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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Ensaio sobre a surdez

Merecia estreia nas salas de cinema, mas acabou por chegar a Portugal apenas através do pequeno ecrã, há poucas semanas. "SOUND OF METAL", de Darius Marder, está disponível no Amazon Prime Video e é muito bem defendido por um Riz Ahmed em estado de graça.

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Como lidar com a perda da audição? É esse o ponto de partida de um estudo de personagem centrado num baterista que deixa de conseguir ouvir de forma repentina, caindo numa espiral descendente à medida que a sua rotina sofre danos irreparáveis.

Mas mais do que o embate com a surdez, esta estreia na ficção de um realizador vindo dos documentários também deixa um olhar sobre a dependência, seja emocional (nascida de um relacionamento amoroso), de um estilo de vida (marcado pela adrenalina de concertos de um rock agreste, a caminho do noise) ou das drogas (com o vício da heroína a vincar o passado do protagonista).

Capaz de um retrato complexo da figura na qual se centra, "SOUND OF METAL" afasta-se dos moldes hollywoodescos de dramas sobre a superação da adversidade, com um conflito interior que nunca é rastilho para episódios histriónicos nem de mensagem inspiradora formatada: um bom exemplo de sensibilidade da escrita a cargo do realizador, do irmão, Abraham Marder, e de Derek Cianfrance. Este último, autor de "Como um Trovão", co-escrito por Darius Marder, chegou a desenvolver um projecto com alguns contornos semelhantes, também centrado na dinâmica de um casal/banda (os Jucifer) mas em traços documentais, no abandonado "Metalhead".

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Neste drama, no entanto, a música vai dando lugar ao ruído de um design sonoro brilhante (a cargo de Nicolas Becker, que trabalhou em "Gravidade" ou "Primeiro Encontro"), ao aproximar o espectador da nova condição do protagonista, sujeitando-o à overdose de feedback e dissonâncias mundanas, opção que torna mais imersivo um filme já de si magnético pelo actor que o carrega.

Riz Ahmed, tão contido como intenso, mantém-se a milhas do overacting num papel que poderia facilmente escorregar para esse registo, sem deixar de traduzir a exasperação de alguém que se encontra num cenário incapaz de controlar e ao qual não quer adaptar-se.

É um dos grandes desempenhos do ano, a sublinhar o talento de um actor pouco favorecido nos seus filmes mais populares ("Venom", "Rogue One: Uma História de Star Wars") mas aqui valorizado por um realizador promissor, atento aos seus olhares e gestos - e não só porque um argumento que parte da surdez o pede.

3,5/5

O que é que se passa naquela casa?

"A MALDIÇÃO DE BLY MANOR" prova que mansões misteriosas ainda podem ser território fértil para o universo do terror, pelo menos quando são tão bem ocupadas (e filmadas) como esta aposta da Netflix, uma das melhores do serviço de streaming.

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A segunda temporada da saga de antologia "The Haunting" confirma que Mike Flanagan é (mesmo) um nome a ter em conta no terror actual, embora alguns dos seus filmes tenham ficado aquém do que tem conseguido nesta série (caso de "Jogo Perigoso", também disponível na Netflix, elevado por uma óptima Carla Gugino, ou "Doutor Sono", sequela de "The Shining" geralmente acolhida com indiferença).

A sucessora da muito recomendável "A Maldição de Hill House" (2018) adapta mais uma vez um clássico literário do género - desta vez foi "A Outra Volta do Parafuso" (1898), de Henry James - de forma livre e com heranças de outras obras do autor, mantendo parte do elenco da primeira época numa história sem ligações ao que ficou para trás - e agora numa pequena localidade britânica. Mas volta a ter como cenário uma mansão aparentemente assombrada e palco de um relato amoroso e familiar mais comovente do que assustador, o que está longe de ser uma limitação: poucas histórias de terror recentes foram capazes de construir personagens tão palpáveis como as deste drama de contornos góticos, cuidado que se estende a um elenco tão selecto nas novas caras como nas regressadas (destas últimas, Victoria Pedretti convence num papel com maior protagonismo e Oliver Jackson-Cohen destaca-se numa figura muito diferente da que encarnou antes).

Carla Gugino, mulher do showrunner e realizador, também regressa para uma participação mais curta mas determinante, iniciando e fechando uma trama elíptica e atmosférica que poderá não dar ao espectador aquilo de que está à espera (neste caso, uma vantagem). E se o balanço final fica um pouco abaixo do patamar de "A Maldição de Hill House" (o novelo narrativo é às vezes mais intrincado do que precisava; um episódio centrado no passado, a preto e branco, poderia ter sido resumido em algumas sequências; o desenlace algo brusco estranha-se antes de se ir entranhando), há aqui capítulos que cruzam o inquietante e o apaixonante com uma sensibilidade rara e sem parentes próximos na televisão actual... pelo menos até à próxima incursão de Flanagan numa casa assombrada.

3,5/5

A mulher invisível

O dia a dia de uma empregada de um hotel de luxo inspira uma das revelações do cinema mexicano dos últimos anos. "A CAMAREIRA", primeira aventura cinematográfica da actriz e dramaturga Lila Avilés, é uma pequena pérola de contenção a descobrir.

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As primeiras impressões contam e a estreia de Lila Avilés na realização arranca logo com uma das cenas mais insólitas do ano, quando a protagonista descobre um cliente num emaranhado de lençóis no quarto de um hotel da Cidade do México onde trabalha como empregada de limpeza. É quanto basta para despertar o interesse pelo olhar de uma autora que adapta aqui uma das suas peças, sem que "A CAMAREIRA" alguma vez se aproxime das limitações do teatro filmado - apesar de nunca sair do mesmo edifício.

Se o contacto inicial pode sugerir aproximações ao também recente e conterrâneo "Roma" (2018), a câmara da mexicana recusa a faceta ostensiva da de Alfonso Cuarón, optando por uma escala minimalista que resulta a favor de um estudo de personagem mais intrigante - que não só poupa nos sublinhados sociológicos como acompanha uma mulher menos passiva do que a protagonista desse filme. 

"Que Horas Ela Volta?" (2018), da brasileira Anna Muylaert, será outro eventual ponto de contacto, embora "A CAMAREIRA" prefira um realismo às vezes quase documental à dramaturgia novelesca ao seguir uma jovem mãe solteira, Eve (Gabriela Cartol, sempre credível), que o espectador apenas vê a falar com o filho por telefone. Aliás, todas as figuras mais próximas desta empregada de hotel estão ausentes da acção, num retrato de confinamento laboral que desenha um microcosmos mecanizado e cinzento (literalmente, em algumas sequências).

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Avilés oferece aqui um drama de câmara tão discreto e esmerado como a sua protagonista, e igualmente atento aos detalhes. Enquanto a personagem principal se vai surpreendendo com os objectos que encontra nos quartos a seu cargo, a realizadora tem a mesma curiosidade respeitosa pelas pessoas e cenários em que se move. Um humanismo que surge associado a uma precisão formal ancorada em planos fixos e longos, com um recurso nunca casual à câmara à mão. E com um sentido de espaço invulgar numa primeira obra, reforçado pela montagem de som de Guido Berenblum, colaborador da argentina Lucrecia Martel ("O Pântano"), a tornar a experiência mais imersiva.

Com a esfera pessoal e profissional tão interligadas, a jornada de Eve não pode dissociar-se do conflito de classes, especialmente nos contrastes com o estilo de vida, postura e preocupações dos clientes do hotel - invariavelmente a sujeitarem a protagonista à indiferença e condescendência, no seu melhor, e à pura desconsideração, no seu pior. A acumulação de micro-agressões, de resto também veiculada pela chefia e alguns colegas da personagem principal, faz de  "A CAMAREIRA" um relato conseguido do desespero em surdina vivido por alguém sujeito à precariedade e exploração laboral e sem poder contar com a meritocracia.

Mas apesar da denúncia da injustiça e do silenciamento, Avilés não cai na vitimização nem num relato plano e determinista. Por um lado, faz conviver a monotonia frustrante com um humor seco, através de alguns imprevistos num sistema estandardizado. Por outro, vai documentando a resiliência de Eve e a busca de uma individualidade que a distinga de mais uma peça na engrenagem, seja a retoma dos estudos ou a (re)descoberta dos prazeres do sexo e sobretudo da leitura, esta uma via de afirmação e escapismo encoraja pelo professor. O final, em aberto, também rompe com essa atmosfera sufocante, sem propor soluções fáceis nem cair no derrotismo. E deixa Lila Avilés na lista de novas cineastas a seguir com atenção, numa altura em que já prepara o segundo filme, de contornos autobiográficos.

3,5/5

Anos 80 bem sofridos

Se por um lado cada vez mais blockbusters têm sido adiados, por outro não tem faltado cinema de autor nas salas. Os novos filmes de Sean Durkin e François Ozon são dos melhores exemplos da recta final de 2020 e, curiosamente, ambos olham para relações amorosas conturbadas na década de 80 (de formas bem distintas, embora nenhum passe sem os Cure na banda sonora). 

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"O NINHO", de Sean Durkin: A espera valeu a pena. Quase dez anos depois de "Martha Marcy May Marlene" (2011), uma das revelações do novo cinema independente norte-americano volta a trocar as voltas ao espectador numa segunda obra que cruza géneros e referências sem nunca se perder pelo caminho. Drama familiar ocasionalmente contaminado pelos códigos de algum cinema de terror (vertente mansão assombrada) e com as mudanças económicas dos anos 80 como pano de fundo, este é um retrato singular de um casamento e um belo exemplo de cinema de câmara.

Durkin confirma-se um esteta apurado ao tirar partido da direcção de fotografia de Mátyás Erdély ("O Filho de Saul") e de uma realização que dá (literalmente) espaço aos actores. E que actores! Jude Law, na pele de um yuppie persuasivo e deslumbrado com a ascensão financeira (tão súbita quanto frágil), deixa uma entrega evidente, mas a grande surpresa é Carrie Coon, mulher sob a influência das ambições do marido mas decidida a encontrar - aos poucos, e com uma garra em crescendo - o seu próprio caminho.

A actriz, mais conhecida por papéis televisivos (em séries como "The Leftovers" ou "Fargo"), tem a seu favor uma longa experiência teatral, que Durkin sabe valorizar num filme cuja rodagem, como assinalou a norte-americana em entrevistas, não andou longe de algumas experiências de palco. E se o olhar sobre os filhos da dupla talvez pudesse ser mais demorado (até porque Oona Roche e Charlie Shotwell são promessas a ter debaixo de olho), o foco no afastamento (e reaproximação?) conjugal é dos mais personalizados que têm surgido nos últimos tempos - e tão enigmático como humanista enquanto vai sugerindo que a fronteira entre o amor e o terror psicológico pode ser ténue.

4/5

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"VERÃO DE 85", de François Ozon: O realizador de "Dentro de Casa" ou" Swimming Pool" revisita os anos 80 ao adaptar um livro que leu nessa década: "Dance on My Grave", do britânico Aidan Chambers, que marcou a sua entrada na idade adulta pela abordagem franca e directa à homossexualidade. O sonho de levar essa história ao grande ecrã já vem desde aí, mas acabou por ser consecutivamente adiado enquanto Ozon foi criando uma das filmografias mais prolíficas e versáteis do cinema francês contemporâneo. O atraso leva a que "Verão de 85" já tenha suscitado comparações a "Chama-me Pelo Teu Nome", embora a sua matriz, lá está, já venha de trás.

Há, sim, alguns pontos de contacto com o filme de Luca Guadagnino nesta história sobre o arrebatamento e, sobretudo, as dores de um primeiro amor entre dois rapazes descoberto em época estival, com a viagem iniciática a conduzir à rejeição e ao luto. Mas na verdade esse não é território exclusivo de nenhum dos dois filmes, e este relato boy meets boy teria certamente surpreendido mais se estreado há 30 anos. O que não quer dizer que não seja muito bem-vindo hoje, até por representar um regresso em forma de um cineasta abaixo do seu melhor nos últimos tempos, retomando aqui o território mais aliciante de "Frantz", ainda que num registo menos sóbrio e complexo. Não que procure grande sobriedade, pelo contrário: faz questão de sublinhar excessos melodramáticos, flirts ao kitsch incluídos (Rod Stewart é chamado à banda sonora, e mais de uma vez), à medida do narcisismo e da lógica de tudo ou nada que vinca os seus protagonistas (Félix Lefebvre e Benjamin Voisin, uma dupla que faz faísca).

Filmado no formato 16mm, tem na fotografia granulada uma das alavancas para situar a acção na época associada a todos os excessos, mas a aura hedonista convive com heranças do thriller, ou não fosse "Verão de 85" também um mistério em torno de uma tragédia anunciada logo aos primeiros minutos. A vertente policial traz um lado metaficcional que não se mostra tão frutífero como noutros filmes de Ozon, e a personagem do professor interpretado por Melvil Poupaud (habitué do realizador) fica algo perdida nesse cruzamento (Valeria Bruni Tedeschi, outra secundária de luxo, tem material dramático mais interessante, mesmo que subexplorado). Mas apesar do embrulho garrido e juvenil, há por aqui mais gravidade e intensidade do que o exercício de estilo inconsequente de "O Amante Duplo" (2017) e o trabalho tão aplicado como anónimo de "Graças a Deus" (2018), antecessores mais imediatos e com um realizador longe do seu melhor.

3,5/5