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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Casados de fresco (numa série refrescante)

As histórias de super-heróis não têm de ser todas iguais. Mas se na banda desenhada isso já era claro, na maioria das adaptações ao cinema e TV a rotina parecia estar instalada. Aplauda-se, então, a estreia de "WANDAVISION", a primeira série da Marvel no Disney+ e das apostas mais refrescantes desse universo nos ecrãs.

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Não há pirotecnia ensurdecedora, não há vilões facilmente identificáveis, não há sequer combates, muito menos batalhas sem fim à vista. Nos dois primeiros episódios da minissérie protagonizada pela Feiticeira Escarlate e o andróide Visão, casal de super-heróis dos Vingadores, há antes a pacatez dos subúrbios norte-americanos captados como nas sitcoms dos anos 50 e 60 - incluindo o formato de imagem 4:3, a fotografia a preto e branco (apesar de algumas intromissões-chave de vermelho) e risos do público a pontuar os supostos gags.

"E agora algo completamente diferente", diziam os Monty Python, e a Marvel parece ter seguido esse princípio em "WANDAVISION"... ou pelo menos no arranque da saga de nove capítulos que marca a primeira de várias estreias do MCU (Universo Cinematográfico Marvel) no Disney+. E assinala também a Fase 4 de um plano interrompido pelos danos colaterais da COVID-19, que levou à ausência de novas aventuras de super-heróis da editora no cinema e na TV no último ano.

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A espera foi recompensada com um inesperado mundo novo que parece dever mais a "Pleasantville - Viagem Ao Passado", "The Truman Show: A Vida em Directo" ou algumas realidades de "A Quinta Dimensão" do que aos filmes que contaram com as aparições anteriores do casal protagonista. De resto, a Feiticeira Escarlate e Visão nunca foram bem aproveitados nessas apostas cinematográficas ao lado dos Vingadores, nas quais os superpoderes valeram mais do que as personalidades. E o mesmo pode dizer-se de Elizabeth Olsen e Paul Bettany, actores desperdiçados em sequências de acção que nunca permitiam grandes provas de talento interpretativo.

Além da mudança estética e de contexto, "WANDAVISION" marca pontos por permitir que a dupla tenha espaço para experimentar um registo diferente enquanto revela novas facetas das suas personagens, surgidas entre as muitas cenas de humor físico ou o misto de ironia e inquietação que se vai impondo na aparente calmaria suburbana. 

Olsen e Bettany entregam-se ao burlesco com um à vontade que dá logo um capital de simpatia considerável a este arranque, empenho reforçado por secundários como Kathryn Hahn, perfeita no papel de vizinha pespineta. Ao elenco escolhido a dedo junta-se uma direcção artística que sublinha a vénia às sitcoms norte-americanas clássicas, com vários detalhes deliciosos - da publicidade que surge a meio de cada episódio a um genérico de animação com uma canção original, pastiche de "Casei com uma Feiticeira".

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Em vez da adaptação de histórias da BD a papel químico, "WANDAVISION" permite-se explorar território desconhecido e tanto a sua criadora, Jac Schaeffer (autora de "TiMER", comédia pouco vista), como o realizador, Matt Shakman ("A Guerra dos Tronos", "The Great", "Fargo"), parecem saber até onde podem ir sem alienar fãs nem novos espectadores.

É certo que não faltam easter eggs sobre a mitologia da Marvel, já enumerados online por muitos adeptos acérrimos, e que os eventos de alguns filmes são determinantes para este novo ponto de partida (Visão morreu em "Vingadores: Endgame", a Feiticeira Escarlate voltou depois de ter sido "apagada" por Thanos e estará a lidar com esse trauma), mas quem tiver aqui a sua aproximação inicial ao MCU não estará mais perdido do que um espectador familiarizado. Mesmo que não reconheça a sigla S.W.O.R.D., organização que surge no final do primeiro episódio a vigiar esta história dentro de uma história...