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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Esta máquina ainda acelera bem

Como soam as canções do álbum de estreia dos X-WIFE, 15 anos depois? O teste de palco foi francamente positivo para "Feeding the Machine", revisitado na noite de quinta-feira no Musicbox Lisboa.

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Foto: Facebook X-Wife

Quando o punk e sobretudo o pós-punk inspiraram, nos primeiros anos deste milénio, uma série de novas bandas dos dois lados do Atlântico - dos Interpol aos Strokes, dos Yeah Yeah Yeahs aos The Rapture, passando pelos Bloc Party ou Franz Ferdinand -, por cá esse efeito não passou despercebido junto de João Vieira, Fernando Sousa e Rui Maia.

Através dos X-Wife, formados em 2002, o trio portuense foi dos nomes nacionais que mais rapidamente se sintonizaram com um fenómeno que marcaria, com poucos, o rock da década passada. E talvez o grupo que melhor soube traçar um caminho sólido partindo da herança de géneros nascidos em finais dos anos 70 e inícios de 80, consolidando uma linguagem que também aceitou contaminações do electro, da synth-pop, do disco ou da EBM ao longo de um percurso que conta cinco álbuns - além destes, os últimos anos contaram com aventuras paralelas nos projectos individuais de Vieira (White Haus) e de Maia (Mirror People), assim como em várias colaborações de Sousa com outros artistas.

"Feeding the Machine" (2004), sucessor de "Rockin' Rio EP" (2003), vincou o primeiro grande passo de uma banda que nunca negou as suas inspirações - pelo contrário, assumiu sempre uma paixão melómana por referências como os Joy Division ou, mais tarde, os LCD Soundsystem, talvez as mais evidentes na sua música - e que mostrou saber canalizá-las para uma voz pessoal, bem defendida tanto nos discos como nos palcos.

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"Estamos a revisitar um passado que para nós ainda faz sentido no presente", assinalou João Vieira a meio da actuação lisboeta, uma das que integram a digressão que celebra os 15 anos do registo de estreia ao longo deste mês. "Para nós estas canções continuam frescas", acrescentou, e o público de uma sala bem composta terá concordado. O mérito foi não só da consistência do alinhamento de "Feeding the Machine", mas da coesão instrumental que o trio - Vieira na voz e guitarra, Sousa no baixo, Maia nos sintetizadores e caixa de ritmos - demonstrou ao tirar do baú canções como "Eno" ou "Second Best".

Essa eficácia não terá sido surpreendente para quem já tivesse visto um concerto dos X-WIFE, embora o efeito surpresa também não tenha sido o maior propósito de um concerto que assentou sobretudo no reconhecimento. E esteve à altura desse pacto, ao recordar o álbum de estreia na íntegra, sem grandes desvios da moldura sonora original e com direito a algumas memórias partilhadas pelo meio. Como antes de "We Are", que o vocalista contou ter sido a primeira canção do grupo a passar na rádio (no painel nocturno da Antena 3), episódio que o trio guardou entre os pontos de viragem mais emotivos. Ou a propósito de "Rockin' Rio", ironicamente com o nome de um festival no qual os X-WIFE nunca actuaram, apesar de terem "o sonho de ir lá tocar". "Nunca fomos, nos convidaram", assumiu Vieira ao lembrar a "estratégia de marketing" gorada.

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O músico, em tempos mais conhecido como DJ Kitten, confessou ainda estar satisfeito pelo facto de um grupo prestes a atingir a idade da maioridade - "Fazemos 18 anos em Março de 2020" - ir conseguindo renovar o público, tendo em conta a auscultação de espectadores sub-30 que fez a meio do concerto. "Não é fácil ser uma banda com 17 anos", sublinhou, brincando com estratégias como a da celebração do aniversário do primeiro álbum. Uma ocasião especial e irrepetível, "a menos que nos façam uma proposta milionária", alertou. "Nunca dizemos nunca, ao contrário de certas bandas". Fica o recado.

Os Joy Division não serão uma dessas bandas, embora não tenham deixado de ser revisitados no final da noite. "Transmission", no encore, ficou como homenagem muito aplaudida ao grupo de Ian Curtis, mesmo que tenha soado demasiado reverente.

A fechar, "Turn It Up", entrada no segundo capítulo do grupo, "Side Effects" (2006), depois de "Feeding the Machine" ter sido percorrido pela ordem do alinhamento. "Taking Control", a última faixa do álbum de estreia, foi dos momentos mais efusivos de um concerto sempre em modo acelerado, nascido da tensão entre guitarras e electrónica, contraste que tem nos X-WIFE um dos representantes-chave dentro de portas - e com uma discografia que tem sabido evoluir de forma mais interessante do que as de alguns colegas de geração internacionais. Também por isso, é pena que esta festa mal tenha atingido os 60 minutos de duração - o encore podia ter acolhido mais do que dois temas -, o que não impede de aconselhar a celebração destes 15 anos nos próximos dias. Quem puder passar pelo Club, em Vila Real, a 16 de novembro; pelo Carmo'81, em Viseu, a 22 de novembro; ou pelo Salão Brazil, em Coimbra, a 23 de novembro, que aproveite para ver como soa uma máquina bem oleada.

3/5