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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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A vida de Isabelle

 

"Jovem e Bela" tem sido habitualmente rotulado como um update de "A Bela de Dia", de Buñuel, sobretudo por se centrar num caso de prostituição em ambiente burguês. A aproximação fará sentido, mas este drama de François Ozon também deve tanto (talvez até mais) a "Aos Nossos Amores", de Maurice Pialat, que chocou meia França, há trinta anos, ao explorar a ávida iniciação sexual de uma adolescente.

 

Ozon assume a influência, confessa a admiração pela actriz-revelação desse filme, Sandrine Bonnaire, e talvez por isso tenha apostado tanto em Marine Vacth, a tal "jovem e bela" (e até aqui desconhecida) que leva a sua nova obra às costas sem parecer esforçar-se muito.

A interpretação da protagonista, a desenhar com subtileza uma personagem esquiva e opaca como Isabelle, é, de resto, a maior surpresa de um filme incapaz de se medir com o nervo das inspirações. Admita-se que o realizador francês também não parece estar muito interessado nisso, mas se por um lado é bom ver um olhar sobre a prostituição de uma adolescente filmado com elegância, imune quer a moralismos quer a efeitos de choque, sente-se falta de alguma singularidade neste retrato.

 

 

Depois da desconstrução lúdica e engenhosa de "Dentro de Casa", "Jovem e Bela" opta por uma linearidade com o rigor e inteligência esperados de Ozon, embora não desvie a acção para cenários muito distantes daqueles resumidos no trailer (demasiado revelador, já agora) ou expectáveis tendo em conta a premissa.

 

A divisão da narrativa em quatro capítulos, que acompanham as estações do ano e são condimentados com canções de Françoise Hardy, é mais eficaz do que brilhante, o que não invalida que o último segmento seja especialmente conseguido por fugir ao rumo "normalizador" sugerido pelo anterior. E ao não trair a natureza de Isabelle, protagonista complexa a desfazer o rótulo de "prostituta adolescente", Ozon garante que esta ainda é uma obra merecedora de atenção - "Jovem e Bela", pois sim, mesmo que a abordagem ganhasse em juntar carne a um esquematismo tão pele e osso.

 

 

 

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