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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Há 20 anos, "604" apresentou o som de uma nova pop electrónica

Foi um dos discos mais celebrados da pop electrónica do início do milénio e não enganou, ao abrir caminho para uma das grandes discografias da sua década. "604", o álbum de estreia dos LADYTRON, fez este mês 20 anos.

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"This Is Our Sound", um dos temas do primeiro disco dos LADYTRON, traduz bem a impressão que o quarteto de Liverpool deixou ao se destacar entre as revelações de 2001. Por muito que algumas influências fossem evidentes - o nome do grupo partiu de uma canção dos Roxy Music e o primeiro single, "He Took Her to a Movie", não escondeu a matriz do clássico "The Model", dos Kraftwerk -, a banda assinou uma estreia com uma sonoridade (invulgarmente) bem vincada e que a levou a ocupar um lugar à parte na pop electrónica desse tempo.

O álbum não foi, mesmo assim, o contacto inicial que alguns tiveram com os LADYTRON. Esse foi sendo feito através dos três EPs editados desde 1999, o primeiro quando o grupo ainda era uma dupla composta por Daniel Hunt (fundador da Invicta Hi-Fi, editora do disco) e Reuben Wu (designer que criou a capa da edição britânica de "604"). Amigos que partilhavam cabines de DJ, conheceram nessas noites a escocesa Helen Marnie e a búlgara Mira Aroyo, então estudantes universitárias cujo percurso daria prioridade à música. E do cruzamento das sensibilidades dos quatro resultou a identidade de uma banda com sede em Liverpool mas cujas heranças abraçavam outras paragens.

A opção pelo búlgaro, idioma que complementou o inglês em alguns temas e ganhou protagonismo em "Commodore Rock", foi uma das apostas felizes e que se manteve nos álbuns seguintes, sendo hoje indissociável do ADN dos LADYTRON. Igualmente determinante, a contribuição das duas vozes femininas, separadas ou em conjunto, ajudou a alargar os horizontes destas canções - Marnie com um timbre mais doce e vulnerável, Aroyo em modo lacónico, às vezes quase ríspido.

A esses traços de identidade juntou-se um conhecimento enciclopédico da synth-pop, com o mergulho em discografias pioneiras da década de 80 a ter eco num alinhamento com um travo retro inegável, mas longe de um exercício de copista aplicado e nostálgico. O hino agridoce "Playgirl" e as não menos irresistíveis "Discotraxx" e "Another Breakfast With You" são ainda das melhores canções dos LADYTRON, hoje simultaneamente tão familiares e revigorantes como na altura.

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A carta de amor a uns certos anos 80 também levou, no entanto, a que alguns colocassem o grupo ao lado de outros nomes fortes da pop electrónica de 2001 - dos Fischerspooner às colaborações entre Miss Kittin & The Hacker ou Tiga & Zyntherius - enquanto porta-estandarte do electroclash, género nascido de um híbrido de electro, new wave ou techno que teve os seus 15 minutos de fama na viragem do milénio. Mas embora haja aproximações pontuais na produção e as letras não dispensem a ironia, "604" tem pouco ou nada da frivolidade e acidez características dessa música - e menos ainda do hedonismo de noites entre o glamour e a decadência com overdose de sexo, álcool e drogas.

O quarteto viria, aliás, a rejeitar esse rótulo e a discografia, hoje com seis álbuns, foi a prova mais esclarecedora de um caminho que não ficou refém do hype da estreia. O reforço das guitarras, a partir do (excelente) terceiro álbum, "Witching Hour" (2005), abriu de vez as portas a universos industriais, góticos, shoegaze ou dream pop, mas na estreia os LADYTRON ainda estavam mais próximos da escola sintética dos Human League (não por acaso, fizeram uma versão de "Open Your Heart" na compilação "Reproductions: Songs Of The Human League", também em 2001). Curiosamente, a banda de "Dare" regressou aos discos no mesmo ano, com "Secrets", e nessa altura também tinha os Laptop, The All Seeing I ou Bis entre os descendentes entretanto esquecidos (embora "Return to Central", dos últimos, seja disco merecedor de outras atenções - e talvez tema para um próximo post).

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Com 16 faixas e quase uma hora de duração, "604" é talvez mais longo do que precisava e, mesmo sem momentos dispensáveis, perde algum fôlego na recta final. Mas não só resistiu muito bem ao tempo como se mostra versátil nas coordenadas que delimita, da faceta mais imediata dos singles a um instrumental vertiginoso como "Zmeyka" (a lembrar as experiências dos contemporâneos Add N to (X)), do adeus minimalista de "Skools Out..." (acesso de distorção lo-fi na linha de uns Suicide) a um sentido lúdico que os discos seguintes foram perdendo (a visita rodopiante de "Paco!" a uma superfície comercial destoaria em qualquer outro alinhamento). 20 anos depois, continua a ser um prazer (re)descobrir o som dos LADYTRON...

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