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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Entre Roma e Nápoles, da comédia ao crime

Depois de ter arrancado em Lisboa em Abril, a 12ª edição FESTA DO CINEMA ITALIANO chega a Évora, Tomar, Caldas da Rainha e Loulé nos próximos dias. Da programação que passou pela capital, "Bangla" e "Napoli Velata" ficaram entre as melhores apostas deste ano.

 

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"BANGLA", de Phaim Bhuiyan: Deliciosa, esta mistura de comédia e drama, a marcar a estreia de um realizador que também se encarrega do argumento, da produção e ainda arrisca o papel de protagonista. O facto de ser uma história em parte autobiográfica talvez ajude a explicar que seja tão credível, e com uma espontaneidade que obras de muitos realizadores mais experientes não conseguem emanar. A partir do dia-a-dia de um rapaz de uma comunidade do Bangladesh dos subúrbios de Roma (albergue de "hipsters, turistas e velhotes"), Bhuiyan vai falando, de forma certeira e contagiante, dos dilemas das diferenças culturais e da entrada na idade adulta. Essa inquietação é ampliada quando o protagonista se apaixona por uma rapariga italiana e caucasiana, obrigando-o a questionar códigos familiares, sociais e religiosos, mas "Bangla" nem tenta forçar uma resposta. Limita-se a dar conta da inquietação emocional de uma forma tão irreverente como calorosa, enquanto revela um realizador capaz de oferecer uma série de gags inspiradíssimos, numa das melhores comédias românticas em muito tempo - e uma espécie de resposta italiana à também aconselhável "Master of None", de Aziz Ansari, sem sair a perder na comparação e com personalidade e carisma mais do que suficientes.

 

3,5/5

 

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"IO SONO TEMPESTA", de Daniele Luchetti: Uma das maiores desilusões desta edição, o novo filme do realizador de "O Meu Irmão é Filho Único" (2007) ou "A Nossa Vida" (2010) fica muito aquém desses dramas (sobretudo do segundo, excelente) ao propor uma viragem para a comédia. A mudança de rumo em si não é o problema, mas esta história, que deve alguma inspiração à figura de Berlusconi, opta sempre pelo maior denominador comum enquanto tenta elaborar uma sátira política e social à Itália contemporânea - num registo que está mais próximo do pequeno do que do grande ecrã. Marco Giallini, na pele de milionário ganancioso e condenado a serviço social, nunca vai além da caricatura (o argumento também não lhe pede mais), e Elio Germano, como sem-abrigo tornado braço-direito do protagonista, é ainda mais desperdiçado depois de ter sido brilhante noutros voos com Luchetti. Mas pior estão as personagens femininas, que dão conta das maiores limitações da escrita em situações quase sempre ridículas. Pelo menos "Anni Felici" (2013), que passou pela Festa do Cinema Italiano há uns anos, revelava algum esforço em construir personagens minimamente intrigantes e em olhar ao redor de forma menos simplista. "Io Sono Tempesta", depois da encomenda "Francisco, O Papa do Povo" (2015), já é só obra de um autor que deu lugar ao tarefeiro mais acomodado...

 

1,5/5

 

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"NAPOLI VELATA", de Ferzan Ozpetek: Ao contrário da esmagadora maioria dos filmes (ou séries) que têm Nápoles como cenário, aqui a cidade italiana não surge como mero palco de crimes ligados à máfia. E embora não faltem homicídios, por uma vez não resultam de acções da "La Familia". Esse é talvez o elemento mais refrescante do novo filme do autor de "A Janela em Frente" (2003), "Saturno Contro" (2007) ou "Uma Família Moderna" (2010), cuja obra tem chegado às salas portuguesas de forma irregular. Mas é uma filmografia que merecia ser mais vista, uma vez que o realizador turco radicado em Itália tem-se mostrado um artesão habilidoso, movendo-se com desenvoltura entre vários géneros. Desta vez opta pelo thriller com contornos noir, e à partida ostensivamente eróticos... embora com uma classe e arrojo muito acima de subprodutos como "As Cinquenta Sombras de Grey", saga com a qual sugere algumas afinidades na premissa. Ainda assim, o que começa como um one night stand entre a protagonista e um homem misterioso acaba por revelar mais paralelos com o também recente "O Amante Duplo", de François Ozon, embora o retrato de Ozpetek seja bem mais rico a nível dramático, não se esgotando no exercício de estilo vistoso. Além da óptima galeria de secundários, o grande destaque é mesmo Nápoles como personagem de relevo, a quem o realizador dedica uma carta de amor a partir dos ambientes do meio artístico e intelectual. Entre a arquitectura da cidade e ruas tão labirínticas como algumas pistas do argumento, "Napoli Velata" vai moldando um olhar enigmático e sedutor, com tanto de realista como de barroco e surreal, e Ozpetek não perde a mão ao longo de uma viagem desconcertante ancorada na solidão e angústia de uma mulher. Bela surpresa.

 

3,5/5

 

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"PIRANHA - OS MENINOS DA CAMORRA", de Claudio Giovannesi: Se "Napoli Velata" consegue espreitar recantos pouco vistos de Nápoles, o segundo filme de um dos novos realizadores italianos (sucessor de "Fiore", de 2016) nunca chega a sair de cenários habituais. Em parte talvez nem pudesse sair muito, já que se trata de uma adaptação de um livro de Roberto Saviano, autor de "Gomorra", também adaptado para cinema e TV. Giovannesi assinou, aliás, alguns episódios da série, e tanto essa experiência como a passagem pelo documentário informam o realismo palpável desta saga de iniciação ao crime. Mas embora o realizador traduza um verismo de espaços e figuras com uma solidez assinalável, reforçado pela direcção de jovens actores não profissionais (e todos da região onde decorre o filme), esta história de um grupo de adolescentes decididos a integrar a Camorra não será muito surpreendente para quem está familiarizado com outros retratos do mesmo submundo. A perda da inocência e o mergulho numa espiral descendente são dados adquiridos logo à partida, tanto como as consequências de um ciclo de violência sem fim à vista - que chega a instalar um determinismo confirmado pelo desenlace. De qualquer forma, está longe de ser um mau filme, já que Giovannesi apresenta este relato de ambição e decadência a partir do quotidiano de Nicolas, rapaz de 15 anos e um protagonista suficientemente interessante para que sigamos a sua jornada (e Francesco Di Napoli é uma das boas escolhas de um casting seguro). Só faltou mesmo algum arrojo, sobretudo depois de tantos episódios de "Gomorra" muito mais transgressores e inventivos.

 

3/5

 

Encontro de irmãos

Nomeado para o Óscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme de Animação, "MIRAI" chegou às salas nacionais sem a pompa de outros títulos em destaque nesses prémios. Mas a nova obra de Mamoru Hosoda merece tanta ou mais atenção do que muitos galardoados.

 

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Autor de "A Rapariga Que Saltava Através do Tempo" (2006), "Crianças Lobos" (2012) ou "O Rapaz e o Monstro" (2015), Mamoru Hosoda tem vindo a conquistar um lugar reputado no cinema de animação japonês, e o seu novo filme ajuda a perceber porquê.

 

História alicerçada na infância, "MIRAI" centra-se no quotidiano familiar de um menino de quatro anos, Kun, que se torna destabilizado com o nascimento de uma irmã. Habituado a ter toda a entrega dos pais, o protagonista encontra-se repentinamente numa situação nova, desconfortável, à qual não sabe como reagir. E aos poucos o que era um dia-a-dia geralmente pacato vai acumulando ansiedade à medida que Kun disputa a atenção paterna e materna com a personagem que dá título ao filme.

 

Retrato do crescimento capaz de juntar drama, comédia e até um mergulho abrupto no terror (numa recta final desconcertante), "MIRAI" está longe de ser a animação mais convencional para toda a família, desde logo ao não facilitar a aproximação do espectador a um protagonista ao qual não faltam episódios vincados pelo egoísmo ou pela histeria. Mas essa atitude por vezes agreste de Kun só vem reforçar a verosimilhança das cenas domésticas e familiares, atípica em muitos filmes animados ou mesmo de imagem real. 

 

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Quando o protagonista vai sendo progressivamente obrigado a lidar com a solidão, encontra refúgio no jardim da sua casa, porta de entrada para um mundo ilusório e/ou fantástico através de visitas de figuras que só ele consegue ver. Através delas, "MIRAI" vai alargando o espectro de um relato que acaba por ter contornos de grande saga familiar, com um diálogo entre gerações que ajuda Kun a encontrar o seu papel.

 

Se por um lado estes encontros recorrentes levam a que o filme tenha uma narrativa demasiado episódica, e até ocasionalmente redundante, Hosoda sai-se muito bem na abordagem ao conflito interior de uma criança que tem de aprender a partilhar, propondo uma viagem que passa pela sensação de abandono ou acessos de raiva, na qual tanto miúdos como graúdos poderão rever-se. É corajoso, o embate com o lado menos adocicado da infância, e os momentos atormentados permitem que "MIRAI" saia do lugar seguro da animação tradicional para um universo digital caótico, impressionante sem cair no gratuito - e sempre fiel ao desafio emocional de um filme com um dos finais mais comoventes dos últimos tempos.

 

3,5/5

 

 

Abrindo o apetite para uma festa all'italiana

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Nanni Moretti (acima, numa cena descaradamente provocadora de "Bianca") é o principal homenageado da FESTA DO CINEMA ITALIANO, cuja 12ª edição arranca esta sexta-feira em Lisboa antes de prosseguir, como já é habitual, para dezenas de outras cidades nas próximas semanas (não só por cá mas também no Brasil, Angola e Moçambique).

 

Na capital, há filmes a (re)descobrir até 14 de Abril, no Cinema São Jorge (que acolhe a sessão de abertura, "Noites Mágicas", de Paolo Virzi, às 21h30), na Cinemateca e no UCI - El Corte Inglés. Além da retrospectiva dedicada ao realizador de "O Quarto do Filho", com direito a raridades e inéditos nas salas nacionais (incluindo curtas e documentários), há propostas que vão do cinema de autor a comédias êxitos de bilheteira, cine-jantares, festas temáticas no Musicbox e n'A Barraca ou actividades para o público infantil.

 

Nas secções competitiva, Altre Visioni e sessões especiais estão as principais novidades e, muito provavelmente, boa parte das maiores surpresas. Como oferta ainda é vasta, ficam cinco sugestões para ajudar a ir compondo o roteiro:

 

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Domingo, 7 de Abril, às 15h00, no Cinema São Jorge: "CAMORRA", de Francesco Patierno - Não faltam filmes (italianos ou não) sobre os meandros da máfia, mas este documentário tem a particularidade de resultar de meses de pesquisa dos arquivos da RAI, trazendo a público muito material inédito enquanto procura compreender as origens e desdobramentos do crime organizado em Nápoles. A viagem entre os anos 60 e 90 é conduzida por um realizador local, com experiência tanto na ficção como no documentário, e já familiarizado com o tema em alguns filmes anteriores. (repete a 13 de Abril, às 22h00, no Cinema São Jorge)

 

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Domingo, 8 de Abril, às 18h30, no Cinema São Jorge: "BANGLA", de Phaim Bhuiyan: Uma das primeiras obras do festival é escrita, produzida e interpretada pelo próprio realizador, numa ficção inspirada na sua experiência pessoal. O autor estará presente na sessão para apresentar esta comédia romântica centrada num rapaz de 22 anos do Bangladesh que se apaixona por uma rapariga italiana nos subúrbios de Roma. Sem surpresas, a relação leva ao choque de culturas familiar, mas o filme tem sido aplaudido por fugir aos lugares comuns de outras histórias de amor com uma premissa comparável. (repete a 9 de Abril, às 22h00, no Cinema São Jorge, também com a presença do realizador)

 

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Segunda, 8 de Abril, às 22h00, no Cinema São Jorge: "MAMMA + MAMMA", de Karole Di Tommaso: Estreia da realizadora nas longas-metragens depois de uma curta, esta combinação de comédia e drama acompanha os esforços de duas mulheres para terem um filho e constituírem família. Tal como "Bangla", é outro filme desta edição que parte da vida pessoal da autora (e da sua companheira), o que poderá ajudar a explicar a forma credível como o filme se desenvolve, de acordo com algumas críticas. A presença de Karole Di Tommaso na sessão talvez ajude a clarificar até que ponto a vertente ficcional divergiu da verídica. (repete a 12 de Abril, às 19h00, no Cinema São Jorge, também com a presença da realizadora)

 

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Quarta, 10 de Abril, ÀS 19h00, no Cinema São Jorge: "LA TERRA DELL'ABBASTANZA", de Damiano e Fabio D'Innocenzo: Colaboradores de Matteo Garrone no argumento de "Dogman", os dois irmãos aventuram-se como realizadores num drama igualmente cru e urbano, que tem somado nomeações e prémios em festivais. Tudo começa quando os protagonistas, dois rapazes dos subúrbios de Roma, atropelam um homem e abandonam o local, rastilho para um ciclo de tensão e violência ao qual se juntam drogas e prostituição. A julgar pelo trailer, a estética não anda longe da série "Gomorra" (nada contra) e o filme tem sido elogiado por escapar ao sensacionalismo sugerido pela mistura de ingredientes controversos. (repete a 13 de Abril, às 19h00, no Cinema São Jorge)

 

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Domingo, 14 de Abril, às 21h30, no Cinema São Jorge: "EUFORIA", de Valeria Golino: Depois de "Mel", bela e promissora estreia atrás das câmaras, a actriz retomou o percurso de realizadora no filme escolhido para a sessão de de encerramento desta edição em Lisboa. É a história de dois irmãos, com personalidades antagónicas e vidas muito diferentes que voltam a aproximar-se depois de uma situação conturbada. Se a primeira obra de Golino leva a que se avance para este drama com alguma confiança, a curiosidade sai reforçada pela escolha da dupla protagonista, Riccardo Scamarcio e Valerio Mastandrea. (exibição simultânea no Cinema Trindade, no Porto, e no Auditório Charlot, em Setúbal)

 

Um lugar para viver

Até onde pode ir a especulação imobiliária? O cenário de "ROSIE - UMA FAMÍLIA SEM TETO" não será o mais optimista, mas o filme do irlandês Paddy Breathnach é sempre verosímil (e muitas vezes comovente) enquanto dá conta dos dramas de um casal da classe média baixa. 

 

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Não falta sentido de oportunidade ao novo filme de Paddy Breathnach, cuja obra raramente tem chegado às salas nacionais e costuma saltitar entre géneros. Em "ROSIE - UMA FAMÍLIA SEM TECTO", o irlandês aventura-se na escola do realismo britânico para um estudo de personagens que deriva, em grande parte, das tendências do mercado da habitação em várias metrópoles europeias nos últimos anos.

 

A acção decorre em Dublin, mas não seria impensável que pudesse ter Lisboa como palco. Seguindo 36 horas na vida da protagonista, do marido e dos seus quatro filhos, o filme leva o espectador a acompanhar a forma obstinada como esta família tenta encontrar uma nova casa, depois de ter sido forçada a abandonar a anterior pelo senhorio (após um aumento de renda incomportável).

 

Ancorado numa interpretação memorável de Sarah Greene, muito bem secundada por um elenco infantil com espaço para mostrar o que vale, "ROSIE - UMA FAMÍLIA SEM TETO" desenha um quotidiano tão conturbado como credível, em reajuste permanente, no qual a partilha e a solidariedade ajudam a manter uma luz ao fundo do túnel. Mas talvez já nem a esperança dure muito mais à medida que a situação precária vai acumulando imprevistos e obstáculos.

 

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Felizmente, Breathnach evita que o drama familiar se torne numa via sacra, mantendo um respeito e carinho óbvios pelas suas personagens, que nunca são reduzidas a símbolos. O miserabilismo de alguns olhares do realismo social não mora aqui, embora o retrato tenha, às vezes, outras limitações: o argumento (de Roddy Doyle, que escreveu "Os Commitments" e "A Carrinha") acaba por se revelar demasiado plano, sem um fulgor narrativo à altura da entrega dos actores, e a realização abusa, em algumas sequências, do recurso à câmara à mão para sublinhar (desnecessariamente) um sentido de urgência já bem palpável.

 

Mas se "ROSIE - UMA FAMÍLIA SEM TETO" não será candidato a marco do género em que se move, vai além da nota de intenções do filme-tema ao conseguir um relato sóbrio e íntimo, atento aos gestos e olhares, e que não se fica pela mera denúncia (ainda que não deixe de expor a situação dramática e exasperante de muitas famílias desalojadas de Dublin). E é um sucessor recomendável e igualmente atento do Ken Loach de "Eu, Daniel Blake" (que colocava o foco no desemprego) ou dos Dardenne de "Dois Dias, Uma Noite" (com o qual partilha uma estrutura narrativa de tentativas e erros e é, também como esse, centrado numa protagonista com uma tarefa hercúlea). Um pequeno filme a descobrir entre a avalanche de estreias indiferentes das últimas semanas.

 

3/5