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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quando o refúgio é a sala de cinema

Pioneiro a vários níveis, "FLEE - A FUGA", do dinamarquês Jonas Poher Rasmussen, é um dos retratos mais singulares dos dramas dos refugiados, adaptando uma história verídica numa mistura de documentário e animação. Um caso em que, felizmente, o aplauso internacional efusivo não se deve só às boas intenções.

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Um dos melhores filmes na corrida aos Óscares deste ano, o relato da jornada de um afegão homossexual que fugiu do seu país para a Dinamarca foi nomeado em três categorias: Melhor Longa-Metragem Animada, Filme Internacional e Documentário de Longa-Metragem, feito até aqui inédito. E destacou-se ainda como o primeiro documentário candidato ao Óscar de Animação e a primeira animação ao de Documentário.

Mesmo que não tenha arrecadado nenhuma estatueta dourada, essa foi a distinção mais sonante de um dos filmes-sensação dos últimos tempos, estatuto comprovado pelas dezenas de nomeações e vitórias em festivais internacionais (nos triunfos, contam-se prémios em Annecy ou Sundance).

O aplauso é compreensível quando não faltam qualidades a este retrato íntimo e ocasionalmente épico, que acompanha Amin, um amigo do realizador (o nome da personagem é fictício para proteger a identidade do homem na qual se baseia) que partilha na primeira pessoa memórias com tanto de traumático como de mirabolante - ilustradas por uma conjugação sugestiva de animação tradicional e digital e imagens de arquivo.

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"FLEE - A FUGA" é daqueles casos em que a realidade parece superar a ficção, tendo em conta as situações-limite que marcaram a história do protagonista e da sua família entre os dias pacatos em Cabul, a mudança para o domínio dos talibãs na capital afegã e fases conturbadas na antiga União Soviética, na Estónia e na Suécia, com um quotidiano sujeito à corrupção policial de Moscovo ou à incerteza de acordos com traficantes humanos.

Se esta sequência de acontecimentos poderá levar a pensar que o filme é uma acumulação de desgraças, como outros baseados nos dramas dos migrantes (veja-se o medíocre "Europa", de Haider Rashid, concentrado de miserabilismo que ainda assim ganhou o prémio do júri da mais recente edição da Festa do Cinema Italiano), Rasmussen vale-se de um sentido de humor certeiro para equilibrar estas duas horas que percorrem cerca de 20 anos de memórias.

As cenas da descoberta da homossexualidade de Amin e da forma como o protagonista lida com ela, se por um lado são vincadas por alguma angústia, também resultam em alguns dos momentos mais contagiantes, da devoção peculiar a Jean-Claude Van Damme, herói da infância, à cumplicidade com um companheiro de fuga na adolescência e à descoberta da vida nocturna, esta última uma das sequências mais emotivas do filme e com "Veridis Quo", dos Daft Punk, como banda sonora perfeita. A música pop contribui substancialmente, aliás, para o retrato de época vívido que marca a acção, com clássicos dos A-ha ou Roxette a darem cor a outras cenas-chave.

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O optimismo que se impõe em episódios como esses equilibra o tormento psicológico do qual o protagonista tenta libertar-se ao confrontar o seu passado, compensando também o esquematismo de alguns segmentos em camiões e no alto mar, assim como da atenção limitada que o realizador dedica à vida conjugal de Amin - se a sua mãe e irmãos conseguem ter presença enquanto personagens, o namorado acaba algo esquecido pelo argumento.

O resultado é um estudo de personagem suficientemente denso e complexo feito através de uma animação para adultos cuja denúncia da opressão em realidades árabes terá parentes próximos em "A Valsa com Bashir", de Ari Folman, "Persépolis", de Marjane Satrapi, ou "A Ganha-Pão", de Nora Twomey, pistas para a descoberta de um filme sobre a construção de uma identidade traduzida com especificidade.

3,5/5

O realismo britânico está bem e recomenda-se

A tradição realista britânica ainda é território fértil e tem em "DEPOIS DO AMOR" e "SEMPRE PERTO DE TI" dois representantes meritórios: o primeiro destaca-se entre os filmes em cartaz, o segundo teve direito a antestreia na Festa do Cinema Italiano.

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"DEPOIS DO AMOR", de Aleem Khan: Seguríssima estreia nas longas-metragens de um realizador que já contava com algumas curtas aplaudidas, este drama de câmara vem colocar o anglo-paquistanês na lista de nomes da nova geração britânica a acompanhar com atenção.

O que acontece quando uma mulher descobre que o marido, recentemente falecido, mantinha outro relacionamento (aliás, outra família)? Se a premissa soa telenovelesca, Khan vai tecendo uma narrativa paciente e quase sempre implosiva logo desde a notável primeira cena (um grande exemplo da lógica menos é mais, a partir de um recurso certeiro ao plano fixo).

Joanna Scanlan, premiada com um BAFTA pelo seu desempenho, tem sido habitualmente associada à comédia, muitas vezes em papéis secundários, mas revela-se uma actriz dramática de corpo inteiro - e a forma como a câmara capta o seu corpo está longe de ser um pormenor. "DEPOIS DO AMOR" dá tempo aos olhares, gestos e silêncios enquanto doseia ingredientes que tanto alimentam um suspense ancorado em segredos e mentiras como permitem explorar os dilemas e contradições das personagens sem nunca as julgar.

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Alexander Dynan, o director de fotografia (colaborador habitual de Paul Schrader nos últimos tempos), ajuda a dar uma energia visual singular às viagens recorrentes entre Dover (Inglaterra) e Calais (França), através do Canal da Mancha, e também entre a comunidade paquistanesa britânica e a classe média francesa, num relato que vai diluindo fronteiras e ilusões, das pessoais às familiares e culturais.

Khan também mostra querer sair do formato realista mais conservador ao deixar pistas de thriller psicológico nas falhas que ameaçam montanhas ou tectos quando a protagonista está à beira de um ataque de nervos, entre outros acessos esteticamente inventivos e tematicamente oportunos. E embora não se desvie de uma ou outra limitação de uma primeira obra pelo caminho - algumas cenas desafiam a plausibilidade, sobretudo num último acto que rompe com a contenção mantida até aí -, esta é uma estreia mais do que recomendável (e muitas vezes admirável).

3,5/5

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"SEMPRE PERTO DE TI", de Uberto Pasolini: Uma das antestreias e certamente um dos melhores filmes da Festa do Cinema Italiano, a decorrer este mês, esta coprodução britânica, italiana e romena é uma pérola capaz de comover e surpreender sem nunca resvalar para a manipulação emocional, o miserabilismo crónico ou o relato inspirador de triunfo sobre a adversidade. E essas eram armadilhas bem tentadoras numa história que acompanha um pai com uma doença terminal (James Norton, brilhante) que procura, com a ajuda dos serviços sociais irlandeses, uma família que acolha o filho de quatro anos (Daniel Lamont, uma das crianças mais autênticas dos ecrãs em muito tempo).

O facto de o protagonista ter um emprego precário, de a mãe ter abandonado o filho e de não haver outros familiares por perto atira ainda mais este drama ambientado em Belfast para uma situação-limite - e, de certa, forma, faz dele uma espécie de negativo de "Listen", de Ana Rocha de Sousa, no qual um casal empobrecido fazia tudo para não se afastar dos filhos. Mas cada cena, cada plano e cada interação revelam um humanismo e integridade difíceis de equilibrar, embora Pasolini mantenha essa harmonia e aparente simplicidade sem esforço visível nesta sua terceira longa-metragem (sucessora de "Machan", de 2008, e "Still Life", de 2013).

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Se o apelido do realizador sugere uma certa herança, ela de facto confirma-se: o italiano não só é primo em segundo grau de Pier Paolo Pasolini como sobrinho de Luchino Visconti. E não envergonha nada os pergaminhos desses antecessores icónicos, mesmo que esteja mais alinhado com a escola do realismo britânico do que com os seus ensinamentos: "SEMPRE PERTO DE TI" é um belíssimo e simultaneamente angustiante testemunho sobre a infância, a família e a inevitabilidade da morte. A subtileza que Pasolini demonstra ao retratar a forma como o filho entende (e aceita?) a condição do pai é daqueles pequenos milagres de dramaturgia que a direcção de actores acompanha (e até eleva) e que a sobriedade da partitura instrumental de Andrew McAllister nunca trai. Agora é esperar que a estreia comercial por cá, prevista para 19 de Maio, tenha o abraço do público que merece...

4/5

Verdade ou mentira?

Em plena época alta dos Óscares, não faltam filmes em cartaz que justificam tanta atenção como os distinguidos pela Academia. Ou até mais, como é o caso de "UM HERÓI", novo retrato imersivo e desafiante do iraniano Asghar Farhadi.

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Depois de "Todos Sabem" (2018), rodado fora de portas e com estrelas internacionais no elenco (Penélope Cruz, Javier Bardem), um dos nomes mais respeitados do cinema iraniano actual regressa a casa e assina o seu melhor filme desde o excelente "Uma Separação" (2011).

Co-produção franco-iraniana que arrecadou o Grande Prémio do Júri em Cannes, "UM HERÓI" é um drama que parte de um dispositivo que será familiar para quem acompanha Farhadi pelo menos desde "À Procura de Elly" (2009): uma acumulação de micro-acontecimentos onde cada detalhe conta, conjugada com um novelo de equívocos, segredos e mentiras integrado num olhar sobre a moral que nunca cai no moralismo.

Desta vez, tudo se passa a partir de um recluso em liberdade condicional que encontra uma mala com moedas de ouro que o poderá ajudar a pagar a dívida que o levou a ser preso... mas decide devolvê-la à (alegada) dona. O acto, à partida altruísta, é suficiente para promover este cidadão até aí anónimo a herói local, alavancado pela imprensa, televisão e redes sociais, embora talvez tudo não seja tão simples como os relatos mediáticos garantem.

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História de ascensão e queda movida pelo peso da verdade e integridade, "UM HERÓI" é tão imersivo e rocambolesco como o seu autor nos tem habituado, mas beneficia de um argumento mais robusto e de maior agilidade narrativa do que os seus filmes dos últimos anos. E fica como mais um testemunho de um cinema sempre compassivo, capaz de dar as ver as razões de uma rede considerável de personagens sem encaminhar o espectador para um sentido único e determinista.

Se por um lado essas características tornam "UM HERÓI" num objecto perfeitamente coerente nesta filmografia, às vezes também acusam uma familiaridade excessiva nos procedimentos, com um argumento muito bem carpinteirado a revelar-se talvez demasiado programático em algumas sequências.

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Mas esta jornada também atinge uma vibração emocional superlativa noutras cenas, amparadas por um elenco uniformemente brilhante (Farhadi nunca desilude como director de actores, diga-se) e à altura das camadas que o olhar do realizador vai desenvolvendo num drama com (inesperados) acessos de farsa.

Esse recurso mais frequente ao humor, a dar conta dos absurdos culturais, jurídicos, burocráticos ou mediáticos, acaba por ser um dos elementos mais distintivos desta nova crónica do iraniano. Outro é a brutalidade com que as crianças são atiradas para uma arena de adultos, experiência aqui ainda mais angustiante devido a uma situação privada que se torna pública.

"UM HERÓI" dá eco a esse dano colateral através do subenredo do filho do protagonista, que se revela a maior vítima de um sistema de verdades tão insistentemente propagadas como rapidamente desmentidas ou corrigidas. No final, talvez nem sobrem heróis, mas pelo menos também não há vilões óbvios num filme avesso a simplismos e categorizações fáceis.

3,5/5