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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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A vingança do nerd

Melhor episódio piloto dos últimos tempos? Muito provavelmente o de "MR. ROBOT", que deixa uma óptima primeira impressão apesar de não conseguir disfarçar - nem sequer tentar, aliás - a pilhagem do universo de David Fincher.

 

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A nova aposta do USA Network, séria candidata a fenómeno de culto renovada para uma segunda temporada no dia da estreia televisiva, na passada quarta-feira (depois de o canal ter disponibilizado o primeiro capítulo online quase um mês antes), tem já lugar cativo entre as surpresas do ano. Porque mesmo que os episódios seguintes não estejam à altura, o arranque serve uma hora da melhor televisão recente, experiência ainda mais inesperada quando tem a assinatura de um realizador com um currículo breve e discreto.

 

Sam Esmail, autor do promissor "Cometa", desconstrução da comédia romântica com uma tímida passagem pelas salas nacionais este ano, parece querer ir bem mais longe como criador e argumentista no pequeno ecrã. Entre piscadelas de olho a "Clube de Combate", "A Rede Social" ou "Matrix", o norte-americano combina aqui drama e thriller numa série que, à imagem desses filmes, capta como poucas o ar dos tempos e sabe conjugar estilo e substância.

 

Mas o mérito de "MR. ROBOT" não se deve só ao seu autor. Rami Malek, jovem actor pouco conhecido, é tão ou mais decisivo para que o episódio piloto funcione. Apesar de contar com vários papéis nos últimos dez anos, sobretudo como secundário, será justo dizer que esta é a sua verdadeira revelação, na pele de uma das personagens mais magnéticas do momento. Elliot Alderson, que passa despercebido como programador de uma empresa de segurança cibernética de Nova Iorque, é também um hacker de topo que troca a vida social por um papel de vigilante online, seja para denunciar pedófilos ou identificar más companhias daqueles que lhe são próximos (não que sejam muitos, dado o seu comportamento nas fronteiras do socialmente aceite).

 

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O que noutros casos podia ser reduzido a um estereótipo geek, com direito a tiques e afectações, resulta aqui num protagonista complexo e tridimensional, sem modelos muito próximos, graças à postura circunspecta mas sarcástica e empática de Malek e a um argumento cujas teorias da conspiração não se impõem ao estudo de personagem. Admita-se, aliás, que a viagem aos meandros do mundo tecnológico e empresarial, assombrada por um clima de desconfiança, paranóia e alienação em relação ao sistema, está longe de ser original. Mas o misto de obstinação e vulnerabilidade do (anti-)herói de "MR. ROBOT" e uma narrativa que nunca perde ritmo enquanto passa por vários registos - há tensão e suspense ao lado de humor perfeitamente integrado - concede-lhe uma energia invulgar e muito promissora.

 

Falou-se acima de David Fincher e é curioso notar que quem realiza este primeiro episódio é o dinamarquês Niels Arden Oplev, responsável pela versão original de "The Girl with the Dragon Tattoo", adaptada pelo cineasta de "Sete Pecados Mortais". Mais curioso ainda é o facto de a série ter, pelo menos para já, uma urgência que a filmografia de Fincher tem vindo a perder há uns anos. "MR. ROBOT" até se atreve a optar por uma banda sonora que não poderia soar mais à parceria de Trent Reznor e Atticus Ross em filmes como "Em Parte Incerta", mas não é nada que não se desculpe quando a música se adequa tão bem ao misto de realismo e alucinação urbana, mais uma via para nos mergulhar na forma como o protagonista encara o mundo - e as suas certezas deixam muitas dúvidas, ambiguidade que só torna este retrato mais engenhoso.

 

Rami Malek é tão intrigante que ofusca por completo Christian Slater, recuperado como instigador da aliança do protagonista a uma organização secreta cujo verdadeiro propósito deverá originar algumas reviravoltas. Se forem todas como as deste primeiro episódio, o fenómeno está só a começar...

 

 

 

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