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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Homens à beira de um ataque de nervos

Uma crise de meia-idade, um mergulho na culpa e um relato amoroso, todos no masculino e filmados por três veteranos que estão de volta este ano: Pedro Almodóvar, Marco Bellocchio e Woody Allen. O resultado é "DOR E GLÓRIA", "O TRAIDOR" e "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", respectivamente.

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"DOR E GLÓRIA", de Pedro Almodóvar: É estranho ver este drama ser tão louvado por vincar um suposto renascimento das carreiras do autor de "Tudo Sobre a Minha Mãe" e de Antonio Banderas. A última colaboração da dupla, em "A Pele Onde Eu Vivo", não só não tinha sido assim há tanto tempo como havia resultado numa obra que ia bastante mais longe no mergulho no trauma e noutros abismos emocionais. E sente-se falta de alguma dessa aspereza num filme que é, às vezes, mais interessante pelos paralelos entre o percurso do protagonista (um realizador veterano solitário e depressivo) e o de Almodóvar, numa espécie de autobiografia não oficial, do que pela(s) história(s) que conta.

Há várias sequências fortes, entre confrontos profissionais, amorosos e familiares, e a direcção artística é das mais esmeradas e facilmente reconhecíveis do cineasta espanhol - com destaque para um apartamento luxuoso, onde decorre a acção no presente, e uma cave transformada num lar, nas cenas que recuam à infância. Mas também há uma facilidade nem sempre muito credível (e até inesperadamente ligeira) na superação dos conflitos - da crise de inspiração ao mergulho nas drogas -,  que deixa o todo aquém da urgência de um testemunho como "Má Educação", talvez o filme de Almodóvar cujo argumento mais se aproxima deste olhar sobre (des)encontros no masculino.

De resto, sim, Antonio Banderas é convincente e comovente enquanto personagem-espelho do realizador (acabou premiado como Melhor Actor em Cannes) e Penélope Cruz volta a dar-se bem na nova colaboração com alguém que sabe sempre tirar o melhor dela (mesmo que aqui não acrescente muito a parceiras anteriores). Um reencontro a saudar, é certo, mas distante de uma epifania.

3/5

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"O TRAIDOR", de Marco Bellocchio: Um dos melhores biopics do ano (senão mesmo o melhor, merecidamente nomeado para a Palma de Ouro em Cannes) é também uma prova de que ainda é possível fugir aos estereótipos do "filme da máfia". E o retratado, Tommaso Buscetta, merece figurar entre os anti-heróis (ou vilões?) mais fascinantes dos últimos tempos, já que Bellocchio nunca olha de cima para o criminoso tornado informador numa denúncia histórica que atingiu, como poucas, a Cosa Nostra (a máfia siciliana).

Ao longo de quase duas horas e meia, esta combinação de drama e thriller recusa uma narrativa polida e formatada,  percorrendo vários anos da vida do protagonista e recompensando a atenção do espectador (sem se preocupar com uma insistência de explicações de contexto). Implacável na radiografia de um sistema corrupto, o realizador veterano viaja aqui entre a sua Itália natal, o Brasil e os EUA com uma fluidez que só não se mantém em duas ou três das muitas cenas de tribunal - cuja atmosfera de selva civilizacional, tão trágica como cómica, está entre as maiores singularidades do filme mas poderia sair reforçada com alguma economia narrativa. Em compensação, não faltam sequências de recorte superior, sobretudo momentos estratégicos de suspense e acção que mostram o octogenário num pico de forma - caso de uma cena de chantagem num helicóptero e, sobretudo, de um acidente automóvel filmado com um cruzamento invejável de criatividade e adrenalina.

Além deste olhar de cinema duro e adulto como poucos, "O TRAIDOR" eleva-se pela interpretação de Pierfrancesco Favino (actor que já tinha sido decisivo em "Suburra" ou "Saturno Contro"), capaz de moldar o protagonista enquanto figura ambígua, magnética e indecifrável - mas empática q.b.. E assinala aqui um dos grandes regressos de 2019, depois do menos entusiasmante "Sonhos Cor-de-Rosa" (2016).

4/5

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"UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", de Woody Allen: O título até parece ter qualquer coisa de premonitório, tendo em conta que esta comédia é o exemplo mais recente de um realizador a chover no molhado. Woody Allen pode ir buscar novos rostos para o seu cinema, mas o tema e a abordagem continuam os mesmos de sempre, num filme new yorker a deixar a enésima carta de amor à cidade que nunca dorme.

O brilho da direcção de fotografia de Vittorio Stotaro é inegável, embora saia desperdiçado numa historinha de unir os pontos sobre um jovem casal universitário durante uma visita atribulada a Nova Iorque. Timothée Chalamet dá corpo ao protagonista erudito e neurótico, seguindo um modelo em tempos encarnado por Allen, que tem aqui direito a uma lição de vida. Elle Fanning interpreta a sua namorada, cujo contacto (e deslumbramento) com figuras da elite intelectual lhe baralha as prioridades. Mas nenhum destes arcos narrativos é especialmente aliciante, com desvantagem para o dela, basicamente um concentrado de encontros com figuras caricaturais que não vão além de manobras de sedução. Fanning, de resto, também não consegue dar grande espessura à sua personagem, ficando-se pelo refúgio em tiques e gestos, ainda que o principal culpado seja um argumento genérico.

Nem os diálogos são muito memoráveis, ficando o factor surpresa limitado a Selena Gomez, com o desempenho menos afectado e uma das poucas personagens interessantes, e a uma cena do protagonista com a mãe, perto do desenlace, com uma carga emocional que parece pertencer a outro filme (mais bem escrito e interpretado). Apesar da polémica à volta da estreia (descartada nos EUA), "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE" é das obras mais inócuas do seu autor.

2/5

O amor é um lugar perigoso

Do Quénia e da Tailândia, respectivamente, "Rafiki" e "Manta Ray" passaram pelo QUEER LISBOA depois de terem feito um percurso elogiado em várias salas fora de portas. Mas entre as novidades da 23ª edição do Festival Internacional de Cinema Queer também ficam algumas curtas-metragens a reter (já outras, nem por isso).

 

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"RAFIKI", de Wanuri Kahiu: Esta edição do Queer Lisboa foi especialmente fértil em filmes que conciliaram o coming out e o coming of age, temática que está longe de ser novidade mas que continua a ser inspiradora. Infelizmente, também se mostrou mais inspiradora do que inspirada em muitas dessas novas obras, com variações pouco transgressoras de relatos de descoberta identitária e sexual.

 

"Port Authority", de Danielle Lessovitz, e "Skate Kitchen", de Crystal Moselle, foram exemplos simpáticos mas facilmente esquecíveis do cinema indie norte-americano recente - o primeiro com um romance entre um rapaz e uma rapariga trans, numa viagem à subcultura do voguing que uma série como "Pose" propõe com outra garra e carisma, o segundo uma resposta cândida e no feminino a "Kids", de Larry Clark, a partir do quotidiano de um grupo de skaters. Mais cru, "Sócrates", do brasileiro Alexandre Moratto, foi perdendo força ao ceder a muitos lugares comuns do realismo social, num remate a caminho do miserabilismo, desperdiçando a história de um adolescente homossexual orfão. Já "Carmen y Lola", da espanhola Arantxa Echevarría, conseguiu evitar algumas dessas armadilhas ao olhar para o relacionamento de duas raparigas da comunidade cigana, embora o final tenha sublinhado os desequilíbrios de um registo indeciso entre o quase documental e o quase telenovelesco.

 

É com a premissa de "Carmen y Lola", aliás, que a de "RAFIKI" mais se assemelha, ao também se centrar numa relação lésbica, ainda que num contexto completamente diferente. E aqui o contexto faz mesmo toda a diferença, ou não fosse este o primeiro filme do Quénia que olha para a homossexualidade de frente e sem julgamentos, o que o levou a ser banido dentro de casa, onde essa prática é considerada crime - por outro lado, garantiu um acolhimento de braços abertos em Cannes e marcou a estreia de uma obra do país na selecção do festival.

 

Rafiki 3.jpg

 

Sendo um filme especialmente corajoso e engajado, tem outros méritos além dessa vertente e não merece ficar confinado a curiosidade sociológica. É certo que a narrativa abraça a convenção, como de resto acontece com "Carmen y Lola", cujo desenvolvimento das protagonistas segue as mesmas vias. Mas isso não é impeditivo de que vá surgindo aqui um drama vibrante, pela química das actrizes principais ou do olhar tão realista como garrido de um bairro dos subúrbios de Nairobi.

 

Kahiu cede, ocasionalmente, a alguns facilitismos dramáticos, nos diálogos ou na caracterização de parte das personagens secundárias, embora se saia bem numa conjugação difícil de idealismo, através da postura do casal face a uma homofobia institucionalizada e claustrofóbica, e de um sentido de urgência que se vai tornando cada vez mais acentuado. E se o choque de realidade do último acto é especialmente inquietante (e revoltante), "RAFIKI" não se afunda na vitimização e opta por um desfecho esperançoso, mas muito longe de utópico, num testemunho que daria uma boa sessão dupla com "And Then We Danced", outra das apostas meritórias do festival.

 

3/5

 

Manta Ray.jpg

 

"MANTA RAY", de Phuttiphong Aroonpheng: Primeira longa-metragem de um realizador com um percurso de dez anos no formato da curtas, este drama contemplativo confirma, por um lado, que o tailandês tem um sentido estético e atmosférico envolvente, expresso em três ou quatro sequências com uma força sensorial assinalável, mas também revela que essa singularidade formal não chega para suportar o seu filme de maior duração até agora. Por cada momento com algum fulgor há outros que vão tornando esta uma experiência de interesse intermitente, o que faz com que a relação entre dois homens de uma pequena aldeia costeira da Tailândia - um pescador e um desconhecido mudo que é encontrado por ele quase sem vida - vá ficando aquém do potencial dramático. E tanto é assim que a situação trágica dos refugiados Rohingya, uma das comunidades mais perseguidas do mundo, se arrisca a passar aqui praticamente despercebida junto de um espectador ocidental, apesar de o realizador assinalar que foi um dos motivos que o levaram a querer contar esta história. Com poucos actores, poucos diálogos e poucas viragens narrativas, Aroonpheng prefere deixar que as trocas de olhares ou a combinação de música e imagem falem por si (belo momento, aquele cantado pela personagem feminina que entra em cena a meio). Mas se a dedicação dos actores é palpável, o resultado talvez ganhasse se não os deixasse entregues a um argumento que se detém demasiadas vezes no lado mais místico e simbólico, que chega a ser hipnótico embora não mergulhe a fundo no conflito entre amizade, amor, intimidade e conjugalidade que esboça.

 

2/5

 

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Numa edição em que algumas longas-metragens seguiram um modelo mais padronizado, a competição de curtas mostrou-se um espaço dominado por abordagens que apontaram outras direcções. Em vários casos, promissoras: no atrevimento adolescente de "O Mistério da Carne" (Rafaela Camelo, Brasil), com a insolência a desafiar dogmas e conservadorismo; na sobriedade de "Tendresse" (Maxime Rappaz, Suíça), visita a uma sauna gay com a empatia a impor-se a tentações titilantes ou escabrosas; na melancolia de "Great Again" (Kirrilee Bailey, Austrália), com uma mãe e uma filha divididas pelas promessas e ameaças de Trump; na crueza de "Old Narcissus" (Tsuyoshi Shoji, Japão), relato da solidão e do envelhecimento entre passagens pelo humor e pelo S&M; no formalismo lúdico de "After... After... (Access)" (Jordan Lord, EUA), a juntar autobiografia e ironia; ou na candura de "A Gift" (Aditya Ahmad, Indonésia), com a lógica binária a sufocar o quotidiano de uma adolescente muçulmana.

 

Pirate Boys.jpg

 

Mesmo que alguns dos filmes referidos acima tenham deixado a sensação de projecto inacabado, todos despertaram curiosidade em continuar a seguir as personagens e os realizadores. O mesmo já não se poderá dizer, no entanto, de "Printed Sunset" (Andrés Baron, Colômbia), retrato auto-indulgente e preguiçoso de um casal; de "Ant-Man" (Viet Vu, Vietname), provocação tosca e bocejante apesar do rigor e elegância formais; de "Pirate Boys" (Pol Merchan, Espanha), exercício documental demasiado hermético sobre trans e intersexualidade; e sobretudo de "Parsi" (Eduardo Williams, Mariano Blatt, Argentina), ensaio movido por uma voz off exasperante numa reflexão vaga e repetitiva sobre a diferença.

 

Também experimental, embora bem mais pop e ostensivo, "NEGRUM3" (Diego Paulino, Brasil) tem sido louvado como um retrato pungente da comunidade negra e queer paulista, mas parece perdido entre o apelo documental e a lógica de um videoclip. Estilo não lhe falta, só que o deslumbre pelos cenários e guarda-roupa sobrepõe-se a tudo o resto, ao ponto de uma enumeração de referências sugerir que o historial activista de Beyoncé ou de Solange está ao nível do legado de Nelson Mandela ou de Martin Luther King. Nada como (re)ver o filme de abertura do festival, o conterrâneo "Indianara", para lavar a vista (e as ideias) num manifesto que não se esgota na imagem.

 

Entre um Sir da pop britânica e os filhos do rock russo

"ROCKETMAN" é dos filmes mais badalados do momento, mas o retrato de Elton John nem chega a ser o melhor biopic musical em cartaz. Nesse campeonato, "VERÃO" surge como a proposta mais refrescante da temporada.

 

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Não vimos já isto antes? É a pergunta que fica à saída de "ROCKETMAN", que apesar de centrado de Elton John se limita a seguir, quase sempre, a história de unir os pontos de demasiados biopics, com a travessia obrigatória entre o triunfo e vertigem da queda, mais ou menos consumada. É verdade que o britânico Dexter Fletcher se mostra aqui um realizador ligeiramente mais imaginativo do que em "Bohemian Rhapsody", filme que teve a (inglória) tarefa de terminar, no ano passado, após Bryan Singer ter abandonado o projecto. Alguns números musicais, por exemplo, têm uma pompa e exuberância à medida do retratado e Taron Egerton, escolhido para o papel protagonista, é seguro a encarnar uma figura aqui ambígua e contraditória q.b..

 

O problema é que, durante boa parte da duração, "ROCKETMAN" raramente vai além da competência dada por adquirida em muitas produções britânicas, que não se aventuram além do registo de telefilme (aqui de orçamento claramente avultado). E se ainda é possível acreditar na personagem principal, as secundárias ficam presas em caricaturas, com casos gritantes na caracterização do pai do cantor ou de John Reid, o seu agente e companheiro de longa data (destacado como vilão de serviço).

 

Os saltos temporais entre uma sessão de terapia e a história do artista desde a infância também não chegam para evitar uma narrativa demasiado convencional, aquém do rasgo que a persona de Elton John conseguiu emanar na sua fase áurea. A excentricidade é, aliás, fogo de vista num biopic que nunca chega a mergulhar a fundo abismo de sexo e drogas e termina com uma lição de vida condizente com um livro de auto-ajuda. Sobra, enfim, algum rock n'roll, para quem for fã...

 

2/5

 

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Prova de que é possível fugir aos moldes mais formatados do biopic musical, "VERÃO" traz ao circuito comercial português um realizador pouco visto por cá: Kirill Serebrennikov, cineasta "maldito" na sua mãe Rússia e voz demarcadamente contestatária. Mas a raiva está bastante contida neste filme de época, ambientado em inícios dos anos 80, com um registo entre a melancolia e a candura.

 

Retrato geracional a partir da cena undergound de Leninegrado (actualmente São Petersburgo), esquiva-se aos lugares comuns de muitos olhares sobre o rock ao acompanhar o quotidiano dos vocalistas de duas bandas marcantes na sua comunidade: Mike Naumenko, mentor respeitado dos veteranos Zoopark, e Viktor Tsoi, nome promissor dos então recentes Kino. Se noutros casos a lógica narrativa poderia ser a de duelo de titãs, entre o grupo consagrado e o talento em ascensão, "VERÃO" surpreende pela cumplicidade e partilha entre os dois líderes, com Serebrennikov a captar bem tanto a sua esfera pessoal como profissional.

 

As cenas dos ensaios e das actuações, por exemplo, traduzem uma singularidade e espontaneidade que escapa à linha de montagem de filmes como "Bohemian Rhapsody" ou "Rocketman". E os acessos musicais, que tornam clássicos de David Bowie, Lou Reed, Iggy Pop ou Talking Heads na banda sonora de cenas banais do dia-a-dia, são um prodígio de delírio e escapismo, com a linguagem do videoclip a intrometer-se num drama de câmara (e a trazer borrões de cor à fotografia a preto e branco).

 

Esta energia ajuda a reforçar a denúncia de um sistema repressivo, já que os maiores acessos de liberdade da acção ficam sempre por concretizar. "Isto não aconteceu, mas podia", vai repetindo o realizador, num misto de ironia e mágoa. Aliás, repete tanto que "VERÃO" acaba por perder algum fôlego na recta final das suas duas horas, passado o factor surpresa dessas cenas mais irreverentes e do foco num triângulo amoroso - este um centro dramático interessante mas que não fica entre os elementos mais memoráveis. Já o olhar entristecido de Irina Starshenbaum, actriz que ocupa o vértice feminino, é difícil de esquecer, e vinca um relato comovente ocasionalmente agitado pelos milagres do glam, do punk e da new wave.

 

3/5

 

Uma família japonesa, uma dupla de culto e o astronauta melancólico

Estreia da semana? "SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", o novo filme de Hirokazu Koreeda. Mas além do drama muito elogiado do realizador japonês, ficam também duas sugestões em cartaz há algum tempo: uma entre as apostas mais arriscadas da temporada, outra das mais aguardadas do ano.

 

Shoplifters

 

"SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", de Hirokazu Koreeda

 

Por um lado, o último filme de Hirokazu Koreeda não acrescenta nada de particularmente novo à sua obra, cuja fase mais recente (e mais popular) já conta com vários exemplos de dramas familiares (do emblemático "Ninguém Sabe" a "Tal Pai, Tal Filho"). Por outro, é bom ver aquele que será talvez o principal realizador japonês do momento regressar ao que sabe fazer melhor depois de "O Terceiro Assassinato", viragem para o thriller pouco entusiasmante que parecia encontrá-lo fora do seu ambiente (e que também chegou às salas nacionais este ano).

 

Sem se aventurar por rumos inesperados, "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões" volta a valer-se das qualidades associadas aos seus melhores filmes, com uma direcção de actores certeira (a imprimir uma espontaneidade invulgar) e um tom observacional que tanto acolhe o drama como a comédia, esquivando-se à manipulação e ao gag gratuito num relato do quotidiano familiar em ambiente tendencialmente caseiro.

 

Das cenas ancoradas nos pequenos roubos que inspiram o título à revelação (paciente) das ligações entre os protagonistas, Koreeda vai desenvolvendo um olhar sobre o amor e a cumplicidade que acaba por questionar as fronteiras que delimitam o conceito de família - às vezes de forma demasiado sublinhada, mas igualmente desarmante. E sabe como comover tanto nas sequências de partilha como nas de uma solidão retratada sempre com justeza e a serenidade possível, ainda que nem sempre agarre o ritmo narrativo com o mesmo equilíbrio - a recta final acaba por se mostrar algo arrastada, apesar de a última cena ser tão brilhante como implacável. A Palma de Ouro na mais recente edição do Festival de Cannes não foi mal entregue, portanto.

 

3,5/5

 

O Interminável

 

"O INTERMINÁVEL", de Aaron Moorhead e Justin Benson

 

O culto em torno de Aaron Moorhead e Justin Benson já começou há uns anos mas só agora chega a Portugal, uma vez que nem "Resolução Macabra" (2012) nem "Spring" (2014) tiveram direito a estreia comercial por cá - e as curtas metragens que o duo também assinou, muito menos.

 

Além de realizarem este híbrido de drama e ficção científica, os norte-americanos são protagonistas e produtores - Benson encarrega-se ainda o argumento - e essa dedicação é evidente num filme com uma aura particular de "labour of love", no qual os meios parcos não comprometem (aliás, até parecem encorajar) a profusão de ideias. E não faltam conceitos intrigantes nesta história de dois irmãos que escaparam de uma seita no interior dos EUA, durante a adolescência, e decidem regressar ao local já na idade adulta, procurando respostas que o espectador vai conhecendo em simultâneo.

 

Se a primeira metade do filme sugere traumas nascidos de possessões macabras ou invasões extraterrestres, a segunda encontra a dupla a afastar-se de lugares comuns rumo a territórios inclassificáveis q.b., numa das propostas mais arrojadas da temporada (tanto a nível narrativo como formal, com efeitos especiais lo-fi capazes de ofuscar muito CGI avultado). Só é pena que parte da tensão se esbata quando o argumento prefere ir dando mais espaço ao humor, nem sempre muito conseguido ou oportuno, diluindo a força de um exercício de suspense personalizado como poucos. Mas fica claro que Moorhead e Benson são nomes a ter debaixo de olho - e fica também a vontade de espreitar os filmes que estão para trás.

 

3/5

 

O Primeiro Homem na Lua

 

"O PRIMEIRO HOMEM NA LUA", de Damien Chazelle

 

Depois da garra de "Whiplash - Nos Limites" e da ligeireza de "La La Land: Melodia de Amor", Damien Chazelle parece confundir dolência (e alguma auto-indulgência) com maturidade no biopic de Neil Armstrong. Se é verdade que este retrato do primeiro astronauta a pisar a Lua é imune aos excessos glorificadores que contaminam tantos outros baseados em histórias verídicas e marcantes, essa contenção não chega para justificar as mais de duas horas que o jovem realizador norte-americano reclama para seguir os treinos e missão do seu protagonista.

 

Tecnicamente competente, e com uma atenção ao pormenor que agradará aos mais interessados por viagens espaciais, este não deixa de ser um drama de câmara tão ensimesmado como o desempenho de Ryan Gosling, num papel pouco desafiante e a encorajar mais um exemplo de underacting (ou apenas de um olhar pouco expressivo). No extremo oposto, Claire Foy tenta injectar algum rasgo à mulher do protagonista, uma das vozes mais críticas desta aventura histórica, mas a dinâmica do casal não foge muito à de outros onde o trabalho limita a relação. E como os restantes secundários ficam por explorar, o centro emocional do filme acaba por ser o luto de uma filha, para o qual Chazelle também não chega a ter uma perspectiva especialmente forte ou intrigante. Um grande passo para a humanidade, um biopic demasiado comedido...

 

2/5