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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Reino animal

Drama contemplativo e ocasionalmente espirituoso, olhar intrigante de uma realizadora sobre o universo masculino, "WESTERN" vai revelando aos poucos porque é que Valeska Grisebach é das cineastas mais aplaudidas do novo cinema alemão.

 

Western

 

Apesar de só agora chegar ao circuito comercial português, "WESTERN" foi dos filmes mais celebrados de vários festivais no ano passado (chegou a passar por cá no Lisbon & Sintra Film Festival) e tem sido, para muitos, a confirmação do talento de Valeska Grisebach, que há cerca de dez anos se destacou entre os realizadores-chave da Nova Escola de Berlim.

 

Felizmente, o terceiro filme da cineasta alemã confirma-se uma experiência bem mais aliciante do que o anterior, o já distante "Sehnsuch" (de 2006, exibido em Portugal no IndieLisboa e na KINO), que não levava o seu realismo quase documental a territórios muito férteis. O novo drama partilha de alguma dessa atmosfera, mas se ainda aposta num tom cerebral esquiva-se à auto-indulgência ao aliar rigor, tensão e um humor em lume brando numa variação inspirada e personalizada da premissa "estranho numa terra estranha".

 

Centrando-se num núcleo de personagens dominado por homens, Grisebach acompanha um grupo de trabalhadores alemães que chegam ao interior da Bulgária para a construção de uma central hidroeléctrica. E vai acompanhando também o misto de estranheza e desconfiança que molda a relação dos forasteiros com a comunidade, revelando aí a razão de ser do título do filme. Neste "WESTERN" não há índios nem cowboys, mas como alguém diz a certa altura, a lógica do "matar ou ser morto" tende a instalar-se quando a animosidade se torna mais conturbada devido a uma limitação do abastecimento de água.

 

Western 2

 

Entre a fronteira desse conflito está Meinhard, o operário mais circunspecto e observador, que vai criando laços com elementos da população e faz também a ponte entre o espectador e os residentes. O protagonista pede emprestado o nome ao actor (não profissional) Meinhard Neumann e fica por saber até que ponto o primeiro é uma extensão do segundo, mas Grisebach sabe como tirar partido do seu underacting para ir subvertendo expectativas - tanto sobre os códigos comportamentais masculinos (especialmente em tempos onde se discute a masculinidade tóxica) como sobre as crónicas de aproximação cultural que parecem rumar ao caos civilizacional.

 

Olhar sobre o outro atravessado por uma sensação de paz armada, "WESTERN" é um drama implosivo que por vezes ameaça esgotar-se no exercício de estilo, embora Grisebach se esquive a simplificações enquanto aborda um jogo de poder movido por alguma sobranceria inicial (de parte das personagens alemãs) e, no limite, pelo instinto de sobrevivência. E se o desfecho pode ser acusado de ser anti-climático (ainda que deliberadamente), o que está para trás - das sequências com um cavalo a algumas cumplicidades inesperadas - impede que este seja filme a esquecer facilmente à saída da sala.

 

3,5/5

 

 

O escritor fantasma

Uma das melhores estreias deste Verão cinematográfico é também das mais discretas. Primeira obra da japonesa Miwa Nishikawa a chegar às salas nacionais, "A ETERNA DESCULPA" revela-se um pequeno grande filme entre o luto e a redenção enquanto apresenta uma realizadora a descobrir.

 

A Eterna Desculpa

 

Miwa Nishikawa está longe de ser uma novata e não falta quem a aponte como um dos nomes a seguir do cinema nipónico actual, mas apesar de contar com vários filmes no currículo ainda nenhum tinha chegado ao circuito comercial português. "A ETERNA DESCULPA", o mais recente, até estreia por cá com dois anos de atraso, embora ainda venha a tempo de se juntar às maiores surpresas da temporada. E dá vontade de ir espreitar os seis que estão para trás, provas de um percurso prolífico que arrancou no princípio do milénio.

 

O universo do conterrâneo Hirokazu Koree-da pode ser uma boa porta de entrada, não só porque Nishikawa se iniciou no cinema como assistente de realização do autor de "Ninguém Sabe" e "O Meu Maior Desejo", mas também porque, a julgar por "A ETERNA DESCULPA", a realizadora e argumentista tem predilecção por dramas subtis e intimistas, em torno de relações familiares atribuladas e credíveis. E pelo menos no seu filme mais recente, a cineasta pode orgulhar-se de ser tão ou mais envolvente do que o mentor num dia inspirado.

 

O resultado até se mostra, aliás, francamente preferível a "O Terceiro Assassinato", o desapontante e incaracterístico filme de Koree-da que estreou em Portugal este ano. Em vez de se preocupar com malabarismos do argumento, Nishikawa aposta num estudo de personagens encabeçado por um escritor mediático e egocêntrico, que se vê obrigado a reconsiderar o seu lugar no mundo depois da morte da mulher num acidente.

 

A Eterna Desculpa 2

 

Mas se este ponto de partida pode sugerir estar aqui mais um filme sobre a dor do luto, "A ETERNA DESCULPA" arrisca mais do que outros ao seguir um protagonista que não mendiga a simpatia do espectador. Pelo contrário: no momento em que o autocarro da sua mulher se despenhava, Sachio estava em casa com a amante. E a notícia da morte não o abala tanto como as suas entrevistas televisivas dão a entender, num contraste que dá logo conta do jogo entre pespectiva compreensiva da realizadora e o cinismo (continuamente retratado) da personagem principal.

 

Embora Nishikawa exponha as falhas de carácter e contradições do protagonista, nunca se coloca acima dele nem se limita a adocicar uma figura pouco empática numa história de auto-descoberta e redenção de unir os pontos. E se aos poucos o quotidiano de Sachio se vai abrindo a algum altruísmo, à medida que a tragédia o leva a conhecer uma nova família, a espessura emocional de "A ETERNA DESCULPA" não se contenta com epifanias fáceis nem perde de vista o que é, acima de tudo, um olhar complexo (às vezes até inesperadamente duro) sobre a solidão.

 

A Eterna Desculpa 3

 

Ainda assim, é um olhar mais esperançoso do que pessimista, complementado por uma perspicácia e atenção ao detalhe capaz de integrar um retrato das clivagens sociais, do fosso entre a vida pública e privada ou da forma como a vida alimenta a arte (ou como a "persona" mais aberta do escritor pode ser só uma jogada oportunista, sobretudo em fase de bloqueio criativo). Torna-se legítimo que o espectador fique de pé atrás em relação às motivações do protagonista, mas torna-se igualmente difícil não aderir às cenas deste com as duas crianças que acabam por ir fazendo parte do seu dia-a-dia sem pedirem licença.

 

Essas sequências domésticas, as mais prosaicas, são também as mais comoventes (e/ou espirituosas) de um drama muito bem defendido por uma realizadora sempre capaz de encontrar o tom certo (o facto de adaptar aqui o seu próprio romance, homónimo, talvez ajude) e de um elenco que lhe dá vida e autenticidade logo ao primeiro impacto (com destaque para o protagonista, Masahiro Motoki, num daqueles desempenhos que decide se o filme triunfa ou falha, e para a jovem revelação Kenshin Fujita, um adolescente obrigado a crescer muito em pouco tempo). Belíssima estreia, portanto - e limitações da distribuição à parte, não há mesmo desculpa para a perder...

 

4/5

 

 

Um anjo na Terra

Do realismo social ao realismo mágico, com passagens pelo filme de super-heróis, thriller, alegoria religiosa ou buddy movie... "A LUA DE JÚPITER", de Kornél Mundruczó, nem sempre conjuga estes universos de forma muito coesa, mas é das aventuras mais delirantes que chegaram às salas nos últimos tempos.

 

A Lua de Júpiter

 

Depois de ter imaginado um mundo pós-apocalíptico literalmente entregue aos bichos - no caso, aos cães - no seu filme anterior, "Deus Branco" (2014), Kornél Mundruczó mostra-se tão ou mais idiossincrático no seu novo empreendimento. E mais uma vez, o realizador húngaro volta a colocar em jogo temas "actuais" sem cair no realismo árido, para não dizer sisudo e pesadão, de alguns autores contemporâneos - não é preciso ir mais longe do que outra estreia recente, o tão redundante "Uma Mulher Doce", de Sergey Loznitsa, mais um diagnóstico pessimista e esquemático da sociedade russa.

 

Não é que o retrato que "A LUA DE JÚPITER" faz da Hungria actual seja o mais abonatório, pelo contrário. O filme até é bastante frontal na denúncia de um sistema corrupto, da intolerância a vários níveis à troca de favores descarada, que se torna ainda mais frágil quando tem de lidar com a crise de refugiados dos últimos anos. Mas não só Mundruczó ainda vai conseguindo encontrar alguns raios de luz entre esse mal-estar como o faz com uma audácia narrativa atípica - e só por si já digna de nota - que consegue chegar a bom porto.

 

A Lua de Júpiter 2

 

A sequência de abertura, trepidante, acompanha Aryan, um jovem sírio (a escolha do nome não será acidental numa história marcada pela xenofobia) que tenta passar a fronteira para a Hungria e é baleado por um guarda. Mas o que aparentava ser um drama cru sobre migrantes ilegais rapidamente muda as regras quando o protagonista, além de sobreviver aos disparos, descobre que consegue levitar. E depois de entrar em cena um médico de moral dúbia que promete ajudá-lo, "A LUA DE JÚPITER" propõe um jogo do gato e do rato com uma narrativa de sinais reconhecíveis (não anda assim tão longe de muitos policiais) mas condimentos bem peculiares.

 

Se as capacidades especiais de Aryan abrem caminho para uma aventura de super-heróis, o resultado não poderia estar mais longe das ficções da Marvel ou da DC. A abordagem de Mundruczó terá mais em comum, quando muito, com as sugestões de realismo de "O Protegido", de M. Night Shyamalan, ou "Crónica", de Josh Trank, ainda que esta atmosfera seja mais suja e palpável. E como o realizador é particularmente selecto nas cenas em que o protagonista usa o seu "superpoder", a capacidade de maravilhamento acaba por sair reforçada nas sequências de antologia que o filme oferece: seja aquela que segue a lenta descida de um prédio do protagonista, enquanto o espectador vislumbra os moradores à janela (descendência do também incrível videoclip de "Protection", dos Massive Attack, assinado por Michel Gondry?), seja a que vira um apartamento do avesso sem repetir a estratégia até que o efeito se esgote (como às vezes acontecia em "A Origem", de Christopher Nolan).

 

Momentos como esse ou como outros, mais habituais, em que o protagonista levita em planos aéreos dominados por arranha-céus, são um belo contraste com a descida à terra de "A LUA DE JÚPITER", em modo mais nervoso e sufocante, na qual o argumento nem sempre é tão inspirado (a dinâmica entre um Aryan "puro" e o médico anti-herói acaba por ser previsivível q.b.), embora o olhar de Mundruczó consiga torná-lo empolgante.

 

A Lua de Júpiter 3

 

As cenas aladas podem ser das mais fortes, mas o realizador é capaz de captar um cenário urbano vivo e sinuoso, não faltando sequer uma excelente perseguição automóvel no final - e das mais minimalistas, já que só precisa de uma câmara e tira dela o maior partido para uma das injecções de adrenalina mais fortes. Alguns momentos anteriores já tinham confirmado, de resto, que o cineasta se sente à vontade nos planos-sequência, e essa energia visual acaba por compensar largamente algumas limitações - como a da dobragem mal disfarçada de uma das figuras principais, ironicamente o pormenor que mais compromete a suspensão da descrença de uma história com liberdades narrativas consideráveis.

 

Apesar desta mistura de géneros poder não ser para todos os gostos, ajuda que as personagens sejam de carne e osso e os actores também. E se Zsombor Jéger, a fazer lembrar um Gabriel Garcia Bernal mais jovem, é competente e empático como Aryan, os maiores trunfos do elenco serão os veteranos Merab Ninidze, com ecos de fura-vidas de um film noir promovido a anjo da guarda, e György Cserhalmi, o incansável vilão de serviço com mais zonas de sombra (e luz) do que os que têm chegado dos lados de Hollywood.

 

É para os EUA, aliás, que Mundruczó segue já no próximo filme - "Deeper", com Bradley Cooper e Gal Gadot - e não é nada improvável que "A LUA DE JÚPITER" ganhe uma versão norte-americana um dia destes. Mais um motivo para ver agora a original, então, que de oferta requentada já estão muitas salas cheias...

 

3,5/5

 

 

"A Lua de Jupiter" fica disponível em DVD, nos videoclubes das televisões e no Filmin a 14 de Junho.

 

A nova turma satisfaz, mas não brilha tanto

Laurent Cantet costuma ser um realizador a ter em conta e "O WORKSHOP" não é excepção, mesmo que o seu novo filme - em parte um sucessor espiritual de "A Turma" - seja mais certeiro no arranque do que no desfecho.

 

Workshop

 

Não parece haver grande volta a dar: "A Turma" (2008) deixou uma marca tão forte no percurso de Laurent Cantet que cada novo filme seu é quase inevitavelmente comparado a esse, um dos melhores retratos da juventude multicultural e das convulsões do sistema de ensino dos últimos anos. Não que o cineasta francês tenha assinado assim tantos desde aí: à curta incluída em "7 Dias em Havana" (2012) sucederam-se apenas "Foxfire - Raposas de Fogo" (2012) e "Regresso a Ítaca" (2014), todos com a particularidade de terem sido rodados fora de portas, ao contrário de "Recursos Humanos" (1999) ou "O Emprego do Tempo" (2001), através dos quais Cantet se notabilizou na viragem do milénio.

 

"O WORKSHOP", contudo, não só assinala o regresso a realidades e cenários franceses como é o filme que mais força a comparação a "A Turma", sobretudo numa primeira metade que retoma a dinâmica escolar com cenas assentes em diálogos por onde passam tensões culturais, sociais e económicas. E aí o realizador mostra-se completamente à vontade, sabendo levar a discussão à mesa sem impor pontos de vista enquanto tira partido da espontaneidade de um elenco de jovens actores não profissionais. A excepção é a já experiente Marina Foïs, na pele de romancista que coordena o curso de escrita criativa durante um Verão numa pequena cidade portuária próxima de Marselha.

 

Workshop 2

 

Embora o arranque do filme sugira estar aqui outro retrato de grupo, à semelhança de "A Turma" ou "Regresso a Ítaca" (este ainda mais ancorado em longas sequências de conversas), a narrativa torna-se menos familiar ao juntar uma reflexão sobre os códigos da escrita de um romance (em especial de tom policial) a um ensaio sobre a disseminação de ideias de extrema-direita (sobretudo junto de um público jovem e com as ferramentas virtuais como aliadas), à medida que a acção se vai concentrando na relação conturbada entre a professora e o aluno que mais a desafia e questiona.

 

A curiosidade misturada com crispação acaba por ir instalando uma dinâmica quase obsessiva, ou pelo menos voyerista q.b., e leva "O WORKSHOP" a desviar-se de proposta realista rumo a um exercício de suspense com qualquer coisa de metaficcional. Mas o desfecho, se por um lado consegue evitar os caminhos mais óbvios, fica aquém do que está para trás - bem mais consistente, estimulante e sem tentações de querer esmiuçar e explicar as motivações de uma personagem-problema.

 

Workshop 3

 

No final, Cantet e o co-argumentista Robin Campillo (realizador dos recomendáveis "Eastern Boys" e "120 Batimentos por Minuto") ainda conseguem garantir que o resultado mantenha alguma ambiguidade, mesmo que um filme como o também recente "Esta É a Nossa Terra", de Lucas Belvaux, seja mais complexo na abordagem às ramificações da extrema-direita e da ameaça terrorista na França actual ou que "Dentro de Casa", de François Ozon (outro conterrâneo), tenha um maior fulgor criativo ao conjugar realidade e ficção (a luz de outro dos seus filmes, "Swimming Pool", também parece iluminar algumas sequências deste mistério de ambiente veraneante).

 

Por outro lado, sempre é preferível um falhanço relativo destes - que torna "apenas" bom o que podia ser óptimo - do que a falta de risco de tanta oferta genérica, muitas vezes com estreias mais celebradas todas as semanas. E é também por isso que "O WORKSHOP", não sendo o melhor Cantet, continua a ser filme a não deixar passar ao lado - de preferência no grande ecrã.

 

 3/5