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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Filme pipoca? Não, filme pizza

Além de ser um dos filmes mais divertidos deste Verão, "TARTARUGAS NINJA: CAOS MUTANTE" é, muito provavelmente, o melhor dos sete centrados no quarteto de adolescentes devorador de pizza e perito em artes marciais. Um triunfo de Jeff Rowe e Kyler Spears, com a mão atenta de Seth Rogen e Evan Goldberg no argumento e produção.

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E ao sétimo filme, as icónicas personagens criadas por Kevin Eastman e Peter Laird há quase 40 anos ("Teenage Mutant Ninja Turtles", BD independente e paródica, começou a ser publicada em 1984) têm talvez a sua materialização mais conseguida nos ecrãs.

Novo começo para uma saga que tem atravessado gerações, mesmo que o pico de popularidade tenha sido atingido em inícios da década de 90, a aposta da Nickelodeon é dos filmes de animação mais vibrantes dos últimos tempos e sai-se bem em várias frentes ao reapresentar Leonardo, Rafael, Donatello e Miguel Ângelo ao público de 2023.

"TARTARUGAS NINJA: CAOS MUTANTE" não parece ser alheio às lições de "Homem-Aranha: No Universo Aranha" (2018), que revitalizou as aventuras dos super-heróis (com sequela a manter a fasquia), e a proximidade visual com essa adaptação estilizada não demora a saltar à vista. A aventura dirigida por Jeff Rowe e Kyler Spears ("Os Mitchell Contra as Máquinas") também conjuga desenho à mão e animação 3D, tira partido de tons garridos e tenta uma simbiose fluída das linguagens da BD e do cinema. Mas distingue-se por um traço mais esboçado e rasurado, pelo maior protagonismo de borrões de cor ou neons e pela influência mais notória de escolas como a do graffiti.

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Tal como os filmes centrados em Miles Morales, é uma proposta cuja proeza técnica se ajusta perfeitamente ao universo urbano e marginal no qual se ambienta, desenhando uma Nova Iorque (e ruas do Bronx em particular) com recantos sinuosos e até grotescos, alma hip-hop e texturas palpáveis.

Outro trunfo é a própria versão do quarteto protagonista, talvez a mais (verdadeiramente) adolescente de sempre. Por um lado, porque a estrutura corporal dos jovens heróis é diferenciada e não tão musculada como as anteriores. Por outro, porque a atitude tão irreverente como imberbe faz todo o sentido em personagens com 15 anos de idade, a viverem aqui uma história coming of age na qual a tentativa de protecção paterna (de um envelhecido mas ainda expedito Splinter) choca com o desejo de descoberta e de integração no mundo dos humanos.

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A dinâmica espirituosa dos quatro irmãos, ancorada em diálogos ágeis e vivos, muitas vezes hilariantes, compensa a familiaridade que se instala num relato sobre a diferença e o medo do desconhecido não muito longe de conflitos como o dos X-Men. Mas se os traços gerais da narrativa serão reconhecíveis, o maior valor de "TARTARUGAS NINJA: CAOS MUTANTE" está nos pormenores, como o de entregar as vozes do quarteto principal a actores adolescentes ou o abraço apertado à cultura pop - desde clássicos dos 80 como "O Rei dos Gazeteiros", de John Hughes (a inspirar uma das cenas mais emotivas), à emergência da k-pop ou ao impacto cada vez maior da anime e manga (sem que essas referências pareçam forçadas ou oportunistas).

Fãs confessos de BD, Seth Rogen e Evan Goldberg foram peças fundamentais nas adaptações televisivas de "The Boys" e "Invencível" (ambas da Prime Video) e estão entre os argumentistas e produtores executivos desta carta de amor a um universo com continuidade garantida numa sequela e numa série (da Paramount+). E terão ainda ajudado a trazer gente como Ice Cube, Jackie Chan, Paul Rudd, Rose Byrne, John Cena ou Post Malone para o óptimo elenco de vozes.

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Outras estrelas, Trent Reznor e Atticus Ross encarregam-se da banda sonora com uma das suas colaborações mais singulares, guiada por electrónica que vai do meditativo ao explosivo e que convive muito bem com canções inesperadas dos A Tribe Called Quest, De La Soul, Blackstreet, Vanilla Ice, ESG ou Liquid Liquid.

Sequências de acção imaginativas e uma galeria de antagonistas delirante (a piscar o olho ao body horror) também garantem que dificilmente alguém vá ficar com saudades destas aventuras em imagem real, por muito que talvez fosse escusado voltar a contar a história da origem dos protagonistas (o início do filme é especialmente expositivo), que as motivações de algumas personagens mudem de forma algo abrupta ou que uma corporação mal intencionada (motor dos acontecimentos) e a sua líder permaneçam quase uma incógnita. "TARTARUGAS NINJA: CAOS MUTANTE" não deixa de ser uma bela surpresa por causa disso, nem de agradar tanto a muitos adolescentes de 15 anos como a quem o foi há cerca de 30...

3,5/5