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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Primavera Árabe ou Verão escaldante?

Entre o drama e o thriller, "CLASH" escapa às armadilhas do filme de denúncia ao mergulhar nas consequências da Primavera Árabe no Egipto. Mohamed Diab, que já tinha dado eco à revolução em "Cairo 678" (2010), volta a afirmar-se como uma das vozes do país a ouvir - e também a ver em estreias aconselháveis como esta.

 

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Dezenas de pessoas detidas numa carrinha da polícia ao longo de hora e meia - tempo que o espectador acompanha, uma vez que para as personagens o enclausuramento é bem mais longo. Podia ser a premissa de uma série B despachada, mas no caso da segunda longa-metragem de Mohamed Diab é o formato encontrado para colocar em conflito - e outras tantas vezes em sintonia - as facções que levaram aos protestos de rua tensos e violentos no Egipto durante o Verão de 2013.

 

"CLASH" situa a acção no Cairo logo após o presidente Mohammed Morsi ter sido deposto pelos militares, opondo os membros e simpatizantes da Irmandade Muçulmana aos liberais, do lado das forças armadas. E também encontra espaço para quem não se revê num destes polos, que de resto se tornam menos extremados quando as ideologias parecem não oferecer respostas para situações concretas - e frequentemente aflitivas.

 

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Sem nunca sair da parte de trás da carrinha, embora filme várias vezes o exterior, Diab vai captando e cruzando os rostos e as inquietações da sua amálgama de cativos, e é admirável como consegue ir gerindo e desenvolvendo tantos sem nunca os reduzir a personagens-tipo (sendo assim bem-sucedido onde Christopher Nolan falhou no também recente e bélico "Dunkirk").

 

É verdade que acaba por estar aqui uma montra da sociedade egípcia, ou boa parte dela, num grupo convenientemente diverso: além dos fundamentalistas islâmicos e dos que procuram um caminho no Ocidente, determinantes para que haja conflito, cruzam-se faixas etárias, classes sociais e profissões (ou falta delas). Mas admita-se que "CLASH" está mais interessado em mostrar como cada um tem as suas razões do que em tomar partido, e tanto abraça como encosta à parede todas as figuras que convoca - incluindo jornalistas e polícias.

 

Este misto conseguido de realismo e humanismo é mérito de um argumento eficaz, capaz de conjugar suspense e carga dramática, e de uma direcção de actores sem falhas, onde não é difícil acreditar naquelas personagens mesmo quando há uma ou outra situação mais forçada (como naquela que contrasta pais e filhos das duas facções, num braço de ferro entre a esperança e a tragédia).

 

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E se o interior da carrinha em modo panela de pressão convence, a recriação das manifestações de rua consegue ser ainda mais arrepiante, ao dar conta de como o caos civilizacional pode instalar-se de forma tão repentina no quotidiano urbano. O pânico crescente da intrusão do exterior vai travando os momentos espirituosos com que Diab tempera a narrativa, decisivos para que o filme não se afunde num relato plano e miserabilista.

 

Só é pena que o realizador não seja tão hábil quando se serve de uma câmara à mão epiléptica para captar (e reforçar) os momentos mais agitados, recurso quase esgotado que não tem aqui variações muito estimulantes. Com outro fôlego cinematográfico nessas cenas - e, já agora, um final mais inspirado -, "CLASH" seria filme para reforçar o impacto... mas seja como for há aqui muito de bom para além das intenções.

 

3/5