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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Mulheres já muito além de um ataque de nervos

Três actrizes em estado de graça - Juliette Binoche e as estreantes Viktoria Miroshnichenko e Vasilisa Perelygina - protagonizam dois dos filmes em cartaz mais arriscados. E embora o balanço seja desigual, tanto "CLARA E CLAIRE" como "VIOLETA" oferecem retratos femininos que insistem em jogar com as suas próprias regras, para o melhor e para o pior.

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"CLARA E CLAIRE", de Safy Nebbou: Juliette Binoche é o principal motivo para descobrir o novo filme de um realizador francês até aqui inédito nas salas portuguesas, ao deixar uma interpretação que sai incólume de um argumento que nem sempre está à sua altura.

Não começa mal, este drama que se vai encaminhando para o thriller psicológico à medida que Claire, uma professora universitária divorciada na casa dos 50, cria um perfil falso no Facebook para seguir a rotina do ex- namorado, alguns anos mais novo, iniciando assim uma relação virtual com o melhor amigo deste. Mas o desenvolvimento dessa cumplicidade à distância leva a que a trama se torne cada vez mais rocambolesca e inverosímil, com a crónica inicialmente justa e perspicaz da solidão e fragilidade emocional de uma mulher - incapaz de lidar com o envelhecimento, assumindo a identidade de uma mulher mais nova - a dar lugar a uma série reviravoltas desnecessárias e até algo desonestas para o espectador.

Resultado: embora a actriz principal se mantenha admirável na vulnerabilidade que emana, os secundários  são pouco mais do que marionetas e o filme parece indeciso quanto ao tom, entre sublinhados dramáticos (que a banda sonora não disfarça) e efeitos (meta)narrativos. E se o final, tão irónico como desconcertante, até salva parte do que está para trás, Binoche entregou-se a uma crise de meia-idade bem mais memorável no também relativamente recente "O Meu Belo Sol Interior", de Claire Denis, retrato intimista com uma desenvoltura e eloquência que Safy Nebbou só atinge a espaços.

2,5/5

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"VIOLETA", de Kantemir Balagov: A segunda longa-metragem de um dos nomes mais aplaudidos do novo cinema russo tem tido um percurso invejável em vários festivais internacionais - venceu o prémio Un Certain Regard, em Cannes, na categoria de realização, por exemplo - e é reveladora de uma maturidade rara para quem ainda não completou 30 anos.

Duro e austero, é um drama que recua até à Leningrado de 1945, pouco depois do fim da II Guerra Mundial, para mergulhar no quotidiano de duas mulheres, quase sempre nos corredores de um hospital militar. E é também um relato de desespero e privação, com o trauma do luto a ecoar no relacionamento e na postura das protagonistas, ainda que de formas distintas. Apesar de a guerra ter terminado, o cenário não é particularmente esperançoso e às vezes Balagov ameaça atirar-se de cabeça para o miserabilismo. Mas fica sempre a um passo do precipício, e ajuda que a dupla de jovens actrizes que acompanha (ambas brilhantes nos seus primeiros papéis) moldem personagens de corpo inteiro em vez de bandeiras de uma qualquer condição - de género ou classe social. O argumento, aliás, também demora a dizer ao que vem, e deixa o espectador tão desorientado como as personagens (no melhor sentido) ao não optar por territórios formatados. Aos poucos, no entanto, vai consolidando detalhes de uma história de "amour fou" com sinais muito particulares, enquanto permite compreender aquelas mulheres e o que as une numa atmosfera com um realismo à flor da pele.

A viagem talvez seja um tanto desenhada a traço grosso na recta final, embora não deixe de ser menos comovente e intensa. E estranhamente bela, muito por culpa da fotografia de Kseniya Sereda - com vermelhos, verdes ou amarelos torrados fulgurantes - e de uma recriação de época e direcção artística inatacáveis, sem que o olhar de Balagov fique limitado a um exercício de estilo ostensivo e formalista.

3,5/5