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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Começar de novo, entre a ficção e a realidade

A tentativa de recomeço dá o mote a duas das apostas seguras do QUEER LISBOA 25, a decorrer no Cinema São Jorge e na Cinemateca de Lisboa. Uma na ficção, outra no documentário, ambas revelações do Festival Internacional de Cinema Queer.

La Nave del Olvido.jpg

"LA NAVE DEL OLVIDO", de Nicol Ruiz: Vale a pena espreitar esta primeira longa-metragem de uma nova realizadora chilena só pela interpretação principal, certamente uma das mais memoráveis do Queer Lisboa deste ano. Mas além do desempenho comovente e sempre credível da veterana Rosa Ramírez, este estudo de personagem tem vários atributos que marcam uma autora a seguir.

Olhar sobre uma viúva de meia-idade que inicia, relutantemente, uma jornada de auto-descoberta numa fase em que tudo já parecia estar decidido e acomodado, é um drama que mergulha com empatia e perspicácia em questões de identidade, liberdade ou autonomia sem que esses temas se imponham ao retrato de uma mulher de corpo inteiro. Ramírez é muito boa a traduzir a dignidade e a solidão da protagonista face a uma comunidade (do interior do Chile) na qual não se enquadra e uma filha que não a compreende, mas o filme brilha especialmente quando a atira para pequenas transgressões às normas conservadoras vigentes com um entusiasmo juvenil contagiante.

A cumplicidade com uma nova vizinha, que acaba por incitar a vontade de mudança, e o encontro com um refúgio LGBTQIA+ ajudam a compor um relato envolvente que Ruiz trabalha com apuro visual (do quotidiano pardacento dos primeiros dias de luto às possibilidades de escape em tom quase onírico que surgem neste caminho). Pelo meio há toques de ficção científica (com ovnis à mistura) a sublinhar que esta é uma história sobre a diferença e o preconceito, que talvez estejam aqui a mais embora também não cortem, no essencial, o impacto de uma bela e calorosa revelação.

3,5/5

Silent Voice.jpg

"SILENT VOICE", de Reka Valerik: Depois de "Welcome to Chechnya", de David France, (que passou no Queer Lisboa no ano passado) ter feito a denúncia da perseguição à comunidade LGBTQIA+ numa república conhecida internacionalmente pela intolerância, este novo olhar documental vem mostrar que não faltam, infelizmente, mais histórias traumáticas nascidas na Chechénia... nem formas personalizadas de as contar.

Neste caso, o/a realizador/a optou pelo anonimato, por questões de segurança, assinando com um pseudónimo, ao acompanhar os primeiros tempos de Khavaj, um jovem checheno que fugiu para a Bélgica após a descoberta da sua homossexualidade pela família o ter colocado em risco de vida. Mas a mãe continua a tentar contactá-lo, como dão conta as muitas mensagens de voz responsáveis por boa parte do peso dramático de um filme imersivo e sensorial. A câmara nunca foca o rosto do protagonista, mas encontra formas criativas de o seguir, jogando com espelhos embaciados ou ângulos de janelas, a linguagem corporal ou o som da respiração, num modelo que conjuga intimismo e distanciamento, conforto e confronto.

O filme nem pode recorrer às palavras de Khavaj, que ficou sem conseguir falar depois do trauma e tenta um processo de recuperação. E se isso contribui para que o resultado seja algo opaco em alguns momentos, também mostra um/a realizador/a que entende que menos pode ser mais. Incluindo na duração, que opta pelo formato ainda pouco habitual de média-metragem (51 minutos), evitando alongar-se e tornar a intensidade de uma abordagem minimalista numa limitação. Fica um retrato forte e um objecto singular, às vezes a trazer à memória o também idiossincrático (ainda que tematicamente bem distinto) "Boy Eating the Bird’s Food", do grego Ektoras Lygizos, exibido no Queer Lisboa há uns anos.

3/5

Aviso: estes filmes não são neutros

"A indiferença mata", diz-se a certa altura em "COLECTIV - UM CASO DE CORRUPÇÃO". Mas esse também podia ser o mote de "O HOMEM QUE VENDEU A SUA PELE" e "QUO VADIS, AIDA?", outros filmes em cartaz nomeados ao Óscar de Melhor Filme Internacional este ano. E se não ganharam, não foi por falta de méritos cinematográficos...

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"COLECTIV - UM CASO DE CORRUPÇÃO", de Alexander Nanau: Embora seja um documentário, esta nova sensação do cinema romeno está em linha com muita ficção conterrânea que tem sido aplaudida fora de portas nos últimos anos (pelo menos desde "A Morte do Senhor Lazarescu", de Cristi Puiu, estreado em 2005). Também aqui se coloca a nu o caos institucional e a falência de um sistema político, neste caso a partir de um incêndio durante um concerto de rock em Bucareste, em 2015, que resultou em tragédia não só na noite do evento, mas ainda nas semanas que se seguiram quando as mortes de dezenas de sobreviventes hospitalizados se revelaram consequência de uma terrível fraude na saúde - e cujos contornos são daqueles em que a realidade ultrapassa a ficção mais extremada.

Alexander Nanau, realizador já habituado ao formato documental, acompanhou a investigação de um jornal desportivo que insistiu em jogar fora de casa e tentou apurar responsabilidades. E se isso leva a que, na primeira metade, este se perfile como um filme de denúncia puro e duro, o cenário torna-se mais ambíguo quando o ângulo se vira para um ministro da Saúde recém-chegado e bem-intencionado, mas incapaz de quebrar um círculo vicioso - por muito que pareça tentar. Entre o idealismo e a angústia, fica um retrato urgente, esclarecedor e íntegro, mesmo que dispare demasiada informação em algumas sequências e pudesse parar mais vezes para respirar - como nos momentos em que segue uma das sobreviventes do incêndio que conseguiu reinventar-se, as cenas mais poéticas de um olhar obstinadamente seco e realista.

3,5/5

O Homem que Vendeu a Sua Pele.jpg

"O HOMEM QUE VENDEU A SUA PELE", de Kaouther Ben Hania: Segunda longa-metragem de uma realizadora tunisina que também passou pelas curtas e pelo documentário, esta combinação inusitada de drama e comédia é daqueles filmes que parecem estar sempre em vias de descarrilar, mas que lá acabam por nunca chegar a sair dos eixos. E ao consegui-lo, torna-se uma das estreias mais surpreendentes dos últimos meses, acompanhando a jornada de um refugiado sírio que aceita tatuar uma obra artística nas costas, através de um acordo com um veneradíssimo (embora polémico) autor de vanguarda, para poder circular livremente pela Europa.

"O HOMEM QUE VENDEU A SUA PELE" compensa em imaginação, atrevimento, sentido lúdico e energia visual o que perde em subtileza na forma como olha para os vícios do capitalismo, o desrespeito pelos direitos humanos ou o circuito da arte contemporânea, numa proposta que não anda longe da ironia de "O Quadrado", do sueco Ruben Östlund, nem do desespero do "Sinónimos", do israelita Nadav Lapid. Mas acaba por ser um filme mais estimulante do que esses ao também se sair muito bem na história de amor que motiva a fuga do protagonista.

Yahya Mahayni, intenso e magnético, e Dea Liane, com uma vulnerabilidade palpável, são grandes revelações num casal em que facilmente se acredita e que não é traído por um retrato que assume o tom de fábula humanista - embora ameace render-se ao niilismo e à misantropia a certa altura. E a dupla também não é ofuscada por Monica Bellucci, correcta num pequeno papel e com um regresso que se saúda. Se a sua presença ajudar a dar mais atenções ao filme, tanto melhor. Até porque Kaouther Ben Hania nunca se perde na alternância de registos, do thriller à sátira, enquanto revela uma voz própria numa co-produção tunisina, francesa, belga, alemã, sueca e turca inspirada na história verídica do artista belga Wim Delvoye (e adaptada com uma liberdade criativa considerável e contagiante).

4/5

Quo_vadis__Aida.jpg

"QUO VADIS, AIDA?", de Jasmila Zbanic: A realizadora de "Filha da Guerra" (2006) regressou aos conflitos dos Balcãs num drama que não quer deixar esquecer o massacre de Srebrenica, que em Julho de 1995 vitimou mais de 8300 bósnios muçulmanos. Aida Selmanagić, professora bósnia que trabalha como tradutora para a ONU, percebe que não é capaz de impedir o genocídio mas está decidida a salvar pelo menos a família, e assim atravessa um dia tortuoso durante o qual decorre grande parte da acção do filme.

Ao focar-se na experiência desta "mãe-coragem", Zbanic consegue dar a ver um dilema individual dentro de uma catástrofe colectiva e começa por acertar no casting: Jasna Djuricic é brilhante ao traduzir a determinação, o medo e a desenvoltura da protagonista, motor emocional e narrativo de um filme que provavelmente ganharia ainda mais força caso se demorasse em alguns secundários (sobretudo nos filhos de Aida). Em todo o caso, a aliança entre a cineasta bósnia e a actriz veterana torna este um retrato suficientemente singular e sentido, com um enorme respeito tanto pelas vítimas como pelo espectador ao escolher sugerir e não mostrar os horrores perpetrados pelo exército sérvio - liderado pelo general Ratko Mladic, sob o olhar "neutro" da ONU no local.

Da reconstituição da época ao afinco de todo o elenco, passando pelo nervo da câmara, Selmanagić dá provas de um efeito realista assinalável e equilibra a abordagem a um dos capítulos mais nefastos da história recente da Europa com um estudo de personagem que justifica a aposta na ficção. E depois do pesadelo da guerra, o epílogo, alicerçado na solidão e dignidade da protagonista, não é menos desconcertante...

3,5/5

Ensaio sobre a surdez

Merecia estreia nas salas de cinema, mas acabou por chegar a Portugal apenas através do pequeno ecrã, há poucas semanas. "SOUND OF METAL", de Darius Marder, está disponível no Amazon Prime Video e é muito bem defendido por um Riz Ahmed em estado de graça.

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Como lidar com a perda da audição? É esse o ponto de partida de um estudo de personagem centrado num baterista que deixa de conseguir ouvir de forma repentina, caindo numa espiral descendente à medida que a sua rotina sofre danos irreparáveis.

Mas mais do que o embate com a surdez, esta estreia na ficção de um realizador vindo dos documentários também deixa um olhar sobre a dependência, seja emocional (nascida de um relacionamento amoroso), de um estilo de vida (marcado pela adrenalina de concertos de um rock agreste, a caminho do noise) ou das drogas (com o vício da heroína a vincar o passado do protagonista).

Capaz de um retrato complexo da figura na qual se centra, "SOUND OF METAL" afasta-se dos moldes hollywoodescos de dramas sobre a superação da adversidade, com um conflito interior que nunca é rastilho para episódios histriónicos nem de mensagem inspiradora formatada: um bom exemplo de sensibilidade da escrita a cargo do realizador, do irmão, Abraham Marder, e de Derek Cianfrance. Este último, autor de "Como um Trovão", co-escrito por Darius Marder, chegou a desenvolver um projecto com alguns contornos semelhantes, também centrado na dinâmica de um casal/banda (os Jucifer) mas em traços documentais, no abandonado "Metalhead".

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Neste drama, no entanto, a música vai dando lugar ao ruído de um design sonoro brilhante (a cargo de Nicolas Becker, que trabalhou em "Gravidade" ou "Primeiro Encontro"), ao aproximar o espectador da nova condição do protagonista, sujeitando-o à overdose de feedback e dissonâncias mundanas, opção que torna mais imersivo um filme já de si magnético pelo actor que o carrega.

Riz Ahmed, tão contido como intenso, mantém-se a milhas do overacting num papel que poderia facilmente escorregar para esse registo, sem deixar de traduzir a exasperação de alguém que se encontra num cenário incapaz de controlar e ao qual não quer adaptar-se.

É um dos grandes desempenhos do ano, a sublinhar o talento de um actor pouco favorecido nos seus filmes mais populares ("Venom", "Rogue One: Uma História de Star Wars") mas aqui valorizado por um realizador promissor, atento aos seus olhares e gestos - e não só porque um argumento que parte da surdez o pede.

3,5/5

O que é que se passa naquela casa?

"A MALDIÇÃO DE BLY MANOR" prova que mansões misteriosas ainda podem ser território fértil para o universo do terror, pelo menos quando são tão bem ocupadas (e filmadas) como esta aposta da Netflix, uma das melhores do serviço de streaming.

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A segunda temporada da saga de antologia "The Haunting" confirma que Mike Flanagan é (mesmo) um nome a ter em conta no terror actual, embora alguns dos seus filmes tenham ficado aquém do que tem conseguido nesta série (caso de "Jogo Perigoso", também disponível na Netflix, elevado por uma óptima Carla Gugino, ou "Doutor Sono", sequela de "The Shining" geralmente acolhida com indiferença).

A sucessora da muito recomendável "A Maldição de Hill House" (2018) adapta mais uma vez um clássico literário do género - desta vez foi "A Outra Volta do Parafuso" (1898), de Henry James - de forma livre e com heranças de outras obras do autor, mantendo parte do elenco da primeira época numa história sem ligações ao que ficou para trás - e agora numa pequena localidade britânica. Mas volta a ter como cenário uma mansão aparentemente assombrada e palco de um relato amoroso e familiar mais comovente do que assustador, o que está longe de ser uma limitação: poucas histórias de terror recentes foram capazes de construir personagens tão palpáveis como as deste drama de contornos góticos, cuidado que se estende a um elenco tão selecto nas novas caras como nas regressadas (destas últimas, Victoria Pedretti convence num papel com maior protagonismo e Oliver Jackson-Cohen destaca-se numa figura muito diferente da que encarnou antes).

Carla Gugino, mulher do showrunner e realizador, também regressa para uma participação mais curta mas determinante, iniciando e fechando uma trama elíptica e atmosférica que poderá não dar ao espectador aquilo de que está à espera (neste caso, uma vantagem). E se o balanço final fica um pouco abaixo do patamar de "A Maldição de Hill House" (o novelo narrativo é às vezes mais intrincado do que precisava; um episódio centrado no passado, a preto e branco, poderia ter sido resumido em algumas sequências; o desenlace algo brusco estranha-se antes de se ir entranhando), há aqui capítulos que cruzam o inquietante e o apaixonante com uma sensibilidade rara e sem parentes próximos na televisão actual... pelo menos até à próxima incursão de Flanagan numa casa assombrada.

3,5/5