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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Queer Lisboa 18: Ela, ele e os outros

 

"Appropriate Behavior", de Desiree Akhavan: É difícil não pensar em "Girls" ao vermos esta primeira obra de uma realizadora que acumula também as funções de argumentista e actriz principal. Mas se o arranque parece oferecer apenas mais uma comédia new yorker e hipster - ambientada em Brooklyn, nem mais -, Desiree Akhava consegue ir deixando algumas singularidades ao longo de um filme sempre a crescer no nível de graça e interesse. Shirin, protagonista inspirada nela própria, é uma jovem neurótica, desbocada e insegura cuja ascendência iraniana torna ainda mais complicado apresentar a sua namorada aos pais. O fim do relacionamento marca o início de um filme que alterna presente e passado e vai acrescentando camadas a uma personagem com um potencial para criar irritação ao primeiro embate. "Appropriate Behavior" diverte (às vezes, muito) pela forma como a vai atirando para situações constrangedoras, quase sempre motivadas pela sua atitude, mas tem o cuidado de não a espezinhar ou massacrar. Desiree Akhavan gosta demasiado de pessoas para isso, dá-lhes a possibilidade de redenção e sabe como conjugar sarcasmo e ternura. No final, acaba por ser difícil não ganharmos afeição por Shirin, aí já longe de uma sucedânea da série de Lena Dunham e muito mais a voz de uma autora a ter debaixo de olho.

 

 

 

"L’Armée du Salut", de Abdellah Taïa: Esta adaptação do livro homónimo feita pelo próprio escritor - que se estreia aqui na realização - estava a ser interessante q.b. até parecer terminar a meio do segundo acto. Dividida em dois períodos temporais, acompanha o despertar sexual de um adolescente de Casablanca - em particular a sua curiosidade pelo irmão já adulto e encontros fugazes com homens mais velhos - e reenconta-o dez anos depois na chegada a Genebra. Alicerçado em planos longos, com enquadramentos rigorosos, que impõem um ritmo pausado, a primeira parte é a mais intrigante e trabalhada, apresentando sem qualquer histeria uma realidade familiar e social conturbada. Ao dispensar por completo o recurso à música - tirando a que eventualmente marca o espaço da acção -, reforça o efeito realista de um drama sóbrio, embora meio inconsequente quando os episódios na Suíça denunciam alguma falta de rumo. Não deixa de ser uma primeira obra promissora, que não merece atenção apenas por ser assinada pelo primeiro escritor árabe a assumir-se como homossexual, mas havia aqui material e sensibilidade para um filme com outro peso.

 

 

 

"Xenia", de Panos H. Koutras: Ser irregular no ritmo e no tom nem sempre é uma desvantagem nesta muito curiosa surpresa do cinema grego recente. A jornada de dois irmãos adolescentes em busca do pai que os abandonou poderia ser a premissa da novela das sete e este road movie não tem medo de ser tão histriónico e camp como algumas delas - ou como alguns filmes de Gregg Araki, John Waters (sem a acidez) ou o habitualmente comparado Pedro Almodóvar (fase loucos anos 80). Panos H. Koutras insufla estas mais de duas horas com uma overdose de ideias, nem sempre boas ou bem aproveitadas, é certo, mas acompanhadas por um coração talvez ainda maior. E se a emoção se sobrepõe muitas vezes à razão, pelo menos o gesto é impecavelmente replicado pela dupla protagonista: o irmão mais novo, viciado em doces, sempre com o coelho de estimação na mala e sem problemas em assumir a sua orientação sexual apesar de olhares repressores; e o mais velho, mais contido (e infelizmente com menos tempo de antena) mas com o sonho de ser cantor, o que o leva a participar num concurso televisivo talentos musicais. A atenção às personagens não se esgota neles e há pequenos papéis a reter, de uma aspirante a cantora cujo olhar triste vale por muitos diálogos (e deixa ecos de uma realidade que o olhar optimista do filme não evita) a uma mãe de família com um sentido prático imbatível, mesmo numa situação insólita. Do misto de humor e melancolia, entre sequências musicais e oníricas, nasce um filme descarado e idiossincrático como poucos, quer se goste mais ou menos do resultado final.

 

 

"Appropriate Behavior", "L’Armée du Salut" e "Xenia" são três apostas da 18ª edição do Queer Lisboa, a decorrer até 27 de Setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca

 

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