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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quando a câmara é a melhor arma

Numa altura em que é difícil escapar a demasiados lugares comuns sobre a cultura árabe, um filme como "ORIENTED" vem dar motivos para ter alguma esperança - e outros tantos para passar pelo Queer Lisboa 19.

 

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O maior mérito deste documentário de Jake Witzenfeld, britânico formado em Estudos do Médio Oriente, será o de conseguir esclarecer e consciencializar partindo apenas dos percursos de três amigos gay palestinianos residentes em Telavive, que apesar de partilharem as origens ou a orientação sexual mostram ideias bem distintas, às vezes até incompatíveis, tanto sobre questões políticas e sociais, caso do conflito israelo-árabe (do qual nunca conseguem distanciar-se apesar de um estilo de vida relativamente privilegiado), como daquilo que querem e procuram para a sua vida pessoal e profissional.

Mas como esta estreia na realização também dá conta, a separação entre o pessoal e o político está longe de ser estanque, sobretudo neste cenário, e leva a algumas das contradições com que Khader, Fadi e Naeem são obrigados a debater-se, seja na altura de iniciar um relacionamento amoroso ou de assumir a sua homossexualidade às famílias - que mesmo sendo muçulmanas não rejeitam necessariamente essa orientação, como o filme expõe, mas que também não conseguem ficar indiferentes ao impacto que o assunto possa ter na comunidade local.

Sem nunca ser tão angustiante, muito menos trágico, como outros retratos que o cinema tem feito da região, "ORIENTED" conta ainda com uma gravidade que não se afasta mesmo quando os seus protagonistas visitam a Europa, cabendo apenas a uma festa LGBT na Jordânia a função de escape temporário.

 

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Mas se há por aqui alguma dor e melancolia, há também tantas ou mais doses de humor, com Witzenfeld a revelar uma capacidade impressionante de alternar entre as lágrimas de choro e de riso, nunca impondo nenhuma vertente (e às vezes a lembrar a sensibilidade de Andrew Haigh em "Weekend" e "Looking", até pela realização à flor da pele e escolhas musicais certeiras).

O que à partida poderia ficar-se por um retrato didáctico e universal, ainda assim meritório, ganha outro peso dramático e cinematográfico ao apostar num olhar pessoal, mais específico e complexo, e para isso contará o desvio do conceito inicialmente definido: em vez de se concentrar na relação de Khader com o namorado judeu, o documentário terá saído a ganhar ao incluir outras caras e relações que desafiam essa dicotomia mais óbvia entre a cultura palestiniana e israelita.
A mudança de foco também se reflectiu na alteração do título, deixando cair a primeira escolha, "Misfits", que poderia sugerir a vitimização dos retratados, como contou o realizador à Out Magazine. Witzenfeld prefere a colaboração, a resiliência e a transcendência enquanto elementos-chave desta viagem de descoberta da identidade e, tal como o trio protagonista, torna a câmara na melhor arma a favor desse idealismo e activismo.

 

 

 

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