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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Viagens a Itália

Duas novidades, uma revisitação: "Cuori Puri", "Happy Winter" e "A Melhor Juventude" foram três eventuais portas de entrada para a 11ª FESTA DO CINEMA ITALIANO, que arrancou há quase uma semana em Lisboa e está prestes a espalhar-se pelo país (e fora dele). 

 

Cuori puri

 

"CUORI PURI", de Roberto De Paolis: Estreia nas longas-metragens de um realizador até aqui com experiência nas curtas, é uma bela história de amor em tempos de crise (económica, mas também familiar ou de fé) que equilibra com sensibilidade a vertente pessoal e comunitária. A relação entre uma estudante, cuja rotina está entregue à Igreja e ao voluntariado, e um rapaz mais velho, segurança de um parque de estacionamento, é acompanhada com um realismo à flor da pele, palpável nos actores ou nos espaços, e surge como porto de abrigo para um quotidiano sem grandes horizontes à vista.

 

Mas aqui nem o amor salva tudo e "CUORI PURI" tem a perspicácia de não oferecer soluções fáceis, conseguindo também evitar juízos sobre a religião (a ambiguidade da mãe "beata" da protagonista é um dos trunfos, assim como a eloquência inspiradora do catequista) ou a marginalidade (o filme não desculpabiliza as personagens, mas dá conta da espiral descendente que a falta de oportunidades pode encorajar). A crise migratória, e a relação com a comunidade cigana em particular, também passa por aqui, sem que De Paolis sujeite o argumento ao peso desse ou de outros temas: no final fica um retrato cru, verosímil e comovente de união e sacrifício, com um realizador e dois jovens actores (Selene Caramazza e Simone Liberati) a reter.

 

 3,5/5

 

Happy Winter

 

"HAPPY WINTER", de Giovanni Totaro: Não falta potencial visual e humano ao cenário que este documentário explora, mas a primeira vertente acaba por entusiasmar mais do que a segunda. O que é pena, porque o passeio pela praia de Modello, na Sicília - que acolhe mais de mil cabanas habitadas por outras tantas famílias ao longo de todo o Verão - resulta cansativo ao longo de noventa minutos. Uma hora de duração seria mais do que suficiente, tendo em conta que Giovanni Totaro é demasiado redundante no que mostra e sobretudo no que tem para dizer, deixando um olhar que se fica muitas vezes pelo anedótico.

 

Há belas imagens, mas a estética (e profundidade) é mais condizente com a de um videoclip, território no qual a narrativa parece cair quando recorre à música como condimento. Nada contra, só que enquanto documentário talvez o resultado fosse mais proveitoso caso apostasse numa gravidade que só se insinua mais para o final, sobretudo nas cenas com um vendedor de gelados e refrigerantes (a "personagem" mais forte de um relato que se torna disperso entre as conversas de amigas de meia-idade ou a campanha de um aspirante a político local). Afinal, a festa comunitária estival é, para muitos turistas, uma resposta (ou pelo menos um escape) ao desemprego, mas os espectadores nunca chegam a mergulhar a fundo nesse filme.

 

 2/5

 

A Melhor Juventude

 

"A MELHOR JUVENTUDE", de Marco Tullio Giordana: 15 anos depois da estreia, a saga que está entre as mais celebradas do cinema italiano recente teve direito a reposição, em duas sessões muito concorridas e com a presença do realizador. Percebe-se o motivo do culto que atravessa gerações: quem não se deixar intimidar pelas mais de seis horas de duração (divididas em duas partes) encontra aqui um melodrama de recorte superior, centrado na história de uma família da classe média desde os anos 60 até à viragem do milénio.

 

Foi claramente um "labour of love" para o realizador e para a equipa, com as origens televisivas (começou por ser pensado como uma série da RAI) a não deixarem grandes vestígios num resultado final que é muitas vezes grande cinema, ancorado num elenco em estado de graça e num cineasta generoso, que lhe dá tempo, espaço e atenção. Apesar do óptimo nível interpretativo, torna-se difícil não destacar os protagonistas: Luigi Lo Cascio na pele de Nicola, Alessio Boni como Matteo, os dois irmãos em torno os quais as outras figuras orbitam. O primeiro, idealista e altruísta, é o que estará mais próximo da visão do mundo proposta pelo filme - assente num optimismo obstinado, embora não ingénuo nem imune a crises. Mas é o segundo que acaba por se impor como personagem mais magnética e intrigante, a motivar o olhar sobre uma solidão e inquietação viscerais, contraponto irónico de um filme que também deixa uma ode sincera e calorosa aos laços familiares.

 

A crónica deslumbrada do crescimento, lado a lado com dor da perda, convive com um retrato das mudanças na sociedade italiana ao longo de décadas, do qual a abordagem à doença mental ou às revoltas juvenis (e à iniciação no terrorismo) vai ganhando um peso particular. Pode parecer demasiada ambição, mas Giordana nunca cai em tentações épicas e opta antes pelo drama de câmara, embora nunca sisudo - pelo contrário, há aqui uma vivacidade contagiante. Obra-prima? Talvez não chegue a tanto: a primeira parte leva o seu tempo a acertar o passo, a segunda tem mais dificuldades em separar o essencial do acessório - e nunca consegue recuperar a urgência depois do adeus a uma das personagens centrais. Mas não haverá outro filme assim, dentro ou fora de portas.

 

4/5

 

A vida dele deu um filme (e um livro e uma peça)

Primeiro grande filme a estrear por cá em 2018? Baseando-se na história verídica do escritor Édouard Louis, "MARVIN" é um relato da homofobia iluminado pela entrega à arte num regresso muito inspirado de Anne Fontaine. E como bónus tem Isabelle Huppert no papel de... Isabelle Huppert!

 

Marvin

 

"MARVIN" nasce de um parto difícil, já que apesar de se basear em "Acabar com Eddy Bellegueule" (2014), livro-sensação do jovem escritor francês Édouard Louis, acabou por ficar marcado por divergências criativas entre o autor e a realizadora, obrigando Anne Fontaine a mudar, por exemplo, os nomes de todas as personagens.

 

Mas embora a narrativa deste drama seja fragmentada, o resultado está longe de parecer o de um filme alvo de amputações ou remendos. Pelo contrário: uma das suas forças é mesmo a de nunca se tornar disperso ou rocambolesco enquanto saltita entre várias fases da vida do protagonista - da infância aos primeiros anos da idade adulta, de passagens pela adolescência a cenas meta-referenciais com narração do próprio.

 

Elogio, então, para a montagem hábil de Anne Fontaine, que revela aqui uma fluidez impressionante (mas nunca ostensiva) no recurso aos flashbacks, mostrando saber como contar uma história que, no papel, não se desvia muito de outros casos (reais ou não) de intolerância, homofobia e solidão. Mas se "MARVIN" nunca chega a ser um retrato LGBTQ especialmente trangressor, é muito conseguido ao aliar cenários reconhecíveis às particularidades da vida do protagonista, desconstruindo alguns estereótipos pelo caminho.

 

Marvin enfant

 

A narrativa do rapaz tímido e ostracizado do interior deslumbrado pela liberdade e possibilidades da grande cidade ganha aqui um novo marco, sobretudo pela forma inteligente como Fontaine lida com o bullying (sem o carácter unilateral de "Moonlight", recusando maniqueísmos), com o olhar sobre a família e a pequena comunidade (a revelar a maturidade a ambivalência que faltou a "Tão Só o Fim do Mundo") ou com a arte, em especial a escrita e o teatro, enquanto refúgio de um quotidiano pouco auspicioso (mas sem a postura meio emproada de "Chama-me pelo Teu Nome").

 

Outro trunfo é o elenco inatacável, com destaque para o casting muito feliz dos dois actores que dão corpo ao protagonista. Finnegan Oldfield e Jules Porier, o Marvin adulto e criança, respectivamente, emanam ambos uma combinação de vulnerabilidade e obstinação tão ou mais decisiva para o papel do que as semelhanças físicas. E nos secundários há nomes como Vincent Macaigne, Grégory Gadebois ou Catherine Salée, que ajudam a desenhar figuras de corpo inteiro em vez de meras muletas do percurso da principal.

 

Marvin Huppert

 

Desses pilares da jornada de Marvin há um que surge, acidentalmente, como decisivo: Isabelle Huppert, igual a ela própria, que o ajuda a procurar a salvação pela arte depois de outros anjos da guarda o terem encaminhado, numa fase em que a vida do protagonista alimenta o palco. Essa partilha e encorajamento, desde a escola a um futuro mais boémio, é das ideias mais bonitas do filme e felizmente Fontaine consegue passá-la sem nunca forçar a nota.

 

Chega a ser admirável, aliás, que "MARVIN" consiga manter um tom assumidamente esperançoso sem deixar de ser verosímil, abraçando as personagens mas recusando soluções fáceis (como já acontecia no também meritório "Agnus Dei - As Inocentes", o filme anterior da realizadora). E no final, uma canção de Lisa Gerrard relembra que ainda há por aqui uma bela (e nada óbvia) banda sonora - incluindo o clássico "Sexual Healing", de Marvin Gaye, numa das cenas mais delirantes...

 

 4/5

 

 

O outro lado do paraíso

Começou como um programa de viagens centrado na comunidade LGBTQ, sugerido por Ellen Page, mas resultou num olhar bem mais vasto, incisivo e urgente sobre discriminação e resiliência. Ao fim de duas temporadas, "GAYCATION" já merece ter lugar entre a melhor televisão dos últimos tempos.

 

Gaycation

 

A ideia surgiu de uma proposta de Spike Jonze a Ellen Page, com o realizador a desafiar a actriz para um novo programa da rede VICELAND, da qual é director criativo. E foi colocada em prática a partir de 2015, quando Page e um dos seus melhores amigos, o jornalista e curador Ian Daniel - ambos homossexuais - começaram a percorrer vários destinos turísticos por todo o mundo, daqueles muitas vezes associados a férias de sonho.

 

Mas em vez de um relato de viagens paradisíacas, "GAYCATION" acabou por se afastar da ligeireza de outros formatos televisivos dedicados a férias exóticas, tendo muito pouco de montra turística do circuito LGBTQ. A dupla que conduz os espectadores propõe.antes explorar como é ser gay, lésbica, bi ou transexual em países tão diferentes como o Japão, Brasil, Jamaica ou EUA, destinos da primeira temporada da série, ou a Ucrânia, Índia, França e novamente os EUA - mas com ênfase na realidade sulista -, na segunda época.

 

O cenário, como cada episódio de cerca de 45 minutos vai revelando, está longe de ser idílico, embora o braço de ferro entre a intolerância e os focos de resistência seja variável de local para local, dos quais emergem obstáculos sociais, culturais, políticos ou jurídicos que continuam a condicionar (e em alguns casos, a punir de forma gritante) a liberdade da comunidade LGBTQ (e não só, como olhares laterais sobre o lugar da mulher na Índia ou o de muitos imigrantes nos EUA também atestam).

 

Gaycation Japan

 

Esse ponto de situação raramente terá sido feito de forma tão imersiva como em "GAYCATION", através de um formato que combina os moldes do programa de viagens com linguagens do documentário ou até do reality show (aqui numa manobra arriscada, mas bem sucedida, como quando acompanha um rapaz japonês que revela à mãe que é homossexual sem cair no voyeurismo de outras propostas).

 

A complementar esta abordagem está um rigor jornalístico evidente na pesquisa dos muitos locais em foco, sempre aberta a várias a vozes, incluindo as mais contraditórias. Se é verdade que Ellen Page e Ian Daniel denunciam alguns casos de atentados à dignidade humana, não se ficam pelo apontar de dedo e parecem movidos por uma curiosidade genuína que os leva a tentar dialogar com entidades que são, em parte, responsáveis por essas situações ou que as defendem e encorajam. É o que acontece quanto abordam figuras políticas ou religiosas dos países por onde vão passando (destaque para as questões lançadas por Page a Ted Cruz, com especial eco nas redes sociais), embora o contacto mais desconcertante talvez seja o que a dupla tem com um ex-polícia homofóbico que revela ter assassinado vários homossexuais no Rio de Janeiro.

 

Além do Brasil, onde muitas pessoas trans têm a vida particularmente dificultada (apenas com tréguas parciais no Carnaval), os retratos da Índia e da Jamaica serão os mais vincados pela intolerância, com a pena de morte a surgir entre as ameaças. Mas nem aí "GAYCATION" abdica da empatia e da esperança como motores de um activismo nada fundamentalista e que escapa ao refúgio na vitimização.

 

Gaycation Special

 

Ellen Page e Ian Daniel celebram conquistas em todos os destinos, por mais pequenas que sejam, com cada testemunho angustiante a ser complementado por outros de triunfos individuais, familiares ou comunitários. E quando a dupla partilha algumas das suas próprias experiências, à medida que vai conhecendo as de terceiros, o impacto emocional destas viagens torna-se ainda mais forte. Um dos melhores exemplos é quando Ian regressa à sua cidade natal, no interior dos EUA, e encontra adolescentes tão homofóbicos como os seus colegas durante os tempos de estudante - mas a forma como lida com eles comprova que está aqui uma série capaz de ajudar a mudar alguma coisa.

 

Esclarecedora sem cair em excessos didácticos, contundente sem ser sisuda (e com viragens quase sempre oportunas para momentos espirituosos), "GAYCATION" só se torna desequilibrada em episódios talvez demasiado digressivos, que acabam por deixar algumas figuras e situações por explorar ao terem de saltar para outras. Mas é uma limitação compreensível no meio de tantos retratos conseguidos, sobretudo quando Page e Daniel vão perdendo alguma timidez inicial e revelam maior desenvoltura ao conjugarem os papéis de visitantes, apresentadores, entrevistadores e repórteres (e se o amigo da actriz parece uma presença acessória nas primeiras viagens, conquista o seu espaço nas últimas, chegando a conduzir alguns capítulos sozinho).

 

Complementadas por dois especiais (dedicados ao atentado na discoteca Pulse, em Orlando, e à administração Trump), as duas temporadas de "GAYCATION" podem partir de um universo aparentemente restrito - aqui com uma oportunidade de visibilidade rara -, mas não há motivo para não chegarem a um público mais amplo. Até porque não é fáci encontrar televisão tão socialmente consciente enquanto se mostra capaz de entreter e de comover desta forma - e sempre sem perder de vista o motivo da viagem.

 

"GAYCATION" foi exibida em Portugal no Odisseia.

 

  4/5

 

 

No escurinho da TV

Ao chegar à quarta temporada, "BLACK MIRROR" continua igual a si própria: um dos laboratórios de ideias mais efervescentes do pequeno ecrã, que mesmo quando falha (ou não acerta tanto) é mais desafiante do que quase tudo o resto.

 

Metalhead

 

Os mais cépticos com a mudança da criação de Charlie Booker do Channel 4 para a Netflix podem ficar descansados: a quarta temporada da série britânica arranca com um dos seus melhores episódios de sempre, o que aliás também já tinha acontecido com a anterior (a primeira desenvolvida através do serviço de streaming). Por outro lado, "USS CALLISTER" é tão bom que também acaba por impor um patamar que os restantes cinco capítulos desta safra, estreados a poucos dias do final de 2017, não chegam a atingir por completo - mesmo que alguns sirvam sequências ao seu nível.

 

Carta de amor à ficção científica, o episódio dirigido por Toby Haynes ("Doctor Who", "Sherlock") começa como uma homenagem sentida à saga "Star Trek", mas em vez de se ficar pelo pastiche levezinho (como a também recente "The Orville", série de Seth MacFarlane), deixa um retrato mais inventivo e desconcertante que cruza uma história de solidão com limites éticos associados à inteligência artifical.

 

Black Mirror

 

À medida que acompanha o codirector de uma marca de videojogos e a sua rotina quase inescapável entre o trabalho e o lar, "USS CALLISTER" vai desviando, pacientemente, a simpatia do espectador para os seus colegas - até daqueles que à partida pareciam ostracizá-lo -, através de uma combinação de drama urbano, aventura espacial e um sentido de humor que nunca trai a força da vertente mais angustiante deste relato.

 

Esse tom, impecavelmente gerido por Haynes e auxiliado por um elenco imediatamente icónico (com destaque para Jesse Plemons e Cristin Milioti), é talvez o maior trunfo de uma das ideias mais felizes da ficção científica recente, aqui defendida num episódio mais longo do que o habitual (76 minutos) e quase com fôlego de longa-metragem - ou talvez de super-episódio piloto para um spin-off deste universo do qual já se fala...

 

4,5/5

 

Black Mirror

 

Um arranque do calibre de "USS Callister" já justificaria por si só o regresso de "BLACK MIRROR", mas há mais olhares sobre a relação com a tecnologia a motivar o investimento nesta segunda vida na Netflix. "HANG THE DJ", outra aposta na realidade virtual, leva ao limite a dependência das aplicações de encontros num embate contínuo entre romantismo e frustração. Realizado por Tim Van Patten ("BoarDwalk Empire", "Os Sopranos") e protagonizado pelos óptimos Georgina Campbell ("Murdered by My Boyfriend") e Joe Cole ("Peaky Blinders"), que mantêm uma química decisiva para o resultado final, o quarto episódio da temporada é bem capaz de ser a comédia romântica mais contagiante de 2017. não admira que muitos fãs o encarem como descendente espiritual de "San Junipero", capítulo de referência da série (e em modo optimista, uma raridade).

 

 4/5

 

Crocodile

 

Num comprimento de onda completamente diferente, "CROCODILE" é um exemplo das visões mais pessimistas e sufocantes de "BLACK MIRROR", à medida de um realizador como John Hillcoat ("A Proposta", "Dos Homens Sem Lei"), que assina este ensaio sobre culpa sem redenção possível. O que começa com um homicídio involuntário torna-se num ciclo alimentado pelo confronto entre o remorso e a auto-preservação, exercício de suspense de cortar à faca que ameaça cair num calculismo demasiado denunciado mas é salvo, em grande parte, pela excelência da actrizes protagonistas - Andrea Riseborough num papel tão ingrato como marcante, Kiran Sonia Sawar a dar algum capital de simpatia a um dos contos mais negros de Charlie Booker.

 

 3/5

 

Metalhead

 

Negríssimo é também "METALHEAD". Literalmente, até, pela fotografia a preto e branco (com curiosas variações púrpura) a forrar uma abordagem com aura de série B pós-apocalíptica, despachada nuns muito sucintos 41 minutos. Em parte uma variação de "Alien" - protagonista continuamente perseguida por criaturas mortíferas num cenário inóspito -, surge como confirmação algo tardia do que de muito bom se dizia de David Slade na altura do seu primeiro filme, "Hard Candy" (2005), antes de o britânico ter chegado à saga "Twilight". Mas aqui parece ter reencontrado o seu lado primitivo e impiedoso, numa das viragens mais inesperadas da colheita recente de "BLACK MIRROR".

 

 3/5

 

Arkangel

 

Embora estes quatro episódios mostrem a série no seu melhor ou, pelo menos, num patamar recomendável, a nova temporada acaba por ser algo irregular, aliás como as anteriores. "ARKANGEL", drama entre mãe e filha ancorado nas possibilidades e ameaças do controlo parental, segue-se com algum interesse (ter Rosemarie DeWitt entre as protagonistas ajuda), mas Jodie Foster parece não ter mão para levar esta história para territórios tão inexplorados quanto isso. O problema nem é que a tecnologia aqui lembre a do superlativo "The Entire History of You", outro mergulho em memórias alheias avançado por "BLACK MIRROR", antes a forma previsível e até moralista como a realizadora a trabalha - e sobretudo como encerra um drama a caminho do dramalhão -, mesmo que este argumento de Booker também não seja dos mais aventureiros.

 

 2,5/5

 

Black Mirror

 

Pouco entusiasmante é também "BLACK MUSEUM", capítulo ambicioso mas que nunca consegue dar grande densidade às suas personagens. Pelo contrário, é dos casos em que estas são pouco mais do que marionetas de conceitos especialmente extremos, algures entre o terror gráfico q.b. e a sátira escarninha uns tons ao lado. Fechar uma temporada de uma série antológica com uma antologia de três histórias é apenas o ponto de partida do episódio mais auto-referencial de "BLACK MIRROR", assinado por Colm McCarthy ("Peaky Blinders", "Injustice"), embora as piscadelas de olho aos fãs não cheguem a aprimorar uma combinação requentada - com cereja em cima do bolo numa reviravolta final inócua e facilmente antecipável.

 

 2/5

 

As quatro temporadas de "BLACK MIRROR" estão disponíveis na íntegra na Netflix.