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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Entre Roma e Nápoles, da comédia ao crime

Depois de ter arrancado em Lisboa em Abril, a 12ª edição FESTA DO CINEMA ITALIANO chega a Évora, Tomar, Caldas da Rainha e Loulé nos próximos dias. Da programação que passou pela capital, "Bangla" e "Napoli Velata" ficaram entre as melhores apostas deste ano.

 

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"BANGLA", de Phaim Bhuiyan: Deliciosa, esta mistura de comédia e drama, a marcar a estreia de um realizador que também se encarrega do argumento, da produção e ainda arrisca o papel de protagonista. O facto de ser uma história em parte autobiográfica talvez ajude a explicar que seja tão credível, e com uma espontaneidade que obras de muitos realizadores mais experientes não conseguem emanar. A partir do dia-a-dia de um rapaz de uma comunidade do Bangladesh dos subúrbios de Roma (albergue de "hipsters, turistas e velhotes"), Bhuiyan vai falando, de forma certeira e contagiante, dos dilemas das diferenças culturais e da entrada na idade adulta. Essa inquietação é ampliada quando o protagonista se apaixona por uma rapariga italiana e caucasiana, obrigando-o a questionar códigos familiares, sociais e religiosos, mas "Bangla" nem tenta forçar uma resposta. Limita-se a dar conta da inquietação emocional de uma forma tão irreverente como calorosa, enquanto revela um realizador capaz de oferecer uma série de gags inspiradíssimos, numa das melhores comédias românticas em muito tempo - e uma espécie de resposta italiana à também aconselhável "Master of None", de Aziz Ansari, sem sair a perder na comparação e com personalidade e carisma mais do que suficientes.

 

3,5/5

 

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"IO SONO TEMPESTA", de Daniele Luchetti: Uma das maiores desilusões desta edição, o novo filme do realizador de "O Meu Irmão é Filho Único" (2007) ou "A Nossa Vida" (2010) fica muito aquém desses dramas (sobretudo do segundo, excelente) ao propor uma viragem para a comédia. A mudança de rumo em si não é o problema, mas esta história, que deve alguma inspiração à figura de Berlusconi, opta sempre pelo maior denominador comum enquanto tenta elaborar uma sátira política e social à Itália contemporânea - num registo que está mais próximo do pequeno do que do grande ecrã. Marco Giallini, na pele de milionário ganancioso e condenado a serviço social, nunca vai além da caricatura (o argumento também não lhe pede mais), e Elio Germano, como sem-abrigo tornado braço-direito do protagonista, é ainda mais desperdiçado depois de ter sido brilhante noutros voos com Luchetti. Mas pior estão as personagens femininas, que dão conta das maiores limitações da escrita em situações quase sempre ridículas. Pelo menos "Anni Felici" (2013), que passou pela Festa do Cinema Italiano há uns anos, revelava algum esforço em construir personagens minimamente intrigantes e em olhar ao redor de forma menos simplista. "Io Sono Tempesta", depois da encomenda "Francisco, O Papa do Povo" (2015), já é só obra de um autor que deu lugar ao tarefeiro mais acomodado...

 

1,5/5

 

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"NAPOLI VELATA", de Ferzan Ozpetek: Ao contrário da esmagadora maioria dos filmes (ou séries) que têm Nápoles como cenário, aqui a cidade italiana não surge como mero palco de crimes ligados à máfia. E embora não faltem homicídios, por uma vez não resultam de acções da "La Familia". Esse é talvez o elemento mais refrescante do novo filme do autor de "A Janela em Frente" (2003), "Saturno Contro" (2007) ou "Uma Família Moderna" (2010), cuja obra tem chegado às salas portuguesas de forma irregular. Mas é uma filmografia que merecia ser mais vista, uma vez que o realizador turco radicado em Itália tem-se mostrado um artesão habilidoso, movendo-se com desenvoltura entre vários géneros. Desta vez opta pelo thriller com contornos noir, e à partida ostensivamente eróticos... embora com uma classe e arrojo muito acima de subprodutos como "As Cinquenta Sombras de Grey", saga com a qual sugere algumas afinidades na premissa. Ainda assim, o que começa como um one night stand entre a protagonista e um homem misterioso acaba por revelar mais paralelos com o também recente "O Amante Duplo", de François Ozon, embora o retrato de Ozpetek seja bem mais rico a nível dramático, não se esgotando no exercício de estilo vistoso. Além da óptima galeria de secundários, o grande destaque é mesmo Nápoles como personagem de relevo, a quem o realizador dedica uma carta de amor a partir dos ambientes do meio artístico e intelectual. Entre a arquitectura da cidade e ruas tão labirínticas como algumas pistas do argumento, "Napoli Velata" vai moldando um olhar enigmático e sedutor, com tanto de realista como de barroco e surreal, e Ozpetek não perde a mão ao longo de uma viagem desconcertante ancorada na solidão e angústia de uma mulher. Bela surpresa.

 

3,5/5

 

Os Meninos da Camorra.jpg

 

"PIRANHA - OS MENINOS DA CAMORRA", de Claudio Giovannesi: Se "Napoli Velata" consegue espreitar recantos pouco vistos de Nápoles, o segundo filme de um dos novos realizadores italianos (sucessor de "Fiore", de 2016) nunca chega a sair de cenários habituais. Em parte talvez nem pudesse sair muito, já que se trata de uma adaptação de um livro de Roberto Saviano, autor de "Gomorra", também adaptado para cinema e TV. Giovannesi assinou, aliás, alguns episódios da série, e tanto essa experiência como a passagem pelo documentário informam o realismo palpável desta saga de iniciação ao crime. Mas embora o realizador traduza um verismo de espaços e figuras com uma solidez assinalável, reforçado pela direcção de jovens actores não profissionais (e todos da região onde decorre o filme), esta história de um grupo de adolescentes decididos a integrar a Camorra não será muito surpreendente para quem está familiarizado com outros retratos do mesmo submundo. A perda da inocência e o mergulho numa espiral descendente são dados adquiridos logo à partida, tanto como as consequências de um ciclo de violência sem fim à vista - que chega a instalar um determinismo confirmado pelo desenlace. De qualquer forma, está longe de ser um mau filme, já que Giovannesi apresenta este relato de ambição e decadência a partir do quotidiano de Nicolas, rapaz de 15 anos e um protagonista suficientemente interessante para que sigamos a sua jornada (e Francesco Di Napoli é uma das boas escolhas de um casting seguro). Só faltou mesmo algum arrojo, sobretudo depois de tantos episódios de "Gomorra" muito mais transgressores e inventivos.

 

3/5

 

Oh, Carol, o que é que te fizeram?

Apesar de ser o primeiro filme da Marvel protagonizado por uma mulher, "CAPITÃO MARVEL" é das aventuras mais genéricas deste universo, arriscando-se a ficar como mero tapa-buracos numa cronologia em movimento contínuo. Um desperdício de recursos, começando pelo elenco...

 

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E ao 21º filme, o Universo Cinematográfico Marvel (MCU) apostou numa história centrada numa super-heroína. Já vem tarde, mas mesmo assim a euforia promocional de um dos blockbusters mais aguardados da temporada não se tem cansado de destacar a suposta emancipação e costela feminista - que na BD já está, felizmente, muito longe de ser novidade.

 

O problema é que, tirando o género da protagonista, "CAPITÃO MARVEL" (custava muito ter mantido o feminino na tradução do título?) limita-se a ser um desfile de mais do mesmo no campeonato dos super-heróis no grande ecrã. Não ajuda que o que o que há uns anos passava por surpreendente esteja agora mais do que estafado, mas mesmo assim era legítimo esperar um pouco mais do que a receita do costume, desta vez com uma mulher à frente dos acontecimentos.

 

A sensação de oportunidade perdida sai reforçada quando Carol Danvers, a Capitã Marvel, parece mais um emblema a exibir a favor da diversidade do que uma personagem de corpo inteiro. O filme mostra quase sempre mais o símbolo do que a mulher, com Brie Larson a nunca conseguir ir muito além de uma marioneta que tem de unir as histórias que já vimos e as que se seguem - entre referências ao passado de Nick Fury e da S.H.I.E.L.D. e o próximo desafio dos Vingadores, na Guerra Infinita.

 

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Não é que as ideias que "CAPITÃO MARVEL" vai lançando sejam necessariamente más. Só que as vertentes da história de peixe fora de água, de buddy movie e de saga cósmica seguem sempre pelo caminho mais rotineiro, em duas horas que nunca conseguem encontrar um centro narrativo e emocional. O resultado não é tanto o desastre absoluto mas a indiferença quase total, motivada por sequências de acção sem chama, CGI pouco convincente, humor fraco e preguiçoso (estamos mal quando é preciso insistir nos encantos de um gatinho), riscos quase nulos (a protagonista é tão poderosa que nenhuma ameaça chega verdadeiramente a emergir) e alusões despropositadas à crise dos refugiados (quando nem a componente feminista é trabalhada de forma interessante, para quê seguir também por aqui?).

 

Ao situar a acção nos anos 1990, o filme sugere, pelo menos, alguma tentativa de singularidade. E admita-se que uma banda sonora com clássicos dos Garbage, Elastica ou Hole não será a mais expectável numa aventura da Marvel. Ainda assim, referências musicais como essas (ou aos Nine Inch Nails, PJ Harvey ou Smashing Pumpkins) ficam como acessos fugazes de uma personalidade que não chega a impor-se em todos os outros aspectos. E a nostalgia também oferece um dos momentos mais frustrantes quando "CAPITÃO MARVEL" aposta num tema dos No Doubt e destrói por completo qualquer tentativa de tensão numa sequência de combate.

 

Opções constrangedoras como essa sublinham que Anna Boden e Ryan Fleck, dupla que já tinha colaborado no óptimo "Half Nelson - Encurralados" ou no simpático "É uma Espécie de... Comédia", está muito mais à vontade na comédia dramática indie do que no universo dos super-heróis de grande escala. Aqui a realização é indistinta e parece atirar dois nomes promissores para a lista de tarefeiros de Hollywood, com a força da máquina da Marvel a impor-se a qualquer visão pessoal - além de que há muitos episódios de "Agentes da S.H.I.E.L.D." francamente mais inventivos, arriscados e divertidos do que estas duas horas.

 

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Se qualquer marca autoral sai anulada, a presença dos actores também raramente chega a sentir-se. Brie Larson não sai favorecida pelo argumento, é certo, mas para além disso deixa dúvidas de que seja a melhor escolha para Carol Danvers - Charlie Theron e sobretudo Emily Blunt provavelmente seriam uma Capitã Marvel com mais garra e carisma. A protagonista tem, ainda assim, alguma química com Samuel L. Jackson, embora este encarne uma versão de Nick Fury que não só é mais jovem como às tantas se afasta de qualquer caracterização anterior da personagem (e mais tosca do que cínica). Annette Bening e Jude Law são amplamente desperdiçados em figuras ainda mais esquemáticas e Djimon Hounsou ou Gemma Chan quase ficam reduzidos a figurantes (incompreensível, a presença de ambos no cartaz promocional). Sobra Ben Mendelsohn, a fazer o que pode com o pouco que lhe dão (apesar de tudo, faz mais do que em "Rogue One: Uma História de Star Wars" ou "Ready Player One: Jogador 1") e principalmente Lashana Lynch, com uma entrega muito maior do que a que o filme merece (e elemento-chave para que a protagonista consiga revelar alguma vulnerabilidade emocional). Já Clark Gregg, mais inexpressivo do que nunca, não mostra ser actor capaz de aguentar o salto para o grande ecrã

 

Decididamente, as maravilhas do cinema de super-heróis dos últimos tempos parecem ter saído da animação: "The Incredibles 2: Os Super-Heróis" e "Homem-Aranha: No Universo Aranha" provaram que ainda pode haver vida nestas aventuras, tanto na narrativa como nas caracterizações ou na energia visual. "CAPITÃO MARVEL", por outro lado, não faz nada pelo bom nome do género e só vem dar razão aos detractores - mesmo que os seus ingredientes ainda pareçam ter a receita para o sucesso nas bilheteiras.

 

1,5/5

 

 

Mulheres à beira de um ataque de nervos

Três das primeiras estreias do ano dão conta dos regressos de Maggie Gyllenhaal, Felicity Jones e Natalie Portman ao grande ecrã. Mas "A EDUCADORA DE INFÂNCIA", "UMA LUTA DESIGUAL" e "VOX LUX" são filmes de interesse muito variável...

 

The Kindergarten Teacher - Still 1

 

"A EDUCADORA DE INFÂNCIA", de Sara Colangelo: Estudo de personagem ambíguo e obsessivo, este drama que adapta "Haganenet" (2014), filme do israelita Nadav Lapid (que não teve estreia comercial em Portugal), oferece a Maggie Gyllenhaal um dos maiores desafios do seu percurso. E ela mostra estar à altura na pele de uma mulher cujo quotidiano rotineiro, com uma vida familiar e profissional em ponto morto, tem direito a novo fôlego a partir do deslumbre pelo potencial artístico (e literário e poético em particular) de uma das crianças do jardim de infância onde trabalha. À medida que esse fascínio inicial ganha intensidade e começa a dominar o dia-a-dia da protagonista, a realizadora não teme ir movendo o filme para zonas de sombra, embora com a sobriedade a impor-se a tentações de sensacionalismo (o que é especialmente assinalável num olhar sobre a exploração infantil). E da fuga para a frente da personagem de Gyllenhaal, sempre esquiva tanto para o espectador como para os que a rodeiam, nasce um retrato melancólico e adulto da frustração, sem julgamentos nem clichés do thriller psicológico (território do qual a acção se aproxima na recta final). Muito bem defendida por uma actriz capaz de traduzir essa ansiedade e inquietação, está aqui uma das boas surpresas recentes do cinema independente norte-americano - e uma nova chamada de atenção para uma cineasta depois da sua primeira longa-metragem, a pouco vista "Pequenos Acidentes", de 2014.

 

3/5

 

Felicity Jones stars as Ruth Bader Ginsburg in Mimi Leder's ON THE BASIS OF SEX, a Focus Features release.

 

"UMA LUTA DESIGUAL", de Mimi Leder: Não há nada de especialmente falhado neste relato da história (ou parte dela) da juíza Ruth Bader Ginsburg, a segunda mulher e primeira judia a ocupar um cargo no Supremo Tribunal de Justiça dos EUA. Mas como em tantos outros biopics, também não há nada de especialmente inspirado. Admita-se que a perspectiva de Mimi Leder ("Favores em Cadeia", "O Pacificador") nem é tão maniqueísta como parece à partida, já que vai expondo a postura inicialmente exemplar da personagem principal a algumas contradições e tensões com a família ou com outros aliados da sua cruzada contra a discriminação feminina. Só que nem essa ambivalência ocasional chega para tornar muito estimulante uma narrativa formatada e sem grandes ideias de realização, apesar da óbvia competência de recursos - dos cenários impecavelmente polidos a alguns diálogos certeiros ou a interpretações que não comprometem. Felicity Jones até consegue ir mostrando a mulher por trás do símbolo, ainda que o argumento não lhe dê tantas oportunidades como ela ou Ginsburg merecem - ocupado entre saltos temporais ou a impor a mensagem (meritória e pedagógica) às personagens (maioritariamente esquemáticas). Armie Hammer, que nas primeiras cenas parece limitar-se a repetir a pose de "Chama-me Pelo Teu Nome", também convence como a outra metade do "power couple" no centro da história, com uma contenção que ajuda a orientar o percurso obstinado da protagonista. Mas nem o capital de simpatia da dupla eleva o resultado acima de cinema morno, tão bem intencionado como bem comportado, e a fechar com uma sequência que não se distingue muito das de demasiados filmes ou séries de tribunal. Pedia mais garra, esta luta...

 

2,5/5

 

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"VOX LUX", de Brady Corbet: O actor que se estreou atrás das câmaras com "A Infância de um Líder" (2015) não faz a coisa por menos: o seu segundo filme chega com a pretensão de deixar "um retrato do século XXI". E não começa mal, no primeiro de três capítulos que acompanha, de forma intrigante q.b., uma adolescente aspirante a cantora que sobrevive um massacre no seu liceu, deixando pistas sobre as ligações que podem nascer entre a tragédia e a arte, a inadaptação e a procura de um rumo (pontes complementadas pela voz off de Willem Dafoe e a banda sonora de Scott Walker). Mas Corbet rapidamente se perde num ensaio sobranceiro que parte da carreira da protagonista, entretanto transformada numa estrela pop planetária, para colocar em cheque o individualismo e a falta de comunicação na era das redes sociais, com um olhar cínico sobre a fama e a sociedade de consumo ao qual não falta, como no arranque, um paralelo com a ameaça terrorista. Infelizmente, "Vox Lux" assenta numa personagem desinteressante e estereotipada, e mesmo que o seu narcisismo e futilidade sejam deliberados, o olhar do realizador sobre ela não é muito melhor. A faceta pessoal e profissional da figura interpretada por Natalie Portman (com uma postura tão afectada como em "Jackie"), na idade adulta, e antes por Raffey Cassidy, que regressa para encarnar a filha desta (com uma interpretação muito mais espontânea), tem uma tensão dramática aquém da que o filme procura e só realça que o seu autor tem pouco a dizer - ou que não encontrou aqui a forma mais conseguida de se expressar. O desenlace sublinha ainda mais a sensação de experiência falhada, ao apontar sugestões de um musical pós-moderno baseado em canções inéditas de Sia, tão medíocres que as cenas em palco chegam a tornar-se penosas. Decididamente, Corbet não faria mal em afinar a voz criativa...

 

1,5/5

 

Spielberg vai a jogo (e o cinema sai a perder)

Nem divertimento escapista nem reflexão digna de nota: "READY PLAYER ONE: JOGADOR 1" traz a assinatura de Steven Spielberg, mas mal se distingue dos produtos descartáveis de muitos tarefeiros de Hollywood. Desde já, uma das desilusões de 2018...

 

Ready Player One

 

O problema talvez já venha do livro homónimo de Ernest Cline que o filme adapta, editado em 2011 e promovido a bíblia de muitos devotos da cultura pop em geral e dos videojogos em particular, embora o ponto de partida não sirva de desculpa para o resultado final. "READY PLAYER ONE: JOGADOR 1", na verdade, parece estar mais na linha de alguma ficção científica light e juvenil dos últimos anos - a de sagas como "Os Jogos da Fome" ou "Maze Runner", também com raízes literárias -, do que dos clássicos do autor de "E.T." que inspiraram gerações desde os anos 80.

 

Não que o filme não tenha ecos dessa década (ou da seguinte, ainda que menos dominantes). É, aliás, um dos exemplos recentes mais descarados de capitalização da nostalgia, com o argumento a ser pouco mais do que um inventário de referências e citações associadas à infância e juventude de muitos dos que cresceram com Spielberg. E se na primeira metade a narrativa ainda consegue ir revisitando, com alguma energia, vários universos em tempos considerados de culto mas hoje cada vez mais globais (da fantasia ao terror, passando pelo anime), a graça depressa se esgota e não sustenta as mais de duas horas de duração desta saga futurista onde o reconhecimento ganha quase sempre à surpresa.

 

Ready Player One 2

 

Mais problemática do que o concentrado de piscares de olho óbvios (ouça-se a lista de canções dos anos 80, especialmente preguiçosa e cansativa) é a trama distópica da qual está ausente a capacidade de maravilhamento indissociável dos melhores filmes de Spielberg, com a vertente lúdica sugerida ao início a ceder terreno a um jogo de pistas genérico e rotineiro, que nem sequer consegue dar novos mundos a cenários da realidade virtual (há uma sequência numa discoteca com algum esplendor, mas é a exceção que só confirma a regra).

 

Spielberg parece mais preocupado em oferecer uma colecção de "easter eggs" do que em desenhar personagens de corpo inteiro, num desperdício de actores que deixa Tye Sheridan entregue a um cliché geek (pós-Peter Parker, pós-Harry Potter e mais pobre do que ambos) e Ben Mendelsohn reduzido a uma presença sonolenta como vilão de serviço, tão esquecível como o que encarnou em "Rogue One: Uma História de Star Wars" (e tão longe de uma das interpretações mais magnéticas dos últimos anos, em "Bloodline").

 

Ready Player One 3

 

Mark Rylance tenta esboçar uma figura mais ambígua, embora acabe por ser só outra peça do tabuleiro. E é logo aquela através da qual "READY PLAYER ONE: JOGADOR 1" tenta vender um final entre a mensagem inspiradora e a epifania, mas que deixa um sabor a sentimentalismo pouco sincero, no qual é difícil de acreditar depois de tanta parafernália tecnológica pronta a encher o olho (com direito a batalhas e perseguições consecutivas num terceiro acto especialmente arrastado). Custa ver, aliás, como um cineasta habitualmente tão interessado em explorar laços familiares trata os que estão mais próximos do protagonista, o que só vem reforçar o esquematismo de um blockbuster tão revivalista quanto despersonalizado.

 

Se a ideia era conjugar referências do passado e deixar inquietações em relação ao futuro, Spielberg bem podia ter guardado o livro de Cline na gaveta enquanto espreitava "USS Callister" ou "San Junipero", episódios de "Black Mirror" que provam como alguma televisão pode ser mais subversiva, lúdica e inventiva do que muito cinema - e nem impinge óculos 3D para tentar disfarçar a fraca experiência uma sala grande...

 

 1,5/5

 

 

O corpo de Jennifer

Depois dos jogos da fome, um jogo de massacre? Não parece haver grande programa em "MÃE!" além da humilhação (calculista e recorrente) da personagem de Jennifer Lawrence, por muito que Darren Aronofsky tente abrir o filme a todo o tipo de leituras.

 

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O início até nem é desinteressante. Concentrando a acção numa casa isolada, habitada por um casal, "MÃE!" arranca com uma mistura curiosa de drama conjugal árido, doses moderadas de humor escarninho e sugestões de terror psicológico, a deixar no ar que esse olhar contido sobre a esfera íntima não deverá manter-se por muito tempo.

 

Ao arrancar com a crónica da relação entre um escritor reputado em bloqueio criativo e uma mulher exclusivamente dedicada ao marido e ao lar, o novo filme de Darren Aronofsky vai colocando em jogo um olhar intrigante q.b. sobre as dinâmicas de um relacionamento, e não demora muito a apontar quem domina e quem se deixa subjugar (ou não se consegue impor). Essa ideia sai reforçada à medida que a casa vai acolhendo cada vez mais visitas, todas inesperadas, que colocam em causa a (aparente) calmaria inicial.

 

A personagem de Jennifer Lawrence, na qual a câmara se concentra, vai guiando o espectador enquanto se torna alvo crescente de pequenas humilhações, mas o que parte de uma revisão especialmente assombrada da Gata Borralheira acaba vítima de um efeito bola de neve sem travão à vista, que desaproveita o esforço da actriz. E o desempenho não chega a ir muito além do esforço porque o argumento não deixa que Lawrence componha uma personagem de corpo inteiro, embora sempre lhe ofereça mais do que ao resto do elenco.

 

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Javier Bardem, cujo percurso recente tem alternado entre o latino de serviço e caricaturas excêntricas, deixa uma interpretação a milhas do magnetismo de outros tempos (qual foi o seu último grande papel, mesmo?). De Ed Harris, então, dificilmente alguém se lembrará no final do filme. E Michelle Pfeiffer, embora num convincente modo vamp, parece ter ido passear às gravações enquanto bebia uma limonada e atirava umas farpas a Lawrence.

 

Aos poucos, vai ficando claro que "MÃE!" se interessa mais por figuras simbólicas do que propriamente por pessoas, opção que compromete o investimento emocional ainda possível durante a primeira metade mas difícil de manter na segunda. Quando Lawrence se sujeita a marioneta acumuladora de flagelos (não bastou o DiCaprio de "The Revenant: O Renascido", no ano passado?), a sucessão de episódios caóticos e prontos a inquietar e indignar sujeita-se a ter reacções entre o bocejo e o encolher de ombros.

 

É verdade que este tipo de abordagem não é inédito na filmografia de Aronofsky. Só que se "A Vida Não é um Sonho" até podia ser acusado de montra de miserabilismo pornográfico, também tinha uma energia formal rara associada ao desempenho e personagem inesquecíveis de Ellen Burstyn. O romantismo maior do que a vida de "O Último Capítulo" podia ser datado e ingénuo, mas Hugh Jackman e Rachel Weisz atiravam-se de cabeça a essa ambição - complementada por uma vertente plástica arriscada e pouco vista. E "Cisne Negro", outro retrato sinuoso de uma mulher no abismo, mantinha um equilíbrio e subtileza difíceis de gerir, no fio da navalha, dos quais "MÃE!" nunca chega a aproximar-se - se aí Aronofsky sussurava, agora grita.

 

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Não admira que o novo filme "arrojado", "provocador" e "polémico" de Aronosfky esteja a alimentar tanta discussão. Parece ter sido talhado para isso, abrindo a porta a todo o tipo de projecções e alegorias quando impõe a tentativa de ensaio civilizacional ao drama das personagens - das óbvias referências bíblicas a possíveis analogias com temáticas que vão do fascínio pela fama a alertas ambientais, passando pela crise dos refugiados ou (porque não?) pela América de Trump.

 

Só é pena que esse debate parta de uma obra cuja lógica de vale tudo a atira para a lista de filmes que se auto-destroem depois do intervalo (a lembrar outras desilusões recentes como "Foge", de Jordan Pele, ou "Arranha-Céus", de Ben Wheatley, curiosamente também com boa parte da acção confinada a um único espaço). E também é frustrante que visualmente o resultado seja igualmente desinspirado, sem o rasgo que ajudou a distinguir a filmografia de Aronofsky (pelo contrário, até tem algum do CGI menos credível de uma grande produção nos últimos tempos). Distinção, de resto, é o que menos há em "MÃE!": de "A Semente do Diabo", de Roman Polanski, a "Dogville", de Lars Von Trier, já vimos o que aqui se diz e mostra feito por outros, e bem melhor. O sacrifício de Jennifer Lawrence foi mesmo em vão.

 

1,5/5