado do que comprovado), também convence numa personagem contida e vulnerável, e é bom vê-la continuar a procurar papéis desafiantes.

 

Com a presença masculina mais forte, Denis O'Hare compõe um patriarca apropriadamente altivo e ocasionalmente odioso, sem ser promovido a vilão de serviço num filme onde não há heróis. Nem há heroínas, aliás, já que o argumento alude a questões de empoderamento feminino (aliando ainda a luta de classes à de género) sem forçar a nota nem branquear a conduta das mulheres que conduzem esta história - uma lição que outros filmes da produção recente de Hollywood bem poderiam aprender...

 

3/5