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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Guia para uma golpada americana

Ainda é possível fintar os modelos mais óbvios do biopic, mesmo em Hollywood. Sem ser um grande filme, "JOY" é uma pequena maravilha que tira partido da colaboração J-Law/David O. Russell - mais uma, sim, e não há mal nenhum nisso.

 

joy

 

Jennifer Lawrence e Bradley Cooper outra vez? E outra vez num filme de David O. Russell, depois do (muito simpático) "Guia Para um Final Feliz" e do (não tão conseguido) "Golpada Americana"? Ao primeiro impacto, "JOY" pode parecer mais do mesmo, e é verdade que o tom, entre a comédia e o drama em ambiente suburbano e disfuncional, não foge muito ao que tem sido regra nos últimos filmes do realizador de "Três Reis".

 

Mas também há algumas diferenças: apesar do destaque considerável na promoção do filme, Cooper tem uma personagem secundaríssima, com pouco tempo de antena, já que Russell oferece "JOY" de bandeja a Lawrence. Ela retribui com um desempenho à altura do que se espera, carregando às costas grande parte deste retrato pessoal e ascensão profissional da criadora de uma esfregona que mudaria a rotina de muitas donas de casa.

 

A história em si, variação sem grandes singularidades de uma "self made woman" embalada pelo sonho americano, não será o ponto de partida mais estimulante. Mas além da actriz, o filme tem um trunfo no realizador, que faz o que pode com um relato obrigatoriamente previsível e de fronteiras narrativas delimitadas. Em vez do caso da vida certinho e asséptico que sai demasiadas vezes da máquina de Hollywood (e outras tantas de fora dela), Russell consegue uma obra ainda inspiradora, embora mais descosida e rugosa do que muita concorrência "de prestígio" com as estatuetas douradas (ou outras) em vista.

 

Ao complementar a jornada idealista com algum cinismo, "JOY" despeja acidez q.b. no que poderia ser só mais um conto de fadas moderno, mantendo um braço de ferro entre realidade e artifício que atinge o ponto de equilíbrio numa das últimas (e melhores) sequências: a da protagonista à porta de uma loja com modelos de felicidade prontos a consumir. É o (quase) desenlace apropriado para uma viagem pelo caos e união familiar ou os bastidores das televendas, ancorada na verdade que Lawrence consegue fazer passar entre muitas distracções. Por outro lado, alguns secundários ficam reduzidos a cromos (mesmo assim, não tanto como noutros filmes de Russell, nem tão histéricos), o que não compromete suficientes bons momentos a cargo de Isabella Rossellini ou Robert De Niro.

 

Com este entrosamento entre um realizador minimamente inventivo e uma direcção de actores ao nível do que nos habituou, a sucessão de pequenas conquistas e derrotas de Joy Mangano resulta bem menos formulaica do que no papel. E torna esta nova colaboração num feelgood movie modesto mas certeiro, numa altura em que vai sendo cada vez mais difícil acreditar neles...

 

 

 

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