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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Estado de guerra

"VALLEY OF TEARS" é a nova série israelita disponível na HBO Portugal e recua até aos anos 70 para retratar um conflito que abalou particularmente o país - embora não tenha inspirado muita ficção até aqui. E apesar de ser um retrato parcial, deixando os oponentes árabes fora de campo, o arranque consegue fintar o maniqueísmo e o patriotismo insuflado.

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Depois de "Fauda", "Our Boys" ou "Tehran", "VALLEY OF TEARS" pode muito bem ser o novo caso de culto televisivo israelita fora de portas, ao contar com palcos mundiais através da chegada ao streaming um mês após a estreia em casa, no canal Kan 11. Se essas séries já tinham ambientes militares ou policiais no centro da acção, a nova aposta não se desvia desse registo ao acompanhar vários soldados durante a Guerra do Yom Kippur, que durante cerca de duas semanas de 1973 obrigou Israel a lidar com um ataque surpresa do Egipto e da Síria - iniciado no dia de um feriado nacional, no qual o exército tinha baixado a guarda.

Criada pelo estreante Daniel Amsel juntamente com os veteranos Amit Cohen ("The Gordin Cell") e Ron Leshem (autor da também recente "No Man's Land", ao lado de Cohen, ou da versão original de "Euphoria") e dirigida por Yaron Zilberman (com experiência na ficção e documentário), "VALLEY OF TEARS" mostra-se tão ou mais bem oleada do que esses casos de sucesso conterrâneos, pelo menos nos dois episódios iniciais - os únicos já estreados de uma primeira temporada de dez capítulos.

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Embora demore algum tempo a apresentar as figuras no centro do conflito - e há muitas, com a narrativa a acompanhar quatro contextos distintos -, o final do primeiro episódio faz jus ao acumular de tensão que vai tomando conta dos protagonistas, que passam de um estado de rotina pacata para uma situação de vida ou morte sem pré-aviso. Ou melhor, até há pelo menos um alerta, vindo da figura mais alarmada e susceptível, um muito jovem analista de inteligência consecutivamente desconsiderado até que o caos se instala de repente - e sem fazer prisioneiros.

Se "Fauda" foi acusada de revelar uma visão demasiado parcial do conflito israelo-árabe, dando sempre mais atenção aos sionitas, "VALLEY OF TEARS" arrisca-se a despertar reacções comparáveis: nem introduz, para já, uma única personagem egípcia ou síria. Mas nem por isso faz uma ode patriótica numa história à qual não falta ambiguidade moral e ideológica, desde logo porque muitos dos soldados israelitas não estão nessa condição voluntariamente e alguns têm ligações ao movimento rebelde dos Panteras Negras (nome herdado dos activistas homónimos norte-americanos e aplicado a outro cenário de tensão racial). Amsel, Cohen e Leshem deixam uma perspectiva mais céptica do que edificante, embora compassiva para com os jovens envolvidos numa disputa na qual não se revêm necessariamente.

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O foco numa figura militar feminina, a partir do segundo episódio, deixa no ar que o machismo institucional também está na mira desta saga, e o confronto bélico nao é o único em jogo quando também há contas a ajustar entre as personagens da mesma facção (incluindo velhas e novas quezílias amorosas).

A um argumento que desenha protagonistas de corpo inteiro junta-se uma direcção de actores irrepreensível, com um verismo que sai consolidado na realização. Zilberman é tão hábil nas sequências com combates de tanques no deserto como nas do cerco a um posto de comando: as primeiras a surtirem impacto pela destruição massiva (mas sem pirotecnias hollywoodescas), as segundas pelo sufoco claustrofóbico. O que não quer dizer que "VALLEY OF TEARS" caia no niilismo pré-fabricado: há momentos de descompressão estratégicos com um ratinho chamado Pinhão e sobretudo através de um dos quatro enredos, em modo road trip tão descontraído quanto possível. Esses, ou as imagens de artigo criteriosamente utilizadas (de notíciários ou declarações de figuras políticas da época), também contribuem para que os dois primeiros episódios possam conquistar espectadores no embate inicial. Venham agora munições do mesmo calibre nos próximos...

"VALLEY OF TEARS" está disponível na HBO Portugal desde 12 de Novembro e conta com dois episódios novos às quintas-feiras.