Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma sátira terrível e umas férias aterradoras

Um foi uma tremenda desilusão, outro uma surpresa curiosa. "BACURAU" e "THE LODGE", dois dos filmes de terror (em sentido lato, sobretudo o primeiro) mais falados dos últimos tempos, estiveram entre os mais concorridos da 13ª edição do MOTELX, no Cinema São Jorge, em Lisboa

 

Bacurau 2019.jpg

 

"BACURAU", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles: Premiado em Cannes e aplaudido por muita imprensa dentro e fora do Brasil, o novo filme do autor de "O Som ao Redor" e "Aquarius" - que agora partilha a realização com o seu director de arte -, pode vir a fazer maravilhas como arma de arremesso contra Bolsonaro e companhia, mas enquanto cinema é uma das maiores desilusões do ano. O que havia de subtil nas obras anteriores cede aqui terreno ao gratuito, depois de uma primeira meia-hora que até apresenta um retrato comunitário palpável e intrigante do sertão nordestino.

 

Infelizmente, este híbrido de ficção científica, western e terror (com gore à discrição) limita-se a introduzir personagens promissoras para depois as reduzir a símbolos descartáveis, numa sátira que rapidamente se torna maniqueísta - ao opor a "pureza" dos nativos contra o mal sem travões disseminado pelos invasores imperialistas (caucasianos e norte-americanos, naturalmente). Se a ideia era deixar uma ode à resistência face à opressão e à dizimação cultural, uma curta-metragem teria sido suficiente. Assim, temos um panfleto-slasher de mais de duras horas, óbvio e repetitivo, e sobretudo tremendamente previsível e preguiçoso.

 

As supostas cenas de suspense raramente escapam à banalidade e não há caução cinéfila (Carpenter, Leone ou Tarantino pairam por aqui) nem auto-consciência que salvem um argumento tão raso ou vários actores desastrosos - má demais, a grupeta de assassinos canastrões liderada por Udo Kier. Mais triste ainda é ver Sônia Braga, tão bem tratada em "Aquarius", perdida no meio do desastre e sem personagem a que se agarrar.

 

Para um mergulho recente e infinitamente mais imaginativo e arriscado numa pequena comunidade pernambucana, nada como (re)descobrir "Azougue Nazaré", de Tiago Melo (curiosamente, ex-colaborador de Kleber Mendonça Filho). E quem procurar um retrato do Brasil de hoje sem simplismos nem ganga panfletária, tem numa série como "Pico da Neblina", de Quico e Fernando Meirelles, uma proposta muito superior. "Bacurau" bem pode vir com a capa irreverente de cinema de género, mas só oferece o pior do "filme tema"...

 

0/5

 

The Lodge.jpg

 

"THE LODGE", de Severin Fiala e Veronika Franz: A dupla austríaca que se destacou com o elogiado "Goonight Mommy" (2014) volta a abordar dramas familiares através do terror, agora a partir da relação entre dois irmãos adolescentes e a nova companheira do pai, acolhida com desconfiança. Cinema de câmara, o filme que se estreou em Sundance passa a maior parte do tempo no interior de uma casa de férias, isolada na neve durante as vésperas de um Natal sem direito a milagres. Por outro lado, não faltam tormentos numa história que junta traumas e cultos, mas que está muito acima de disparates esotéricos na linha de "The Conjuring" e outros relatos derivativos de mansões assombradas.

 

Há quem compare o ambiente frio, gélido mesmo, a "The Shining", embora "A Visita" talvez esteja mais próximo deste convívio forçado entre dois miúdos e um parente mais velho. O resultado é especialmente conseguido na primeira metade, quando a "madrasta" encarnada por uma credível Riley Keough é tão misteriosa para os adolescentes como para os espectadores e ajuda a desenhar um ambiente de cortar à faca.

 

Essa secura emocional também deriva muito da conjugação minuciosa e minimalista de imagem e som, com um sussurro ou um ranger de porta a valerem mais do que a overdose de jump scares de muita concorrência. Mas a meio também fica a sensação de que Fiala e Franz vão perdendo algum fôlego, concentrando-se demasiado em cenas que insistem em baralhar o real e o ilusório. E mais à frente, uma reviravolta chega a comprometer a verosimilhança do que estava para trás, mesmo que a recta final recupere alguma inspiração e até conte com sequências de antologia (em especial uma que envolve um automóvel na neve, mostrando como a câmara da dupla ainda pode moldar situações arrepiantes a partir de cenários reconhecíveis).

 

Enquanto exercício de estilo, há aqui savoir faire e ideias mais do que suficientes, e a dupla é capaz de fintar lugares comuns associados ao terror. Só faltou um mergulho no drama familiar com mestria à altura, já que alguma desta angústia se arrisca a dissipar-se à saída da sala...

 

3/5

 

Teremos sempre Paris (ou pelo menos por uns dias)

No arranque da digressão nacional, LIA PARIS trouxe as canções de "MultiVerso" ao Musicbox, em Lisboa, na passada sexta-feira, e confirmou o que o álbum já sugeria: esta é uma das novas vozes da música brasileira a ouvir.

 

Lia Paris no Musicbox.jpg

 

Não foi um concerto particularmente concorrido, e o facto de ter coincidido com um dos dias do Super Bock Super Rock não terá ajudado a chamar mais do que poucas dezenas de pessoas. Mas a cantautora paulista defendeu bem, ainda assim, as cores do seu segundo disco, que como o título deixa antever são muitas e variadas.

 

Ao contrário do álbum de estreia homónimo, de 2015, que não se desviava de um pop-rock directo e garrido (Adriano Cintra, ex- Cansei de Ser Sexy, contribuiu para o carisma na produção), o recente "MultiVerso" alarga os horizontes de LIA PARIS, depois de o EP "Lva Vermelha" (2016) já ter apostado noutras texturas ao lado de Daniel Hunt, dos Ladytron, instigador de uma faceta dream pop - que regressa, também com créditos do produtor britânico, no final do novo disco na encantatória "A Roda".

 

Iniciando a actuação com o primeiro single do álbum, "Coração Cigano", a brasileira disse logo ao que vinha. "Vou enfeitiçar você", cantou, e conseguiu manter esse efeito durante boa parte da hora que se seguiu. Se o público pouco numeroso levou a que interacção fosse mais limitada do que noutras noites de sexta-feira, sobretudo durante a primeira metade do concerto, e a própria postura de LIA PARIS foi algo contida no arranque, nem por isso este deixou de ser um espectáculo suficientemente envolvente.

 

Lia Paris Musicbox.jpg

 

Ao lado de dois músicos, no baixo e percussão, a cantora e (ocasionalmente) guitarrista foi revelando o que torna "MultiVerso" um registo de viragem, tendo nascido, como explicou, durante e digressão do EP anterior. A Islândia, onde foi gravado o videoclip de "Coração Cigano" ("quase morri de frio mas o resultado ficou muito bonito", assinalou), foi um dos territórios inspiradores, tal como a Andaluzia. "Tenho a sensação de estar ligada a este local", disse a propósito da região espanhola que esteve na origem de "Andaluz", balada radiofónica sem precisar de ser anódina.

 

Menos memorável, "Crossing Sunsets" mostrou-a a cantar em inglês, próxima de alguma blue-eyed soul, mas a noite foi mais urgente e intrigante em momentos como "Nosso Trato", "uma das canções do disco mais gostosas de dançar", sublinhou. "Foi produzida pelo Spaniol, que misturou ritmos da Amazónia com electrónica", acrescentou ao apresentar um tema com sintetizadores sombrios, a lembrar alguns ambientes dos The Knife. A faceta fria a nórdica manteve-se em "Inocente Violência", que a cantora disse ter sido inspirada em poemas de um jovem dinamarquês - e tiveram direito a moldura sonora entre o trip-hop e o dubstep, noutro episódio sedutor.

 

Mais caloroso, o embalo de "Tropical" propôs um baile entre África e a América do Sul e resultou naquele que foi, de longe, o tema mais celebrado, com grande parte do público a aderir à dança. A atmosfera também se tornou mais festiva nas ocasiões em Rodolfo Krieger, músico dos Cachorro Grande, subiu a palco para se juntar à banda na guitarra, como no diálogo amoroso ritmado de "Meus Caminhos".

 

Lia Paris tour.jpg

 

Entre as canções mais aplaudidas ficaram ainda as segundas doses de "Coração Cigano" e da belíssima "Noite", singles repetidos no final do concerto, numa espécie de encore que não obrigou a saídas e regressos. A muito "ladytronica" "Laos", resgatada de "Lva Vermelha", foi outra com direito a repetição, a pedido de um espectador que a tinha perdido no início. "Chegou atrasado, hein? Isso é coisa de paulista", brincou a cantora (e sim, era um admirador de São Paulo).

 

Talvez não tivesse sido má ideia aproveitar esse último segmento para recuperar mais canções do EP ou do disco de estreia (apesar de o alinhamento ter incluído "Três Vulcões" com uma nova mistura). Mas ninguém pareceu muito incomodado, antes pelo contrário: as canções até ganharam uma adesão reforçada à segunda. Missão cumprida, portanto, e sem precisar de grande aparato cénico (o que não invalidou um trabalho de iluminação minucioso), num início seguro de uma digressão que entretanto passou pela Casa da Música, no Porto (no sábado) e pelo Texas Bar, em Leiria (no domingo). Quem não viu, ainda vai a tempo do concerto no Anfiteatro Montargil, em Ponte de Sor, dia 26 de Julho - com entrada livre - ou de ouvir "MultiVerso" já aqui em baixo:

 

 

3/5

 

Da Rússia com fulgor (e algum mau feitio)

Apesar de ser realizado por Ralph Fiennes e de contar com Liam Neeson entre os produtores executivos, "O CORVO BRANCO" tem tido um percurso relativamente discreto. Mas este olhar sobre o bailarino Rudolf Nureyev é mais interessante do que alguns biopics que levam a corridas às bilheteiras.

 

O Corvo Branco 2.jpg

 

Depois de "Coriolano" (2011) e "The Invisible Woman" (2013), a terceira aventura de Ralph Fiennes atrás das câmaras arrisca um retrato de um dos ícones da dança do século passado. E se o resultado é bastante mais modesto do que a pedrada no charco que foi Rudolf Nureyev, não desmerece ao acompanhar os primeiros anos do bailarino russo até à entrada na idade adulta, partindo do livro "Rudolp Nureyev: The Life", de Julie Kavanagh, aqui adaptado por David Hare ("As Horas", "O Leitor").

 

A primeira visita do protagonista a Paris, nos anos 60, marca o centro de uma narrativa que vai recuando até à infância e adolescência, na sua terra natal. Essa opção, se por um lado contraria o formato linear de muitos biopics, nem sempre é a mais eficaz para ajudar a situar o espectador na cronologia de Nureyev, com os saltos temporais a quebrarem algum impacto dramático na primeira metade do filme. Também não ajuda que as sequências centradas no bailarino ainda criança, numa pequena localidade, estejam entre as mais estereotipadas, com os filtros sombrios da fotografia a reforçarem um isolamento e solidão que Fiennes ilustra com mão pesada.

 

O Corvo Branco 3.jpg

 

Nas outras fases da vida do protagonista, contudo, "O CORVO BRANCO" mostra-se substancialmente mais desenvolto, embora boa parte do mérito seja de Oleg Ivenko. Na sua primeira experiência como actor, o bailarino profissional ucraniano revela-se uma escolha de casting certeira, não só pelas parecenças físicas (surpreendentes) com Nureyev mas sobretudo pela espontaneidade e garra com que se entrega ao papel.

 

Tão insolente como obstinado, e movido por uma capacidade de deslumbramento que o filme sabe explorar ao recordar outros "grandes" das artes em paralelo, o protagonista não facilita a empatia do espectador, embora isso seja mais feitio do que defeito - o lado temperamental da estrela russa ficou bem documentado em várias ocasiões, e é bom ver que o filme não a ignora.

 

Ivenko surge bem acompanhado num elenco coeso, com destaque para o próprio Fiennes, que na pele do contido professor de dança de Nureyev opta por se expressar em russo, um dos detalhes que asseguram a verosimilhança da maioria das cenas (além de uma lição que produções como a série "Chernobyl" poderiam ter em conta, em vez de optarem pelo inglês). Adèle Exarchopoulos também convence enquanto cúmplice do protagonista em Paris, ainda que outras personagens secundárias pudessem ter sido mais exploradas, sobretudo os rapazes com quem Nureyev se vai relacionando (seja platonicamente, como o colega de quarto e um bailarino francês, ou um rapaz alemão com o qual se envolve de forma mais íntima).

 

O Corvo Branco.jpg

 

Embora desequilibrado, "O CORVO BRANCO" ganha outro fôlego na recta final, ao abandonar o recurso a flashbacks sucessivos para se concentrar num único acontecimento: o da tentativa de detenção de Nureyev pelo KGB em Paris, que pretendia levá-lo para Moscovo e impedi-lo de prosseguir para Londres juntamente com a sua companhia de dança.

 

De repente, Fiennes salta do drama iniciático para o thriller de contornos políticos e assina as sequências mais empolgantes do filme, mantendo-se fiel ao mergulho no individualismo e ao grito de liberdade (pessoal e artística) que percorre os momentos anteriores, também assentes nos contrastes da Guerra Fria e na repressão soviética. E consegue fazê-lo com um acumular de tensão que não desemboca no retrato hagiográfico, deixando bem evidentes as nuances da personalidade de Nureyev, que acabariam por ser determinantes para que o seu génio performativo (vincado pela diluição entre o masculino e o feminino) pudesse ter, finalmente, um palco global. 

 

3/5

 

 

Foi cool? Sim, mas talvez até demais

Uma noite de belas canções às quais pareceu faltar um sentido de espectáculo à altura. Na sua estreia lisboeta, no Musicbox, JONATHAN BREE apresentou esta quarta-feira uma actuação singular e personalizada, mas que não fez inteira justiça a "Sleepwalking", o seu novo álbum.

 

Jonathan Bree no Musicbox Lisboa @Ana Viotti.jpg

 

No videoclip de um single como "You're So Cool", tudo faz sentido. Foi através dessa canção que JONATHAN BREE, apesar de uma longa carreira com os Brunettes desde finais dos anos 90 e de um percurso a solo mais recente, terá conseguido chegar a novos públicos nos últimos tempos. O suficiente para consolidar um fenómeno de culto em torno do cantautor e produtor neo-zelandês, alimentado por aquele que será o seu tema mais orelhudo sem perder a aura soturna da sua pop de câmara.

 

O vídeo ajudou, ao centrar-se numa actuação na qual tanto o músico como a sua banda surgem com a cara coberta por uma máscara, num cenário que lembra emissões televisivas dos anos 50/60, evocação reforçada por uma fotografia a preto e branco de tons esbatidos. Assente numa voz de barítono sussurrante e numa alternância entre ambientes intimistas e quase épicos (quando as cordas ganham protagonismo), "You're So Cool" terá sido, para muitos, o principal (e impressionante) cartão de visita de "Sleepwalking", terceiro álbum a solo e digno sucessor de "The Primrose Path" (2013) e "A Little Night Music" (2015).

 

Sleepwalking.jpg

 

A máscara que se destacava aí, tal como na capa do disco, regressaria nos videoclips dos singles seguintes e mantém-se como elemento-chave dos concertos da Sleepwalking Tour, que passou por palcos portugueses esta semana no festival A Porta, em Leiria, pelo Maus Hábitos, no Porto, e finalmente pelo Musicbox, em Lisboa, na estreia do neo-zelandês na capital (com direito a sala esgotada, tal como a noite na Invicta).

 

Infelizmente, as opções cénicas que despertam curiosidade por este universo nos três ou quatro minutos de um videoclip revelam-se limitadas e repetitivas num espectáculo com certa de uma hora de duração (aliás, 55 minutos bem contados e sem direito a encore, o que acabou por saber a pouco).

 

Acompanhado por quatro elementos, dois músicos (na bateria e guitarra) e duas bailarinas (que pontualmente cantaram e se ocuparam da guitarra ou pandeireta), JONATHAN BREE adoptou uma postura tão teatral como estática, nunca se tendo dirigido directamente ao público para verbalizar cumprimentos ou agradecimentos, limitando a sua interacção às flores que atirou para as primeiras filas a meio do espectáculo.

 

Jonathan Bree no Musicbox Lisboa @Ana Viotti 2.jpg

 

A contrastar com a sua atitude contida, as duas bailarinas foram imparáveis, também elas com o rosto coberto e indumentária rendilhada, a deixar sugestões de um imaginário de outros tempos ou de atmosferas do cinema de terror. A carga cinemática foi sublinhada, aliás, por alguns arranjos de cordas, mas é pena que as tenhamos ouvido num formato pré-gravado em vez de entregues a músicos no palco. Essa frustração também passou pelo registo vocal, que às tantas deixou sérias desconfianças de playback - não tanto no caso de BREE, mas no das vozes femininas presentes em alguns temas.

 

Longe de arrebatar, o concerto foi ainda assim competente, até porque nas canções propriamente ditas nunca comprometeu. Esta discografia já tem uma mão cheia delas, e nenhuma dispensável, o que levou a um alinhamento que arrancou com episódios de compasso mais lento (caso da nebulosa faixa-título do novo álbum, na abertura) para ir ganhando maior dinamismo rítmico até ao final. Houve ecos das vozes e obra de Scott Walker, Serge Gainsbourg ou Leonard Cohen numa música que conseguiu ser sorumbática e onírica mas também dominada por uma sensibilidade pop envolvente, num espectro que foi do barroco ao minimalista (como quando ouvimos o neo-zelandês a capella, em alguns dos pontos altos da actuação).

 

Jonathan Bree no Musicbox @Ana Viotti 3.jpg

 

As imagens projectadas no ecrã ao fundo do palco, entre o preto e branco e o sépia, e os escassos adereços (entre leques e raquetes que se fizeram passar por guitarras) contribuíram para uma vertente lo-fi e artesanal, apropriada a estas canções, com um ambiente muito lá de casa. E além de "You're So Cool", que sem surpresas ficou entre os picos da noite, houve instantes tão bons ou até melhores em "Valentine" e sobretudo "Fuck It", com o crooning planante de BREE a atingir o ponto de rebuçado. Mas com uma duração mais longa e outro formato de espectáculo, o encantamento podia ter sido total.

 

3/5

 

 

 

 

Fotos @Ana Viotti/Musicbox Lisboa