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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A vida deles

 

"Anni Felici" fecha a trilogia de Daniele Luchetti dedicada à família depois de "O Meu Irmão é Filho Único" (2007) e "A Nossa Vida" (2010). Infelizmente, não a encerra da forma mais entusiasmante, sobretudo quando o primeiro filme era tão promissor e o segundo, que repescou Elio Germano e lhe deu um papel ainda mais forte, estará entre os dramas obrigatórios dos últimos anos.

 

Em vez da relação cada vez mais distante entre dois irmãos ou do quotidiano difícil de um jovem pai viúvo, aqui o realizador italiano acompanha um casal e os seus dois filhos em meados dos anos 70. Mas não é um casal qualquer, já que Luchetti tem apontado "Anni Felici" como o filme mais autobiográfico da trilogia e admite que a personagem do filho mais velho, cuja paixão pelo cinema se intensifica durante umas férias de Verão, é directamente inspirada nas suas experiências durante a infância (e até narra o filme em off).

 

Esta partilha de memórias, mais ou menos ficcionadas, fica no entanto aquém do que se esperava quando a combinação de drama e comédia é mais atabalhoada do que certeira, nunca se aproximando do peso emocional dos títulos antecessores nem deixando grandes contributos para a commedia all'italiana (por muito que aposte na histeria como sintoma do caos familiar).

 

 

Não falta profissionalismo na reconstituição de época, mas as personagens parecem ficar presas a alguns temas fracturantes da Itália de então. Se Kim Rossi Stuart demora a conseguir libertar-se da caricatura de artista plástico presunçoso, Micaela Ramazzotti mostra outra força na pele de esposa, mãe e dona de casa desesperada. A nível interpretativo, o filme é dela, ainda que o argumento comprometa uma personagem de corpo inteiro - a certa altura, o retrato dos movimentos feministas impõe-se ao desenvolvimento da sua história. E falando em corpo, é algo irónico (e demasiado conservador) que um filme supostamente tão liberal não hesite em mostrar nudez frontal feminina enquanto recusa a masculina (seria igualmente justificável, uma vez não são só as mulheres que se despem por aqui).

 

Mas o pior é que, tirando a nudez e algumas discussões sobre os limites da arte, "Anni Felici" anda perigosamente próximo da ligeireza de um filme para toda a família. Um acontecimento dramático, revisitado na sequência final, destaca-se como o exemplo mais gritante, ao ser abordado com uma superficialidade quase anedótica que não combina com as tentativas de realismo - por vezes conseguidas - de outros momentos. Compreende-se que o olhar do narrador seja adolescente, mas era legítimo contar com outra maturidade do realizador...

 

 

 

"Anni Felici" é um dos filmes da sétima edição da 8 ½ - Festa do Cinema Italiano, a decorrer até 18 de Maio.