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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Filha da mãe

Candidato espanhol ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, "VERÃO 1993" marca a estreia de Carla Simón nas longas-metragens e oferece um olhar perspicaz e contido da infância e do luto - sempre a partir de uma protagonista que não facilita o conforto do espectador.

 

Verão 1993

 

Embora estreie em Portugal discretamente, em apenas duas salas - uma em Lisboa, outra no Porto -, a primeira longa-metragem de Carla Simón depois de quatro curtas não tem passado despercebida lá fora, como o atesta um percurso em festivais já com dezenas de prémios  - incluindo o de Melhor Primeira Obra em Berlim, em 2017, ou o de Melhor Realizador nos Goya, este ano.

 

Não é difícil perceber porquê: o que no papel promete ser uma história semelhante a tantas outras, centrada no Verão de uma menina de seis anos que perdeu a mãe recentemente, acaba por ir ganhando uma ressonância emocional muito própria ao acompanhar tão fielmente o olhar da protagonista, sem nunca cair em facilitismos dramáticos motivados por um evento trágico.

 

A tragédia, aliás, nem parece estar assim tão vincada nos nos momentos iniciais de "VERÃO 1993", com a realizadora a propor um mergulho no dia-a-dia aparentemente pacato de Frida, a pequena protagonista, e dos seus tios e prima (mais nova do que ela), no interior de Espanha. Mas entre a languidez dos dias soalheiros, da descontracção de banhos intermináveis e das muitas brincadeiras com bonecas, Simón (que também escreveu o argumento, autobiográfico) vai deixando alfinetadas ocasionais que começam a compor um mau-estar crescente - que nunca se impõe, ainda assim, uma sobriedade formal e emocional assinalável.

 

Verão 1993 2

 

Apesar de ser uma criança orfã, Frida nunca é retratada como uma vítima, e muito menos como uma vítima indefesa, até porque algumas da suas atitudes em relação à prima, mais ingénua e crédula, tornam-se cada vez mais difíceis de elogiar. E ao dar conta da forma como a protagonista vai medindo forças com a tia, moldando uma animosidade que passa ao lado do resto da família, "VERÃO 1993" revela uma capacidade de observação rara do comportamento humano (e do das crianças em particular), sobretudo tendo em conta que se trata de uma primeira obra.

 

As atitudes moralmente questionáveis de Frida parecem dever alguma coisa a "Ponette" (1996), talvez o filme mais emblemático dos irmãos Dardenne, que apesar de tudo se atirava ao universo infantil com outra crueza e crispação. A visão de Simón é mais calorosa e abraça todas as personagens, com uma abordagem compreensiva que deixa eventuais julgamentos para o espectador.

 

Verão 1993 3

 

Paciente na forma como vai revelando informações-chave sobre a protagonista e a morte da mãe, "VERÃO 1993" deixa um retrato complexo da solidão, do crescimento, do desajustamento ou do preconceito, e embora se ambiente em inícios dos anos 90 as marcas de época nunca se sobrepõem à jornada emocional da protagonista (uma lição que muitos filmes e séries recentes nostálgicos pelos anos 80 ou 90 poderiam aprender).

 

O elenco também ajuda muito, mas se todos os actores contribuem para o efeito realista, Laia Artigas, na pele de Frida, tem um papel especialmente árduo ao conceder tanta ambiguidade a uma personagem tão jovem. A pequena actriz, credível na vulnerabilidade e na prepotência, é um dos maiores achados de um filme que, pouco a pouco, se vai impondo como uma das boas descobertas da temporada. E seguramente das mais bonitas, sem nunca precisar de forçar a nota...

 

3,5/5