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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A nova turma satisfaz, mas não brilha tanto

Laurent Cantet costuma ser um realizador a ter em conta e "O WORKSHOP" não é excepção, mesmo que o seu novo filme - em parte um sucessor espiritual de "A Turma" - seja mais certeiro no arranque do que no desfecho.

 

Workshop

 

Não parece haver grande volta a dar: "A Turma" (2008) deixou uma marca tão forte no percurso de Laurent Cantet que cada novo filme seu é quase inevitavelmente comparado a esse, um dos melhores retratos da juventude multicultural e das convulsões do sistema de ensino dos últimos anos. Não que o cineasta francês tenha assinado assim tantos desde aí: à curta incluída em "7 Dias em Havana" (2012) sucederam-se apenas "Foxfire - Raposas de Fogo" (2012) e "Regresso a Ítaca" (2014), todos com a particularidade de terem sido rodados fora de portas, ao contrário de "Recursos Humanos" (1999) ou "O Emprego do Tempo" (2001), através dos quais Cantet se notabilizou na viragem do milénio.

 

"O WORKSHOP", contudo, não só assinala o regresso a realidades e cenários franceses como é o filme que mais força a comparação a "A Turma", sobretudo numa primeira metade que retoma a dinâmica escolar com cenas assentes em diálogos por onde passam tensões culturais, sociais e económicas. E aí o realizador mostra-se completamente à vontade, sabendo levar a discussão à mesa sem impor pontos de vista enquanto tira partido da espontaneidade de um elenco de jovens actores não profissionais. A excepção é a já experiente Marina Foïs, na pele de romancista que coordena o curso de escrita criativa durante um Verão numa pequena cidade portuária próxima de Marselha.

 

Workshop 2

 

Embora o arranque do filme sugira estar aqui outro retrato de grupo, à semelhança de "A Turma" ou "Regresso a Ítaca" (este ainda mais ancorado em longas sequências de conversas), a narrativa torna-se menos familiar ao juntar uma reflexão sobre os códigos da escrita de um romance (em especial de tom policial) a um ensaio sobre a disseminação de ideias de extrema-direita (sobretudo junto de um público jovem e com as ferramentas virtuais como aliadas), à medida que a acção se vai concentrando na relação conturbada entre a professora e o aluno que mais a desafia e questiona.

 

A curiosidade misturada com crispação acaba por ir instalando uma dinâmica quase obsessiva, ou pelo menos voyerista q.b., e leva "O WORKSHOP" a desviar-se de proposta realista rumo a um exercício de suspense com qualquer coisa de metaficcional. Mas o desfecho, se por um lado consegue evitar os caminhos mais óbvios, fica aquém do que está para trás - bem mais consistente, estimulante e sem tentações de querer esmiuçar e explicar as motivações de uma personagem-problema.

 

Workshop 3

 

No final, Cantet e o co-argumentista Robin Campillo (realizador dos recomendáveis "Eastern Boys" e "120 Batimentos por Minuto") ainda conseguem garantir que o resultado mantenha alguma ambiguidade, mesmo que um filme como o também recente "Esta É a Nossa Terra", de Lucas Belvaux, seja mais complexo na abordagem às ramificações da extrema-direita e da ameaça terrorista na França actual ou que "Dentro de Casa", de François Ozon (outro conterrâneo), tenha um maior fulgor criativo ao conjugar realidade e ficção (a luz de outro dos seus filmes, "Swimming Pool", também parece iluminar algumas sequências deste mistério de ambiente veraneante).

 

Por outro lado, sempre é preferível um falhanço relativo destes - que torna "apenas" bom o que podia ser óptimo - do que a falta de risco de tanta oferta genérica, muitas vezes com estreias mais celebradas todas as semanas. E é também por isso que "O WORKSHOP", não sendo o melhor Cantet, continua a ser filme a não deixar passar ao lado - de preferência no grande ecrã.

 

 3/5

 

 

Gritos mudos

Fenómeno de culto instantâneo? Contra todas as expectativas, "UM LUGAR SILENCIOSO" tem sido um sucesso de público e de crítica e chama finalmente atenções para o percurso de John Krasinski atrás das câmaras. E à frente delas, o actor de "The Office" (versão americana) também não se sai nada mal nesta muito curiosa abordagem ao terror...

Um Lugar Silencioso

 

O que começou como uma proposta de argumento de Bryan Woods e Scott Beck, realizadores de terreno indie, acabou por ser abraçada por Michael Bay (sim, o de "Pearl Harbour" ou "Transformers"), que assumiu a produção antes de o projecto ir parar às mãos de John Krasinski - cujo entusiasmo foi partilhado pela mulher, Emily Blunt, ao ponto de o casal se tornar protagonista do filme.

 

Se estes nomes podem não parecer, à partida, os mais conciliáveis, já nos preparam para a estranha conjugação de ingredientes de "UM LUGAR SILENCIOSO", que junta o terror à ficção científica ou ao drama familiar e tem uma grande ideia na premissa: moldar um exercício de suspense dispensando quase por completo os diálogos ao longo de uns muito económicos (e certeiros) 90 minutos.

 

A eficácia de John Krasinski na realização, naquela que é a sua terceira longa-metragem (e de longe a mais popular), tem sido louvada, talvez até com algum exagero, embora se perceba porquê: há aqui uma vontade de fazer diferente mais assinalável do que em grande parte dos blockbusters recentes, como aliás a filmografia (tão ruidosa) de Michael Bay pode atestar.

 

Um Lugar Silencioso 2

 

Mas "UM LUGAR SILENCIOSO" nem precisa de tentar inventar a roda para ser uma proposta convincente: as influências (óbvias e assumidas) da saga "Alien" ou do cinema de M. Night Shyamalan ("Sinais" e "A Vila" em particular) não impedem que este olhar pós-apocalíptico encontre um lugar particular, sobretudo quando a família protagonista vai sendo cercada por criaturas cegas mas com uma audição apurada - capacidade que torna qualquer palavra proferida numa ameaça fatal.

 

Enquanto acompanha as peripécias do casal e dos dois filhos, Krasinski mostra saber dominar os códigos da série B, deixando algumas sequências de antologia sem descurar uma vertente dramática que ajuda a que as personagens não sejam mera carne para canhão (algo de que nem todos os exercícios do género podem orgulhar-se). E se Krasinski e Blunt estão ao nível do que se esperaria deles, os jovens Noah Jupe e Millicent Simmonds são boas surpresas na pele dos filhos (ela a dar que falar depois do também recente "Wonderstruck: O Museu das Maravilhas", de Todd Haynes).

 

"UM LUGAR SILENCIOSO" só é menos estimulante quando insiste em condimentar algumas sequências (sobretudo ao início) com uma banda sonora melancólica, que trai em parte a promessa de respeito pelo silêncio vendida pelo ponto de partida. O aumento repentino do som em alguns jump scares também nem sempre joga a seu favor, escorregão ao qual se juntam dois ou três momentos que comprometem a suspensão da descrença (quase todos relacionados com a gravidez da personagem de Blunt). Nada de grave, mesmo assim, quando no geral o resultado é tão escorreito e ocasionalmente inventivo. Uma surpresa a ver (e a ouvir), portanto, e merecedora do burburinho que tem vindo a alimentadar.

 

3/5

 

 

Menina e moça

Nem o facto de lembrar (às vezes, muito) outros filmes sobre a adolescência retira o charme a "LADY BIRD", promissora estreia na realização de Greta Gerwig bem defendida por Saoirse Ronan.

 

Lady Bird

 

Greta Gerwig não se tem dado nada mal com a sua primeira experiência a solo atrás das câmaras, depois de se ter aventurado na realização ao lado de Joe Swanberg em "Nights and Weekends" (2008). Apesar de as suas cinco nomeações para os Óscares não terem levado a nenhuma vitória, nem por isso "LADY BIRD" deixou de ser dos filmes mais elogiados do outro lado do Atlântico nos últimos meses, com uma aclamação praticamente consensual.

 

Por outro lado, esse deslumbre quase generalizado também pode fazer com que esta comédia dramática modesta gere alguma desilusão, já que o resultado, embora estimável, acaba por estar uns furos abaixo do hype. No fundo, Gerwig não traz nada de especialmente novo ao já muito percorrido território de histórias coming of age, frutífero para muito cinema independente norte-americano mas também tão repisado que muitos dos seus caminhos se tornaram familiares.

 

Lady Bird 2

 

"LADY BIRD" está longe de devolver grande rasgo a esses domínios, o que não quer dizer que não conquiste o seu espaço por mérito próprio. E o espaço é, aliás, um elemento determinante neste relato do quotidiano de uma adolescente em Pasadena, na Califórnia, a pacata cidade natal de Gerwig e a primeira pista para sugestões de autobiografia mais ou menos camuflada. A realizadora e argumentista, até aqui mais conhecida como actriz, diz que não, ainda que reconheça o "fundo de verdade" que passa pelo filme e que está entre os seus aspectos mais conseguidos.

 

A atenção aos pormenores faz com que as linhas que guiam esta história nem pareçam tão formatadas como o são de facto, pelo menos para quem já tenha visto outros retratos da adolescência no feminino - de "Ghost World - Mundo Fantasma", de Terry Zwigoff , a "Juno", de Jason Reitman, passando pelos menos vistos mas não menos interessantes "Appropriate Behaviour", de Desiree Akhavan , ou o recente "No Limiar dos 18", de Kelly Fremon Craig.

 

Nem sequer falta aqui a protagonista teimosa, egocêntrica, insolente e muitas vezes exasperante, que aos poucos começa a aceitar outras visões do mundo enquanto reconsidera a sua. "LADY BIRD", no entanto, distingue-se ao dar também um considerável tempo de antena à mãe, e do contraste de temperamentos entre as duas nascem alguns dos momentos mais fortes do filme. Claro que ajuda ter as óptimas Saoirse Ronan e Laurie Metcalf nesses papéis, a liderar um elenco sem falhas, mas Gerwig sabe encaminhá-las num novelo de ironia, angústia e doçura, sem que o tom seja demasiado espertinho ou açucarado.

 

Lady Bird 3

 

Ambientada em 2002, a acção está devidamente contextualizada (da banda sonora com Alanis Morissette ou Dave Matthews Band ao zapping pela guerra no Iraque) mas não sobrecarregada de detalhes de época mais ou menos nostálgicos, e aí "LADY BIRD" sai a ganhar a outras histórias da adolescência recentes centradas nos anos 80 ou 90 e reféns da devoção ao zeitgeist (alô, "Stranger Things" ou "Everything Sucks!"). E se muitos dos temas que passam pelo dia-a-dia da protagonista ainda marcam a agenda de hoje - desemprego, depressão, homossexualidade, clivagens sociais -, o filme nunca se transforma num caldeirão de "questões fracturantes" (alô, "Três Cartazes à Beira da Estrada"), mantendo-se ancorado na personagens e nos seus dilemas e relações.

 

Esse acerto não disfarça que "LADY BIRD" é uma obra mais consistente do que arrojada, mas ajuda a dar nuances a uma narrativa não tão plana como pode parecer à partida e revela inteligência e sensibilidade no olhar de Gerwig. Já se sabia que tínhamos actriz, agora há uma realizadora e argumentista a seguir...

 

 3/5