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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Mãe há só uma

Embora conte com mais de dez filmes no currículo, o japonês Tatsushi Ohmori será pouco ou nada familiar para os espectadores portugueses. Uma falha agora colmatada graças à Netflix, que acolheu "LAÇO MATERNO", o seu novo drama - e um dos mais secos e angustiantes dos últimos tempos.

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Estudo de duas personagens unidas por uma relação tóxica, "LAÇO MATERNO" é um olhar sobre a manipulação e a codependência ancorado numa mãe que vive à margem da família e da sociedade, sem trabalhar nem ter residência fixa, e que arrasta consigo o filho para uma experiência de alienação sem que se vislumbre uma luz ao fundo do túnel.

Mãe há só uma, mas para o pequeno Shuei (que o filme acompanha da infância à adolescência), além da mãe não há mesmo mais nada - pelo menos até ao nascimento da irmã, que o leva a reavaliar uma rotina de abandono e precariedade.

Filme duro e implacável, "LAÇO MATERNO" deixa um relato sobre aqueles para quem o sistema prefere não olhar ou que não consegue salvar ainda que tente - a segurança social entra em cena a certa altura -, deixando perpetuar uma situação de abusos físicos e psicológicos sobre quem não sabe defender-se deles.

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Ohmori pode ser repetitivo ao passar essa mensagem, e talvez não precisasse de mais de duas horas para a transmitir - sobretudo quando o ritmo moroso nem sempre ajuda. Mas também é coerente ao não poupar os protagonistas nem os espectadores, numa narrativa com tanto de inquietante como de exasperante. O mais assustador, no entanto, é saber que parte de uma história verídica, num caso em que a realidade provavelmente ultrapassa a ficção.

Felizmente, o resultado, mesmo com desequilíbrios, mantém-se longe da linguagem de um telefilme de pretensões sociológicas: o realizador acompanha esta mãe em roda livre, na sua frieza e negligência, sem procurar explicações óbvias (e muito menos reconfortantes) de causa e efeito. Uma opção valorizada por Masami Nagasawa, num desempenho implosivo e certeiro, e pelo estreante Daiken Okudaira, também muito bom a traduzir a vulnerabilidade do filho na adolescência. Não chegará para que "LAÇO MATERNO" atinja o patamar dramático e formal de "Ninguém Sabe" (2004), do conterrâneo Hirokazu Koreeda, mas é um descendente a ter em conta dessa crónica familiar memorável.

3/5