Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Mulheres já muito além de um ataque de nervos

Três actrizes em estado de graça - Juliette Binoche e as estreantes Viktoria Miroshnichenko e Vasilisa Perelygina - protagonizam dois dos filmes em cartaz mais arriscados. E embora o balanço seja desigual, tanto "CLARA E CLAIRE" como "VIOLETA" oferecem retratos femininos que insistem em jogar com as suas próprias regras, para o melhor e para o pior.

Clara e Claire.jpg

"CLARA E CLAIRE", de Safy Nebbou: Juliette Binoche é o principal motivo para descobrir o novo filme de um realizador francês até aqui inédito nas salas portuguesas, ao deixar uma interpretação que sai incólume de um argumento que nem sempre está à sua altura.

Não começa mal, este drama que se vai encaminhando para o thriller psicológico à medida que Claire, uma professora universitária divorciada na casa dos 50, cria um perfil falso no Facebook para seguir a rotina do ex- namorado, alguns anos mais novo, iniciando assim uma relação virtual com o melhor amigo deste. Mas o desenvolvimento dessa cumplicidade à distância leva a que a trama se torne cada vez mais rocambolesca e inverosímil, com a crónica inicialmente justa e perspicaz da solidão e fragilidade emocional de uma mulher - incapaz de lidar com o envelhecimento, assumindo a identidade de uma mulher mais nova - a dar lugar a uma série reviravoltas desnecessárias e até algo desonestas para o espectador.

Resultado: embora a actriz principal se mantenha admirável na vulnerabilidade que emana, os secundários  são pouco mais do que marionetas e o filme parece indeciso quanto ao tom, entre sublinhados dramáticos (que a banda sonora não disfarça) e efeitos (meta)narrativos. E se o final, tão irónico como desconcertante, até salva parte do que está para trás, Binoche entregou-se a uma crise de meia-idade bem mais memorável no também relativamente recente "O Meu Belo Sol Interior", de Claire Denis, retrato intimista com uma desenvoltura e eloquência que Safy Nebbou só atinge a espaços.

2,5/5

Violeta.jpg

"VIOLETA", de Kantemir Balagov: A segunda longa-metragem de um dos nomes mais aplaudidos do novo cinema russo tem tido um percurso invejável em vários festivais internacionais - venceu o prémio Un Certain Regard, em Cannes, na categoria de realização, por exemplo - e é reveladora de uma maturidade rara para quem ainda não completou 30 anos.

Duro e austero, é um drama que recua até à Leningrado de 1945, pouco depois do fim da II Guerra Mundial, para mergulhar no quotidiano de duas mulheres, quase sempre nos corredores de um hospital militar. E é também um relato de desespero e privação, com o trauma do luto a ecoar no relacionamento e na postura das protagonistas, ainda que de formas distintas. Apesar de a guerra ter terminado, o cenário não é particularmente esperançoso e às vezes Balagov ameaça atirar-se de cabeça para o miserabilismo. Mas fica sempre a um passo do precipício, e ajuda que a dupla de jovens actrizes que acompanha (ambas brilhantes nos seus primeiros papéis) moldem personagens de corpo inteiro em vez de bandeiras de uma qualquer condição - de género ou classe social. O argumento, aliás, também demora a dizer ao que vem, e deixa o espectador tão desorientado como as personagens (no melhor sentido) ao não optar por territórios formatados. Aos poucos, no entanto, vai consolidando detalhes de uma história de "amour fou" com sinais muito particulares, enquanto permite compreender aquelas mulheres e o que as une numa atmosfera com um realismo à flor da pele.

A viagem talvez seja um tanto desenhada a traço grosso na recta final, embora não deixe de ser menos comovente e intensa. E estranhamente bela, muito por culpa da fotografia de Kseniya Sereda - com vermelhos, verdes ou amarelos torrados fulgurantes - e de uma recriação de época e direcção artística inatacáveis, sem que o olhar de Balagov fique limitado a um exercício de estilo ostensivo e formalista.

3,5/5

Qualidade em série(s) entre Itália, Brasil e Inglaterra

Não têm sido das séries mais celebradas nos balanços do ano, mas também são exemplo da qualidade e diversidade da ficção televisiva actual (que está longe de se restringir ao mercado norte-americano). "GOMORRA", "PICO DA NEBLINA" e "THE END OF THE F***ING WORLD", três sagas com estreias ou regressos a (re)descobrir:

Gomorra T4.jpg

"GOMORRA" (T4), HBO Portugal: A aposta da Sky Italia, a cargo de Roberto Saviano e inspirada no seu livro homónimo, tem sido uma série capaz de manter a coerência de temas e ambientes enquanto vai introduzindo novos protagonistas e tramas. A quarta temporada não perde fulgor nem intensidade enquanto segue o projecto mais ambicioso de Gennaro Savastano, a única personagem que se manteve desde os primeiros episódios da saga, e os desafios de Patrizia Santore como sua sucessora na liderança da Camorra napolitana. Tal como as épocas anteriores, esta é implacável em relação ao destino muitas vezes trágico das figuras que acompanha, independentemente da sua relevância na história, tanto que o final de alguns episódios acaba por ser previsível q.b. ao deixar mais um cadáver pelo caminho. Mas mesmo com essa limitação narrativa, o mergulho sem concessões neste submundo está entre as experiências mais empolgantes do ano no pequeno ecrã, com o cruzamento de luxo e decadência urbana a deixar cenários visualmente arrebatadores enquanto a realização (de Francesca Comencini ou Claudio Cupellini) impressiona pelo realismo cortante (auxiliado por um elenco mais uma vez sem falhas). Juntamente com "O Traidor", de Marco Bellocchio, está aqui o retrato da máfia surgido nos últimos tempos a não perder - e com a combinação de tensão, urgência, estudo de personagens e agilidade formal que faltou a "O Irlandês", de Martin Scorsese.

4/5

Pico da Neblina.jpg

"PICO DA NEBLINA" (T1), HBO Portugal: Série do ano? Ou, pelo menos, uma das grandes surpresas? A primeira temporada do drama de Quico Meirelles - que tem o pai, Fernando "Cidade de Deus" Meirelles, na produção e realização de alguns episódios - é certamente das mais subestimadas, desde logo pela própria HBO, que não parece ter reparado muito no que tinha em mãos (e preferiu insistir na promoção de sagas como "Mundos Paralelos"). É pena, porque estes dez episódios confirmam a óptima impressão deixada pelo piloto enquanto apresentam um Brasil alternativo no qual a cannabis foi legalizada. A partir da experiência de um pequeno traficante, "PICO DA NEBLINA" finta lugares comuns de histórias de narcotráfico e propõe um dos olhares mais inspirados sobre um país assente em clivagens sociais extremas, sem no entanto tornar as suas personagens em bandeira da sua condição (e aí mostra como se faz a algum cinema, incluindo o de autor, como o muito falado e muito frustrante "Bacurau", seu conterrâneo). O humor, nunca forçado, surge como trunfo essencial numa narrativa por vezes agreste mas que nunca escorrega para o miserabilismo, mantendo uma energia e frescura contagiantes. E Biriba, o protagonista que atravessa aqui um período de inquietação pessoal, familiar, laboral e moral, é das figuras mais memoráveis deste ano televisivo,  para a qual contribui a entrega do excelente Luis Navarro - apenas um dos nomes em destaque de um grande elenco de actores profissionais e amadores. Venha a segunda temporada, que personagens como esta merecem mais.

4/5

The End of the Fucking World.jpeg

"THE END OF THE F***ING WORLD" (T2), Netflix: Uma das propostas mais convidativas para binge-watching do momento continua a história trágico-cómica de dois adolescentes britânicos, numa temporada de episódios curtos (alguns não chegam aos 20 minutos de duração) que quase podem ser vistos como um filme. E esta é uma boa sequela de uma história nascida numa BD de Charles Forsman, que terminava de forma especialmente climática (tal como a primeira temporada) e que ganha agora outro fôlego no pequeno ecrã. Alguns fãs estavam cépticos quanto a uma continuação, mas tal como em "Watchmen", também este ano (igualmente baseada numa graphic novel de culto), o risco compensou. Charlie Covell, que se tinha destacado sobretudo como actriz até aqui, volta a mostrar-se uma showrunner estimável ao conceder sensibilidade a uma jornada que poderia cair no exercício de estilo cínico ou angustiado. Não falta humor negro, é certo, mas também se sente um coração a bater, sobretudo com a entrada em cena de Bonnie, uma nova co-protagonista com mais um percurso vincado pelo trauma e inadaptação. E Naomi Ackie, nesse papel, deixa um desempenho que não fica a dever nada aos de Alex Lawther e Jessica Barden, decisivos para que este retrato da entrada na idade adulta seja convincente e comovente. 

3,5/5

Duas separações para ver em streaming

Apesar de "O Irlandês", de Martin Scorsese, ter dominado boa parte das atenções, há mais estreias cinematográficas recentes a ter em conta na Netflix. "ATLANTIQUE" e "MARRIAGE STORY" são duas das que bem mereciam uma sala de cinema - e partem ambas de histórias de casais desencontrados, embora as semelhanças acabem aí.

Atlantique.jpg

"ATLANTIQUE", de Mati Diop: O vencedor do Grande Prémio do Júri em Cannes este ano chega a Portugal com uma estreia discreta em streaming, mas é uma bela surpresa a merecer atenção no meio do ruído nas salas ou nas plataformas online. Filme de várias camadas e géneros, arranca como drama de realismo social antes de se ir movendo para outros territórios, do thriller a domínios sobrenaturais, sem perder de vista uma história de amor adolescente assombrada pelas clivagens económicas e os riscos da imigração clandestina - no caso, de Dakar rumo a Espanha. A realizadora, francesa de ascendência senegalesa (e que participou como actriz em filmes de Antonio Campos ou Claire Denis), retoma o retrato da sua primeira curta-metragem, "Atlantiques" (2009), e a vertente documental desse trabalho inicial tem reflexo numa atmosfera que vai cedendo espaço ao místico. Embora revele algumas fragilidades, compreensíveis numa estreia nas longas (das hesitações de ritmo ao lirismo ingénuo de algumas narrações em off ou diálogos), Diop lança ideias mais do que suficientes para que a acompanhemos, partindo de cenários reconhecíveis para deixar um imaginário intrigante e bem consolidado no final. E pelo caminho, desenha uma das histórias de emancipação feminina mais imaginativas e sensíveis do ano.

3/5

Marriage Story.jpg

"MARRIAGE STORY", de Noam Baumbach: Depois de uma série de títulos pouco memoráveis, o autor de "A Lula e a Baleia" (2005) dá finalmente razão a quem o apontava como um dos nomes do cinema independente norte-americano a não perder de vista quando esse filme-revelação estreou. E até o faz com outro drama familiar mais uma vez centrado num divórcio, ainda que agora o foco narrativo esteja sobretudo nos pais - por muito que o filho seja o motor de algumas das viragens mais agrestes. Mesmo nas suas obras menos conseguidas, Baumbach nunca tinha deixado de ser um director de actores criterioso e desta vez oferece papéis especialmente suculentos a Adam Driver e Scarlett Johansson, protagonistas de uma história desencantada de cumplicidade e rivalidade. A entrega da dupla é inegável, e faz muito por um retrato de uma crise já muito explorada (de Ingmar Bergman Woody Allen, influências assumidas), mas Laura Dern, Alan Alda e Ray Liotta também têm espaço para brilhar num "filme de actores" no qual o realizador não é presença indiferente (da gestão do espaço meticulosa em muitas cenas de interiores ao tom cómico ou dramático, reconfortante ou cortante). Sem cair num cinismo calculista nem num relato de comoção fácil, e dando aos dois elementos do casal a complexidade que merecem (não forçando a espectador a tomar partido) Baumbach consegue um dos seus filmes mais maduros (e aplaudidos), mesmo que neste departamento "Uma Separação", de Asghar Farhadi, ainda se mantenha como a obra de referência dos últimos anos.

3,5/5

Até ao fim do mundo

São dois dos filmes mais desalinhados do final de 2019, ambos centrados em situações-limite num mundo em colapso - um justifica seguir um actor norte-americano atrás das câmaras, o outro é uma das coqueluches do cinema islandês recente. Vale a pena espreitar "LUZ DA MINHA VIDA" e "MULHER EM GUERRA".

Light of My Life.jpg

"LUZ DA MINHA VIDA", de Casey Affleck: Se há filmes em que o trailer acaba por revelar demasiado, este é claramente um deles. Por isso o melhor é entrar na segunda longa-metragem assinada por Casey Affleck (depois de "I'm Still Here", de 2010) sem passar por essas imagens e, já agora, sem saber muito do que a história reserva. Não é que este drama ancorado na jornada pós-apocalíptica de um pai e de uma filha seja uma montanha-russa de reviravoltas, antes pelo contrário: é tão contido que o factor surpresa de alguns momentos-chave não merece ser revelado de antemão.

Affleck, que preparou o projecto durante quase dez anos, descreve-o como particularmente pessoal, inspirado na forma como acompanhou o crescimento dos filhos, e esse lado emocional palpável é o maior trunfo de um filme que, no papel, não anda longe de outros exemplos de ficção científica distópica (com "A Estrada" a figurar entre os exemplos mais comparáveis). O realizador, que assume ainda o papel protagonista (num dos seus desempenhos mais fortes, o que não é dizer pouco) e se encarregou do argumento e produção, impõe um ritmo pausado e nunca perde o foco da relação entre a sua personagem e a filha, interpretada com uma maturidade surpreendente por Anna Pniowsky (jovem actriz cujo breve percurso até aqui foi sobretudo televisivo).

Affleck também não teme alongar-se em cenas assentes em diálogos entre a dupla, às vezes com planos fixos (logo desde o arranque, aliás), e se é legítimo acusá-lo de alguma redundância, também é difícil negar a singularidade do seu olhar. Até porque este "labour of love" recusa rodriguinhos fáceis e é bastante seco e certeiro nas cenas de suspense, igualmente filmadas sem espalhafato e ajudando a manter o realismo de uma trama com ingredientes de ficção científica.

A direcção de fotografia de Adam Arkapaw e a banda sonora de Daniel Hart ajudam a desenhar essa atmosfera intimista e envolvente, mesmo que "LUZ DA MINHA VIDA" não seja capaz de se manter uma experiência urgente ao longo de duas horas - em especial quando o espectador fica a par de todo o contexto e entregue a uma narrativa mais familiar. Apesar de ter tido uma passagem fugaz pelas salas, é das estreias de 2019 a guardar.

3/5

Mulher em Guerra.jpg

"MULHER EM GUERRA", de Benedikt Erlingsson: É das estreias mais discretas da semana, mas muito provavelmente a mais imaginativa. Combinação delirante de géneros, a segunda longa-metragem do autor de "Of Horses and Men" (de 2013, que não chegou ao circuito comercial português) tem sido louvada, em parte, pela chamada de atenção que deixa sobre um planeta à beira da catástrofe ambiental - apelo que terá ajudado para contar com o Prémio Lux de Cinema do Parlamento Europeu entre as várias distinções internacionais.

Mas o realizador islandês não se fica aqui por um mero filme de "tema" com sentido de oportunidade, por muito que as preocupações ecológicas também sejam o mote narrativo. Ao ir seguindo a protagonista, uma activista de meia-idade que tenta demover o avanço da indústria de alumínio e traça um plano de sabotagem nos arredores de Reiquiavique, Erlingsson está mais preocupado em desenvolver um estudo de personagem tão inconformista como as acções de guerrilha da sua heroína. E oferece uma comédia dramática com viragens para o thriller ou para um exercício meticuloso de suspense, com um balanço arriscado mas conseguido de sensibilidade e ironia, mergulhando no que inquieta e faz mover esta "mulher em guerra" sem subscrever necessariamente a sua ideologia e métodos.

A banda sonora está entre os elementos mais idiossincráticos de um filme com um gosto óbvio pelo baralhar de coordenadas (que contagia facilmente o espectador), ao ser interpretada no decorrer da acção por uma banda de três instrumentistas e um coro feminino ucraniano. Ao quebrar a quarta parede com estas participações especiais, Erlingsson injecta mais uma dose (controlada) de absurdo a uma história que poderia escorregar para o manifesto bem-intencionado mas sisudo. Em vez disso, molda um filme tão expedito como a protagonista, entregue a uma fuga em frente imparável, com Halldóra Geirharðsdóttir a revelar-se brilhante num papel com uma exigência física e emocional invulgar.

A gestão habilidosa do humor também permite que algumas sequências, sobretudo no terceiro acto, não resvalem para a inverosimilhança, que seria uma ameaça forte caso o filme se levasse demasiado a sério. E ainda possibilita uma das sequências mais hilariantes dos últimos tempos, quando a protagonista se cruza com um drone pelo caminho: é ver para crer, portanto.

3,5/5