Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Boys meet boys

 

Uma série sobre três amigos gay de São Francisco pode parecer, à partida, terreno fértil para uma colheita de clichés, mas "Looking" tem logo alguns elementos a seu favor. A chancela da HBO não será 100% segura, embora inspire alguma confiança. Já o nome de Andrew Haigh na ficha técnica aumenta a curiosidade, sobretudo quando o britânico acumula funções de realizador, argumentista e produtor executivo (partilhadas com terceiros) do formato criado por Michael Lannan, que repesca aqui personagens da sua curta-metragem "Lorimer".

Afinal, foi da câmara e da escrita de Haigh que surgiu "Weekend", um dos melhores filmes sobre relacionamentos - gay ou não - dos últimos anos, e o primeiro episódio de "Looking" deve bastante à sensibilidade e estética dessa obra. Não se afasta de todos os lugares-comuns e as personagens não são, para já, totalmente imunes a estereótipos, mas a jornada de um jovem e tímido designer de videojogos, de um assistente de artista e do seu companheiro e de um empregado de mesa mais velho arranca com doses equilibradas de empatia, perspicácia e espontaneidade - e com uma realização tão à flor da pele como a desse filme.

Haigh tem rejeitado o rótulo fácil de que a série será uma versão gay de "Girls", outra aposta forte da HBO talvez demasiado hipster e trendy para o seu próprio bem. E por agora, "Looking" é mesmo muito menos cáustica e cínica do que a criação de Lena Dunham, optando por um tom mais doce, precisamente o que o realizador diz querer seguir ao longo destes oito episódios. A autenticidade das ligações entre as personagens, assente numa atenção às pequenas situações do quotidiano - em detrimento de grandes dramas de outras ficções LGBT, da sida ao coming out - é a principal meta do britânico. O sexo não deixa, claro, de estar presente (logo desde a primeira cena, certeira na caracterização do protagonista), mas pela amostra dispensa sequências titilantes na linha de "Queer as Folk" ou "A Letra L". A linguagem de Haigh é outra e "Looking" permite-nos ver até onde poderá ir. Talvez nem dê em relacionamento sério, mas promete mais do que um one night stand...