Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Homens à beira de um ataque de nervos

Uma crise de meia-idade, um mergulho na culpa e um relato amoroso, todos no masculino e filmados por três veteranos que estão de volta este ano: Pedro Almodóvar, Marco Bellocchio e Woody Allen. O resultado é "DOR E GLÓRIA", "O TRAIDOR" e "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", respectivamente.

Dor e Glória.jpg

"DOR E GLÓRIA", de Pedro Almodóvar: É estranho ver este drama ser tão louvado por vincar um suposto renascimento das carreiras do autor de "Tudo Sobre a Minha Mãe" e de Antonio Banderas. A última colaboração da dupla, em "A Pele Onde Eu Vivo" (2011), não só não tinha sido assim há tanto tempo como havia resultado numa obra que ia bastante mais longe no mergulho no trauma e noutros abismos emocionais. E sente-se falta de alguma dessa aspereza num filme que é, às vezes, mais interessante pelos paralelos entre o percurso do protagonista (um realizador veterano solitário e depressivo) e o de Almodóvar, numa espécie de autobiografia não oficial, do que pela(s) história(s) que conta.

Há várias sequências fortes, entre confrontos profissionais, amorosos e familiares, e a direcção artística é das mais esmeradas e facilmente reconhecíveis do cineasta espanhol - com destaque para um apartamento luxuoso, onde decorre a acção no presente, e uma cave transformada num lar, nas cenas que recuam à infância. Mas também há uma facilidade nem sempre muito credível (e até inesperadamente ligeira) na superação dos conflitos - da crise de inspiração ao mergulho nas drogas -,  que deixa o todo aquém da urgência de um testemunho como "Má Educação", talvez o filme de Almodóvar cujo argumento mais se aproxima deste olhar sobre (des)encontros no masculino.

De resto, sim, Antonio Banderas é convincente e comovente enquanto personagem-espelho do realizador (acabou premiado como Melhor Actor em Cannes) e Penélope Cruz volta a dar-se bem na nova colaboração com alguém que sabe sempre tirar o melhor dela (mesmo que aqui não acrescente muito a parceiras anteriores). Um reencontro a saudar, é certo, mas distante de uma epifania.

3/5

O Traidor.jpg

"O TRAIDOR", de Marco Bellocchio: Um dos melhores biopics do ano (senão mesmo o melhor, merecidamente nomeado para a Palma de Ouro em Cannes) é também uma prova de que ainda é possível fugir aos estereótipos do "filme da máfia". E o retratado, Tommaso Buscetta, merece figurar entre os anti-heróis (ou vilões?) mais fascinantes dos últimos tempos, já que Bellocchio nunca olha de cima para o criminoso tornado informador numa denúncia histórica que atingiu, como poucas, a Cosa Nostra (a máfia siciliana).

Ao longo de quase duas horas e meia, esta combinação de drama e thriller recusa uma narrativa polida e formatada,  percorrendo vários anos da vida do protagonista e recompensando a atenção do espectador (sem se preocupar com uma insistência de explicações de contexto). Implacável na radiografia de um sistema corrupto, o realizador veterano viaja aqui entre a sua Itália natal, o Brasil e os EUA com uma fluidez que só não se mantém em duas ou três das muitas cenas de tribunal - cuja atmosfera de selva civilizacional, tão trágica como cómica, está entre as maiores singularidades do filme mas poderia sair reforçada com alguma economia narrativa. Em compensação, não faltam sequências de recorte superior, sobretudo momentos estratégicos de suspense e acção que mostram o octogenário num pico de forma - caso de uma cena de chantagem num helicóptero e, sobretudo, de um acidente automóvel filmado com um cruzamento invejável de criatividade e adrenalina.

Além deste olhar de cinema duro e adulto como poucos, "O TRAIDOR" eleva-se pela interpretação de Pierfrancesco Favino (actor que já tinha sido decisivo em "Suburra" ou "Saturno Contro"), capaz de moldar o protagonista enquanto figura ambígua, magnética e indecifrável - mas empática q.b.. E assinala aqui um dos grandes regressos de 2019, depois do menos entusiasmante "Sonhos Cor-de-Rosa" (2016).

4/5

Um Dia de Chuva em Nova Iorque.jpg

"UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", de Woody Allen: O título até parece ter qualquer coisa de premonitório, tendo em conta que esta comédia é o exemplo mais recente de um realizador a chover no molhado. Woody Allen pode ir buscar novos rostos para o seu cinema, mas o tema e a abordagem continuam os mesmos de sempre, num filme new yorker a deixar a enésima carta de amor à cidade que nunca dorme.

O brilho da direcção de fotografia de Vittorio Stotaro é inegável, embora saia desperdiçado numa historinha de unir os pontos sobre um jovem casal universitário durante uma visita atribulada a Nova Iorque. Timothée Chalamet dá corpo ao protagonista erudito e neurótico, seguindo um modelo em tempos encarnado por Allen, que tem aqui direito a uma lição de vida. Elle Fanning interpreta a sua namorada, cujo contacto (e deslumbramento) com figuras da elite intelectual lhe baralha as prioridades. Mas nenhum destes arcos narrativos é especialmente aliciante, com desvantagem para o dela, basicamente um concentrado de encontros com figuras caricaturais que não vão além de manobras de sedução. Fanning, de resto, também não consegue dar grande espessura à sua personagem, ficando-se pelo refúgio em tiques e gestos, ainda que o principal culpado seja um argumento genérico.

Nem os diálogos são muito memoráveis, ficando o factor surpresa limitado a Selena Gomez, com o desempenho menos afectado e uma das poucas personagens interessantes, e a uma cena do protagonista com a mãe, perto do desenlace, com uma carga emocional que parece pertencer a outro filme (mais bem escrito e interpretado). Apesar da polémica à volta da estreia (descartada nos EUA), "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE" é das obras mais inócuas do seu autor.

2/5

Os ricos e os pobres

São dos filmes mais falados dos últimos tempos, por motivos muito diferentes, mas todos acabam por ter a luta de classes entre os pontos-chave: "JOKER", "OUSADAS E GOLPISTAS" e "PARASITAS", três estreias que marcam a recta final de 2019.

Joker.jpg

"JOKER", de Todd Phillips: Há que aplaudir a audácia de um filme que tenta fugir à fórmula de boa parte das aventuras cinematográficas da Marvel e da DC. Esta origem de um dos maiores vilões do universo dos super-heróis não é (e mostra que não quer ser) a dose de mais do mesmo da temporada. Só que daí a ser um grande filme, ou mesmo um filme especialmente conseguido, ainda vai uma certa distância. E por muito que o realizador de "A Ressaca" aponte agora a Nova Hollywood e, em especial, obras de referência de Martin Scorsese como inspirações (inesperadas, admita-se, tendo em conta o seu currículo), a abordagem acaba por ser mais adolescente do que adulta, ainda que essa caução cinéfila seja aliciante para alguns - e até inclua a "benção" de Robert De Niro, cuja participação reforça os ecos de "Taxi Driver" ou "O Rei da Comédia" neste mergulho na solidão e indiferença urbanas.

Sim, é difícil não reconhecer a entrega de Joaquin Phoenix, embora a câmara fique tão deslumbrada com o seu corpo e esgares que se esquece de olhar com atenção para os secundários, peões ao serviço de uma retórica sisuda, repetitiva e sem grandes subtilezas - veja-se o discurso do protagonista numa das últimas cenas, a explicar palavra por palavra o que as quase duas horas anteriores já tinham salientado. No final, ao extremar tanto o olhar sobre as tensões sociais a partir de uma Gotham City atípica (mais próxima da Nova Iorque suja e agreste de thrillers dos anos 70), marcando um fosso intransponível entre ricos e pobres, "JOKER" não escapa ao maniqueísmo das histórias de super-heróis das quais pretende distanciar-se.

A intriga com mistério telenovelesco centrada na família Wayne também não ajuda, nem uma reviravolta que Phillips não resiste a desvendar com uma recapituação para o espectador menos atento, gestos que vão diluindo a perspicácia sugerida noutras sequências (como algumas das que denunciam o impacto da doença mental num homem com um quotidiano já de si conturbado). E depois também é muito difícil imaginar que este Arthur Penn vai algum dia tornar-se numa figura impenetrável, caótica, arrepiante e calculista como a que Heath Ledger encarnou de forma tão singular. Apesar do arrojo em fugir à linha de montagem hollywoodesca, este Joker perturba muito pouco...

2,5/5

Ousadas e Golpistas.jpg

"OUSADAS E GOLPISTAS", de Lorene Scafaria: Óscar para Jennifer Lopez? Ou nomeação, pelo menos? Essa expectativa tem alimentado as atenções em torno deste curioso filme de golpe baseado num caso real, mas até é Constance Wu quem mais sobressai ao longo do mergulho no submundo nova-iorquino. Não que J-Lo esteja mal, sobretudo porque assume aqui uma personagem mais interessante do que aquelas a que nos tem habituado, na pele de uma stripper que prepara um esquema para seduzir, drogar e roubar corretores de Wall Street.

Lopez, que também assume a função de produtora executiva, tem ainda a seu favor a química que nasce da sua relação com a co-protagonista, na medida certa entre a cumplicidade e a disputa, e a desenvoltura de uma realizadora que recusa olhar para estas mulheres apenas enquanto manipuladoras ou vítimas do sistema.

Filme surgido da ressaca da crise financeira de 2008, "Ousadas e Golpistas" é, felizmente, mais conciso do que "O Lobo de Wall Street" e menos esquemático do que "A Queda de Wall Street" (cujo realizador, Adam McKay, está aqui ao lado de Lopez ou de Will Ferrell na produção executiva). E também sabe fugir ao empoderamento feminino feito com mão pesada que tornou os também recentes "Viúvas" e "The Kitchen - Rainhas do Crime" em experiências frustrantes.

Através do percurso de Wu, cuja personagem conduz esta narrativa inspirada num artigo da New York Magazine, Scafaria molda um relato astuto e envolvente, auxiliado por uma montagem enérgica mas não gratuita e uma das bandas sonoras mais certeiras dos últimos tempos (de Janet Jackson a Fiona Apple, de Britney Spears aos Soulwax).

É verdade que o argumento nunca chega a explorar as outras mulheres do gangue como a dupla protagonista, que as muito faladas presenças de Cardi B e Lizzo são pouco mais do que cameos e que uma das últimas aliadas do golpe, de tão destrambelhada, torna a acção inverosímil em algumas sequências. Mas não deixa de estar aqui uma boa surpresa, e com mais rasgo do que muita produção mainstream norte-americana dos últimos meses.

3/5

Parasitas.jpg

"PARASITAS", de Bong Joon-ho: O que é admirável no novo filme do cineasta sul-coreano nem é tanto a mistura de géneros, aliás já habitual na obra do autor de "Expresso do Amanhã" ou "The Host - A Criatura", mas a mestria com que é desenvolvida numa das suas obras mais memoráveis. E também uma das melhores do ano, ao partir de duas famílias de Seul com origens sociais bem diferentes que o destino (e alguma chico-espertice do clã mais humilde) se encarregará de entrecruzar.

A viagem entre a comédia negra e o thriller, com desvios ocasionais pelo terror (sangrento q.b., fica o aviso), segue num sentido a milhas da contenção de "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões", de Hirokazu Koreeda, outro olhar recente sobre uma família asiática empobrecida que fugia aos caminhos mais óbvios do realismo social. Ao longo de mais de duas horas, Bong Joon-ho não perde a mão e consegue ir surpreendendo até o espectador mais habituado às reviravoltas que os seus filmes costumam servir.

O resultado é tão lúdico como angustiante, entretenimento de topo e capaz de agradar a vários públicos sem perder de vista a capacidade de observação sobre o fosso económico da capital da Coreia do Sul - e não muito diferente do de outras metrópoles. "PARASITAS" pode até nem dizer nada de novo, mas têm surgido poucos filmes tão engenhosos e contundentes, que revelem um cineasta tão hábil na manipulação do espectador, recompensando-o com uma experiência que vai muito além de um exercício de estilo.

Abrilhantando por um elenco sem falhas e uma direcção artística à altura (a casa na qual decorre a maior parte da acção é todo um novo mundo por explorar), ainda consegue dar tempo e espaço e todas as personagens (e são muitas), motores de um conflito mais ambivalente do que aquele que o arranque sugere. Uma das estreias imperdíveis de 2019, portanto, e das mais desconcertantes.

4/5

Contra os homens que odeiam as mulheres

"A GANHA-PÃO", "LES HIRONDELLES DE KABOUL" e "WARDI", três retratos no feminino, todos de animação e ambientados no Médio Oriente. E todos a recusar estereótipos de "mulheres fortes" ou do feminismo encomendado pelo politicamente correcto. Um está disponível na Neflix, os outros são dos melhores motivos para não deixar passar a Festa do Cinema Francês.

A Ganha-Pão.jpg

"A GANHA-PÃO", de Nora Twomey: Apesar de ter sido nomeada para o Óscar de Melhor Filme de Animação em 2017 (acabaria por perder para "Coco") e de contar com produção executiva de Angelina Jolie,  esta história decorrida em Cabul só chegou ao circuito comercial nacional este ano, e com uma passagem curta pelas salas (depois de ter sido exibida na Monstra em 2018, de onde saiu com o Prémio do Público). Mas está disponível no catálogo da Netflix e merece ser descoberta, ao deixar um relato do dia-a-dia no Afeganistão, em 2001, a partir da experiência de uma menina de 11 anos que decide fazer-se passar por rapaz quando o pai é preso, na tentativa de sustentar a mãe e os irmãos - uma vez que as mulheres não podem sair à rua sem estarem acompanhadas por um homem, sob pena de serem detidas, torturadas ou até mortas pelos talibãs. Entre o realismo possível para uma proposta que se dirige a toda a família e tons de fábula, a segunda longa-metragem da realizadora irlandesa (depois de "The "Secret of Kells", de 2009, co-realizada com Tomm Moore) é uma obra tão segura na vertente visual como no argumento, ainda que as duas aventuras que conta em paralelo não entusiasmem da mesma forma - a urgência do quotidiano da protagonista acaba por sair diluída quando entra em cena a história infantil de inspiração folclórica partilhada com o irmão mais novo. A alternância, no entanto, torna a animação mais contrastante e imaginativa, ao optar por estilos diferentes em cada enredo, numa variação bem-vinda face à oferta dos grandes estúdios. E capaz de dar novas cores e tons a um relato palpável e comovente.

3/5

LES HIRONDELLES DE KABOUL.jpeg

"LES HIRONDELLES DE KABOUL", de Eléa Gobbé-Mévellec e Zabou Breitman: Tal como "A Ganha-Pão", esta é uma história ancorada na capital do Afeganistão, durante a ocupação talibã, mas será uma proposta menos aconselhável para toda a família. O nível de violência - psicológica e gráfica - atinge outros patamares e o retrato é bem mais pessimista, ao mergulhar num sistema opressivo que deixa a maioria das personagens num beco sem saída, e com apenas uma réstia de esperança à tona. O desenho de uma comunidade submetida à violência (especialmente sentida pelo sexo feminino) parte dos dilemas de dois casais: um mais jovem, liberal e optimista, que vai encontrando na arte um escape para uma realidade conturbada; e outro de meia-idade, composto por um guarda prisional resignado e uma mulher que luta contra um cancro sem grande apoio do marido. O argumento, baseado no romance homónimo de Yasmina Khadra (editado em 2002), encarregar-se-á de cruzar os destinos destes quatro protagonistas, numa jornada de culpa e redenção, mudança e sugestões de segundas oportunidades, tornada singular pela parceria entre Breitman (realizadora de "O Homem da Sua Vida" ou da série "Paris etc", a estrear-se aqui na animação) e Gobbé-Mévellec (na sua primeira experiência como realizadora depois de um percurso nas artes gráficas). A singularidade reflecte-se na narrativa, capaz de acolher uma ambiguidade moral considerável (sobretudo nas personagens masculinas), e na vertente visual, com um estilo a remeter para a pintura com aguarelas. E resulta num filme tão angustiante como belo, merecidamente premiado no Festival de Animação de Annecy em 2018 e nomeado para a secção Un Certain Regard, em Cannes, este ano.

3,5/5

Wardi.jpg

"WARDI", de Mats Grorud: Primeira longa-metragem de um realizador norueguês que tinha despertado atenções nas curtas, este drama denuncia esse passado ao insistir numa estrutura episódica, com várias histórias dentro de um quadro geral. Mas essa opção será mais feitio do que defeito de um filme ambicioso e refrescante, que investe numa saga familiar ao longo de quatro gerações de palestinianos obrigados a procurar abrigo num campo de refugiados no Líbano. Poderá acusar-se Grorud de dar um retrato apenas parcial do conflito israelo-árabe, filtrado pelo olhar de uma menina de ascendência palestiniana que vai conhecendo as origens dos seus familiares (e levando o espectador nessa descoberta, que é também um adeus progressivo à inocência). Só que o realizador está mais interessado em dar conta dos traumas da guerra, e das várias e diversas repercussões que podem ter, do que propriamente em levantar qualquer bandeira. "Só odeio os israelitas que nos querem matar", diz a tia da protagonista a certa altura, num dos desabafos que demoverão quem quiser encontrar aqui tentações panfletárias. Por outro lado, não falta empatia pelas vítimas de um conflito sem fim à vista, ancorado em estudos de personagem que conciliam amargura, resiliência e cumplicidade. Esse humanismo sai a ganhar por um cruzamento invulgar de animação (tanto de stop motion como 2D) e imagem real (de base documental), conjugação que nunca passa por ostensiva e revela critério na escolha de cada técnica. Nada mal para uma estreia nas longas-metragens...

3,5/5

"LES HIRONDELLES DE KABOUL" e "WARDI" fazem parte da programação da 20.ª edição da FESTA DO CINEMA FRANCÊS.

Filmes para toda(s) a(s) família(s)

De volta à Invicta para a quinta edição, o QUEER PORTO decorre de 16 e 20 de Outubro no Teatro Rivoli, Maus Hábitos e Reitoria da Universidade do Porto e é dedicado aos 50 anos dos motins de Stonewall. Mas o programa também passa por outras épocas e espaços - alguns recentes e familiares, como os de três filmes da secção competitiva que prometem valer a visita.

A Dog Barking at the Moon.jpg

"A DOG BARKING AT THE MOON", de Xiang Zi: Inspirada nas experiências da realizadora chinesa radicada em Espanha, que se estreia aqui nas longas-metragens depois de um longo percurso nas curtas, esta é história de uma família disfuncional que percorre várias décadas e cuja tensão deriva do relacionamento conturbado entre a matriarca e o patriarca - e que ameaça causar ainda mais danos quando ela se envolve numa seita para tentar lidar com o facto de ele ser homossexual. O novelo de segredos e mentiras, com muitas repressões e acusações pelo meio, vai sendo desvendado com um olhar agridoce e uma realização rigorosa, características que têm estado na origem de vários elogios e prémios - caso das seis nomeações e duas vitórias na mais recente edição do Festival de Berlim.

Los Miembros de la Familia.jpg

"LOS MIEMBROS DE LA FAMILIA", de Mateo Bendesky: Os relatos sobre a entrada na idade adulta dominaram parte da selecção do Queer Lisboa, há poucos dias, e este drama argentino volta a insistir na temática. Mas nem por isso deixa de parecer dos filmes mais promissores. Centrado em dois irmãos adolescentes, segue a forma como lidam com a morte recente da mãe enquanto ficam retidos numa pequena localidade costeira devido a uma greve de autocarros. Nomeado ao Teddy Award na mais recente edição do Festival de Berlim, entre outras distinções internacionais, o resultado tem sido elogiado pela forma descomplexada através da qual retrata o luto, com a melancolia a conviver com o humor. Uma combinação que algum cinema argentino tem sabido fazer nos últimos anos, e da qual a segunda longa-metragem do realizador, argumentista e professor universitário (sucessora de "Acá adentro", de 2013, e de duas curtas) tem sido apontada como exemplo a ter em conta.

Raia 4.jpg

"RAIA 4", de Emiliano Cunha: Ancorado no quotidiano de uma adolescente cuja prioridade é a natação e que se torna próxima de uma colega, com a qual desenvolve um relacionamento entre a curiosidade e a disputa, este drama intimista parte de uma premissa que lembra muito a de "Naissance des pieuvres" (2007), o belo primeiro filme da francesa Céline Sciamma (que só passou por salas nacionais na Festa do Cinema Francês). Mas as reacções iniciais a esta revelação do cinema brasileiro, também ela uma primeira longa (depois de várias curtas), dão a entender que o rumo da protagonista acaba por ir divergindo - e nem falta quem o acuse de perder o pé num final que não deixará o espectador indiferente. De qualquer forma, até os menos rendidos ao desfecho têm salientado que o apuro visual ou a direcção de actores justificam o mergulho nestas águas.

Da fábula para adultos aos corredores de um hospital

A FESTA DO CINEMA FRANCÊS está bem e recomenda-se. Ou pelo menos foi essa a impressão que ficou com dois dos primeiros filmes exibidos na 20.ª edição, a decorrer no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.

Branca Como Neve 2.jpg

"BRANCA COMO NEVE", de Anne Fontaine: Numa altura em que a Disney insiste em rapar o tacho com a enésima versão em imagem "real" das suas adaptações de clássicos infantis, esta revisão para adultos da história da Branca de Neve é um antídoto a ingerir sem contra-indicações. Afinal, quem precisa de derivados na linha de "Maléfica" quando tem Isabelle Huppert como sucessora espiritual da Rainha Má, aqui consumida pelo ciúme face à capacidade de sedução da sua enteada?

Em vez de sete anões, a protagonista, encarnada com desenvoltura por Lou de Laâge, cruza-se com sete homens que não demoram a ceder aos seus encantos, caracterizados com doses variáveis de insegurança, vulnerabilidade e neurose. Os encontros sucessivos dão à narrativa um registo demasiado episódico e a realizadora demora algum tempo a acertar o tom, que vai do realismo ao thriller, do burlesco ao onírico, e com muitas insinuações eróticas. Mas a viagem física e emocional desta "princesa" que não precisa de ser salva vai-se tornando mais convidativa à medida que vai avançando, num relato de emancipação feminina e descoberta da sexualidade avesso a puritanismos e capaz de atrevimentos arriscados (mas muito franceses, dirão alguns) na era #MeToo e Time's Up.

Além de ser divertido ver Huppert a fazer o número maléfico com uma perna às costas, consecutivamente frustrada enquanto tenta despachar a protagonista, os secundários (Vincent Macaigne, Benoît Poelvoorde, Damien Bonnard...) são outro trunfo, e o filme consegue dar tempo e especificidade a cada relação deles com a heroína. Fontaine também se sai bem a desenhar uma atmosfera entre o reluzente e o nebuloso, sem precisar de um catálogo de CGI pronto a impressionar, mesmo que esta fábula adulta e deliciosamente adulterada não tenha a força emocional dos antecessores "Agnus Dei - As Inocentes" (2016) e "Marvin" (2017). Mas quem decidir aceitar os contornos peculiares da proposta não deverá dar o tempo por perdido.

3/5

 

Hippocrate.jpg

"VERDADE E CONSEQUÊNCIA", de Thomas Lilti: Ora aqui está um belo exemplo de cinema do meio, que não tendo grandes pretensões autorais é capaz de se dirigir ao grande público com sensibilidade e inteligência. Essa tem sido, aliás, uma característica habitualmente louvada na obra de um realizador que também é médico, conjugação com reflexo na temática dos seus filmes. Em França, foram acolhidos por milhares de espectadores enquanto vão acumulando aplauso crítico, embora fora de portas a recepção tenha ficado aquém desse fenómeno.

"Médico de Província" (2016) estreou em Portugal há uns anos sem grande alarido, mas a caminho estão o recente "Os Caloiros da Medicina" (2018) e o mais distante "Verdade e Consequência" (2014), ambos apresentados em ante-estreia nacional na Festa do Cinema Francês. Este último foi, aliás, a segunda longa-metragem e a grande rampa de lançamento para Lilti, enquanto avançou um olhar personalizado (e inspirado em algumas experiências do realizador) sobre o universo da medicina.

Os primeiros dias de um interno num hospital de Paris, à partida semelhantes às peripécias de tantos dramas médicos (sobretudo televisivos), são o mote para a radiografia minuciosa do quotidiano de uma equipa de profissionais de saúde, feita com um cruzamento de realismo e humanismo pouco habitual. E este retrato dos bastidores torna-se especialmente forte ao acompanhar os danos colaterais de dois casos de negligência, com a aventura iniciática do protagonista (Vincent Lacoste) e a sua cumplicidade com um colega mais velho (Reda Kateb) a abrir portas para o foco num sistema em crise.

Apesar de se tornar algo panfletário mais para o final e de resolver tensões de forma um tanto conveniente, "VERDADE E CONSEQUÊNCIA" mantém intacto e credível o seu estudo de personagens, auxiliado por um elenco sem mácula, dos protagonistas ao secundário mais discreto - todos pessoas com qualidades e falhas de carácter,  mesmo que Lilti não seja tão simpático com os que ocupam os lugares mais altos da hierarquia. E antes de apontar o dedo ao desleixo estatal pela Saúde (infelizmente, não exclusivo da realidade francesa), arrisca-se a deixar o espectador com o coração nas mãos em duas ou três sequências dramáticas filmadas com uma justeza emocional invulgar - que talvez ajudem a explicar porque é que esta história acabou por ter continuidade numa série televisiva. 

3/5