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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Na cama com Birkin (e Daho)

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Mais de meio século depois de "Jane Birkin/Serge Gainsbourg" (1969), álbum tão histórico como controverso, "OH! PARDON TU DORMAIS..." chegou de forma bem mais discreta no final de 2020. Ao contrário dos primeiros discos de JANE BIRKIN, o mais recente não despertou grande atenção fora de portas, mas ainda vale a pena seguir o rasto desta britânica há muito habitué de Paris.

Aos 74 anos, a cantora que também se tornou compositora, realizadora, modelo e actriz regressou com o primeiro registo de originais desde "Enfants d'Hiver" (2008), nascido num dos seus períodos mais amargos: o que sucedeu ao suicídio de uma das filhas, a fotógrafa Kate Barry, em 2013 (morte que também ressoou no disco mais recente de Charlotte Gainsbourg, meia-irmã desta).

BIRKIN tem dito que "OH! PARDON TU DORMAIS..." só foi possível graças ao apoio de Etienne Daho, um dos cúmplices criativos de um alinhamento que também deve muito à colaboração do multi-instrumentista Jean-Louis Piérot. A parceria musical impediu que a britânica se entregasse à melancolia e à inércia numa fase de luto e o resultado foi um álbum que a mostra uma intérprete ainda carismática e insinuante enquanto continua a desenvolver a vertente de escritora de canções.

O disco partilha o título com o telefilme realizado pela própria, juntamente com Christine Boisson e Jacques Perrin, em 1992, e com a peça de teatro encenada por Xavier Durringer, em 1999. Mas se esses tinham o universo conjugal como ponto de partida, o olhar musical é mais amplo, até porque surge, lá está, inevitavelmente marcado pela experiência da perda e do envelhecimento.

Apesar da gravidade evidente, "OH! PARDON TU DORMAIS..." está longe de ser um álbum sisudo, articulando ambientes elegantes e sumptuosos com uma voz que continua a parecer cantar-nos ao ouvido, entre heranças que vão de antigos companheiros e colaboradores como Serge Gainsbourg ou John Barry (pai de Kate) à escola de Kurt Weill. Passando, claro, por Etienne Daho, com quem a autora partilha o protagonismo no novo single, precisamente a faixa-homónima. A dupla, que já colaborou várias vezes no passado, volta a juntar-se no videoclip, realizado por BIRKIN e a tornar literal a conversa de cama.