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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Rir ainda pode ser o melhor remédio

Duas comédias recentes estão entre os melhores motivos para ir ao cinema na rentrée. Uma abriu o IndieLisboa, outra marca o regresso de um nome associado ao humor, ambas seguem protagonistas que insistem em não crescer.

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"LA FEMME DE MON FRÈRE", de Monia Chokri: Escolha algo inesperada para a sessão de abertura da mais recente edição do IndieLisboa, é a estreia nas longas-metragens de uma realizadora que começou por se fazer notar como actriz em filmes de Xavier Dolan. E se a canadiana parece aceitar aqui algumas influências do conterrâneo (ambiente hipster, histrionismo e disfuncionalidade q.b., profusão de diálogos, dramas de jovens adultos), também mantém um equilíbrio e ritmo do qual boa parte da obra do autor de "Mamã" e "Tom na Quinta" não se poderá orgulhar.

Retrato de uma trintona recém-doutorada, sem emprego à vista nem ligações emocionais fortes além da que tem com irmão, é um mergulho na adolescência tardia com desenvoltura e graça (às vezes, muita), deixando um testemunho pessoal com eco geracional. Chokri acabará por reconhecer que os problemas que tanto afligem a protagonista (encarnada por Anne-Élisabeth Bossé, óptima numa personagem neurótica e auto-centrada) são de primeiro mundo, mas isso não belisca o carisma desta jornada sobre a conquista da independência (a vários níveis), mesmo que seja tirada a ferros.

Além de vários disparos de ironia afiada, quase sempre com sentido de timing, esta é uma comédia dramática que convence por uma ousadia formal assinalável, da fotografia à montagem, passando pela direcção artística e banda sonora (e também aí lembra ocasionalmente o universo do colega Dolan, embora não seja tão ostensiva). Tudo boas razões para não a deixar escapar na segunda sessão do filme, esta quinta-feira, 3 de Setembro, às 21h30, no Grande Auditório da Culturgest.

3,5/5

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"O REI DE STATEN ISLAND", de Judd Apatow: O embate com a maturidade sempre foi um tema caro ao realizador de "Um Azar do Caraças" ou "Aguenta-te aos 40!", mas já começava a dar sinais de esgotamento com "Descarrilada", de longe o seu filme menos memorável. A sua nova comédia, no entanto, sugere que o hiato cinematográfico de cinco anos lhe fez bem (dedicou-se à televisão nesse tempo), ao resultar numa suas das suas obras mais conseguidas - talvez até a melhor, ao lado da algo esquecida "Funny People".

Nem tudo funciona: como sempre, a pontaria do humor é muito desigual, as mais de duas horas de duração revelam-se excessivas para o que Apatow tem para contar e não há aqui grandes ideias de cinema (a realização do norte-americano sempre pareceu mais direccionada para o pequeno ecrã, embora também aí não faltem séries com uma linguagem muito mais inventiva). Por outro lado, este é um filme empático como poucos da colheita veraneante de Hollywood, nascido de uma sintonia envolvente entre argumento e direcção de actores, com destaque obrigatório para Pete Davidson.

Recrutado do "Saturday Night Live", o comediante também colaborou na escrita (ao lado de Apatow e Dave Sirus) e a sua história de vida reflecte-se na do protagonista, um aspirante a tatuador que se agarra à mãe enquanto lida com o luto do pai - papel que o actor agarra com ambiguidade e magnetismo, sem mendigar a simpatia do espectador. A procura do seu lugar no mundo inspira um relato coming of age que não tenta mudar paradigmas mas que acerta nos detalhes, do quotidiano imutável (ou talvez não tanto) de Staten Island a uma galeria de personagens bem desenhadas (quase sempre o grande trunfo do realizador, aliás). As de Marisa Tomei ou Bill Burr compensam a caricatura do grupo de amigos stoner; Steve Buscemi e Pamela Adlon, com participações mais breves, ajudam a reforçar a personalidade e humanidade de uma comédia mainstream que foge à produção de linha de montagem. 2020 já pedia um feel-good movie assim...

3/5

Do Brasil com amor (e algum terror)

O Brasil já viveu dias melhores, mas a ficção cinematográfica e televisiva não parece dar sinais de crise criativa. "BENZINHO" e "BOCA A BOCA" que o digam.

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"BENZINHO", de Gustavo Pizzi (emitido na RTP2 na passada segunda-feira e disponível na RTP Play): Depois de um percurso muito aplaudido em vários festivais internacionais (incluindo uma nomeação ao Grande Prémio do Júri em Sundance), este drama familiar passou discretamente pelas salas portuguesas há poucas semanas e marcou uma das estreias a reter depois de os cinemas terem voltado a abrir portas.

Segunda longa-metragem do autor de "Riscado" (2010), volta a ter Karine Teles, ex-mulher do realizador, como co-argumentista e actriz principal, na pele de uma mãe coragem que tem direito a uma carta de amor sentida neste retrato tão caloroso como modesto. E fica mesmo quase tudo em família quando os filhos e um sobrinho do ex-casal também fazem parte do elenco, o que ajudará a explicar o realismo convincente que emana de muitos momentos. Mais marcado por uma sucessão de vinhetas do quotidiano do que por um argumento especialmente forte, "Benzinho" ganharia com um maior fulgor narrativo, embora não deixe de ir conquistando pelo carinho (nada açucarado) com que olha para uma família da classe média de Petrópolis, abalada por dilemas como a mudança para uma nova casa, a incerteza laboral ou a partida do filho mais velho (contratado por uma equipa de andebol alemã).

A partir da rotina, ambições e receios da matriarca, Pizzi opta por um olhar humanista e esperançoso complementado por algum humor (de uma janela tornada porta à tuba inseparável do filho do meio) e o tom só estremece no subenredo da personagem de Adriana Esteves, a partir de um caso de violência doméstica que parece estar aqui a mais (ou que pedia uma atenção que um argumento recheado de personagens não consegue dar, deixando o agressor próximo de uma caricatura de telenovela). De resto, é exemplo de um cinema simultaneamente sensível e acessível que, sendo já habitual no contexto brasileiro, está longe ter muitos parentes próximos nos filmes que se fazem por cá.

3/5

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"BOCA A BOCA" (T1), Netflix: Não é preciso andar a revisitar "Contágio", de Steven Soderbergh, para descobrir paralelos entre realidade e ficção através da ameaça de uma pandemia. Nada contra, mas a história certa na altura certa encontra-se nesta mistura ambiciosa de drama rural e ficção científica, com pitadas de humor negro, sugestões de terror e heranças de algum cinema queer. Mérito de Esmir Filho ("Os Famosos e os Duendes da Morte"), criador, realizador e argumentista desta série inquietante e irreverente, ao lado de Juliana Rojas ("As Boas Maneiras"), que também colaborou no guião e assinou dois dos seis episódios da primeira temporada.

O pânico instala-se quando um surto letal começa a propagar-se numa pequena localidade do interior, Progresso (o nome é logo uma das muitas ironias desta saga), vitimando adolescentes depois de uma rave que desafiou os ideais conservadores da comunidade. Mas esse estado de alerta só vem tornar mais visível a intolerância geral face à diferença, colocando em jogo conflitos de classe, género, crença, raça, geração ou orientação sexual combatidos pelo jovem trio protagonista - interpretado por actores que se destacam num elenco a tirar partido de sangue novo e nomes veteranos.

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Se num primeiro contacto "Boca a Boca" pode lembrar outras séries da Netflix protagonizadas por adolescentes de um meio isolado e às quais não falta suspense (de "Stranger Things" a "Dark"), esta proposta não demora a vincar um território próprio e vibrante. E muitas vezes tão insolente como os seus protagonistas, tanto a nível visual (as cores garridas, sobretudo de tons azuis e rosa, lembram o conterrâneo "Boi Neon" ou filmes de Gregg Araki e Nicolas Winding Refn) como narrativo (um dos arcos podia ser a resposta brasileira a "O Segredo de Brokeback Mountain", mas vai além disso).

Felizmente, este arrojo não se reduz ao choque gratuito, como que o minou outra radiografia recente de uma comunidade do interior brasileiro, "Bacurau", e o olhar sobre o peso da tradição ou do autoritarismo (que pode ser encarado como uma alegoria ao governo de Bolsonaro) também é bem mais ambíguo, evitando tornar as personagens em símbolos binários. Uma aliança empolgante de estilo e substância, portanto, e abrilhantada por uma banda sonora electrónica com direito a The Knife, Boy Harsher, SOPHIE ou Letrux.

3,5/5

A malta dos bairros (dos arredores de Paris aos de Londres)

Duas das séries a ter em conta na Netflix mergulham nos subúrbios de capitais europeias e nas alianças e conflitos de comunidades imigrantes, sem generalizações nem maniqueísmos. E com música entre os elementos-chave, embora de formas distintas: jazz em "THE EDDY", hip-hop em "TOP BOY".

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"THE EDDY" (T1), Netflix: O arranque não é muito convidativo. Dois episódios com mais de uma hora de duração cada, marcados por um ritmo irregular e um protagonista às vezes exasperante, deixam algumas reservas quanto à minissérie franco-americana que tem sido vendida como a nova aposta de Damien Chazelle. Mas na verdade o realizador de "Whiplash - Nos Limites", "La La Land: Melodia de Amor" e "O Primeiro Homem na Lua" dirige apenas os primeiros dois dos oito capítulos e, embora seja um dos produtores executivos, não é o criador deste drama urbano com tentações de musical (neste aspecto, é coerente com a sua obra).

Os créditos de showrunner pertencem ao britânico Jack Thorne, argumentista de "Skins", "Wonder - Encantador" ou "His Dark Materials", a coordenar aqui uma equipa nascida de várias geografias - multiculturalidade aliás reflectida num retrato parisiense nada turístico. A ele juntam-se, na realização, a francesa Houda Benyamina ("Divinas"), a marroquina Laïla Marrakchi ("Marock") e o norte-americano Alan Poul (veterano de televisão que passou por "Sete Palmos de Terra" ou "The Newsroom"), e apesar da diversidade de origens e visões, a coerência formal não sai beliscada: a atmosfera realista e suja, por vezes quase documental, é um dos trunfos deste mergulho no quotidiano de um clube de jazz ameaçado pelas dívidas e pelo assassinato de um dos seus músicos, a cargo da máfia local.

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Outro ponto a favor é o elenco, que junta os norte-americanos André Holland ("Moonlight") e Amandla Stenberg ("The Hunger Games: Os Jogos da Fome"), a polaca Joanna Kulig ("Cold War - Guerra Fria") ou os franceses de ascendência argelina Tahar Rahim e Leïla Bekhti (ambos do elenco de "Um Profeta"), além de vários actores amadores. Se as interpretações são irrepreensíveis, o argumento nem sempre lhes faz justiça, embora "The Eddy" não só vá melhorando à medida que vai avançando como até tem alguns episódios muito conseguidos e envolventes, à medida que aprofunda as personagens - cada capítulo foca-se numa.

"Amira", centrado na viúva do músico desaparecido, "Slim", que acompanha o empregado do bar do clube, ou "Katarina", retrato da baterista da banda, equilibram um arranque a meio gás ou as demasiadas cenas de ensaios e actuações, ancoradas num jazz ameno, para não dizer insípido - música criada especificamente para a série por Glen Ballard (produtor e co-compositor de "Jagged Little Pill", de Alanis Morissette) e Randy Kerber, este também um dos actores secundários.

Mas mesmo sem canções memoráveis, "The Eddy" sai-se bem na plausibilidade que imprime a este microcosmos revelado a partir das sintonias e crispações dos elementos de uma banda e dos que lhes estão mais próximos, com uma amálgama cultural que, ao contrário de outras ficções recentes, não parece existir para cumprir quotas de representatividade e faz todo o sentido nestas ruas de uma Paris pouco glamorosa. Um caso em que dar o benefício da dúvida compensa.

3/5

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"TOP BOY" (T1), Netflix: A série britânica criada pelo irlandês Ronan Bennett (argumentista de "Inimigos Públicos", de Michael Mann) arrancou no início da década passada e teve duas temporadas no Channel 4, mas ficou praticamente esquecida até Drake se ter tornado não só um dos maiores fãs como também o grande impulsionador do regresso. O rapper tratou de se reunir com a Netflix e de propor uma nova temporada, assumindo o cargo de produtor executivo, e acabou por ser bem sucedido.

Resultado: a terceira época estreou no serviço de streaming no final de 2019 mas as anteriores também ficaram disponíveis, embora com um novo título, "Top Boy: Summerhouse", e por isso a mais recente é considerada a primeira de "Top Boy" no catálogo da plataforma. Confuso? Um bocado, mas vale a pena recuar a ver tudo desde o início.

Recuperando personagens e actores do drama protagonizado por dois traficantes de droga de um bairro londrino com uma grande comunidade negra, introduzindo em paralelo outras figuras e conflitos, os novos episódios beneficiam de valores de produção visivelmente mais elevados enquanto mantêm a crueza e o rasgo realista dos primeiros tempos, percorrendo subúrbios raramente vistos na ficção. Felizmente, não serão os últimos, uma vez que a segunda temporada (ou a quarta, se as duas de "Top Boy: Summerhouse" entrarem nestas contas), já está assegurada e deverá chegar ainda este ano.

Até lá, há tempo de (re)descobrir um olhar sobre realidades marginalizadas e desfavorecidas capaz de englobar conflitos sociais e culturais ou o fenómeno da gentrificação sem simplismos sociológicos. E a ligação à música, e ao hip-hop em particular, não se faz só através de Drake: os rappers Asher D e Kano encarnam os protagonistas, Little Simz, Dave ou Blakie têm papéis secundários igualmente carismáticos e todos contribuem para a sensação de autenticidade de "Top Boy", que nem um desenlace com algumas conveniências de argumento atraiçoa.

3,5/5

O cabeça de lagarto e os caçadores de dragões

A animação japonesa tem sido uma das apostas regulares da Netflix nos últimos meses. E além dos clássicos do género, vão chegando cada vez mais produções recentes ao serviço de streaming: é o caso de "DOROHEDORO" e "DRIFTING DRAGONS", duas das boas séries deste ano.

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"DOROHEDORO" (T1), Tokyo MX/Netflix: Forte candidata a série mais esgrouviada de 2020, é a história de um homem que tenta descobrir que feiticeiro o deixou com uma cabeça de lagarto enquanto vai encontrando (e despachando) dezenas de magos.

Ambientada num universo pós-apocalíptico e de aura cyberpunk, a saga que se baseia na manga de Q Hayashida, surgida no ano 2000, não se coíbe de oferecer violência gratuita (com direito a gore e mutilações), figuras e situações bizarras (de um antagonista obcecado por cogumelos a um insecto gigante domesticado), humor nonsense e conjugações inesperadas de ambientes sujos e urbanos com feitiçaria arcaica (acompanhadas de uma animação que sabe conjugar elementos 2D e 3D).

A mistura arrisca-se a ser de digestão difícil ao primeiro embate, mas vale a pena insistir quando o criador e realizador do anime, Yûichirô Hayashi, tem um carinho óbvio pelas personagens, que se vão revelando mais do que mera carne para canhão. O grupo de vilões idiossincráticos, dos temíveis aos desastrados, até acaba por se revelar bem mais carismático do que o protagonista, entregue a um arco de vingança sem grandes particularidades (e que demora o seu tempo a desenvolver algum conflito dramático). E se o final pode ser acusado de deixar demasiadas pontas soltas, além da porta escancarada para uma segunda temporada, a diversão até lá é garantida - pelo menos para quem não se sentir intimidado por uma proposta tão delirante como visceral.

3/5

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"DRIFTING DRAGONS" (T1), Fuji TV/Netflix: Adaptação da manga homónima de Taku Kuwabara, editada a partir de 2016, esta aventura steampunk desenha a jornada de um grupo de caçadores de dragões a bordo de um navio voador. A rotina é apresentada a partir do ponto de vista de uma adolescente, o membro mais recente da tripulação, e a sua capacidade de deslumbramento facilmente contamina o espectador de uma série que acerta tanto na construção de um mundo singular e coerente como nas ideias e opções visuais.

Se a mitologia dos dragões tem sido recuperada por sagas como "A Guerra dos Tronos", as criaturas deste universo não poderiam ser mais diferentes desse arquétipo feroz e ameaçador: são seres imponentes mas com uma graciosidade zen que os leva a atacar apenas quando são provocados - e não têm os disparos de fogo entre as armas. Mas essa variação não impede que continuem a ser caçados, o que rendeu algumas críticas à série, acusada de encorajar a legitimação da caça às baleias.

Mais interessante será olhar para este anime como um descendente espiritual de retratos na linha de "O Velho e o Mar", até porque a protagonista vai atravessando um questionamento moral ao longo de 12 episódios que pedem continuação: há aqui mais personagens intrigantes a explorar e os últimos capítulos vão subvertendo a lógica maniqueísta de caçadores e presas. E depois há as muitas receitas de iguarias à base da carne de dragão, um dos sinais da excentricidade ocasional que tempera uma história que começa bem e sugere poder voar mais alto.

3,5/5