Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Depois da tristeza infinita da adolescência, a noite escura da idade adulta

adore

 

O fim do início? O início do fim? 20 anos depois, "ADORE" mantém-se entre os maiores momentos de viragem da história dos SMASHING PUMPKINS. E é certamente o mais subestimado.

 

Pouco depois de chegar aos escaparates, no Verão de 1998, foi geralmente acolhido, no seu melhor, como uma curiosa nota de rodapé depois do opus "Mellon Collie and the Infinite Sadness" E no seu pior, enquanto disco que mostrou uma banda quase irreconhecível num álbum inesperadamente contido e sombrio. As reacções a quente até concediam uma vantagem considerável à segunda hipótese.

 

Foi um papel ingrato, esse, o de suceder aos discos que são apontados, de forma quase unânime, como obras-primas de uma das bandas mais vitais do rock dos anos 90: o famigerado e ambicioso álbum duplo de 1995 e o antecessor, "Siamese Dream", de 1993, ambos alianças inabaláveis entre banda, público e crítica.

 

Depois desses gritos da adolescência, os SMASHING PUMPKINS entraram sem aviso prévio na idade adulta num disco que, mais do que nascido de um Billy Corgan a olhar para o umbigo, o encontrava a lidar com o final do casamento e, de forma ainda mais angustiada, com a morte da mãe. Junte-se a isso o facto de "ADORE" ter sido gravado sem o baterista, Jimmy Chamberlin, e torna-se evidente que este é o álbum mais dominado pelos fantasmas do vocalista até então. 

 

Smashing Pumpkins 1998

 

Não por acaso, a primeira (e até aqui) única aventura de Corgan a solo ("The Future Embrace", 2005) deve alguma coisa a estes ambientes menos efervescentes nos quais os sintetizadores vão ganhando espaço às guitarras - e quando estas se ouvem tendem para o formato acústico. A revolta de "Bullet With Butterfly Wings" não tem lugar aqui, apesar do acesso agreste de "Tear", e o deslumbramento maior do que a vida na linha de "Tonight Tonight" também fica por repetir, mesmo que haja espaço para os encantos (sóbrios) de "Once Upon a Time" ou "The Tale of Dusty and Pistol Pete".

 

"Perfect" surge como sequela (muito bem-vinda) da perfeição agridoce de "1979", é verdade, mas boa parte de "ADORE" faz-se da mágoa das belíssimas "Crestfallen", "Shame" ou "Blank Page", baladas nocturnas ao piano que convivem com a rispidez irrepetível de "Ava Adore" (um cartão de visita algo enganador), a vertigem melódica de "Daphne Descends" ou o mergulho na synthpop sonhadora de "Appels + Oranjes". Outro caso de excelência electrónica, "Pug" parece prosseguir onde "Eye" (gravada para a banda sonora de "Estrada Perdida", de David Lynch) tinha ficado, terminando com um dos melhores remates de sempre da discografia do quarteto de Chicago (aqui reduzido a trio, mantendo James Iha na guitarra e D'arcy no baixo, ao lado do mentor do grupo).

 

20 anos volvidos, e sabendo da história dos SMASHING PUMPKINS entretanto, "ADORE" é mais do que um momento de viragem. Fica mesmo como o último momento de inspiração assinalável da banda, e com várias canções que até envelheceram melhor do que algumas das que estão para trás (até porque não foram sujeitas ao desgaste dos "clássicos"). O título não é nada descabido, a capa (belíssima) também não engana: continua a estar aqui um dos grandes álbuns da década de 90.

 

 

 

3 comentários

Comentar post