Gourmet ou fast food?

Apesar de alguns ingredientes requintados, a primeira temporada de "Hannibal" deixou um sabor a refeição incompleta. Não por culpa do psiquiatra canibal mais popular do grande ecrã (com tendência para manter a fama no pequeno), já que Mads Mikelsen faz justiça à personagem antes interpretada por Anthony Hopkins e Brian Cox (e felizmente não tenta colar-se ao registo de nenhum deles), mas por quase tudo o que está à volta.
Do co-protagonista, o investigador do FBI Will Graham, ficou pouco mais do que uma colecção de trejeitos nervosos de Hugh Dancy que raramente conseguiram desenhar uma figura tão intrigante como o seu nemesis. A componente paranornal da personagem também não ajudou muito e atirou a série para um território distante da crueza de "O Silêncio dos Inocentes", embora o humor negro e grotesco da sequela assinada por Ridley Scott ainda tenha sido incorporado nas cenas das refeições em casa de Hannibal. Mas ao fim de um par de episódios, até estas gastaram qualquer capacidade de surpresa, reduzindo a série a uma variação não muito personalizada do modelo concorrido (e pouco aliciante) da investigação forense.

A lógica do assassino da semana, aliada a uma realização por vezes espalhafatosa no retrato das cenas dos crimes, com uma violência mais ostensiva do que realmente perturbante, fez deste um objecto com uma competência industrial que os valores de produção não desmentem, mas abaixo do padrão mais sofisticado expectável na "idade de ouro da televisão" (sobretudo quando os créditos têm nomes como Bryan Fuller, que passou pelas séries "Pushing Daisies" e "Heroes", ou David Slade, realizador de "Hard Candy" e "30 Dias de Escuridão").
Pontuais diálogos suculentos sobre a complexidade da natureza humana, nas tais cenas dos jantares ou nas das consultas, não tiveram correspondência em demasiadas personagens que andaram uma temporada à espera de consistência (do clichê da jornalista oportunista a um Laurence Fishburne igual a si próprio, passando por uma adolescente cuja personalidade mudava de dois em dois episódios, ficaram todas à sombra de Dr. Lecter).
Mesmo assim, o maior tempo de antena de Mads Mikelsen com o avançar da série ou a introdução de personagens como a da sua psiquiatra, uma bem regressada Gillian Anderson, conseguiram manter algum interesse até à segunda temporada - estreada por cá na quinta-feira passada, no AXN. Como o final da anterior já antevia, há uma considerável mudança do status quo, algumas novas personagens (veremos como Cynthia Nixon se dá por aqui) e Hannibal começa finalmente a ficar inquieto com a possibilidade de se tornar um suspeito. Resta saber se essa inquietação se traduz em material dramático mais intenso do que a cena de pancadaria (algo deslocada e decididamente arrastada) do arranque do primeiro episódio e mais imaginativo do que a lógica de procedural semanal, que parece continuar...