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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Há uma luz que nunca se acende

The Long Night.jpg

 

Nota: texto com spoilers ligeiros de "A Guerra dos Tronos" (T8E3)

 

O melhor de "A GUERRA DOS TRONOS" nunca foi o lado sobrenatural. Para quem não vê a série, a presença dos dragões pode parecer um elemento dominante, e geralmente tende a afastar quem não simpatiza com aventuras fantásticas. Mas os que entraram no universo destes Sete Reinos saberão que essas e outras criaturas são muitas vezes mero fogo de vista, e com um papel que raramente se sobrepõe a conflitos que não se resolvem no campo de batalha.

 

Uma das particularidades da saga de George R. R. Martin é mesmo a de encontrar espaços ambíguos num jogo de forças entre o Bem e o Mal, através de personagens multifacetadas e contraditórias. O que não impede que a polarização moral tenha dominado a fase mais recente da história (a da versão televisiva, pelo menos), com a resistência de Winterfell à marcha mortal dos White Walkers, o que levou muitos antagonistas de outros tempos a colocarem as suas diferenças de lado para enfrentarem uma ameaça comum.

 

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Se esta união de quase todas as personagens conduziu a uma sucessão de (re)encontros nos primeiros episódios da oitava temporada, o terceiro era especialmente aguardado desde há muito, e a própria HBO não poupou na antecipação de um marco no pequeno e grande ecrã. Mas embora assinale um momento decisivo na narrativa, "The Long Night" não se revela tão impressionante nem memorável como outros capítulos-chave de "A GUERRA DOS TRONOS". E alguns deles até partilharam o realizador deste, Miguel Sapochnik, que se mostrou muito inspirado nos combates épicos de "Hardhome" e sobretudo de "Battle of the Bastards".

 

O britânico não deixou de ser inventivo nas sequências de batalha, e até serve uma de antologia logo ao início do episódio, quando centenas de soldados literalmente iluminados por Melisandre são consumidos pela escuridão do exército do Night King. Infelizmente, o que se segue raramente atinge uma tensão equivalente ao deixar o espectador à deriva em demasiados momentos. E torna-se difícil reduzir as críticas à montagem acelerada e principalmente à direcção de fotografia (e ao tipo de iluminação ou falta dela) a mera má vontade de meia dúzia de fãs nas redes sociais. Sim, a acção é confusa, para não dizer atabalhoada, em particular quando se concentra no colectivo em vez do individual, e nem algumas cenas mais desenvoltas (como a perseguição a Arya Stark na biblioteca) chegam para que o resultado se aproxime de outros picos da saga no campo de batalha.

 

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Sapochnik continua a ter boas ideias, e o recurso ao silêncio ou à música em vez de uma aposta a fundo nos diálogos está entre as melhores. Mas por cada momento habilidoso há dois ou três esbatidos, redundantes e frustrantes, às quais o argumento também não será alheio. Uma Melisandre vinda de nenhures, e com feitiços e profecias demasiado convenientes, ainda se aceita. Um Night King que é simultaneamente a maior ameaça e o vilão mais unidimensional da saga também ainda passa, pela atmosfera com potencial dramático que ajuda a moldar. Já a forma como acaba por ser derrotado está mais próxima de má fanfiction do que de um remate à altura de muito do que ficou para trás, e consegue ultrapassar o ridículo da forma como Theon Greyjoy é despachado (naquela que é a resolução mais previsível para o seu arco, e exectuada do modo mais mecânico).

 

O tão prometido adeus a algumas personagens é, aliás, bastante mais contido do que o que se esperaria numa saga que não temeu despedir-se tantas vezes de figuras centrais. Nem é preciso chegar a meio do episódio para desconfiar que a sobrevivência de boa parte dos protagonistas nunca a chega a ser realmente comprometida, em alguns casos de forma inacreditável (Sam Tarly, a personagem mais sortuda da série?). E assim "The Long Night" nunca consegue ir muito além de uma narrativa de cerco demasiado próxima de muitos filmes de zombies, apesar das diferenças óbvias de contexto e das variações de tom que Sapochnik vai tentando injectar ao longo de 80 minutos de nível desigual. Depois da desilusão desta noite dos mortos-vivos, espera-se que Cersei Lannister seja uma bruxa má capaz de dar mais luta...

 

 

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