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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Entre um Sir da pop britânica e os filhos do rock russo

"ROCKETMAN" é dos filmes mais badalados do momento, mas o retrato de Elton John nem chega a ser o melhor biopic musical em cartaz. Nesse campeonato, "VERÃO" surge como a proposta mais refrescante da temporada.

 

Rocketman.jpg

 

Não vimos já isto antes? É a pergunta que fica à saída de "ROCKETMAN", que apesar de centrado de Elton John se limita a seguir, quase sempre, a história de unir os pontos de demasiados biopics, com a travessia obrigatória entre o triunfo e vertigem da queda, mais ou menos consumada. É verdade que o britânico Dexter Fletcher se mostra aqui um realizador ligeiramente mais imaginativo do que em "Bohemian Rhapsody", filme que teve a (inglória) tarefa de terminar, no ano passado, após Bryan Singer ter abandonado o projecto. Alguns números musicais, por exemplo, têm uma pompa e exuberância à medida do retratado e Taron Egerton, escolhido para o papel protagonista, é seguro a encarnar uma figura aqui ambígua e contraditória q.b..

 

O problema é que, durante boa parte da duração, "ROCKETMAN" raramente vai além da competência dada por adquirida em muitas produções britânicas, que não se aventuram além do registo de telefilme (aqui de orçamento claramente avultado). E se ainda é possível acreditar na personagem principal, as secundárias ficam presas em caricaturas, com casos gritantes na caracterização do pai do cantor ou de John Reid, o seu agente e companheiro de longa data (destacado como vilão de serviço).

 

Os saltos temporais entre uma sessão de terapia e a história do artista desde a infância também não chegam para evitar uma narrativa demasiado convencional, aquém do rasgo que a persona de Elton John conseguiu emanar na sua fase áurea. A excentricidade é, aliás, fogo de vista num biopic que nunca chega a mergulhar a fundo abismo de sexo e drogas e termina com uma lição de vida condizente com um livro de auto-ajuda. Sobra, enfim, algum rock n'roll, para quem for fã...

 

2/5

 

Verão.jpg

 

Prova de que é possível fugir aos moldes mais formatados do biopic musical, "VERÃO" traz ao circuito comercial português um realizador pouco visto por cá: Kirill Serebrennikov, cineasta "maldito" na sua mãe Rússia e voz demarcadamente contestatária. Mas a raiva está bastante contida neste filme de época, ambientado em inícios dos anos 80, com um registo entre a melancolia e a candura.

 

Retrato geracional a partir da cena undergound de Leninegrado (actualmente São Petersburgo), esquiva-se aos lugares comuns de muitos olhares sobre o rock ao acompanhar o quotidiano dos vocalistas de duas bandas marcantes na sua comunidade: Mike Naumenko, mentor respeitado dos veteranos Zoopark, e Viktor Tsoi, nome promissor dos então recentes Kino. Se noutros casos a lógica narrativa poderia ser a de duelo de titãs, entre o grupo consagrado e o talento em ascensão, "VERÃO" surpreende pela cumplicidade e partilha entre os dois líderes, com Serebrennikov a captar bem tanto a sua esfera pessoal como profissional.

 

As cenas dos ensaios e das actuações, por exemplo, traduzem uma singularidade e espontaneidade que escapa à linha de montagem de filmes como "Bohemian Rhapsody" ou "Rocketman". E os acessos musicais, que tornam clássicos de David Bowie, Lou Reed, Iggy Pop ou Talking Heads na banda sonora de cenas banais do dia-a-dia, são um prodígio de delírio e escapismo, com a linguagem do videoclip a intrometer-se num drama de câmara (e a trazer borrões de cor à fotografia a preto e branco).

 

Esta energia ajuda a reforçar a denúncia de um sistema repressivo, já que os maiores acessos de liberdade da acção ficam sempre por concretizar. "Isto não aconteceu, mas podia", vai repetindo o realizador, num misto de ironia e mágoa. Aliás, repete tanto que "VERÃO" acaba por perder algum fôlego na recta final das suas duas horas, passado o factor surpresa dessas cenas mais irreverentes e do foco num triângulo amoroso - este um centro dramático interessante mas que não fica entre os elementos mais memoráveis. Já o olhar entristecido de Irina Starshenbaum, actriz que ocupa o vértice feminino, é difícil de esquecer, e vinca um relato comovente ocasionalmente agitado pelos milagres do glam, do punk e da new wave.

 

3/5

 

Uma família japonesa, uma dupla de culto e o astronauta melancólico

Estreia da semana? "SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", o novo filme de Hirokazu Koreeda. Mas além do drama muito elogiado do realizador japonês, ficam também duas sugestões em cartaz há algum tempo: uma entre as apostas mais arriscadas da temporada, outra das mais aguardadas do ano.

 

Shoplifters

 

"SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", de Hirokazu Koreeda

 

Por um lado, o último filme de Hirokazu Koreeda não acrescenta nada de particularmente novo à sua obra, cuja fase mais recente (e mais popular) já conta com vários exemplos de dramas familiares (do emblemático "Ninguém Sabe" a "Tal Pai, Tal Filho"). Por outro, é bom ver aquele que será talvez o principal realizador japonês do momento regressar ao que sabe fazer melhor depois de "O Terceiro Assassinato", viragem para o thriller pouco entusiasmante que parecia encontrá-lo fora do seu ambiente (e que também chegou às salas nacionais este ano).

 

Sem se aventurar por rumos inesperados, "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões" volta a valer-se das qualidades associadas aos seus melhores filmes, com uma direcção de actores certeira (a imprimir uma espontaneidade invulgar) e um tom observacional que tanto acolhe o drama como a comédia, esquivando-se à manipulação e ao gag gratuito num relato do quotidiano familiar em ambiente tendencialmente caseiro.

 

Das cenas ancoradas nos pequenos roubos que inspiram o título à revelação (paciente) das ligações entre os protagonistas, Koreeda vai desenvolvendo um olhar sobre o amor e a cumplicidade que acaba por questionar as fronteiras que delimitam o conceito de família - às vezes de forma demasiado sublinhada, mas igualmente desarmante. E sabe como comover tanto nas sequências de partilha como nas de uma solidão retratada sempre com justeza e a serenidade possível, ainda que nem sempre agarre o ritmo narrativo com o mesmo equilíbrio - a recta final acaba por se mostrar algo arrastada, apesar de a última cena ser tão brilhante como implacável. A Palma de Ouro na mais recente edição do Festival de Cannes não foi mal entregue, portanto.

 

3,5/5

 

O Interminável

 

"O INTERMINÁVEL", de Aaron Moorhead e Justin Benson

 

O culto em torno de Aaron Moorhead e Justin Benson já começou há uns anos mas só agora chega a Portugal, uma vez que nem "Resolução Macabra" (2012) nem "Spring" (2014) tiveram direito a estreia comercial por cá - e as curtas metragens que o duo também assinou, muito menos.

 

Além de realizarem este híbrido de drama e ficção científica, os norte-americanos são protagonistas e produtores - Benson encarrega-se ainda o argumento - e essa dedicação é evidente num filme com uma aura particular de "labour of love", no qual os meios parcos não comprometem (aliás, até parecem encorajar) a profusão de ideias. E não faltam conceitos intrigantes nesta história de dois irmãos que escaparam de uma seita no interior dos EUA, durante a adolescência, e decidem regressar ao local já na idade adulta, procurando respostas que o espectador vai conhecendo em simultâneo.

 

Se a primeira metade do filme sugere traumas nascidos de possessões macabras ou invasões extraterrestres, a segunda encontra a dupla a afastar-se de lugares comuns rumo a territórios inclassificáveis q.b., numa das propostas mais arrojadas da temporada (tanto a nível narrativo como formal, com efeitos especiais lo-fi capazes de ofuscar muito CGI avultado). Só é pena que parte da tensão se esbata quando o argumento prefere ir dando mais espaço ao humor, nem sempre muito conseguido ou oportuno, diluindo a força de um exercício de suspense personalizado como poucos. Mas fica claro que Moorhead e Benson são nomes a ter debaixo de olho - e fica também a vontade de espreitar os filmes que estão para trás.

 

3/5

 

O Primeiro Homem na Lua

 

"O PRIMEIRO HOMEM NA LUA", de Damien Chazelle

 

Depois da garra de "Whiplash - Nos Limites" e da ligeireza de "La La Land: Melodia de Amor", Damien Chazelle parece confundir dolência (e alguma auto-indulgência) com maturidade no biopic de Neil Armstrong. Se é verdade que este retrato do primeiro astronauta a pisar a Lua é imune aos excessos glorificadores que contaminam tantos outros baseados em histórias verídicas e marcantes, essa contenção não chega para justificar as mais de duas horas que o jovem realizador norte-americano reclama para seguir os treinos e missão do seu protagonista.

 

Tecnicamente competente, e com uma atenção ao pormenor que agradará aos mais interessados por viagens espaciais, este não deixa de ser um drama de câmara tão ensimesmado como o desempenho de Ryan Gosling, num papel pouco desafiante e a encorajar mais um exemplo de underacting (ou apenas de um olhar pouco expressivo). No extremo oposto, Claire Foy tenta injectar algum rasgo à mulher do protagonista, uma das vozes mais críticas desta aventura histórica, mas a dinâmica do casal não foge muito à de outros onde o trabalho limita a relação. E como os restantes secundários ficam por explorar, o centro emocional do filme acaba por ser o luto de uma filha, para o qual Chazelle também não chega a ter uma perspectiva especialmente forte ou intrigante. Um grande passo para a humanidade, um biopic demasiado comedido...

 

2/5

 

Viagens a Itália

Duas novidades, uma revisitação: "Cuori Puri", "Happy Winter" e "A Melhor Juventude" foram três eventuais portas de entrada para a 11ª FESTA DO CINEMA ITALIANO, que arrancou há quase uma semana em Lisboa e está prestes a espalhar-se pelo país (e fora dele). 

 

Cuori puri

 

"CUORI PURI", de Roberto De Paolis: Estreia nas longas-metragens de um realizador até aqui com experiência nas curtas, é uma bela história de amor em tempos de crise (económica, mas também familiar ou de fé) que equilibra com sensibilidade a vertente pessoal e comunitária. A relação entre uma estudante, cuja rotina está entregue à Igreja e ao voluntariado, e um rapaz mais velho, segurança de um parque de estacionamento, é acompanhada com um realismo à flor da pele, palpável nos actores ou nos espaços, e surge como porto de abrigo para um quotidiano sem grandes horizontes à vista.

 

Mas aqui nem o amor salva tudo e "CUORI PURI" tem a perspicácia de não oferecer soluções fáceis, conseguindo também evitar juízos sobre a religião (a ambiguidade da mãe "beata" da protagonista é um dos trunfos, assim como a eloquência inspiradora do catequista) ou a marginalidade (o filme não desculpabiliza as personagens, mas dá conta da espiral descendente que a falta de oportunidades pode encorajar). A crise migratória, e a relação com a comunidade cigana em particular, também passa por aqui, sem que De Paolis sujeite o argumento ao peso desse ou de outros temas: no final fica um retrato cru, verosímil e comovente de união e sacrifício, com um realizador e dois jovens actores (Selene Caramazza e Simone Liberati) a reter.

 

 3,5/5

 

Happy Winter

 

"HAPPY WINTER", de Giovanni Totaro: Não falta potencial visual e humano ao cenário que este documentário explora, mas a primeira vertente acaba por entusiasmar mais do que a segunda. O que é pena, porque o passeio pela praia de Modello, na Sicília - que acolhe mais de mil cabanas habitadas por outras tantas famílias ao longo de todo o Verão - resulta cansativo ao longo de noventa minutos. Uma hora de duração seria mais do que suficiente, tendo em conta que Giovanni Totaro é demasiado redundante no que mostra e sobretudo no que tem para dizer, deixando um olhar que se fica muitas vezes pelo anedótico.

 

Há belas imagens, mas a estética (e profundidade) é mais condizente com a de um videoclip, território no qual a narrativa parece cair quando recorre à música como condimento. Nada contra, só que enquanto documentário talvez o resultado fosse mais proveitoso caso apostasse numa gravidade que só se insinua mais para o final, sobretudo nas cenas com um vendedor de gelados e refrigerantes (a "personagem" mais forte de um relato que se torna disperso entre as conversas de amigas de meia-idade ou a campanha de um aspirante a político local). Afinal, a festa comunitária estival é, para muitos turistas, uma resposta (ou pelo menos um escape) ao desemprego, mas os espectadores nunca chegam a mergulhar a fundo nesse filme.

 

 2/5

 

A Melhor Juventude

 

"A MELHOR JUVENTUDE", de Marco Tullio Giordana: 15 anos depois da estreia, a saga que está entre as mais celebradas do cinema italiano recente teve direito a reposição, em duas sessões muito concorridas e com a presença do realizador. Percebe-se o motivo do culto que atravessa gerações: quem não se deixar intimidar pelas mais de seis horas de duração (divididas em duas partes) encontra aqui um melodrama de recorte superior, centrado na história de uma família da classe média desde os anos 60 até à viragem do milénio.

 

Foi claramente um "labour of love" para o realizador e para a equipa, com as origens televisivas (começou por ser pensado como uma série da RAI) a não deixarem grandes vestígios num resultado final que é muitas vezes grande cinema, ancorado num elenco em estado de graça e num cineasta generoso, que lhe dá tempo, espaço e atenção. Apesar do óptimo nível interpretativo, torna-se difícil não destacar os protagonistas: Luigi Lo Cascio na pele de Nicola, Alessio Boni como Matteo, os dois irmãos em torno os quais as outras figuras orbitam. O primeiro, idealista e altruísta, é o que estará mais próximo da visão do mundo proposta pelo filme - assente num optimismo obstinado, embora não ingénuo nem imune a crises. Mas é o segundo que acaba por se impor como personagem mais magnética e intrigante, a motivar o olhar sobre uma solidão e inquietação viscerais, contraponto irónico de um filme que também deixa uma ode sincera e calorosa aos laços familiares.

 

A crónica deslumbrada do crescimento, lado a lado com dor da perda, convive com um retrato das mudanças na sociedade italiana ao longo de décadas, do qual a abordagem à doença mental ou às revoltas juvenis (e à iniciação no terrorismo) vai ganhando um peso particular. Pode parecer demasiada ambição, mas Giordana nunca cai em tentações épicas e opta antes pelo drama de câmara, embora nunca sisudo - pelo contrário, há aqui uma vivacidade contagiante. Obra-prima? Talvez não chegue a tanto: a primeira parte leva o seu tempo a acertar o passo, a segunda tem mais dificuldades em separar o essencial do acessório - e nunca consegue recuperar a urgência depois do adeus a uma das personagens centrais. Mas não haverá outro filme assim, dentro ou fora de portas.

 

4/5

 

No escurinho da TV

Ao chegar à quarta temporada, "BLACK MIRROR" continua igual a si própria: um dos laboratórios de ideias mais efervescentes do pequeno ecrã, que mesmo quando falha (ou não acerta tanto) é mais desafiante do que quase tudo o resto.

 

Metalhead

 

Os mais cépticos com a mudança da criação de Charlie Booker do Channel 4 para a Netflix podem ficar descansados: a quarta temporada da série britânica arranca com um dos seus melhores episódios de sempre, o que aliás também já tinha acontecido com a anterior (a primeira desenvolvida através do serviço de streaming). Por outro lado, "USS CALLISTER" é tão bom que também acaba por impor um patamar que os restantes cinco capítulos desta safra, estreados a poucos dias do final de 2017, não chegam a atingir por completo - mesmo que alguns sirvam sequências ao seu nível.

 

Carta de amor à ficção científica, o episódio dirigido por Toby Haynes ("Doctor Who", "Sherlock") começa como uma homenagem sentida à saga "Star Trek", mas em vez de se ficar pelo pastiche levezinho (como a também recente "The Orville", série de Seth MacFarlane), deixa um retrato mais inventivo e desconcertante que cruza uma história de solidão com limites éticos associados à inteligência artifical.

 

Black Mirror

 

À medida que acompanha o codirector de uma marca de videojogos e a sua rotina quase inescapável entre o trabalho e o lar, "USS CALLISTER" vai desviando, pacientemente, a simpatia do espectador para os seus colegas - até daqueles que à partida pareciam ostracizá-lo -, através de uma combinação de drama urbano, aventura espacial e um sentido de humor que nunca trai a força da vertente mais angustiante deste relato.

 

Esse tom, impecavelmente gerido por Haynes e auxiliado por um elenco imediatamente icónico (com destaque para Jesse Plemons e Cristin Milioti), é talvez o maior trunfo de uma das ideias mais felizes da ficção científica recente, aqui defendida num episódio mais longo do que o habitual (76 minutos) e quase com fôlego de longa-metragem - ou talvez de super-episódio piloto para um spin-off deste universo do qual já se fala...

 

4,5/5

 

Black Mirror

 

Um arranque do calibre de "USS Callister" já justificaria por si só o regresso de "BLACK MIRROR", mas há mais olhares sobre a relação com a tecnologia a motivar o investimento nesta segunda vida na Netflix. "HANG THE DJ", outra aposta na realidade virtual, leva ao limite a dependência das aplicações de encontros num embate contínuo entre romantismo e frustração. Realizado por Tim Van Patten ("BoarDwalk Empire", "Os Sopranos") e protagonizado pelos óptimos Georgina Campbell ("Murdered by My Boyfriend") e Joe Cole ("Peaky Blinders"), que mantêm uma química decisiva para o resultado final, o quarto episódio da temporada é bem capaz de ser a comédia romântica mais contagiante de 2017. não admira que muitos fãs o encarem como descendente espiritual de "San Junipero", capítulo de referência da série (e em modo optimista, uma raridade).

 

 4/5

 

Crocodile

 

Num comprimento de onda completamente diferente, "CROCODILE" é um exemplo das visões mais pessimistas e sufocantes de "BLACK MIRROR", à medida de um realizador como John Hillcoat ("A Proposta", "Dos Homens Sem Lei"), que assina este ensaio sobre culpa sem redenção possível. O que começa com um homicídio involuntário torna-se num ciclo alimentado pelo confronto entre o remorso e a auto-preservação, exercício de suspense de cortar à faca que ameaça cair num calculismo demasiado denunciado mas é salvo, em grande parte, pela excelência da actrizes protagonistas - Andrea Riseborough num papel tão ingrato como marcante, Kiran Sonia Sawar a dar algum capital de simpatia a um dos contos mais negros de Charlie Booker.

 

 3/5

 

Metalhead

 

Negríssimo é também "METALHEAD". Literalmente, até, pela fotografia a preto e branco (com curiosas variações púrpura) a forrar uma abordagem com aura de série B pós-apocalíptica, despachada nuns muito sucintos 41 minutos. Em parte uma variação de "Alien" - protagonista continuamente perseguida por criaturas mortíferas num cenário inóspito -, surge como confirmação algo tardia do que de muito bom se dizia de David Slade na altura do seu primeiro filme, "Hard Candy" (2005), antes de o britânico ter chegado à saga "Twilight". Mas aqui parece ter reencontrado o seu lado primitivo e impiedoso, numa das viragens mais inesperadas da colheita recente de "BLACK MIRROR".

 

 3/5

 

Arkangel

 

Embora estes quatro episódios mostrem a série no seu melhor ou, pelo menos, num patamar recomendável, a nova temporada acaba por ser algo irregular, aliás como as anteriores. "ARKANGEL", drama entre mãe e filha ancorado nas possibilidades e ameaças do controlo parental, segue-se com algum interesse (ter Rosemarie DeWitt entre as protagonistas ajuda), mas Jodie Foster parece não ter mão para levar esta história para territórios tão inexplorados quanto isso. O problema nem é que a tecnologia aqui lembre a do superlativo "The Entire History of You", outro mergulho em memórias alheias avançado por "BLACK MIRROR", antes a forma previsível e até moralista como a realizadora a trabalha - e sobretudo como encerra um drama a caminho do dramalhão -, mesmo que este argumento de Booker também não seja dos mais aventureiros.

 

 2,5/5

 

Black Mirror

 

Pouco entusiasmante é também "BLACK MUSEUM", capítulo ambicioso mas que nunca consegue dar grande densidade às suas personagens. Pelo contrário, é dos casos em que estas são pouco mais do que marionetas de conceitos especialmente extremos, algures entre o terror gráfico q.b. e a sátira escarninha uns tons ao lado. Fechar uma temporada de uma série antológica com uma antologia de três histórias é apenas o ponto de partida do episódio mais auto-referencial de "BLACK MIRROR", assinado por Colm McCarthy ("Peaky Blinders", "Injustice"), embora as piscadelas de olho aos fãs não cheguem a aprimorar uma combinação requentada - com cereja em cima do bolo numa reviravolta final inócua e facilmente antecipável.

 

 2/5

 

As quatro temporadas de "BLACK MIRROR" estão disponíveis na íntegra na Netflix.

 

 

Políticas do futuro e (grandes) canções do presente

Da excelente forma vocal de Katie Stelmanis a uma banda inegavelmente coesa, nada falhou no concerto dos AUSTRA no Musicbox Lisboa, no sábado passado. E além de apresentar o novo disco, "Future Politics", a banda canadiana aproveitou para recordar o melhor dos anteriores - ou seja, alguma da melhor pop electrónica nascida nos últimos anos.

 

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Com três álbuns e dois EPs no currículo, já era tempo de os AUSTRA terem direito a estreia lisboeta, depois de uma passagem por palcos nacionais no festival Milhões de Festa, em 2013. Até porque nesses discos está um dos percursos mais consistentes desta década em terreno electrónico, mesmo que, talvez exceptuando uma maior atenção em torno do álbum de estreia ("Feel It Break", de 2011), tenha sido demasiado ofuscado por outros sabores da indietronica do momento (não necessariamente mais interessantes).

 

Por outro lado, essa espera considerável acabou por sair compensada quando, em 2017, a banda de Toronto já conta com uma rodagem de palco capaz de assegurar um equilíbrio impressionante em todas as vertentes, da cumplicidade dos elementos à selecção do alinhamento. A fluidez do concerto no Musicbox, integrado no Jameson Urban Routes, não parece ter sido obra de um acaso feliz mas de um grupo que, chegado ao terceiro álbum ("Future Politics", editado em Janeiro deste ano) sabe perfeitamente o que está a fazer, o que quer dizer e como deve transmiti-lo a quem o ouve.

 

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Acompanhada de mais três músicos em palco, Katie Stelmanis comprovou que a voz que comanda as canções em estúdio mantém esse efeito ao vivo, continuando a conjugar-se com um novelo sintético sem se perder nele. E o seu tom operático adaptou-se tão bem a momentos solenes, às vezes quase de ambientes litúrgicos, como a descargas efusivas direccionadas para o corpo. Para os momentos de maior frenesim rítmico também foi determinante a presença da bateria, naquela que ficou como a maior diferença instrumental face aos discos - e a injectar, ou a reforçar, uma bem-vinda pulsão física a boa parte do alinhamento (lado a lado com a presença mais reconhecível de teclados, sintetizadores e baixo).

 

Apresentando-se com um longo vestido vermelho, a vocalista e mentora do projecto foi o centro de uma actuação que dispensou adornos visuais e até grandes declarações ao público de uma sala bem composta. Stelmanis foi afável e agradeceu aos espectadores e aos colegas, é certo, mas quase todas as palavras foram mesmo empregues nas canções que se sucederam sem entraves.

 

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E quase só houve espaço para grandes canções, num arranque que privilegiou as mais recentes. Os singles "Future Politics" e "Utopia" geraram o frenesim que já se esperava, "I'm a Monster" ou "Freepower" saíram francamente a ganhar face ao formato gravado - a primeira mais pela voz, a segunda pela secção rítmica. E o final de "Gaia" continua a ser qualquer coisa, com a interpretação grandiosa de Stelmanis a tornar-se maior do que a vida sem derrapar para o exibicionismo (feito que marcou outros momentos da noite e é uma masterclass para muitas supostas divas pop).

 

Na segunda metade de uma actuação de pouco mais de uma hora, o foco desviou-se para recordações inevitáveis dos primeiros álbuns, da belíssima "Home" ao desvario a caminho do industrial de "Beat and the Pulse", sem deixar de oferecer algumas surpresas. Foi o caso da nova versão de "The Villain", talvez o ponto alto do disco de estreia, a apostar numa faceta mais trepidante (quase punk funk num longo remate instrumental) sem deixar de ser atormentada. A canção resultou num dos maiores convites à dança, com o público a acompanhar a banda num cenário iluminado por tons escarlate, a contrastar com a synthpop gélida de momentos anteriores. Já "Habitat", em modo contemplativo, recuperou a faixa-título do EP de 2014, num encore onde temas como "Forgive Me" ou "Spellwork" seriam talvez mais esperadas. A fechar, o embalo de "Hurt Me Now", entre o épico e o melancólico, assegurou a sensação de missão cumprida mas a deixar a vontade de um reencontro um pouco mais longo. Seria pedir muito um concerto de sala em nome próprio?

 

4/5

 

Ela Minus

 

Antes dos Austra, a noite do Jameson Urban Routes de sábado foi inaugurada por ELA MINUS, cantautora que tem assegurado as primeiras partes da digressão da banda e assume o papel de baterista nos seus concertos. Apresentando-se sozinha em palco, a colombiana Gabriela Jimeno foi cantando e manipulando ritmos de uma pop electrónica que promete "música luminosa para tempos negros". E foi de ritmos cintilantes que se fez boa parte de uma actuação curta mas promissora, centrada nos temas de EPs que abrem caminho para um álbum em preparação. "Juan Sant" ou "I Wish I Had a Hat" contaram-se entre as amostras sedutoras, mas a boa impressão saiu reforçada pela atitude de Minus, que não se deixou ficar fechada no seu pequeno mundo (o que às vezes acontece em actuações individuais assentes em base electrónica) e insistiu em aproximar-se dos espectadores, chegando a distrair alguns dos seus telemóveis quando saiu do palco para se juntar a eles. Além deste capital de simpatia, houve um ponto especialmente alto na despedida, com um crescendo rítmico dançável, viciante e a prometer coisas melhores para quem se mantiver atento a este percurso. 

 

3/5

 

Surma

 

Numa noite inicialmente marcada pela presença feminina, o Musicbox recebeu ainda SURMA, projecto de Débora Umbelino, na apresentação do seu disco de estreia, "Antwerpen", editado no mês passado. Tal como Ela Minus, a cantautora e multi-instrumentista de Leiria não precisou de companhia em palco para se aventurar em ambientes etéreos de vistas largas, entre o aconchegante e o enigmático, ganhando algum nervo numa recta final mais eléctrica. O cruzamento de vários géneros e épocas foi intrigante (entre o público ouviam-se comparações a cantautoras indie nórdicas ou clássicos da dream pop da editora 4AD) e Surma revelou desenvoltura na gestão de teclados, samples, loops ou guitarra, mas embora se tenham ouvido muitos apontamentos instrumentais curiosos, ficaram a faltar canções memoráveis. E ao contrário das texturas, a voz não registou grandes variações, mantendo-se num registo agudo e algo monocórdico, nem sempre convivendo da forma mais estimulante com o novelo rítmico. Ficaram algumas boas ideias, e alguma idiossincrasia que sobressai apesar das muitas referências, mas por agora insuficientes para sustentarem um espectáculo de cerca de uma hora de duração.

 

2/5

 

Fotos: Facebook do Musicbox Lisboa