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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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E se "Stranger Things" tivesse walkers?

"THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND" tenta injectar sangue novo no mundo pós-apocalíptico criado por Robert Kirkman, naquele que é o segundo spin-off da saga de zombies. Mas os dois primeiros episódios da série, exibidos no AMC, são mais de reconhecimento do que de surpresa.

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Em equipa que ganha não se mexe e a versão televisiva de "The Walking Dead" (universo que começou na BD) tem seguido quase à risca esse preceito. É verdade que a aposta que marcou um antes e um depois na abordagem à mitologia dos zombies (ou walkers, neste caso) já disse adeus a várias personagens icónicas pelo caminho e contou com uma primeira expansão na série "Fear the Walking Dead" (acabada de chegar à sexta temporada), só que não faltam fãs que acusam a saga de andar em círculos há muito, incapaz de recuperar o rasgo que a tornou um dos maiores fenómenos televisivos do seu tempo.

"THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND", o segundo spin-off, nem sequer vai ser o último (haverá pelo menos mais um na televisão, além de três filmes centrados em Rick Grimes), mas por agora é o que promete desviar estas aventuras de uma rotina focada na luta interminável pela sobrevivência. À partida, conta com alguns elementos particulares: ambientada numa pequena comunidade de sobreviventes no Nebraska, dez anos depois do apocalipse zombie, propõe acompanhar a primeira geração que cresceu num mundo já devastado pela ameaça dos walkers, e por isso centra-se em protagonistas mais jovens: duas irmãs adolescentes e dois amigos que se fazem à estrada para tentar encontrar o pai delas.

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Embora os protagonistas até sejam substancialmente diferentes dos que fomos conhecendo até aqui, não é preciso ir além do primeiro episódio para perceber que o maior entrave desta jornada nem são tanto os mortos renascidos de forma grotesca, mas os vivos, e em especial uma unidade militar que se perfila como principal antagonista desta variação da saga. Essa já era, aliás, a lição a tirar tanto de "The Walking Dead" como "Fear the Walking Dead", e se aí esta série descendente não inova, também não parece mudar muito numa história igualmente on the road, a partir do final do primeiro episódio, e vincada por dificuldades sucessivas numa lógica de jogo de pistas.

Além da aproximação estrutural, não ajuda que o arranque seja bastante rudimentar, com uma narrativa atabalhoada (sobretudo nos flashbacks e com pelo menos uma coincidência forçada), demasiados diálogos sem chama e muitas vezes explicativos e um elenco irregular, embora se mostre mais confortável no segundo capítulo. Até a selecção da banda sonora gera reservas, com "Silence", belo tema de PJ Harvey, a pairar em muitas cenas sem fazer grande sentido em algumas (chegando a soar a ruído).

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Mesmo assim, "THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND" melhora ligeiramente à medida que vai avançando, ao ir estabelecendo a dinâmica entre os quatro jovens protagonistas com direito a uma leveza e descontração que tentam um desvio do tom das sagas antecessoras - e a sugerir que "Stranger Things", outro relato coming of age numa pequena comunidade atormentada por monstros, terá sido uma das influências. O segundo episódio também começa a explorar o passado de mais figuras desta nova história, como a do soldado interpretado por Nico Tortorella, que tenta proteger as duas irmãs. O seu arco, marcado pela rejeição por parte de pais homofóbicos, não é muito imaginativo face a outras crónicas LGBTQ+, mas pode estar aqui uma personagem gay que foge a alguns estereótipos de representação no mainstream.

Scott M. Gimple e Matthew Negrete, os criadores da série, transitam das equipas das sagas anteriores (nas quais foram produtores executivos e argumentistas) e isso, para já, acaba por se notar demasiado - por muito que também ajude a garantir a partilha do mesmo ADN nesta descendente. De qualquer forma, há uma grande diferença assinalável: ao contrário de "The Walking Dead" e "Fear the Walking Dead", "THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND" nasceu já com um morte anunciada: a saga vai contar apenas com duas temporadas, de dez episódios cada, e nesse aspecto não levará ninguém ao engano. A menos que inspire, também ela, mais um ou outro spin-off...

"THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND" é exibida no AMC às segundas-feiras, a partir das 22h10.