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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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As mecânicas da transgressão, 20 anos depois

Mechanical Animals

 

Duas décadas passadas sobre a edição e a controvérsia, a capa do terceiro álbum dos MARILYN MANSON dificilmente chocará alguém. Mas se esta música nunca foi tão transgressora como a imagem, as canções de "MECHANICAL ANIMALS" não perderam o apelo, naquele que ainda é o álbum mais fulgurante da banda.

 

É um homem? É uma mulher? É um alien? Dois anos após ter sido o anticristo mais popular do rock da década de 90, Brian Warner (cujo ater ego deu nome ao grupo) conseguiu não só reinventar-se como chocar ainda mais famílias, comunidades, imprensa e até mesmo fãs - muitos a alinhar de braços abertos no imaginário de subversão religiosa mas nem todos preparados para uma viragem tão desconcertante e (trans)sexualizada.

 

Editado em Setembro de 1998, "MECHANICAL ANIMALS", o terceiro álbum dos MARILYN MANSON, foi mais um portento capaz de alimentar mitos urbanos, desde logo a partir da imagem andrógina do vocalista. Não faltou até quem garantisse que a mudança era resultado de uma cirurgia plástica, um dos vários rumores (alguns bem macabros) que alimentaram o culto e cimentaram o estatuto de lenda viva de Warner.

 

Marilyn Manson 1998

 

Mas a operação cosmética teve, afinal, muito pouco de esotérico e foi antes resultado de uma estratégia desenhada ao pormenor para se disseminar num clima de tensão fim de milénio, assente num imaginário com tanto de futurista como de satírico - e apontado aos excessos e frivolidade da fama ou da alienação através do entretenimento desregrado. Foi, claro, uma visão de futuro com raízes no passado - e influências assumidas da escola de glam de David Bowie, T. Rex ou Queen -, embora com um update inegavelmente pessoal e muito do seu tempo.

 

Capítulo intermédio de uma trilogia que tinha arrancado com "Antichrist Superstar" (1996) e terminaria em "Holy Wood" (2000), "MECHANICAL ANIMALS" é facilmente o mais coeso e versátil dos três e também de toda a discografia do grupo. E a capacidade de transfiguração e captação de atenções de Warner nunca viria a ter uma fase tão apoteótica, com os álbuns seguintes a alternarem entre variações do que se viu e ouviu nos dos anos 90.

 

Se o afastamento de Trent Reznor da produção, depois de um papel essencial nos discos anteriores, foi muito falada na altura, a banda teve aqui o aconselhamento de Billy Corgan - também ele a optar pelo reforço electrónico no mesmo ano, com o muito diferente "Adore" - e chamou para a produção Michael Beinhorn, decisivo para uma sonoridade mais polida, orelhuda e, sim, pop - tendência que o produtor encorajou ainda em "Celebrity Skin", dos Hole, outro dos álbuns obrigatórios de 1998 e também com o mentor dos Smashing Pumpkins entre os cúmplices.

 

Mechanical Animals inlay

 

Os singles "The Dope Show" e sobretudo "I Don't Like the Drugs (But the Drugs Like Me)", acesso funk/gospel irresistível, mostraram uns MARILYN MANSON mais directos e imediatos do que nunca, prontos a propagarem-se por toda a geração MTV em vez de continuarem a insistir no nicho industrial/gótico. Brian Warner confessou-se entediado com essa agressividade fechada em si mesma e atirou-se de cabeça à excentricidade, teatralidade e exuberância, num alinhamento mais ambicioso do que os de discos anteriores.

 

O tom épico e pós-apocalíptico de "Great Big White World" dá o mote para um álbum onde cabe a desolação inesperada de "Disassociative" e "The Speed of Pain", a explosão em forma de hino de "Rock Is Dead", "Posthuman" e "New Model No. 15", a penumbra synthpop da excelente "The Last Day on Earth" ou a marcha fúnebre de "Coma White" (esta a provar que o videoclip foi das ferramentas-chave da fase inicial do grupo, partindo aqui da visão trágica de uma certa família norte-americana).

 

"User Friendly" aplicou o cinismo que percorre o disco aos relacionamentos ("I'm not in love, but I'm gonna fuck you 'til / somebody better comes along"), noutra conjugação aliciante de guitarras e sintetizadores, e "Fundamentally Loathsome" aprofundou o lado crooner de Brian Warner, num dos desvios mais contidos e surpreendentes.

 

Do conjunto, com uma lógica de álbum conceptual, sai a crónica rocambolesca de uma estrela rock alienígena, toxicodependente e sexualmente ambígua - qualquer semelhança com Ziggy Stardust não será pura coincidência - , que chega à Terra para se juntar à banda Mechanical Animals. Se o relato é quase sempre decadente, a polémica e popularidade geraram o último grande triunfo da história dos MARILYN MANSON - e um dos últimos grandes álbuns de rock dos anos 90, apesar de às vezes sufocado pelo ruído à sua volta.