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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Gritos mudos

Fenómeno de culto instantâneo? Contra todas as expectativas, "UM LUGAR SILENCIOSO" tem sido um sucesso de público e de crítica e chama finalmente atenções para o percurso de John Krasinski atrás das câmaras. E à frente delas, o actor de "The Office" (versão americana) também não se sai nada mal nesta muito curiosa abordagem ao terror...

Um Lugar Silencioso

 

O que começou como uma proposta de argumento de Bryan Woods e Scott Beck, realizadores de terreno indie, acabou por ser abraçada por Michael Bay (sim, o de "Pearl Harbour" ou "Transformers"), que assumiu a produção antes de o projecto ir parar às mãos de John Krasinski - cujo entusiasmo foi partilhado pela mulher, Emily Blunt, ao ponto de o casal se tornar protagonista do filme.

 

Se estes nomes podem não parecer, à partida, os mais conciliáveis, já nos preparam para a estranha conjugação de ingredientes de "UM LUGAR SILENCIOSO", que junta o terror à ficção científica ou ao drama familiar e tem uma grande ideia na premissa: moldar um exercício de suspense dispensando quase por completo os diálogos ao longo de uns muito económicos (e certeiros) 90 minutos.

 

A eficácia de John Krasinski na realização, naquela que é a sua terceira longa-metragem (e de longe a mais popular), tem sido louvada, talvez até com algum exagero, embora se perceba porquê: há aqui uma vontade de fazer diferente mais assinalável do que em grande parte dos blockbusters recentes, como aliás a filmografia (tão ruidosa) de Michael Bay pode atestar.

 

Um Lugar Silencioso 2

 

Mas "UM LUGAR SILENCIOSO" nem precisa de tentar inventar a roda para ser uma proposta convincente: as influências (óbvias e assumidas) da saga "Alien" ou do cinema de M. Night Shyamalan ("Sinais" e "A Vila" em particular) não impedem que este olhar pós-apocalíptico encontre um lugar particular, sobretudo quando a família protagonista vai sendo cercada por criaturas cegas mas com uma audição apurada - capacidade que torna qualquer palavra proferida numa ameaça fatal.

 

Enquanto acompanha as peripécias do casal e dos dois filhos, Krasinski mostra saber dominar os códigos da série B, deixando algumas sequências de antologia sem descurar uma vertente dramática que ajuda a que as personagens não sejam mera carne para canhão (algo de que nem todos os exercícios do género podem orgulhar-se). E se Krasinski e Blunt estão ao nível do que se esperaria deles, os jovens Noah Jupe e Millicent Simmonds são boas surpresas na pele dos filhos (ela a dar que falar depois do também recente "Wonderstruck: O Museu das Maravilhas", de Todd Haynes).

 

"UM LUGAR SILENCIOSO" só é menos estimulante quando insiste em condimentar algumas sequências (sobretudo ao início) com uma banda sonora melancólica, que trai em parte a promessa de respeito pelo silêncio vendida pelo ponto de partida. O aumento repentino do som em alguns jump scares também nem sempre joga a seu favor, escorregão ao qual se juntam dois ou três momentos que comprometem a suspensão da descrença (quase todos relacionados com a gravidez da personagem de Blunt). Nada de grave, mesmo assim, quando no geral o resultado é tão escorreito e ocasionalmente inventivo. Uma surpresa a ver (e a ouvir), portanto, e merecedora do burburinho que tem vindo a alimentadar.

 

3/5

 

 

Menina e moça

Nem o facto de lembrar (às vezes, muito) outros filmes sobre a adolescência retira o charme a "LADY BIRD", promissora estreia na realização de Greta Gerwig bem defendida por Saoirse Ronan.

 

Lady Bird

 

Greta Gerwig não se tem dado nada mal com a sua primeira experiência a solo atrás das câmaras, depois de se ter aventurado na realização ao lado de Joe Swanberg em "Nights and Weekends" (2008). Apesar de as suas cinco nomeações para os Óscares não terem levado a nenhuma vitória, nem por isso "LADY BIRD" deixou de ser dos filmes mais elogiados do outro lado do Atlântico nos últimos meses, com uma aclamação praticamente consensual.

 

Por outro lado, esse deslumbre quase generalizado também pode fazer com que esta comédia dramática modesta gere alguma desilusão, já que o resultado, embora estimável, acaba por estar uns furos abaixo do hype. No fundo, Gerwig não traz nada de especialmente novo ao já muito percorrido território de histórias coming of age, frutífero para muito cinema independente norte-americano mas também tão repisado que muitos dos seus caminhos se tornaram familiares.

 

Lady Bird 2

 

"LADY BIRD" está longe de devolver grande rasgo a esses domínios, o que não quer dizer que não conquiste o seu espaço por mérito próprio. E o espaço é, aliás, um elemento determinante neste relato do quotidiano de uma adolescente em Pasadena, na Califórnia, a pacata cidade natal de Gerwig e a primeira pista para sugestões de autobiografia mais ou menos camuflada. A realizadora e argumentista, até aqui mais conhecida como actriz, diz que não, ainda que reconheça o "fundo de verdade" que passa pelo filme e que está entre os seus aspectos mais conseguidos.

 

A atenção aos pormenores faz com que as linhas que guiam esta história nem pareçam tão formatadas como o são de facto, pelo menos para quem já tenha visto outros retratos da adolescência no feminino - de "Ghost World - Mundo Fantasma", de Terry Zwigoff , a "Juno", de Jason Reitman, passando pelos menos vistos mas não menos interessantes "Appropriate Behaviour", de Desiree Akhavan , ou o recente "No Limiar dos 18", de Kelly Fremon Craig.

 

Nem sequer falta aqui a protagonista teimosa, egocêntrica, insolente e muitas vezes exasperante, que aos poucos começa a aceitar outras visões do mundo enquanto reconsidera a sua. "LADY BIRD", no entanto, distingue-se ao dar também um considerável tempo de antena à mãe, e do contraste de temperamentos entre as duas nascem alguns dos momentos mais fortes do filme. Claro que ajuda ter as óptimas Saoirse Ronan e Laurie Metcalf nesses papéis, a liderar um elenco sem falhas, mas Gerwig sabe encaminhá-las num novelo de ironia, angústia e doçura, sem que o tom seja demasiado espertinho ou açucarado.

 

Lady Bird 3

 

Ambientada em 2002, a acção está devidamente contextualizada (da banda sonora com Alanis Morissette ou Dave Matthews Band ao zapping pela guerra no Iraque) mas não sobrecarregada de detalhes de época mais ou menos nostálgicos, e aí "LADY BIRD" sai a ganhar a outras histórias da adolescência recentes centradas nos anos 80 ou 90 e reféns da devoção ao zeitgeist (alô, "Stranger Things" ou "Everything Sucks!"). E se muitos dos temas que passam pelo dia-a-dia da protagonista ainda marcam a agenda de hoje - desemprego, depressão, homossexualidade, clivagens sociais -, o filme nunca se transforma num caldeirão de "questões fracturantes" (alô, "Três Cartazes à Beira da Estrada"), mantendo-se ancorado na personagens e nos seus dilemas e relações.

 

Esse acerto não disfarça que "LADY BIRD" é uma obra mais consistente do que arrojada, mas ajuda a dar nuances a uma narrativa não tão plana como pode parecer à partida e revela inteligência e sensibilidade no olhar de Gerwig. Já se sabia que tínhamos actriz, agora há uma realizadora e argumentista a seguir...

 

 3/5

 

 

A festa e a cidade

É uma das surpresas televisivas da temporada: "SUBSOLO", a nova websérie da RTP, traz um retrato da juventude lisboeta (ou parte dela) mais solto e credível do que grande parte da ficção nacional enquanto mostra como aliar o conceito ao formato. E nem pede muito tempo em troca...

 

Subsolo

 

"Verão Danado", o primeiro filme de Pedro Cabeleira, deu que falar no ano passado ao procurar novos olhares sobre jovens portugueses do aqui e agora, com o aqui a centrar-se no lado mais hedonista da noite de Lisboa. E partindo da espontaneidade do elenco e de uma energia visual invulgar no cinema que se faz por cá, conseguiu distinções fora de portas (como no Festival de Locarno), conquistando um espaço próprio no retrato de uma certa juventude urbana e contemporânea - e até aí sem muita expressão no grande ou pequeno ecrã.

 

Mas Cabeleira não parece estar sozinho, como o confirma a nova aposta da produtora Videolotion, à qual está associado. "SUBSOLO", a terceira websérie da RTP, aproxima-se de alguns ambientes desse filme e volta a mergulhar em alguns espaços da capital pouco frequentados por outras produções - elegendo os arredores da Avenida Almirante Reis como cenário. E até o faz com um equilíbrio que "Verão Danado" não era capaz de manter, já que passava de um arranque envolvente e com rasgo para uma segunda hora repetitiva e exasperante.

 

Subsolo João

 

Propondo cinco episódios de pouco mais de dez minutos cada, cada um centrado numa personagem diferente (e todas entre os 16 e os 26 anos), a websérie adopta um formato narrativo em mosaico que, não sendo original, serve bem o olhar amplo q.b. sobre a geração "millennial", nascida depois de 1990. A unir as histórias individuais está uma festa em casa de um dos protagonistas, momento-chave de todos os capítulos que contribuiu para a coesão do conjunto - embora cada episódio possa ser visto isoladamente.

 

O apelo da festa é, aliás, o motor dos retratos iniciais, o que chega a sugerir que "SUBSOLO" até está demasiado próximo de "Verão Danado", limitando-se a funcionar como mera variação. E, pior, que ameaça escorregar para a irreverência inconsequente de "Casa do Cais", a frustrante websérie anterior da RTP (vendida como a primeira série LGBTQ nacional mas no fundo a resultar numa colecção de estereótipos sem graça nem alma). "Amor Amor", o novo (e meritório) filme de Jorge Cramez, também é outro ponto de contacto possível, sobretudo nas cenas de celebração colectiva regadas a álcool, música e dança.

 

Subsolo Nazim

 

Mas como acaba por ir revelando, "SUBSOLO" está afinal pouco interessada em fazer a apologia de um hedonismo desenfreado, embora também se mantenha longe de um moralismo (muito televisivo) que procure condená-lo. Propõe antes um olhar justo e atento de uma Lisboa descrita como "marginal e alternativa", aceitando várias perspectivas narrativas mas também culturais, pessoais e emocionais - através de protagonistas com experiências e prioridades mais vastas do que o início da série dá a entender.

 

Essa abertura é especialmente conseguida nos dois últimos episódios, centrados num rapaz de ascendência indiana e numa dealer, respectivamente (e com ela, Diana Narciso, a impor-se como uma das presenças mais fortes de um jovem elenco promissor, defendendo uma personagem imune aos clichés de muitos filmes, séries e telenovelas).

 

Além dos actores e do argumento (que recusa assentar em picos dramáticos, mantendo-se verosímil), o mérito é dos cinco realizadores (Tiago Simões, Joana Peralta, Maria Inês Gonçalves, Victor Ferreira e Marta Ribeiro), cada um a cargo de um episódio mas todos a conseguirem traduzir um realismo à flor da pele, mais cinematográfico do que televisivo, visível na atenção ao elenco ou no lado sensorial dos espaços (sobretudo face a muitas outras apostas da ficção nacional do pequeno ecrã). O resultado talvez não vá mudar a vida de ninguém, mas não se sai nada mal a captar pequenos momentos que vão fazendo a diferença.

 

"SUBSOLO" pode ser vista na íntegra na RTP Play e no Youtube.

 

3/5