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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Confinados, mas não derrotados

"SWEET HOME", uma das novas séries sul-coreanas da Netflix, traz uma visão especialmente negra da experiência de um confinamento, cruzando terror e ficção científica de forma tão inesperada como inspirada - apesar de partir de premissas familiares. Imperdível para quem gosta do género (e recomendável mesmo para quem não gosta assim tanto).

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Ainda a recuperar da morte dos pais e da irmã num acidente automóvel, Cha Hyun-su, um adolescente de Seul e protagonista de "SWEET HOME", é obrigado a encarar outra situação-limite quando a capital da Coreia do Sul começa a ser atormentada por criaturas bizarras. E o cenário complica-se quando o adolescente se junta à lista de infectados que se vão transformando em monstros aos poucos, o que faz dele uma figura temida pelos vizinhos num prédio que mostra resistência à invasão através da colaboração gradual entre os moradores.

Baseada na BD online homónima de Kim Kan-bi e Hwang Young-chan, editada desde 2017, a nova série sul-coreana disponível na Netflix é tão ou mais devedora de influências que vão da literatura ao cinema ou televisão, ao propor um derivado da mitologia dos zombies, de histórias de contaminações letais ou dos códigos do filme de cerco. E embora esse território tenha sido amplamente percorrido no pequeno ecrã nos últimos tempos - basta pensarmos em "The Walking Dead" e nas doses de mais do mesmo dos seus spin-offs -, "SWEET HOME" sobressai ao desenhar um universo personalizado, empolgante e muitas vezes inventivo (sobretudo na morfologia e tipos de ameaça das criaturas, que ao contrário dos mortos-vivos, são todas bem diferentes entre si).

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Aproximando-se da claustrofobia sugerida por "O Nevoeiro", de Stephen King, das visões pós-apocalípticas de George Romero ou do pânico de um jovem confinado do igualmente recente "#Alive", do conterrâneo Jo Il-hyeong (também disponível na Netflix), a série dirigida por Lee Eung-bok, Jang Young-woo e Park So-hyun sai-se bem a moldar a atmosfera com tanto de entreajuda como de desconfiança, acompanhando vizinhos obrigados a colaborar para sobreviver enquanto tentam gerir a convivência com o protagonista - autêntica bomba-relógio que tanto pode revelar-se o seu maior aliado como um atalho para o fim. Mérito de uma escrita capaz de dar tempo e voz própria às dezenas de personagens em jogo, todas tratadas como gente de corpo inteiro em vez de carne para canhão - mesmo quando o argumento  acelera na onda de tragédia na recta final destes dez episódios. E mérito, também, de um elenco que confere espessura a várias figuras memoráveis, de uma aspirante a bailarina insolente a um espadachim que insiste em seguir os valores do catolicismo no meio do caos, de mães que tentam manter a sanidade durante o luto dos filhos a um homem circunspecto que faz justiça pelas próprias mãos ou um líder estratega que procura conciliar razão e coração.

"SWEET HOME" é tão bom a desenvolver essas relações que a vertente íntima e dramática acaba por gerar a maioria das suas melhores cenas (e as mais comoventes), entre os momentos de descompressão de várias ameaças. E é admirável como se mostra capaz de conjugar essas sequências (que além da perda, são marcadas por casos de violência doméstica ou de abuso sexual) com a crueza gore de outras ou descargas de adrenalina ou suspense que obrigam a mudanças bruscas de tom, sem que a coesão narrativa esmoreça.

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Essa desenvoltura lembra a de filmes do conterrâneo Bong Joon-ho ("The Host - A Criatura", "Parasitas"), acessos de humor negro incluídos (não deixa de haver muitas situações hilariantes), embora a série mostre as costuras do orçamento nos efeitos digitais utilizados para dar vida a algumas criaturas - com o cenário a escorregar para o de um videojogo pouco convincente. Mesmo que não durem muito, esses momentos mais explosivos são, de longe, os menos entusiasmantes de uma saga que também sairia a ganhar sem uma canção-título a temperar tantas sequências - e a cortar a tensão de algumas. Mas nem estes beliscões pontuais impedem "SWEET HOME" de se manter num patamar habitualmente elevado de rasgo criativo, agilidade narrativa ou envolvimento emocional. Pode estar aqui uma das novas propostas de binge-watching mais viciantes em tempos de serões confinados - e felizmente menos atormentados do que os de Cha Hyun-su e seus vizinhos.

4/5

Anos 80 bem sofridos

Se por um lado cada vez mais blockbusters têm sido adiados, por outro não tem faltado cinema de autor nas salas. Os novos filmes de Sean Durkin e François Ozon são dos melhores exemplos da recta final de 2020 e, curiosamente, ambos olham para relações amorosas conturbadas na década de 80 (de formas bem distintas, embora nenhum passe sem os Cure na banda sonora). 

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"O NINHO", de Sean Durkin: A espera valeu a pena. Quase dez anos depois de "Martha Marcy May Marlene" (2011), uma das revelações do novo cinema independente norte-americano volta a trocar as voltas ao espectador numa segunda obra que cruza géneros e referências sem nunca se perder pelo caminho. Drama familiar ocasionalmente contaminado pelos códigos de algum cinema de terror (vertente mansão assombrada) e com as mudanças económicas dos anos 80 como pano de fundo, este é um retrato singular de um casamento e um belo exemplo de cinema de câmara.

Durkin confirma-se um esteta apurado ao tirar partido da direcção de fotografia de Mátyás Erdély ("O Filho de Saul") e de uma realização que dá (literalmente) espaço aos actores. E que actores! Jude Law, na pele de um yuppie persuasivo e deslumbrado com a ascensão financeira (tão súbita quanto frágil), deixa uma entrega evidente, mas a grande surpresa é Carrie Coon, mulher sob a influência das ambições do marido mas decidida a encontrar - aos poucos, e com uma garra em crescendo - o seu próprio caminho.

A actriz, mais conhecida por papéis televisivos (em séries como "The Leftovers" ou "Fargo"), tem a seu favor uma longa experiência teatral, que Durkin sabe valorizar num filme cuja rodagem, como assinalou a norte-americana em entrevistas, não andou longe de algumas experiências de palco. E se o olhar sobre os filhos da dupla talvez pudesse ser mais demorado (até porque Oona Roche e Charlie Shotwell são promessas a ter debaixo de olho), o foco no afastamento (e reaproximação?) conjugal é dos mais personalizados que têm surgido nos últimos tempos - e tão enigmático como humanista enquanto vai sugerindo que a fronteira entre o amor e o terror psicológico pode ser ténue.

4/5

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"VERÃO DE 85", de François Ozon: O realizador de "Dentro de Casa" ou" Swimming Pool" revisita os anos 80 ao adaptar um livro que leu nessa década: "Dance on My Grave", do britânico Aidan Chambers, que marcou a sua entrada na idade adulta pela abordagem franca e directa à homossexualidade. O sonho de levar essa história ao grande ecrã já vem desde aí, mas acabou por ser consecutivamente adiado enquanto Ozon foi criando uma das filmografias mais prolíficas e versáteis do cinema francês contemporâneo. O atraso leva a que "Verão de 85" já tenha suscitado comparações a "Chama-me Pelo Teu Nome", embora a sua matriz, lá está, já venha de trás.

Há, sim, alguns pontos de contacto com o filme de Luca Guadagnino nesta história sobre o arrebatamento e, sobretudo, as dores de um primeiro amor entre dois rapazes descoberto em época estival, com a viagem iniciática a conduzir à rejeição e ao luto. Mas na verdade esse não é território exclusivo de nenhum dos dois filmes, e este relato boy meets boy teria certamente surpreendido mais se estreado há 30 anos. O que não quer dizer que não seja muito bem-vindo hoje, até por representar um regresso em forma de um cineasta abaixo do seu melhor nos últimos tempos, retomando aqui o território mais aliciante de "Frantz", ainda que num registo menos sóbrio e complexo. Não que procure grande sobriedade, pelo contrário: faz questão de sublinhar excessos melodramáticos, flirts ao kitsch incluídos (Rod Stewart é chamado à banda sonora, e mais de uma vez), à medida do narcisismo e da lógica de tudo ou nada que vinca os seus protagonistas (Félix Lefebvre e Benjamin Voisin, uma dupla que faz faísca).

Filmado no formato 16mm, tem na fotografia granulada uma das alavancas para situar a acção na época associada a todos os excessos, mas a aura hedonista convive com heranças do thriller, ou não fosse "Verão de 85" também um mistério em torno de uma tragédia anunciada logo aos primeiros minutos. A vertente policial traz um lado metaficcional que não se mostra tão frutífero como noutros filmes de Ozon, e a personagem do professor interpretado por Melvil Poupaud (habitué do realizador) fica algo perdida nesse cruzamento (Valeria Bruni Tedeschi, outra secundária de luxo, tem material dramático mais interessante, mesmo que subexplorado). Mas apesar do embrulho garrido e juvenil, há por aqui mais gravidade e intensidade do que o exercício de estilo inconsequente de "O Amante Duplo" (2017) e o trabalho tão aplicado como anónimo de "Graças a Deus" (2018), antecessores mais imediatos e com um realizador longe do seu melhor.

3,5/5

Histórias de fé e devoção, entre a guerra e a libertação

Os conflitos religiosos, além de culturais ou políticos, marcam o ponto de partida de três das séries mais aconselháveis do momento: "FAUDA", "KALIFAT" e "UNORTHODOX", todas disponíveis na Netflix.

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"FAUDA" (T3): À terceira temporada, a série israelita ainda continua a ser um segredo demasiado bem guardado. E é pena, tendo em conta que esta combinação de drama, thriller e acção criada por Avi Issacharoff, jornalista especializado em questões palestinianas, e Lior Raz, que também se encarrega do argumento e interpreta o protagonista, não perde o fôlego enquanto segue as missões de uma equipa de forças especiais judaicas contra a ameaça terrorista do Hamas. Os episódios mais recentes ainda foram, tal como os anteriores, alvo de algumas críticas pelo olhar parcial sobre o conflito israelo-árabe, mas há que reconhecer que o argumento tem sido cada vez mais moralmente ambíguo, não se coibindo de apontar o dedo à conduta nem sempre exemplar de Doron Kavillio e dos restantes agentes sionistas. Na nova fase, uma missão de resgate em Gaza não só apresenta das maiores situações-limite da série, geridas com solidez narrativa e uma tensão no fio da navalha, como deixa claro o papel do protagonista no alastrar de um ciclo de violência que facilmente transforma vítimas em futuros agressores. Daqui, ninguém sai propriamente a ganhar...

3,5/5

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"KALITAF" (T1): A história de três mulheres com ligações ao Estado Islâmico está no centro deste cruzamento de drama e thriller, uma produção da Filmlance (responsável pela versão original de "The Bridge") para o canal sueco SVT, com distribuição internacional da Netflix. Entre o Ocidente e o Médio Oriente, a série acompanha a mulher de um membro do ISIS, uma agente dos serviços secretos suecos e uma adolescente de Estocolmo seduzida pela organização terrorista. E ao longo dos oito episódios, realizados pelo bósnio Goran Kapetanović (que se estreia na televisão depois de algumas curtas e longas-metragens), mantém-se um exercício de suspense em crescendo enquanto também vai desenhando e contrastando o quotidiano das protagonistas - e as suas visões do mundo, que em alguns casos são radicalmente diferentes das que tinham no arranque da trama. Todos os actores, dos principais aos secundários, agarram as personagens com convicção, embora sobressaia o olhar tão triste como obstinado de Gizem Erdogan na pele de Pervin, um dos pilares emocionais deste retrato realista e envolvente.

4/5

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"UNORTHODOX" (minissérie): Mergulho nos costumes e dinâmica de uma comunidade judaica ortodoxa nova-iorquina a partir da experiência de uma adolescente que foge dela para Berlim, esta minissérie de quatro episódios é a nova (e elogiada) aposta da alemã Anna Winger, autora de "Alemanha 83" (exibida por cá na RTP2) e sequelas. Realizada pela conterrânea Maria Schrader ("Stefan Zweig: Adeus, Europa") e baseada na autobiografia de Deborah Feldman, oferece uma tour de force no feminino que se completa com a interpretação de Shira Haas no papel principal. Embora a actriz israelita já conte com alguns desempenhos no currículo, este é o que lhe tem dado maior visibilidade, inteiramente merecida pela forma como consegue captar a angústia, solidão e determinação de uma mulher que não se revê nos códigos familiares, sociais e religiosos do seu meio. Grande parte da carga dramática desta história de auto-descoberta deriva da sua entrega, e o retrato só não ganha mais força porque algumas figuras da sua comunidade ficam por explorar (mesmo que a câmara documente minuciosa e respeitosamente rituais e tradições) e a entrada num desejado mundo novo é feita com demasiadas conveniências de argumento (e através de um grupo de novos amigos europeus tão acolhedores como genéricos). Haas, no entanto, tem uma das melhores personagens e interpretações desta temporada televisiva, e mais do que justifica a viagem geográfica a espiritual (bem conduzida, apesar das limitações, pela showrunner e realizadora).

3/5

No (saber) misturar é que está o ganho

Tem passado despercebida no catálogo da Netflix, mas é das maiores surpresas de 2020 até agora. Partindo de territórios do policial, "GIRI / HAJI: DEVER / VERGONHA" vai aceitando contaminações de outros géneros numa primeira temporada criativamente fervilhante - e com o ritmo a acompanhar a imaginação.

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Estreada na BBC Two no final do ano passado, esta série da autoria do britânico Joe Barton (argumentista de "iBoy" ou de alguns episódios da óptima "Humans") chegou a Portugal via streaming há poucos meses, mas tem sido uma das que ficaram ofuscadas entre a dose de novidades mais sonantes. Um caso particularmente injusto quando oferece uma amálgama de géneros tão entusiasmante como delirante, ao cruzar o que arranca como um conflito convencional q.b. entre dois irmãos (o mais velho, um polícia de Tóquio; o mais novo, um criminoso que foge para Inglaterra) e acaba a desafiar as expectativas do espectador.

Sim, esta é uma história de honra, união, traição e redenção centrada numa família japonesa, mas em simultâneo um thriller intercontinental que vai das rixas locais dos Yakuza ao submundo londrino, com desvios para um relato coming of age e coming out e, mais à frente, para um road movie sobre a solidariedade e resiliência feminina. E é notável que consiga saltar entre tons e influências sem perder a coerência e a fluidez durante a maior parte do tempo, seja entre a violência mais gráfica ou um humor desarmante, com personagens de corpo inteiro e um arrojo formal que não as ofusca (incluindo split screens ou sequências de animação inspiradas pelo anime, escolhas estéticas e narrativas empregues de forma comedida).

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O estado de graça só começar a esmorecer mesmo no final, com um último episódio aquém do que está para trás, e a não resolver tantas narrativas cruzadas com rasgo à altura. Mas até esse remate tem pelo menos uma sequência de antologia (no terraço de um arranha-céus), com um arrojo maior do que a vida e sem grandes paralelos no pequeno (ou grande) ecrã ultimamente. E há que aplaudir ainda a direcção de actores, num elenco que junta Kelly Macdonald ou Justin Long aos asiáticos Takehiro Hira e Yōsuke Kubozuka, embora Will Sharpe roube quase todas as cenas ao encarnar a personagem mais carismática: Rodney, um prostituto gay inglês de ascendência oriental, autor de uma colecção de frases certeiras e hilariantes enquanto ajuda a evitar que este thriller se torne sisudo, apesar de não lhe faltar tensão e peso dramático. Quem gostou de "Parasitas" (toda a gente?) é bem capaz de ter aqui muito para apreciar.

Preciosidade extra: as recapitulações dos episódios, exemplos de brilhantismo formal (com animação de aguarela) que merecem ser vistos mesmo em binge-watching.

4/5