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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Esta princesinha não é da Disney

Entre a inocência da pequena protagonista e a crueza do ambiente que a rodeia, "THE FLORIDA PROJECT" propõe uma fábula agridoce da vida real. O elenco, da revelação Brooklynn Prince ao veterano Willem Dafoe, está à altura, mas a grande surpresa é a maturidade do olhar de Sean Baker.

 

The Florida Project

 

O filme anterior de Sean Baker, "Tangerine" (2015), o único do realizador a ter estreia em Portugal, estava longe de fazer esperar novidades do norte-americano com grande expectativa. Apesar da curiosidade de ter sido filmada só com iPhones e de ser um dos (ainda) raros títulos protagonizados por transexuais, era uma obra frustrante ao raramente conseguir dar espessura às personagens que acompanhava, optando quase sempre pela histeria e desenho a traço grosso.

 

Mas era um filme que revelava, à semelhança dos primeiros de Baker - como o mais interessante "Prince of Broadway" (2008), que chegou a passar por cá no IndieLisboa - uma aproximação a figuras à margem, muitas vezes sem expressão em boa parte do cinema norte-americano ou remetidas para notas de rodapé de outras histórias.

 

"THE FLORIDA PROJECT" não foge à regra e desloca-se agora para Orlando, concentrando-se num motel nas imediações da Disney World e em particular numa jovem mãe solteira e desempregada que lá vai ficando, enquanto arranja formas de pagar um quarto que partilha com a filha de seis anos, Moonee.

 

The Florida Project 2

 

A dupla está no centro de um retrato comunitário vincado pelo realismo social, com ecos do cinema de Ken Loach (influência assumida) embora capaz de ir definindo um cenário e uma sensibilidade particulares. E ao fazê-lo dá um tremendo passo em frente face ao filme anterior de Baker, com um olhar mais demorado e atento sobre as personagens e um sentido de espaço mais palpável e intrigante (dos azulados e púrpuras do motel e arredores aos planos de conjunto lado a lado com um olhar próximo, facultado pela câmara à mão).

 

O mais conseguido, no entanto, talvez seja a forma como "THE FLORIDA PROJECT" traduz a visão do mundo de Moonee, captando muito bem a capacidade de deslumbramento infantil, mesmo que num ambiente precário e com situações nada aconselháveis para uma criança (de casos de toxicodependência à prostituição, o contexto tem pouco de idílico).

 

Sem ignorar essas realidades por onde o sonho americano parece nunca passar, Baker oferece momentos contagiantes nos quais a protagonista e os seus amigos não abdicam do entusiasmo apesar da desolação - e o dia pode ganhar-se através de um gelado partilhado ou da descoberta de uma casa abandonada e pronta a explorar.

 

The Florida Project 3

 

Ainda assim, o realizador não doura a pílula e vai deixando pistas de que este quotidiano incerto, em parte camuflado pela luz do olhar infantil, não tem direito a soluções mágicas. Por isso, se a primeira parte do filme parece ter todo o tempo do mundo para se dedicar a episódios prosaicos, e captados de forma verosímil pela lente do nova-iorquino, a segunda revela alguma urgência narrativa rumo a um final com tanto de hábil como de frustrante - mas capaz de dar conta do inevitável adeus à inocência.

 

Que Baker siga assim uma personagem e uma comunidade sem cair numa perspectiva voyeurista, miserabilista ou sobranceira (e era tão fácil olhar de cima para a "América de Trump") é um pequeno milagre, sobretudo quando além de cineasta a ter em conta dá provas de ser um director de actores igualmente capaz.

 

Se Willem Dafoe já não tem nada a provar, e está tão convincente como se esperaria na pele de gerente e do que mais se assemelha a "anjo da guarda" do motel, a pequena Brooklynn Prince e Bria Vinaite (a mãe da protagonista, descoberta pelo realizador no Instagram) são duas das revelações da temporada, decisivas para consolidar a espontaneidade que percorre esta história. Mas ao contrário de Dafoe, as actrizes ficaram, infelizmente, à margem da corrida aos Óscares... e nem foram as únicas esquecidas de um filme mais memorável do que a esmagadora maioria dos nomeados deste ano.

 

 3,5/5

 

 

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