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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Pequenos prazeres

Ainda não é desta que a Marvel consegue o filme revigorante de que precisa há algum tempo. Depois de um parto difícil, "HOMEM-FORMIGA" chega com duas ou três boas ideias mas não escapa a uma fórmula demasiado familiar.

 

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Não tinha de ser necessariamente assim. Antes de irem parar as mãos de Peyton Reed, as aventuras do alter ego de Scott Lang foram entregues a Edward Wright, o realizador de "Shaun of the Dead" ou do brilhante (e às vezes incompreendido)  "Scott Pilgrim Contra o Mundo", uma das mais conseguidas (e mais arriscadas) adaptações de BD para o grande ecrã. Na altura, em 2006, o britânico contou ainda com a ajuda do amigo e conterrâneo Joe Cornish, autor do óptimo "Attack the Block", com quem partilhou a escrita do argumento. Mas mais recentemente, diferenças criativas afastaram o realizador do projecto, embora os estúdios não tenham deitado fora a sua contribuição para esta história, escrita a oito mãos já que também contou com a colaboração de Adam McKay e do próprio actor principal, Paul Rudd.

 

A escolha do protagonista foi, de resto, uma das mais acertadas desta aposta. Aos primeiros minutos, Rudd mostra que a sua personagem, que começa como um anti-herói saído da prisão, algures entre Robin dos Bosques e MacGyver, dificilmente encaixaria melhor noutro actor. Sem se levar demasiado a sério, compõe um Scott Lang desenrascado e carismático, capaz de fintar o sistema mas com um compasso moral de limites bem demarcados. Só que o facto de o protagonista ser tão convincente só realça a frustração em torno de quase tudo o resto...

 

Nunca saberemos se "HOMEM-FORMIGA" realizado por Edgar Wright seria muito diferente desta versão, mas os antecedentes do britânico são bem mais entusiasmantes do que os de Peyton Reed, tarefeiro de comédias românticas indiferentes como "Abaixo o Amor", "Separados de Fresco" ou "Sim!". Infelizmente, essa indiferença toma conta de boa parte desta incursão do norte-americano no universo Marvel, demasiado presa a um formato estanque tanto no argumento como na realização.

 

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A variação em torno dos moldes do filme de golpe, com superpoderes à mistura, começa por ser curiosa antes de se conformar com episódios previsíveis e personagens com desenvolvimento telegrafado pouco depois da primeira aparição. O vilão de serviço é especialmente fraco e um papel ingrato para Corey Stoll, tão bom em "House of Cards" e tão mal aproveitado aqui, numa figura genérica e sem espessura (nada que não se possa apontar à maioria dos antagonistas das adaptações da Marvel). O trio de bons malandros amigos do protagonista não é muito melhor, com o filme a realçar o estereótipo e o recurso a um humor fácil, às vezes despropositado, quase sempre dispensável (quando os gags se adivinham à distância, estamos mal). 

 

Michael Douglas e Evangeline Lilly também não têm grande oportunidade para deixar as suas personagens respirar, já que o argumento as utiliza para a história ir de A a B e pouco mais. Mas pelo menos, entre uma colecção de diálogos expositivos e algo melosos (valha-nos Paul Rudd, capaz de espantar a sisudez de uns quantos), há espaço para enriquecer a cronologia e mitologia da Marvel no grande ecrã, sobretudo com a introdução de uma super-heroína que já merecia ter surgido nos filmes dos Vingadores. E por falar nestes, o encontro do Homem-Formiga com um elemento da equipa é outro momento que muitos fãs agradecerão, ao lembrar episódios típicos da BD de forma menos intrusiva do que noutros filmes deste universo.

 

Pormenores como esses, ao lado de algumas sequências de acção que tiram partido das microaventuras do protagonista (com direito a brinquedos ameaçadores ou uma piada com os Cure), vão injectando alguma vida à rotina formal (há mais cinema em algumas cenas da série de "Daredevil" do que nestas duas horas) e narrativa (se a estrutura tipificada de filme de super-heróis cansa, o drama pré-fabricado de pais e filhas ameaça escorregar para uma sequela involuntária de "Interstellar", com formigas em vez de estrelas).

 

"HOMEM-FORMIGA" ainda funciona minimamente, mas contenta-se em ser só mais um blockbuster, só mais um capítulo na saga cinematográfica da Marvel, entretenimento mais tolerável do que aconselhável. Não que a concorrência directa o obrigue a ser muito mais...

 

 

 

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