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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Guerras em série, da família aos andróides

Ao acentuarem os conflitos, "OZARK", "HUMANS" e "FAUDA" foram dos melhores regressos televisivos do ano numa altura em que não faltam séries a não perder. Até agora, estas continuam a justificar toda a confiança...

 

Ozark T2

 

"OZARK" (T2): A primeira temporada do drama protagonizado por Jason Bateman e Laura Linney já era boa, mas a segunda vai mais longe ao tornar o quotidiano da família Byrde num lugar inóspito do interior dos EUA ainda mais turvo (com a fotografia sempre a acompanhar, ajudando a desenhar uma atmosfera própria e visualmente reconhecível). E se o argumento continua a partir de um casal aparentemente decente cujas atitudes se vão tornando, no mínimo, moralmente dúbias (o que ainda continua a render à série comparações a "Breaking Bad"),  os showrunners Bill Dubuque e Mark Williams ocupam este território com uma segurança reforçada, mérito de um argumento que evita caminhos óbvios e que mergulha no lado negro do sonho americano com uma visão lúcida e adulta, às vezes agonizante mas com espaço para algum humor, e sempre ancorada nas personagens - os protagonistas têm alguns dos melhores desempenhos do seu percurso, os secundários estão à altura com figuras de corpo inteiro e compõem um elenco inatacável. E ao aliar uma crise comunitária à crise de um casal, a aposta da Netflix vai deixando um retrato absorvente do poder do dinheiro e das zonas de sombra das relações humanas. Venha a próxima temporada...

 

4/5

 

Humans T3

 

"HUMANS" (T3): Outro exemplo de uma série que só tem vindo a melhorar, a co-produção do Channel 4 e do AMC tem sabido encontrar novos olhares sobre as possibilidades da inteligência artificial e à terceira foi mesmo de vez: está aqui, agora sem grandes dúvidas, uma das sagas de ficção científicas essenciais dos últimos anos - dentro ou fora do pequeno ecrã. Numa temporada menos dispersa do que as anteriores, e a assumir riscos cada vez maiores, a acção reforçou o fosso entre os humanos e os synths (andróides inicialmente criados para tarefas domésticas mas que ganharam consciência) enquanto cimentou pontes com as lutas pelos direitos civis das minorias, lembrando em parte conflitos de sagas como "Battlestar Galactica", "Sangue Fresco" ou "X-Men" (nas quais a diferença tinha a face de extraterrestres, vampiros e mutantes, respectivamente). Mas poucas vezes essas séries ou filmes se terão aproximado da excelência que estes oito episódios atingiram, numa trama distópica na qual os actores se mantêm como o maior efeito especial, defendendo muito bem um argumento tão hábil na tensão como na comoção ou imaginação de uma guerra civil que espelha realidades nada futuristas.

 

4,5/5

 

Fauda

 

"FAUDA" (T2): Quem se queixa do número de mortes de "A Guerra dos Tronos" talvez nem deva aproximar-se desta série israelita (disponível na Netflix), que tem sido muito mais impiedosa com as personagens e com os espectadores e não receia despedir-se de figuras que prometiam outros voos. Mas essa crueza raramente surge como gratuita numa história centrada no conflito israelo-árabe, que não se coíbe de expor o preço a pagar por uma guerra contínua enquanto tenta olhar para a disputa com alguma ambiguidade. Só que nem sempre consegue e a sua maior limitação é mesmo a de deixar evidente a nacionalidade dos autores: os israelitas Avi Issacharoff, jornalista especializado em questões palestinianas, e Lior Raz, que também assume o argumento e o papel protagonista, personagem inspirada na sua experiência como ex-agente dos serviços secretos. Admita-se, no entanto, que "Fauda" consegue fugir ao maniqueísmo e não recusa apontar o dedo aos abusos da força especial que acompanha, compondo um cenário onde quase já não sobram inocentes. Pelo caminho é capaz de ensinar alguma coisa a muitos filmes de acção norte-americanos - com perseguições e reviravoltas de antologia -, lição aperfeiçoada por um realismo para o qual contribuem o elenco ou o sentido de espaço. E entre os grandes trunfos está ainda Walid Al Abed, elemento da facção terrorista palestiniana que a interpretação superlativa de Shadi Mar'i ajuda a tornar numa das personagens televisivas mais fascinantes dos últimos anos - e que merecia uma série só dele, até para ajudar a aprofundar o contraste ideológico no centro de um thriller impecavelmente oleado.

 

3,5/5

 

Com grandes poderes vêm grandes... esperanças?

E ao sétimo filme, o maior super-herói da Marvel voltou a ser espectacular. "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA" não só é a aventura cinematográfica da personagem mais revigorante desde a trilogia de Sam Raimi como está entre os (poucos) blockbusters de 2018 a não perder.

 

Into the Spider-Verse

 

Depois de seis filmes (e duas participações especiais em aventuras de Capitão América e dos Vingadores), que futuro há para o Homem-Aranha no grande ecrã? As três fitas que sucederam à trilogia de Sam Raimi não ofereciam a resposta mais entusiasmante, com variações de Peter Parker e do seu alter ego muito abaixo das primeiras adaptações, que ou repetiram ideias ou trouxeram alterações escusadas (a ponto de "Homem-Aranha: Regresso a Casa" ter oferecido uma galeria de secundários completamente descaracterizada e quase sem vestígios da BD).

 

Mas afinal a história do aracnídeo no cinema ainda pode estar só no princípio, e isso nem é necessariamente mau, pelo menos a julgar pelo por uma lufada de ar fresco como "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA". Se é verdade que nunca houve tantos filmes de super-heróis como hoje, e que a rotina é muitas vezes o maior denominador comum de grande parte deles, a nova aposta da Sony mostra que não tem de ser esse o caminho... e que ainda é possível trazer sangue novo a um género consideravelmente explorado.

 

Into the Spider-Verse 2

 

O filme de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman também prova que a animação pode ser uma opção válida para adaptações de super-heróis, e até mais frutífera do que versões de imagem real. Raras vezes o ritmo, energia e lógica visual da BD foram tão bem transplantados para o grande ecrã como aqui, com a narrativa a ter legendas e onomatopeias entre os alicerces ("Scott Pilgrim Contra o Mundo" também já o tinha feito, é certo) enquanto vai conjugando animação digital e desenho à mão, integrando ainda elementos do cartoon ou do anime à medida que algumas personagens vão entrando em cena.

 

Além do trio de realizadores, há mais uma presença determinante: Phil Lord, que compõe com Rothman a dupla responsável pelo frenético e inventivo "O Filme Lego" e pelos divertidos "Agentes Secundários"/"Agentes Universitários", que aqui se encarrega do argumento e produção. E a irreverência desses filmes mantém-se na versão mais metaficcional e pós-moderna do Homem-Aranha já vista no cinema, capaz de propor um novo começo sem esquecer o que está para trás, homenageando a herança da personagem enquanto apresenta visões inéditas (com o caldeirão a incluir tanto um olhar sobre as minorias como influências do film noir ou da ficção científica).

 

Apesar do delírio visual, o maior corte com o passado talvez seja o facto de, desta vez, o Homem-Aranha não ser exclusivamente associado a Peter Parker. Já era assim na BD há anos, mas tendo em conta os filmes mais recentes, a mudança também é bem-vinda no cinema, até porque o original tem sucessor à altura em Miles Morales. Adolescente negro latino-americano, o novo protagonista é uma resposta certeira a uma nova geração de fãs e "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA" traduz muito bem o seu mundo.

 

Into the Spider-Verse 3

 

Nova Iorque mantém-se como cenário, mas a acção percorre agora as ruas de Brooklyn em vez das de Queens, a arte urbana e o hip-hop influenciam directamente a desenvoltura narrativa, "Grandes Esperanças" (de Charles Dickens) é o livro de cabeceira e a esfera familiar e comunitária de Morales é desenhada com mais textura e personalidade do que muitos filmes de super-heróis de carne e osso (ou do que muitos filmes, com ou sem super-heróis).

 

Tal como na história de Peter Parker, não falta a obrigatória picada de uma aranha nem sequer uma tragédia a moldar a origem, traços que ajudam a reforçar a mitologia enquanto o protagonista vai encontrando a sua voz. Essa procura dá, aliás, o mote a esta aventura inicial e não é difícil que o espectador se torne cúmplice: por muito que os superpoderes contem, esta jornada volta a comprovar que o lado humano é o que eleva o Homem-Aranha face a muitos vigilantes, independentemente de que está atrás da máscara. E além de Morales há aqui muitas figuras que a usam, num fortíssimo núcleo de secundários que abre a porta para a expansão deste universo. Mas ao contrário de outros filmes do género, "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA" não só é uma aventura auto-contida como nunca perde o rumo da viagem pessoal do seu protagonista. Se esse respeito até torna o final talvez demasiado conveniente, essa será uma limitação mais do que desculpável face à solidez e criatividade geral.

 

Into the Spider-Verse 4

 

Um dos maiores méritos dos realizadores e dos argumentistas é, de resto, colocarem várias peças em jogo ao longo de duas horas sem que esta aventura resulte numa manta de retalhos. Embora Peter Parker já não seja o protagonista, há tempo e espaço para versões nunca vistas no cinema, que rompem com o mimetismo de alguns filmes anteriores, numa história que é tanto um relato coming of age como do envelhecimento, experiência iniciática e passagem de testemunho. E até a profusão de vilões, noutros casos atabalhoada, não invalida que cada um tenha oportunidade de provar o que vale, sobretudo um Rei do Crime tão colossal como vulnerável, a nova versão de Dr. Octopus e um Gatuno enigmático e arrepiante.

 

O recurso ao humor, constante ao longo de quase todo o filme, não choca com a força de alguns episódios mais dramáticos, essenciais para o peso emocional (conferir no plano de antologia com pai e filho perto da entrada de um apartamento). Além do tom bem doseado, o argumento dá uma lição de economia narrativa a muita concorrência ao conseguir evitar uma overdose de diálogos explicativos, que certamente estariam presentes caso a aposta fosse entregue a mãos menos habilidosas. Mas nem as referências ao passado nem a introdução de várias personagens (e respectivas histórias pessoais) levam a que "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA" acumule palha narrativa.

 

Talvez até seja um filme demasiado despachado a espaços, como no desenvolvimento da dinâmica entre o protagonista e os seus aliados, mas pelo menos nunca se arrasta. Pelo contrário, é dos mais frenéticos do ano e não se perde entre a aceleração (mesmo que ameace no obrigatório conflito do terceiro acto, ainda assim mais imaginativo do que a média), experiência lúdica sem deixar de ser experimental dentro do seu campeonato - mas a deixar, finalmente, a esperança de um mundo melhor para o universo dos super-heróis no cinema...

 

4/5

 

 

O regresso do navegante da lua

THE SOFT MOON já não é uma novidade em palcos nacionais, mas o regresso mais recente de Luis Vasquez trouxe as novas canções de "Criminal" ao RCA Club, em Lisboa, na passada sexta-feira. E comprovou que está aqui uma força (sempre negra) a ter em conta - sobretudo ao vivo.

 

The Soft Moon RCA Club

 

Com quatro álbuns e um EP no currículo, THE SOFT MOON tem-se mostrado, desde inícios da década, como um dos nomes mais consistentes na exploração de cruzamentos entre territórios pós-punk, industriais e góticos, com passagens pela EBM ou coldwave. Não será uma combinação inédita, nem a mais original, mas Luiz Vasquez, o mentor do projecto, parece ter um conhecimento enciclopédico dos domínios que percorre e consegue desbravar recantos inesperados, apesar das muitas influências óbvias e assumidas - dos Joy Division aos NEU!, passando pelos The Cure, Nitzer Ebb ou Nine Inch Nails, a lista é longa e sempre de tons turvos.

 

Se o norte-americano ainda não terá editado um registo ao nível dos mais marcantes das suas referências, nem por isso tem deixado de ser um cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista a gerar culto e entusiasmo. E embora os discos não tenham proposto grandes viragens sonoras, há uma aproximação ao formato canção - em especial nos mais recentes, "Deeper" (2015) e "Criminal" (2018) - que contrasta com a penumbra atmosférica dos primeiros dias ao encontrar refrães fortes no meio do desespero.

 

The Soft Moon RCA Club 2

 

O regresso mais recente a Lisboa permitiu atestar isso mesmo, entre momentos tendencialmente instrumentais e outros onde a voz se insurgiu e tentou controlar os acontecimentos. Apresentando-se no formato banda, ao lado de dois músicos que, tal como ele, foram alternando instrumentos - guitarra, baixo, teclas, programações, vários tipos de percussão - , Vasquez não gastou muitas mais palavras além das que deixou nas canções, ficando-se por uma breve saudação, despedida e agradecimentos. Mas também ninguém terá sentido grande falta delas ao longo de um concerto que, apesar de ter durado pouco mais de uma hora, conseguiu agregar quase duas dezenas de temas a um ritmo imparável - e nem deixou a sensação de ter sabido a pouco, tirando talvez no encore de apenas duas canções.

 

Com o alinhamento que revisitou todos os discos, "Criminal" acabou por ser o mais predominante e tão bem acolhido como os anteriores por uma sala repleta. Da revolta à la Trent Reznor de "Burn" à igualmente inquieta "The Pain" ou à mais contida "Give Something", com a voz a aventurar-se por tons agudos, as canções soaram ainda mais urgentes do que no álbum - e o mesmo poderá dizer-se dos temas dos registos mais antigos.

 

"Far", hino propulsivo tão enérgico como angustiado, é bem capaz de ter sido o grande momento da noite, ainda que o patamar se tenha mantido quase sempre elevado. "Deeper", "Wrong" e "Want" - no arranque, a meio e no final, respectivamente - viram Vasquez trocar a guitarra pelos bongos, em acessos tribais que tornaram o cenário mais apocalíptico. Já "Insides" ou "Parallels" mergulharam numa faceta hipnótica que não comprometeu a intensidade.

 

The Soft Moon - Criminal

 

O trabalho de iluminação foi acompanhando as temperaturas das canções, entre tons negros, azulados ou escarlate, sem que se sentisse a falta de mais elementos cénicos: bastou a névoa que sublinhou o efeito dramático e a entrega evidente da banda. Vasquez, especialmente irrequieto, manteve um entusiasmo comparável ao dos fãs das primeiras filas, dançando, saltando e contorcendo-se, com a linguagem corporal a falar mais do que a verbal. Regresso garantido? Depois de uma actuação tão incisiva e ocasionalmente esmagadora, não há grandes dúvidas.

 

A abrir a noite, os WHISPERING SONS foram uma aposta mais do que competente. Também influenciados pelo pós-punk, os belgas destacaram-se não tanto pelas canções mas pela construção de ambientes, com mais espaço para surpresas do que a voz de Fenne Kuppens, ainda um pouco encostada a alguns ícones sombrios q.b. dos anos 80. O grupo define a sua música como nervosa e desesperada, características  dominantes do álbum de estreia, "Image", apresentado numa actuação envolvente e atmosférica, com pontes para algum shoegaze de boa linhagem, até mesmo na atitude dos elementos da banda - todos metidos consigo mesmos. A excepção foi o vocalista, que se dirigiu frequentemente ao público e terá conquistado grande parte dele enquanto deixou aqui um cartão de visita apelativo.

 

4/5

 

 

Ainda crua como sushi (mas com um álbum quente a caminho)

De volta aos discos e aos palcos, NENEH CHERRY tem actuado em algumas (escassas) salas europeias, com concertos que revelam já grande parte do que esperar do próximo álbum. Um dos mais recentes decorreu no Café de la Danse, em Paris, e o André Gonçalves conta como foi - num texto que é o primeiro de um autor convidado deste blog.

 

Neneh Cherry Paris

 

"Querem '7 Seconds' ou 'Buffalo Stance'?"

O relógio marca já uma hora de concerto. Ela tinha já avisado entre canções que a duração iria ser essa, mas pelos vistos lá descobre uma folga, uma surpresa.


Ela é Neneh Cherry, possivelmente a artista pop/punk mais subestimada da contemporaneidade. Não é por falta de currículo ou até de boas companhias: a sueca radicada no Reino Unido é afinal uma das artistas pioneiras do trip-hop; é também enteada do artista de jazz Don Cherry, e teve o privilégio de contar na sua infância com a presença de outros grandes, como Miles Davis, de quem se sentou ao colo, muito antes de a vermos aqui, cinquentona, no Café de la Danse, em Paris, por onde passou a 26 de Setembro.
 
E que visão. Esta "cereja" não aparenta gostar de remoer muito tempo no passado, ou nas suas ligações privilegiadas, aproveitando assim um encore para despejar dois "clássicos" ("I've Got You Under My Skin" e "Manchild") e pedir então ao público que optar por mais um. "7 Seconds ou Buffalo Stance?", lança.

O grosso da actuação é então usado para promover o seu novo álbum, "Broken Politics" (com data de lançamento já para o próximo dia 19 de Outubro) - o sucessor de "Blank Project" de há cinco anos. Não há fraude: a artista cumprimenta o público e diz ao que vem. Aproveita para acrescentar a diferença face ao "projecto em branco" anterior; uma maior introspecção, que se verificou também no tempo que este último álbum levou a cozer face ao anterior, feito praticamente numa sessão, acredite-se ou não.

 

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A sua indumentária é logo uma declaração de intenções: um casaco/sweat meio tigresse a fazer pendant com as calças (totalmente anti-modas), que depois se vai despindo ("Está muito calor") para revelar uma t-shirt com frase feminista provocadora: "What do Women Want" (sem ponto de interrogação à vista, mesmo assim).

"Fallen Leaves" abre o mote. Facilmente entendemos que estamos perante a equipa que ajudou a trabalhar naquele que permanece um dos grandes regressos do novo século: as batidas minimalistas de Four Tet são por esta altura indistinguíveis de qualquer outro produtor. Mas não se deixe o leitor enganar: por detrás de tanto minimalismo e introspecção, há uma banda completa, há todo um conjunto de instrumentos - começando logo pela harpa, que aqui e ali rouba atenções, estando fora do que esperávamos de nova aventura entre esta sueca "terrible" e o britânico igualmente "inconformado" com tendências atuais, fiel à sua sonoridade.

"Shot Gun Shack" surge logo de seguida, numa versão ainda mais solta do que a disponibilizada há umas semanas - ficamos a esperar que esta versão esteja mais próxima de uma versão final de álbum; não que a versão single, por assim dizer, seja má; mas estamos oficialmente encantados com o rumo que este projecto está a tomar...

"Faster than the Truth" e "Natural Skin Deep" continuam a cumprir a melhor das expectativas, sendo das faixas mais uptempo aqui apresentadas. "Synchronized Devotion" abranda um pouco o ritmo, num diálogo com o espectador, uma canção em tom de confissão. "São as minhas políticas a viver num jam lento" fala a letra, enquanto Neneh revela o seu signo astrológico e data de nascimento, como se estivesse num "tête a tête" informal com o público, até porque pouco depois começa a apresentar um dos membros da sua banda... Está criada a ligação emocional.

 

Neneh Cherry - Broken Politics

 

A meio do alinhamento junta-se "Kong", tema também com assinatura de Robert "Massive Attack" Del Naja, um regresso ao passado, sim (pode fazer-se aqui ponte com o mais antigo "Manchild", que virá mais adiante), mas simultaneamente uma faixa que não poderia soar diferente de tudo o que está a ser produzido neste momento - nem mesmo o que tenta soar à década de 90. Uma das grandes candidatas a canção de 2018 permanece igualmente forte ao vivo, sobretudo quando parte da letra menciona o país onde estamos ("todas as nações procuram os seus amigos em França e Itália"), retratando aqui a crise de refugiados e a incerteza em relação ao futuro, perante as ilusões desfeitas - mas uma melancolia que revela uma mensagem positiva. "Arranca a minha cabeça, ainda assim o meu mundo será sempre um pequeno risco digno de tomar". Letra mais em ligação com os eventos políticos recentes seria praticamente impossível.

Mais três canções de "Broken Politics" nos aguardam, sendo que a de encerramento deste pré-encore faz também correspondência com o encerramento do álbum em questão: "Soldier" promete ser das faixas que mais vão agarrar à primeira o ouvinte, aquela em que a instrumentação, ainda minimalista, parece atingir apropriadamente um êxtase.

E eis que chegamos então aos "greatest hits" condensados em três canções, 15 minutos. São poucas as artistas mundiais dignas de fazerem tamanha "desfeita". Mas serão também poucas as artistas cuja obra tenha demonstrado, mesmo nos seus momentos mais "acessíveis" (pensamos obviamente em "Man" de 1996, e nos seus singles "Woman" e "7 Seconds"), uma consistência qualitativa ímpar com os seus contemporâneos, rivalizando sim com os tão mais legitimados Massive Attack de Del Naja.

Para choque dos leitores - ou não, dependendo da relação com a cantora -, o público escolheu praticamente em uníssono "Buffalo Stance" para fechar este concerto. E foi um concerto tão conciso que o único ponto por onde pegar pelos mais picuinhas será, precisamente, não oferecer margem para trazer mais do que esta hora mágica.  

4/5

 

Neneh Cherry alinhamento

Nota: o alinhamento contou ainda, no final do encore, com "Buffalo Stance"

 

 

 

 

Quando a selecção brasileira se junta à argentina

América Latina a dar cartas no QUEER LISBOA: "Azougue Nazaré", "Marilyn" e "O Orfão" foram três das grandes surpresas do festival que está no Cinema São Jorge e na Cinemateca até dia 22.

 

Azougue Nazaré

 

"AZOUGUE NAZARÉ", de Tiago Melo: Qualquer semelhança entre este filme e "O Som ao Redor" ou "Boi Neon" não será pura coincidência, uma vez que o seu autor já colaborou com Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro antes de se aventurar nas longas-metragens. E tal como eles, junta-se à lista de nomes a acompanhar no cinema brasileiro recente graças a uma tapeçaria formal que combina traços do documentário (por onde Tiago Melo também já passou), do musical (nas sequências inventivas e delirantes com uma espécie de desgarrada no café) ou até do terror (ou pelo menos de um fantástico tribal q.b.), partindo do retrato, em mosaico, de uma pequena comunidade pernambucana. Se enquanto estudo de personagens há talvez demasiadas pontas soltas, o protagonista é um achado: Catita Daiana, encarnado pelo actor amador Vladimir do Côco, dá a volta a lugares comuns sobre o travestismo com um à vontade e desbragamento que o levam a roubar todas as cenas em que entra. Esta figura, como todas as outras, entrega-se a rituais religiosos ao pagãos como escape para um quotidiano onde a solidão parece ganhar espaço ao amor. Mas o antídoto serve-se nas várias celebrações - da tradição maracatu e carnavalesca à igreja evangélica, não esquecendo o futebol - com diferentes formas de comunhão, às vezes conflituosas entre si, que o realizador coloca em cena de forma simultaneamente crítica e bem humorada - sempre integrada num filme com um sentido atmosférico invulgar e ADN inequivocamente brasileiro.

 

3,5/5

 

Marilyn

 

"MARILYN", de Martín Rodríguez Redondo: No papel, não há grandes novidades neste relato da homofobia na Argentina rural, até por ser baseado num caso verídico que envolveu um duplo homicídio. Só que esta primeira incursão nas longas-metragens está longe de ser só mais uma, muito por culpa de uma abordagem comedida e contemplativa, à imagem do protagonista. Marcos, um adolescente alvo de violência física e psicológica desde que a sua sexualidade começa a despontar, de forma demasiado visível e pouco condizente com parâmetros heteronormativos, vai vendo a sua identidade continuamente silenciada e anulada tanto pela comunidade como pela família, num jogo de pressões sociais e económicas que revela um olhar mais amplo do que parece à partida. Mas embora pudesse ser facilmente reduzido ao papel de vítima, o protagonista, embora de poucas palavras, tenta fazer valer a sua voz de modo tão contido como incisivo, num jogo de forças que Rodríguez Redondo desenha sem floreados dramáticos - e aí é de louvar a secura da banda sonora e o trabalho de som minucioso de alguns momentos mais duros. Pacientemente, o realizador vai compondo o cenário de angústia e inadaptação extremas, ancorado no desempenho comovente de Walter Rodríguez e de alguns secundários de excepção - torna-se difícil não mencionar Catalina Saavedra num difícil e ingrato papel de mãe "monstruosa", mas também ela esmagada por um contexto opressor e sem grandes possibilidades de fuga. Valente grito surdo, este.

 

 4/5

 

O Orfão

 

 "O ORFÃO", de Carolina Markowicz: A realizadora brasileira não precisa de mais de 15 minutos para dizer mais do que muitos dizem em longas-metragens. E além de ser concisa, sabe escolher o tom certo para acompanhar a rotina de um adolescente, entre o orfanato e (mais) um processo de adopção conturbado, sem se limitar às boas intenções do filme de denúncia e realismo social. "O ORFÃO" é melancólico ao dar conta da pressão emocional do protagonista, mas sobressai pela forma como injecta humor até nos momentos que se antecipariam como dramáticos, sem trair as personagens. A direcção de actores também ajuda, com destaque para o actor principal: Kauan Alvarenga é plenamente convincente ao servir-se do sarcasmo para camuflar a solidão, na pele de um protagonista que não abdica de uma exuberância natural mesmo quando é consecutivamente rejeitado. "O ORFÃO", no entanto, é uma pequena surpresa para acolher de braços abertos - como Cannes soube acolher com o prémio de Queer Palm para curta-metragem na edição deste ano.

 

 3,5/5