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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Angelo, Mario e o admirável mundo novo de um supermercado

O lado mais sombrio do colonialismo europeu, o quotidiano agridoce do trabalho num armazém, a homofobia mal disfarçada do universo do futebol... Estes foram três pontos de partida para algumas apostas da KINO - MOSTRA DE CINEMA DE EXPRESSÃO ALEMÃ, que decorreu há poucos dias em Lisboa e regressa a Coimbra no final do mês.

 

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"ANGELO", de Markus Schleinzer: Depois de uma primeira obra, "Michael" (2011), que gerou controvérsia ao seguir um pedófilo e uma criança raptada, o ex-director de casting regressa à realização e parte de uma história verídica ambientada no século XVIII. O resultado, no entanto, está muito longe dos ambientes habituais de muitos filmes de época "de prestígio", tendo em conta o formalismo clínico que parece ter "Barry Lyndon", de Stanley Kubrick, entre as referências. O distanciamento emocional com que Schleinzer acompanha o crescimento de uma criança africana, adoptada pela aristocracia vienense, também lembra que o currículo do austríaco inclui colaborações com o conterrâneo Michael Haneke, até porque a frieza e pessimismo do cineasta de "Brincadeiras Perigosas" é comparável a este retrato metódico e implosivo. Mas se "Angelo" tem alguma força no olhar cáustico sobre a aniquilação da diferença enquanto modus operandi da cultura ocidental ao longo de séculos, com especial ênfase no racismo, nunca chega a impor-se na vertente dramática, com a divisão da narrativa em três actos (e em períodos temporais distintos) a dificultar a aproximação às personagens. Até o protagonista acaba por ser só mais um instrumento da tese do realizador, sendo raras as cenas em que ultrapassa a função simbólica e o carácter decorativo a que era reduzido na corte - condição que o filme critica sem conseguir elevar-se por completo acima de um falhanço interessante.  

 

2,5/5

 

Entre Corredores 2.jpg

 

"ENTRE CORREDORES", de Thomas Stuber: Poucos armazéns serão tão poéticos como o do supermercado onde decorre grande parte da acção desta comédia melancólica. Os primeiros minutos, com um bailado de mercadorias e máquinas ao som de "O Danúbio Azul", de Strauss, dá logo conta do tom singular do filme, e o que se segue vai desenhando uma identidade que inicialmente remete para o humor minimalista e taciturno de Abbas Kiarostami cruzado com o estilo mais fantasioso e caramelizado de um Jean-Pierre Jeunet. Felizmente, Stuber não é tão hermético como o primeiro nem tão óbvio como o segundo. E se a sua proposta não deixa de ser estilizada, também acolhe algum realismo ao ir mergulhando na rotina solitária dos empregados de uma grande superfície comercial, apresentando em paralelo as pequenas cumplicidades e transgressões que se vão acumulando (curiosamente, uma das melhores sequências até decorre fora do supermercado, numa viragem fugaz para terrenos do thriller na casa de uma das personagens). O espectador chega com a entrada em cena do protagonista, a mais recente contratação, através do qual vai conhecendo os cantos deste espaço e as particularidades de uma segunda família (em alguns casos, a impor-se à primeira). Franz Rogowski é simultaneamente empático e enigmático, e embora comece a ameaçar cair no typecasting (as suas interpretações em "Happy End" e sobretudo no também recente "Em Trânsito" não estão muito distantes desta), mostra-se aqui uma aposta segura numa jornada laboral e emocional intrigante. Sandra Hüller, que conquistou mais atenções com "Toni Erdmann", é outro nome forte de um elenco a que o realizador vai dando tempo e espaço ao longo de duas horas de interesse desigual - não escondem que o argumento partiu de um conto (de Clemens Meyer) -, mas capazes de moldar um todo cativante e personalizado. Bela surpresa, e com direito a segunda exibição na KINO - agora em Coimbra, a 27 de Fevereiro.

 

3,5/5

 

Mario 2.jpg

 

"MARIO", de Marcel Gisler: Se a premissa faz esperar mais um relato boy meets boy, ao partir de dois jogadores de futebol sub-21 que se apaixonam, este drama suíço sabe esquivar-se a estereótipos de algumas narrativas LGBTQ+ enquanto traça um cenário de homofobia num contexto específico (e poucas vezes retratado). Embora seja um exercício ficcional, o filme surgiu após uma pesquisa de vários anos nos bastidores do universo do futebol e nem precisa de entrar num registo docudrama para traduzir uma realidade verosímil, apresentada sem que "Mario" se reduza a uma denúncia. Pelo contrário, Gisler dá sempre prioridade às personagens, da dupla principal a secundários de corpo inteiro, através de um argumento sólido e envolvente que coloca em jogo os conflitos entre as esferas pública e privada dos protagonistas. Desse impasse sai uma crónica sensível sobre a entrada na idade adulta o peso de escolhas decisivas - no caso, entre a vida amorosa e a profissional -, que assenta especialmente na figura que dá título ao filme. Max Hubacher, actor promissor distinguido com o Swiss Film Prize, não precisa de muitas palavras para dar conta do turbilhão emocional que acompanha a descoberta da sua sexualidade, e Gisler oferece algumas das melhores cenas do filme a captar os seus gestos e olhares sem escorregar em facilitismos dramáticos - sendo também bastante astuto a mover-se entre os meandros burocráticos da máquina desportiva. Uma equipa vencedora, portanto, e um retrato que não merece ficar confinado ao circuito dos festivais...

 

3,5/5

 

Mulheres à beira de um ataque de nervos

Três das primeiras estreias do ano dão conta dos regressos de Maggie Gyllenhaal, Felicity Jones e Natalie Portman ao grande ecrã. Mas "A EDUCADORA DE INFÂNCIA", "UMA LUTA DESIGUAL" e "VOX LUX" são filmes de interesse muito variável...

 

The Kindergarten Teacher - Still 1

 

"A EDUCADORA DE INFÂNCIA", de Sara Colangelo: Estudo de personagem ambíguo e obsessivo, este drama que adapta "Haganenet" (2014), filme do israelita Nadav Lapid (que não teve estreia comercial em Portugal), oferece a Maggie Gyllenhaal um dos maiores desafios do seu percurso. E ela mostra estar à altura na pele de uma mulher cujo quotidiano rotineiro, com uma vida familiar e profissional em ponto morto, tem direito a novo fôlego a partir do deslumbre pelo potencial artístico (e literário e poético em particular) de uma das crianças do jardim de infância onde trabalha. À medida que esse fascínio inicial ganha intensidade e começa a dominar o dia-a-dia da protagonista, a realizadora não teme ir movendo o filme para zonas de sombra, embora com a sobriedade a impor-se a tentações de sensacionalismo (o que é especialmente assinalável num olhar sobre a exploração infantil). E da fuga para a frente da personagem de Gyllenhaal, sempre esquiva tanto para o espectador como para os que a rodeiam, nasce um retrato melancólico e adulto da frustração, sem julgamentos nem clichés do thriller psicológico (território do qual a acção se aproxima na recta final). Muito bem defendida por uma actriz capaz de traduzir essa ansiedade e inquietação, está aqui uma das boas surpresas recentes do cinema independente norte-americano - e uma nova chamada de atenção para uma cineasta depois da sua primeira longa-metragem, a pouco vista "Pequenos Acidentes", de 2014.

 

3/5

 

Felicity Jones stars as Ruth Bader Ginsburg in Mimi Leder's ON THE BASIS OF SEX, a Focus Features release.

 

"UMA LUTA DESIGUAL", de Mimi Leder: Não há nada de especialmente falhado neste relato da história (ou parte dela) da juíza Ruth Bader Ginsburg, a segunda mulher e primeira judia a ocupar um cargo no Supremo Tribunal de Justiça dos EUA. Mas como em tantos outros biopics, também não há nada de especialmente inspirado. Admita-se que a perspectiva de Mimi Leder ("Favores em Cadeia", "O Pacificador") nem é tão maniqueísta como parece à partida, já que vai expondo a postura inicialmente exemplar da personagem principal a algumas contradições e tensões com a família ou com outros aliados da sua cruzada contra a discriminação feminina. Só que nem essa ambivalência ocasional chega para tornar muito estimulante uma narrativa formatada e sem grandes ideias de realização, apesar da óbvia competência de recursos - dos cenários impecavelmente polidos a alguns diálogos certeiros ou a interpretações que não comprometem. Felicity Jones até consegue ir mostrando a mulher por trás do símbolo, ainda que o argumento não lhe dê tantas oportunidades como ela ou Ginsburg merecem - ocupado entre saltos temporais ou a impor a mensagem (meritória e pedagógica) às personagens (maioritariamente esquemáticas). Armie Hammer, que nas primeiras cenas parece limitar-se a repetir a pose de "Chama-me Pelo Teu Nome", também convence como a outra metade do "power couple" no centro da história, com uma contenção que ajuda a orientar o percurso obstinado da protagonista. Mas nem o capital de simpatia da dupla eleva o resultado acima de cinema morno, tão bem intencionado como bem comportado, e a fechar com uma sequência que não se distingue muito das de demasiados filmes ou séries de tribunal. Pedia mais garra, esta luta...

 

2,5/5

 

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"VOX LUX", de Brady Corbet: O actor que se estreou atrás das câmaras com "A Infância de um Líder" (2015) não faz a coisa por menos: o seu segundo filme chega com a pretensão de deixar "um retrato do século XXI". E não começa mal, no primeiro de três capítulos que acompanha, de forma intrigante q.b., uma adolescente aspirante a cantora que sobrevive um massacre no seu liceu, deixando pistas sobre as ligações que podem nascer entre a tragédia e a arte, a inadaptação e a procura de um rumo (pontes complementadas pela voz off de Willem Dafoe e a banda sonora de Scott Walker). Mas Corbet rapidamente se perde num ensaio sobranceiro que parte da carreira da protagonista, entretanto transformada numa estrela pop planetária, para colocar em cheque o individualismo e a falta de comunicação na era das redes sociais, com um olhar cínico sobre a fama e a sociedade de consumo ao qual não falta, como no arranque, um paralelo com a ameaça terrorista. Infelizmente, "Vox Lux" assenta numa personagem desinteressante e estereotipada, e mesmo que o seu narcisismo e futilidade sejam deliberados, o olhar do realizador sobre ela não é muito melhor. A faceta pessoal e profissional da figura interpretada por Natalie Portman (com uma postura tão afectada como em "Jackie"), na idade adulta, e antes por Raffey Cassidy, que regressa para encarnar a filha desta (com uma interpretação muito mais espontânea), tem uma tensão dramática aquém da que o filme procura e só realça que o seu autor tem pouco a dizer - ou que não encontrou aqui a forma mais conseguida de se expressar. O desenlace sublinha ainda mais a sensação de experiência falhada, ao apontar sugestões de um musical pós-moderno baseado em canções inéditas de Sia, tão medíocres que as cenas em palco chegam a tornar-se penosas. Decididamente, Corbet não faria mal em afinar a voz criativa...

 

1,5/5

 

O corpo é que paga

Três filmes, três olhares sobre o corpo - e as suas limitações e possibilidades - já vistos por estes dias no QUEER LISBOA, a decorrer no Cinema São Jorge e na Cinemateca: "Girl", "It Is Not the Pornographer That Is Perverse" e "Sauvage".

 

Girl

 

"GIRL", de Lukas Dhont: E se o corpo não aguentar? Esta é a pergunta que o realizador belga vai deixando e sublinhando na sua primeira longa-metragem, retrato implacável mas também terno de uma adolescente transexual que lida com os vários passos da mudança de sexo enquanto persegue, de forma cada vez mais obsessiva, o sonho de se tornar bailarina profissional. "Girl" é bastante hábil e fugir a lugares comuns de relatos de marginalização, ao dar conta de um ambiente familiar e, em boa parte, escolar, que pouco tem de opressivo. O principal entrave de jornada de Lara acaba por ser ela mesma, numa constante fuga para a frente que vai dinamitando o seu quotidiano e o seu corpo. Victor Polster tem um desempenho impressionante ao combinar determinação e fragilidade no papel protagonista, com uma ambiguidade que escapa à vitimização, embora o argumento ameace resvalar para o jogo de massacre - sobretudo nas cenas repetitivas e desnorteantes das aulas de ballet, com direito a câmara epiléptica, num contraste com a graciosidade de outros momentos. O final, demasiado telegrafado e a aproximar-se do filme-choque, reforça essa tendência, e é pena: "Girl" não precisava de malabarismos desses quando oferece um retrato tão emocionalmente rico e depurado durante grande parte do tempo.

 

3/5

 

It Is Not the Pornographer That Is Perverse

 

"IT IS NOT THE PORNOGRAPHER THAT IS PERVERSE...", de Bruce LaBruce: Nome habitual na programação do Queer Lisboa, o realizador canadiano viu o seu mais recente filme integrado na secção Hard Nights, a mais sexualmente explícita do festival. Mas como noutras obras suas, a pornografia (gay) é apenas um meio para que o humor e a provocação se instalem, aqui de forma narrativamente mais concentrada: em vez das longas-metragens de outras edições, esta proposta junta quatro curtas (que partilham alguns actores e personagens) e há duas especialmente certeiras. A primeira, "Diablo in Madrid", é um devaneio sobre a luta entre a contenção e a entrega ao prazer, partindo das tentações de um diabo exibicionista num cemitério - que acaba a dominar um anjo da guarda com a benção de "santo" Almodóvar, quase numa actualização (mais crua e titilante) dos dias da movida madrilena. A terceira, "Purple Army Fiction", consideravelmente mais agressiva mas sem perder o sentido de humor, é uma resposta à homofobia e ao policiamento de comportamentos, que inverte os códigos heteronormativos enquanto dispara tantos slogans (alguns hilariantes) como fluidos numa distopia irónica - e afirma-se como descendente de "The Raspberry Reich", de 2004. No processo, converte à causa dos soldados protagonistas o civil François Sagat, da mesma forma que outra estrela porno, Colby Keller, acaba rendido ao diabo na primeira curta ou a um jovem motorista na segunda, "Uber Menschen", provavelmente o mais próximo que LaBruce já esteve da comédia romântica. Mas essa acaba por ser uma experiência menos desbragada, tal como a última curta-metragem, "Fleapit", cujo surto de desejo numa sala de cinema parece menos idossincrático. Compilação curiosa, ainda assim...

 

2,5/5

 

Sauvage

 

"SAUVAGE", de Camille Vidal-Naquet: De tentações moralistas ao mergulho no miserabilismo ou em cenários escabrosos, o retrato de um prostituto que vive na rua sem considerar alternativas pode ser logo campo minado, sobretudo numa primeira longa-metragem. Mas um dos trunfos deste drama realista é a forma como o realizador francês respeita a natureza da personagem que acompanha, até às últimas consequências, mesmo que com sugestões de eventuais cedências pelo meio. E consegue-o com uma segurança pouco habitual tendo em conta que é a sua estreia nas longas-metragens (depois de três curtas), deixando um olhar justo sobre o dia-a-dia de Leo - muitas vezes (inevitavelmente) áspero, é certo, mas com momentos de descompressão e de cumplicidade que lhe vão dando algum alento. Elemento decisivo, a interpretação de Félix Maritaud atinge um patamar que dificilmente se adivinharia em "120 Batimentos por Minuto", do qual o actor francês foi uma da revelações. Vidal-Naquet coloca o protagonista à beira do precipício, mas também o mostra a jogar com as suas próprias regras mesmo que sinta as consequências dessa opção na pele enquanto o mundo o deixa à margem. Tal como Leo, o realizador recusa refugiar-se no cinismo, não facilitando a vida ao espectador - que se vê aqui imerso numa narrativa tão livre como a personagem. E nem o facto de a jornada lembrar a espaços as de outros jovens prostitutos no cinema (de "Não Dou Beijos", de André Techiné, a "Mysterious Skin", de Gregg Araki) compromete muito a intensidade deste realismo selvagem.

 

3,5/5

 

No escurinho da TV

Ao chegar à quarta temporada, "BLACK MIRROR" continua igual a si própria: um dos laboratórios de ideias mais efervescentes do pequeno ecrã, que mesmo quando falha (ou não acerta tanto) é mais desafiante do que quase tudo o resto.

 

Metalhead

 

Os mais cépticos com a mudança da criação de Charlie Booker do Channel 4 para a Netflix podem ficar descansados: a quarta temporada da série britânica arranca com um dos seus melhores episódios de sempre, o que aliás também já tinha acontecido com a anterior (a primeira desenvolvida através do serviço de streaming). Por outro lado, "USS CALLISTER" é tão bom que também acaba por impor um patamar que os restantes cinco capítulos desta safra, estreados a poucos dias do final de 2017, não chegam a atingir por completo - mesmo que alguns sirvam sequências ao seu nível.

 

Carta de amor à ficção científica, o episódio dirigido por Toby Haynes ("Doctor Who", "Sherlock") começa como uma homenagem sentida à saga "Star Trek", mas em vez de se ficar pelo pastiche levezinho (como a também recente "The Orville", série de Seth MacFarlane), deixa um retrato mais inventivo e desconcertante que cruza uma história de solidão com limites éticos associados à inteligência artifical.

 

Black Mirror

 

À medida que acompanha o codirector de uma marca de videojogos e a sua rotina quase inescapável entre o trabalho e o lar, "USS CALLISTER" vai desviando, pacientemente, a simpatia do espectador para os seus colegas - até daqueles que à partida pareciam ostracizá-lo -, através de uma combinação de drama urbano, aventura espacial e um sentido de humor que nunca trai a força da vertente mais angustiante deste relato.

 

Esse tom, impecavelmente gerido por Haynes e auxiliado por um elenco imediatamente icónico (com destaque para Jesse Plemons e Cristin Milioti), é talvez o maior trunfo de uma das ideias mais felizes da ficção científica recente, aqui defendida num episódio mais longo do que o habitual (76 minutos) e quase com fôlego de longa-metragem - ou talvez de super-episódio piloto para um spin-off deste universo do qual já se fala...

 

4,5/5

 

Black Mirror

 

Um arranque do calibre de "USS Callister" já justificaria por si só o regresso de "BLACK MIRROR", mas há mais olhares sobre a relação com a tecnologia a motivar o investimento nesta segunda vida na Netflix. "HANG THE DJ", outra aposta na realidade virtual, leva ao limite a dependência das aplicações de encontros num embate contínuo entre romantismo e frustração. Realizado por Tim Van Patten ("BoarDwalk Empire", "Os Sopranos") e protagonizado pelos óptimos Georgina Campbell ("Murdered by My Boyfriend") e Joe Cole ("Peaky Blinders"), que mantêm uma química decisiva para o resultado final, o quarto episódio da temporada é bem capaz de ser a comédia romântica mais contagiante de 2017. não admira que muitos fãs o encarem como descendente espiritual de "San Junipero", capítulo de referência da série (e em modo optimista, uma raridade).

 

 4/5

 

Crocodile

 

Num comprimento de onda completamente diferente, "CROCODILE" é um exemplo das visões mais pessimistas e sufocantes de "BLACK MIRROR", à medida de um realizador como John Hillcoat ("A Proposta", "Dos Homens Sem Lei"), que assina este ensaio sobre culpa sem redenção possível. O que começa com um homicídio involuntário torna-se num ciclo alimentado pelo confronto entre o remorso e a auto-preservação, exercício de suspense de cortar à faca que ameaça cair num calculismo demasiado denunciado mas é salvo, em grande parte, pela excelência da actrizes protagonistas - Andrea Riseborough num papel tão ingrato como marcante, Kiran Sonia Sawar a dar algum capital de simpatia a um dos contos mais negros de Charlie Booker.

 

 3/5

 

Metalhead

 

Negríssimo é também "METALHEAD". Literalmente, até, pela fotografia a preto e branco (com curiosas variações púrpura) a forrar uma abordagem com aura de série B pós-apocalíptica, despachada nuns muito sucintos 41 minutos. Em parte uma variação de "Alien" - protagonista continuamente perseguida por criaturas mortíferas num cenário inóspito -, surge como confirmação algo tardia do que de muito bom se dizia de David Slade na altura do seu primeiro filme, "Hard Candy" (2005), antes de o britânico ter chegado à saga "Twilight". Mas aqui parece ter reencontrado o seu lado primitivo e impiedoso, numa das viragens mais inesperadas da colheita recente de "BLACK MIRROR".

 

 3/5

 

Arkangel

 

Embora estes quatro episódios mostrem a série no seu melhor ou, pelo menos, num patamar recomendável, a nova temporada acaba por ser algo irregular, aliás como as anteriores. "ARKANGEL", drama entre mãe e filha ancorado nas possibilidades e ameaças do controlo parental, segue-se com algum interesse (ter Rosemarie DeWitt entre as protagonistas ajuda), mas Jodie Foster parece não ter mão para levar esta história para territórios tão inexplorados quanto isso. O problema nem é que a tecnologia aqui lembre a do superlativo "The Entire History of You", outro mergulho em memórias alheias avançado por "BLACK MIRROR", antes a forma previsível e até moralista como a realizadora a trabalha - e sobretudo como encerra um drama a caminho do dramalhão -, mesmo que este argumento de Booker também não seja dos mais aventureiros.

 

 2,5/5

 

Black Mirror

 

Pouco entusiasmante é também "BLACK MUSEUM", capítulo ambicioso mas que nunca consegue dar grande densidade às suas personagens. Pelo contrário, é dos casos em que estas são pouco mais do que marionetas de conceitos especialmente extremos, algures entre o terror gráfico q.b. e a sátira escarninha uns tons ao lado. Fechar uma temporada de uma série antológica com uma antologia de três histórias é apenas o ponto de partida do episódio mais auto-referencial de "BLACK MIRROR", assinado por Colm McCarthy ("Peaky Blinders", "Injustice"), embora as piscadelas de olho aos fãs não cheguem a aprimorar uma combinação requentada - com cereja em cima do bolo numa reviravolta final inócua e facilmente antecipável.

 

 2/5

 

As quatro temporadas de "BLACK MIRROR" estão disponíveis na íntegra na Netflix.

 

 

Muita guerra, poucas estrelas

Ainda há esperança para uma saga que surpreendeu numa época muito, muito distante? A julgar por "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS", o máximo a que temos direito é um blockbuster esforçado, mas inevitavelmente limitado.

 

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Depois da amarga desilusão de "Star Wars - O Despertar da Força", um mero plágio mascarado de homenagem, o primeiro de vários spin-offs da saga criada por George Lucas há quase 40 anos prometia trazer outras caras, cenários e histórias a um universo que não tem falta de potencial para explorar. Sobretudo porque haveria, à partida, outra liberdade criativa ao saltar para narrativas laterais e delinear um caminho autónomo, como o da missão de um grupo de rebeldes que tenta sabotar os planos do Império Galáctico, em particular o da criação uma tecnologia capaz de destruir planetas.

 

Até certo ponto, "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS" consegue ser bem sucedido nesse propósito. Gareth Edwards, que deu algum fulgor à ficção científica recente em "Mostros - Zona Interdita" antes de decepcionar no desastroso (em mais de um sentido) último "Godzilla", concede de facto um tom mais negro a esta aventura, que não se fica pela fotografia menos luminosa e inclui um olhar mais ambíguo do que o habitual sobre a Aliança Rebelde (para a qual os fins justificam muitas vezes os meios), ainda que os maus da fita voltem a ser retratados sem grandes nuances (o lado negro da força continua imune a quaisquer sugestões de cinzento).

 

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Também ao contrário do filme antecessor, o realizador britânico tem carta branca para desenvolver uma história com princípio, meio e fim, em vez de ficar preso ao modelo de mega episódio piloto com um final a introduzir os próximos capítulos. E esse aspecto é de louvar não só dentro da saga, mas face a muitos blockbusters dos últimos anos (sobretudo de super-heróis), demasiado subservientes ao formato de cinema em série, no qual cada filme faz mais sentido integrado num quadro amplo do que individualmente.

 

Mas se em relação ao arco narrativo "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS" tenta e geralmente consegue bastar-se a si próprio, não deixa de ter demasiadas intromissões da saga na qual se integra. A banda sonora, logo ao início, tenta desviar-se do livro de estilo de John Williams, mas a partitura de Michael Giacchino volta invariavelmente a essa escola ao longo do filme, o que não seria um problema caso surgisse só nas cenas que pedem essa música operática. A questão é que esta missão especial tem mais raízes na série B do que na space opera que moldou a série (mesmo que não falte o obrigatório mote com relações entre pais e filhos) e aí a banda sonora nem sempre é oportuna. Igualmente dispensável é o robô de serviço, que pouco acrescenta a outros desta ou de outras sagas, instigador da maioria dos momentos espirituosos, quase todos a deitar abaixo alguma tensão (ainda assim, menos vezes do que em muitos blockbusters recentes).

 

Rogue One

 

Se outros pormenores, como cameos quase obrigatórios, são compreensíveis e não criam grandes entraves a um novo fôlego, no geral "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS" tende a não conquistar por completo ao parecer ficar longe do que Edwards pretendia. As várias refilmagens são conhecidas, e estão longe de ser caso único de intervenção dos estúdios, mas nem é difícil dar conta delas quando a vertente relativamente dramática e humanista da primeira metade (mesmo que com uma missão em modo jogo de pistas à mistura) vai cedendo espaço a uma narrativa mecânica que a realização de tarefeiro aplicado nem tenta disfarçar.

 

O último terço do filme é especialmente gritante quando quase se esquece das personagens numa demonstração vistosa, e certamente dispendiosa, de maquinaria e artilharia, com o filme de guerra a eclipsar a aventura intergaláctica. E ao ser tão longa, só realça que mais de duas horas é uma duração exagerada para esta história, sobretudo quando não há uma cena de acção que não seja genérica e demasiado próxima de outras aventuras (a excepção é uma sequência de poucos segundos já muito perto do final, num corredor, com mais intensidade do que a profusão interminável de naves que ficou para trás).

 

Quando a equipa de rebeldes volta a contar mais do que as armas, já é tarde demais, até porque tirando a relação das personagens de Felicity Jones e Diego Luna - bem mais interessante, conturbada e credível do que a dos protagonistas do filme anterior -, as outras praticamente não saem da casa de partida - e vivem mais do carisma de actores desperdiçados, como Riz Ahmed, do que de um interesse particular do argumento por elas. Enfim, pelo menos "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS" compensa ligeiramente essa limitação com um vilão apresentável depois do embaraçoso Kylo Ren, o que na verdade também não é dizer (nem pedir) muito. E se Ben Mendelsohn dá conta do recado nesse papel, também lembra que seria muito melhor que o mundo o conhecesse mais por séries como "Bloodline" do que por filmes destes. Haja esperança, pois então...