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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Da dança ao grito, a revolta tem corpo e voz

"And Then We Danced", um dos filmes em competição, e "Indianara", que marcou a abertura, são dois  títulos a reter da 23ª edição do QUEER LISBOA, que se despede do Cinema São Jorge e da Cinemateca Portuguesa este sábado.

And Then We Danced.jpg

"AND THEN WE DANCED", de Levan Akin: O concorrente sueco ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro está entre as boas surpresas da secção competitiva deste ano, sobretudo quando mostra ser capaz de ir além dos traços mais genéricos da narrativa boy meets boy da premissa. A relação do protagonista, um bailarino adolescente de dança tradicional da Geórgia, com um novo colega, é o ponto de partida para um olhar sobre a identidade, a masculinidade e a diferença que sai reforçado pelo desenho de um contexto particular - que não chega para desconstruir a fórmula de outros romances comparáveis mas resulta ainda assim refrescante. Akin, na sua terceira longa-metragem, mostra-se particularmente habilidoso a transitar entre o humor e inocência da primeira metade do filme e a vertente mais tensa e crua da recta final, sem que a empatia pelas suas personagens se perca no caminho. Levan Gelbakhiani, que se estreia como actor na pele do protagonista, é um achado de expressividade e desenvoltura, e ajuda muito para que esta jornada iniciática, por vezes a lembrar a de "Chama-me Pelo Teu Nome" ou "O Corvo Branco", reclame o seu próprio espaço (e com distinção). E tanto o jovem bailarino como o realizador atingem o estado de graça nos últimos momentos, os melhores do filme: desde dois planos-sequência seguidos, no interior de um prédio, tão fortes visual como emocionalmente, até aos derradeiros minutos, nos quais a dança diz tudo o que ficou por dizer. Venham os aplausos...

3,5/5

Indianara.jpg

"INDIANARA", de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa: Embora a inspiração para este documentário tenha sido o papel determinante da retratada na luta pelos direitos LGBTI+ no Brasil - e das pessoas transgénero em particular -, o resultado acaba por ser mais envolvente quando opta pela esfera íntima e não tanto pelos protestos na praça pública. É principalmente nesses que a protagonista se afirma como uma mulher multifacetada em vez de um mero símbolo de resistência, resiliência e revolta, com o ângulo doméstico a acabar por jogar a favor da vertente activista, ao aproximar Indianara do espectador. E felizmente consegue fazê-lo sem concessões, já que a dupla de realizadores não deixa de focar o lado mais temperamental da protagonista, evitando caracterizações idealizadas, mesmo que não deixe de se colocar ao seu lado na luta contra a opressão. O homicídio de Marielle Franco e a ascensão de Jair Bolsonaro, ambos captados com reacções à flor da pele, surgem como pontos-chave da batalha, ajudando a tornar este um documento oportuno das viragens (sociais e políticas) do Brasil nos últimos anos. Mas são os (muitos) pequenos momentos de Indianara ao lado do companheiro ou da comunidade a que deu abrigo, vincados por uma descontracção, humor e/ou ternura contagiantes, que vão elevando o filme acima do formato de grande reportagem televisiva e a justificar a sua presença num grande ecrã. O lado político talvez saia a perder nesse contraste (o afastamento de Indianara do seu antigo partido, abordado no final, deixa demasiadas questões em aberto), mas ganha-se um estudo de personagem bem recomendável.

3/5

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