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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Amor e amizade (com todo o tempo do mundo)

Acompanhar quatro amigas ao longo de mais de cinco horas: é esta a proposta de "HAPPY HOUR: HORA FELIZ", primeira obra do japonês Ryûsuke Hamaguchi a estrear em salas nacionais e reveladora de um sentido de liberdade narrativa incomum - mesmo que uma versão mais condensada talvez a favorecesse.

 

Happy Hour

 

É quase inevitável começar por destacar a duração ao falar do sexto filme de Ryûsuke Hamaguchi, que muitos apontam como um dos nomes a fixar do cinema japonês recente mas cuja obra ainda era inédita nas salas portuguesas. Não que esse seja necessariamente o elemento mais singular de "HAPPY HOUR: HORA FELIZ", embora acabe por ser determinante até para a própria forma de distribuição e exibição: por cá, o drama foi dividido em três partes, todas em cartaz apenas no Cinema Nimas, em Lisboa.

 

Também é certo que além de invulgar, a duração pode ser intimidante: as mais de cinco horas pedem uma disponibilidade que não estará ao alcance de qualquer espectador, tornada ainda maior pela conjugação das sessões e pela compra de três bilhetes em vez de um. Ainda assim, a dedicação sai recompensada. O retrato proposto por Hamaguchi não tem grandes paralelos no cinema feito dentro ou fora de portas, por muito que a sobriedade deste drama urbano convoque heranças de cineastas conterrâneos (com um olhar humanista que tanto pode lembrar o de Yasujirō Ozu como o de Hirokazu Koreeda).

 

Happy Hour 2

 

Outra eventual influência, ou pelo menos aproximação, não é nipónica mas norte-americana: há quem descreva "HAPPY HOUR: HORA FELIZ" como um descendente japonês de "O Sexo e a Cidade", ainda que a comparação se esgote logo na premissa, centrada no quotidiano de quatro amigas na casa dos quarenta (ou lá perto). As ruas, transportes, apartamentos ou cafés da cidade de Kobe acabam por ser elementos marcantes, embora o tom com que Hamaguchi acompanha as suas protagonistas seja bem menos frívolo do que o dos (des)encontros nova-iorquinos de Carrie Bradshaw e companhia.

 

Ao partir de um retrato da amizade no feminino, o filme vai sendo uma forma de o realizador olhar para a mulher no Japão actual sem que qualquer das personagens seja reduzida a um símbolo sociológico. Até porque um dos trunfos desta história é o de nunca tornar o percurso da protagonistas previsível ou determinista. As pulsões e ambições de Akari, Sakurako, Fumi e June, o quarteto principal, têm sempre qualquer coisa de esquivo, que às vezes Hamaguchi chega a desvendar ao espectador enquanto que noutras tantas o deixa na incerteza.

 

Happy Hour 4

 

Através de um jogo de imprevistos e acasos, cumplicidades e separações, "HAPPY HOUR: HORA FELIZ" vai moldando uma narrativa acidentada entre a candura inicial e a crueza que se impõe na segunda metade. E dá conta de como um processo de divórcio é o rastilho para que a amizade das protagonistas passe de inabalável a facilmente questionável, com um efeito de contágio que se dissemina pelas várias esferas das suas vidas (e o filme tem tempo para as documentar de forma paciente e aprofundada, do plano conjugal ao profissional).

 

Além do quarteto de amigas, há tempo e espaço para ir acomodando e seguindo figuras secundárias, parte delas a entrar em cena no início e reencontradas pelo espectador (e pelas personagens principais) mais para o final, numa das opções que mais atesta o sentido de liberdade do argumento - um contraste com a realização contida q.b., muitas vezes assente em longos planos fixos. Hamaguchi tem uma predilecção especial pelos rostos dos actores e estes aguentam-se bem ao embate, feito especialmente impressionante considerando que todo o elenco é amador.

 

No entanto, se não faltam qualidades a "HAPPY HOUR: HORA FELIZ", o todo acaba por ser algo frustrante e fica aquém da soma das partes. E não tanto pela duração em si, mas pela forma como o realizador se demora em segmentos que talvez saíssem a ganhar com alguma concisão. É o caso de dois dos maiores pilares narrativos, um no início, outro no terceiro acto, centrados num longo exercício de grupo e numa leitura pública igualmente exaustiva, respectivamente, que sugerem que Hamaguchi talvez não precisasse de 317 minutos para contar esta história.

 

Happy Hour 3

 

Essas não serão as únicas sequências em que o acessório se sobrepõe ao essencial, mas são aquelas em que um filme habitualmente generoso e gratificante ameaça escorregar para a auto-indulgência. Também não ajuda que, à medida que vai avançando, "HAPPY HOUR: HORA FELIZ" vá desenvolvendo uma vertente metaficcional - sobre a forma como a arte influencia a vida e a vida se reflecte na arte - que às vezes se torna demasiado sublinhada e parece subjugar as personagens (ainda que apenas ocasionalmente). E a própria divisão do filme em três sessões talvez não seja a mais convidativa: "A Mulher Juventude", com uma duração superior (vai além das seis horas), precisou apenas de duas e talvez por isso pareça menos fragmentada, embora percorra um período temporal mais vasto (a acção decorre ao longo de décadas em vez de durante poucos dias).

 

Nada disto invalida, de qualquer forma, que Hamaguchi seja um cineasta a descobrir: tem um talento evidente para tirar partido dos pequenos episódios do dia-a-dia, sabe ir espreitando o lado mais sobrio das personagens sem cair em julgamentos, revela uma voz autoral intrigante e convence enquanto director de actores. Foi um prazer conhecê-lo, venham agora os filmes que assinou antes e depois de "HAPPY HOUR: HORA FELIZ" (que estreou no Japão em 2015 e já tem sucessor em "Netemo sametemo", de "apenas" duas horas de duração).

 

 3/5

 

 

Uma questão de fé

Estudo de personagem sensível e inteligente, a propor um mergulho nos abismos da dependência, "NÃO DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO" é o novo filme de Cédric Kahn e um dos mais conseguidos do realizador francês. Mas o seu maior trunfo talvez até seja Anthony Bajon, na pele do protagonista, com uma das interpretações de 2018 a não deixar passar.

 

Não Deixeis Cair em Tentação

 

De "O Tédio" (1998) a "Uma Vida Melhor" (2011), passando por "Arrependimentos" (2009), Cédric Kahn tem tido um dos percursos mais prolíficos do cinema francês dos últimos anos, mesmo que nem sempre dos mais celebrados. "NÃO DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO" não deverá mudar muito o seu caminho discreto q.b., até porque não tem despertado especiais atenções, mas é dos seus filmes mais consistentes, em boa parte pela forma como o actor principal o defende.

 

Anthony Bajon, com uma experiência relativamente curta na interpretação (iniciada há três anos), conta aqui com a primeira grande montra do seu talento, depois de papéis nos também recentes "Rodin", de Jacques Doillon, "Maryline", de Guillaume Gallienne, ou "Nos années folles", de André Téchiné.

 

Na pele de um toxicodependente de 22 anos acabado de chegar a um centro de reabilitação católico, no interior de França, o actor é o centro narrativo e emocional de um drama cujo argumento passa por alguns cenários reconhecíveis, mas que consegue elevar-se, em parte, pela sua entrega imune a estereótipos - devidamente premiada na mais recente edição do Festival de Berlim. 

 

Não Deixeis Cair em Tentação 2

 

Tão frágil como irascível, com uma timidez que não esconde uma raiva que vai sendo progressivamente domada, Bajon é essencial para que "NÃO DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO" nunca deixe de ser credível. E Kahn sabe tirar partido das suas expressões faciais e linguagem corporal num herdeiro digno da melhor tradição realista francesa. Até porque se o protagonista é um achado, o realizador não se contenta com um mero filme-veículo e propõe uma alternativa séria e ambígua a muitas histórias de superação, de crises de identidade e de fé que se resolvem com soluções demasiado fáceis.

 

Este, por outro lado, é um drama que nunca estanca de vez a ansiedade do protagonista nem lança um debate simplista, numa lógica de prós e contras, sobre uma vida amparada pela religião. O modo como o refúgio na oração substitui a dependência de drogas ou do álcool, tanto da personagem principal como de muitas secundárias, está até bem longe de ser uma questão pacífica, mas felizmente Kahn nunca cai no panfleto evangelizador nem no protesto gratuito. No meio é que está a virtude (e talvez um milagre entre montanhas e neve?) e "NÃO DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO" fica como um caso meritório de cinema "do meio", que não quer (re)inventar nada mas que também não cede ao óbvio, mantendo-se acessível sem ser raso - à semelhança, de resto, da filmografia do seu autor.

 

Com um verismo consolidado pela direcção de fotografia de Yves Cape (colaborador habitual de Bruno Dumont ou Leos Carax), intensa e envolvente sem nunca se tornar ostensiva, e pelo acerto de todo o elenco (mesmo que algumas personagens parecessem ter mais para dar), o resultado talvez alcançasse outros voos com um final menos anti-climático, a uns degraus da inquietação de momentos anteriores. Mas uma sintonia tão rara entre realizador e actor principal é logo motivo mais do que suficiente para justificar a ida às salas...

 

3,5/5

 

 

Filha da mãe

Candidato espanhol ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, "VERÃO 1993" marca a estreia de Carla Simón nas longas-metragens e oferece um olhar perspicaz e contido da infância e do luto - sempre a partir de uma protagonista que não facilita o conforto do espectador.

 

Verão 1993

 

Embora estreie em Portugal discretamente, em apenas duas salas - uma em Lisboa, outra no Porto -, a primeira longa-metragem de Carla Simón depois de quatro curtas não tem passado despercebida lá fora, como o atesta um percurso em festivais já com dezenas de prémios  - incluindo o de Melhor Primeira Obra em Berlim, em 2017, ou o de Melhor Realizador nos Goya, este ano.

 

Não é difícil perceber porquê: o que no papel promete ser uma história semelhante a tantas outras, centrada no Verão de uma menina de seis anos que perdeu a mãe recentemente, acaba por ir ganhando uma ressonância emocional muito própria ao acompanhar tão fielmente o olhar da protagonista, sem nunca cair em facilitismos dramáticos motivados por um evento trágico.

 

A tragédia, aliás, nem parece estar assim tão vincada nos nos momentos iniciais de "VERÃO 1993", com a realizadora a propor um mergulho no dia-a-dia aparentemente pacato de Frida, a pequena protagonista, e dos seus tios e prima (mais nova do que ela), no interior de Espanha. Mas entre a languidez dos dias soalheiros, da descontracção de banhos intermináveis e das muitas brincadeiras com bonecas, Simón (que também escreveu o argumento, autobiográfico) vai deixando alfinetadas ocasionais que começam a compor um mau-estar crescente - que nunca se impõe, ainda assim, uma sobriedade formal e emocional assinalável.

 

Verão 1993 2

 

Apesar de ser uma criança orfã, Frida nunca é retratada como uma vítima, e muito menos como uma vítima indefesa, até porque algumas da suas atitudes em relação à prima, mais ingénua e crédula, tornam-se cada vez mais difíceis de elogiar. E ao dar conta da forma como a protagonista vai medindo forças com a tia, moldando uma animosidade que passa ao lado do resto da família, "VERÃO 1993" revela uma capacidade de observação rara do comportamento humano (e do das crianças em particular), sobretudo tendo em conta que se trata de uma primeira obra.

 

As atitudes moralmente questionáveis de Frida parecem dever alguma coisa a "Ponette" (1996), talvez o filme mais emblemático dos irmãos Dardenne, que apesar de tudo se atirava ao universo infantil com outra crueza e crispação. A visão de Simón é mais calorosa e abraça todas as personagens, com uma abordagem compreensiva que deixa eventuais julgamentos para o espectador.

 

Verão 1993 3

 

Paciente na forma como vai revelando informações-chave sobre a protagonista e a morte da mãe, "VERÃO 1993" deixa um retrato complexo da solidão, do crescimento, do desajustamento ou do preconceito, e embora se ambiente em inícios dos anos 90 as marcas de época nunca se sobrepõem à jornada emocional da protagonista (uma lição que muitos filmes e séries recentes nostálgicos pelos anos 80 ou 90 poderiam aprender).

 

O elenco também ajuda muito, mas se todos os actores contribuem para o efeito realista, Laia Artigas, na pele de Frida, tem um papel especialmente árduo ao conceder tanta ambiguidade a uma personagem tão jovem. A pequena actriz, credível na vulnerabilidade e na prepotência, é um dos maiores achados de um filme que, pouco a pouco, se vai impondo como uma das boas descobertas da temporada. E seguramente das mais bonitas, sem nunca precisar de forçar a nota...

 

3,5/5

 

 

Preto no branco

Embora declaradamente político, "BLACKKKLANSMAN: O INFILTRADO" é dos filmes mais arejados de Spike Lee, uma sátira atravessada pelo racismo e baseada num caso real mais mirabolante do que muita ficção. Pelo meio, ainda revela um actor a fixar.

 

BlacKkKlansman

 

Ron Stallworth, o primeiro agente afroa-americano a integrar a polícia de Colorado Springs, nos anos 70, já tinha contado a sua experiência num livro e volta agora a ser retratado no grande ecrã. Até porque se há vida (ou episódios delas) que dava um filme, é esta. Ou pelo menos o facto de Stallworth, sendo negro, se ter inflitrado no Ku Klux Klan, depois de falar com os responsáveis da organização ao telefone e fazendo-se depois representar por um colega judeu nas reuniões onde se promovia o ideal de supremacia branca.

 

De uma premissa tão absurda e anedótica, Spike Lee chegou a uma das suas obras mais celebradas e consensuais em anos, e também das poucas que tiveram direito a estreia nas salas portugueses em muito tempo (um problema que, no caso da sua filmografia, já vem de trás). E chega em boa hora, porque a brincar, a brincar, "BLACKKKLANSMAN: O INFLILTRADO" não só é das melhores comédias norte-americanas recentes como das que mais tem a dizer, ou não viesse de um realizador que nunca se esquivou a comentar o estado das coisas (quase sempre com o racismo entre os maiores focos de atenção).

 

BlacKkKlansman

 

Mais contido do que alguns gritos de revolta do cineasta de "Não Dês Bronca" ou "A Última Hora", o resultado é ainda assim assertivo ao apontar como a comunidade afro-americana tem sido encarada nos EUA, com a acção a decorrer há quatro décadas mas claramente a revelar semelhanças com situações do dias de hoje. Donald Trump sobressai como óbvio saco de pancada, embora indirectamente, através da figura de David Duke, então líder do Ku Klux Klan e autor de algumas tiradas perigosamente próximas daquelas a que o presidente norte-americano nos tem habituado.

 

Sem ser um tratado de subtileza, e propondo até paralelismos bastante óbvios, "BLACKKKLANSMAN: O INFILTRADO" tem a seu favor o facto de optar quase sempre pela descontracção e ironia em vez do panfleto alarmista, uma postura reforçada por um elenco encabeçado por John David Washington (filho de Denzel). Na pele de um jovem agente que defende as suas cores à sua maneira, de forma orgulhosamente desalinhada, o actor-revelação dá logo ao filme um capital de simpatia e carisma consideráveis, numa conjugação de integridade e coolness que parece surgir sem esforço. Adam Driver, no papel de colega e cúmplice de missão, é outro exemplo de um casting inspirado, determinante para o tom lúdico, mas não oco, que esta aventura improvável vai mantendo.

 

Lee até é mais ambíguo do que o que talvez se esperaria a dar conta de mais de uma forma de extremismo e fundamentalismo. A do KKK, claro, desde logo, mas também o dos Black Panthers, ao olhar com algum sentido crítico para a luta pelos direitos civis dos afro-americanos enquanto atira o protagonista para um centro ideológico à procura do seu próprio rumo. Ainda assim, o seu retrato não é propriamente comedido: a denúncia do racismo de clássicos do cinema como "E Tudo o Vento Levou", de Victor Fleming, ou de "O Nascimento de uma Nação", de D. W. Griffith, aponta para uma história de subjugação dos negros em várias frentes - e promete causar irritação em alguns cinéfilos mais susceptíveis.

 

BlacKkKlansman 2

 

Se as mais de duas horas de duração levam a que algumas ideias e gags comecem a tornar-se recorrentes, "BLACKKKLANSMAN: O INFILTRADO" consegue manter uma energia contagiante até ao fim, mérito de um cineasta que sabe como moldar esta farsa activista com desenvoltura e força visual (aqui a revelar inspiração directa do cinema blaxploitation, cujo auge se deu nos anos em que a acção decorre). E essa costela subversiva até torna desculpável o lado demasiado caricatural de algumas personagens, sobretudo as que não são olhadas com grande simpatia pelo argumento pelas associações à extrema-direita.

 

Lee só se leva demasiado a sério mesmo no final, quando salta dos anos 70 para o presente e da ficção para a realidade, no segmento mais cru e angustiante mas também aquele que mais parece desenhado a traço grosso. A urgência do apelo é indiscutível, embora seja feita através de uma viragem de tom (desnecessariamente?) abrupta num filme já vincado por ligações ao presente e que conseguia, até aí, falar a sério sem ser pesadão. Por outro lado, admita-se que é cada vez mais difícil continuar a rir quando alguns piores momentos da História se repetem de forma tão evidente, o que faz desta uma comédia particularmente negra e assustadora. E sem promessas de finais felizes quando o seu conflito central parece estar só a recomeçar fora do ecrã...

 

3,5/5

 

 

A estranha em mim

Entre o drama adolescente, o thriller psicológico e o mistério sobrenatural, "THELMA" nasce do cruzamento de territórios sem nunca optar por um, mas também nem precisa: o novo filme de Joachim Trier revela-se mais intrigante quanto mais vai diluindo géneros e fronteiras.

 

thelma

 

Revelado internacionalmente ao segundo filme, "Oslo, 31 de Agosto" (2011), ao qual se seguiu o menos consensual, mas ainda assim bem interessante "Ensurdecedor" (2015), Joachim Trier tem-se mantido um cineasta confiável enquanto vai deixando olhares íntimos e personalizados sobre a solidão, a entrada na idade adulta ou a falta de comunicação, temáticas habituais nos seus estudos de personagem meditativos e claustrofóbicos q.b..

 

"THELMA" não é excepção, embora marque uma viragem no percurso do realizador norueguês ao se desviar para o cinema de género, mesmo que à partida mantenha a base realista associada aos seus filmes. Há até quem descreva esta quarta longa-metragem como uma incursão "nórdica" pelas aventuras de super-heróis, ainda que Trier não chegue a ir tão longe. Sim, há por aqui semelhanças ocasionais com "O Protegido", de M. Night Shyalaman, que também já tentava contornar lugares comuns desse filão, mas as capacidades especiais da protagonista nunca chegam a dominar tanto a acção como noutras abordagens a esse universo.

 

thelma 2

 

O resultado não destoará ao lado do recente "A Lua de Júpiter", de Kornél Mundruczó, outra conjugação de superpoderes num contexto realista, apesar de uma das heranças óbvias de "THELMA" ser "Carrie", de Brian De Palma, já que ambos acompanham o terror quotidiano de uma adolescente oriunda de uma família religiosa e conservadora (neste caso, com o controlo atento de pais protestantes) cuja conduta impoluta é repentinamente atormentada pelo despontar da sexualidade.

 

Para a jovem (anti-)heroína de Trier, estudante da universidade de Oslo que cresceu no interior, a entrada na idade adulta é especialmente tensa quando surge associada a uma relação demasiado próxima com uma colega. E o descontrolo sentimental, vincado por um braço de ferro entre a repressão e a entrega, tem reflexos nas capacidades sobrenaturais que entretanto começam a tornar-se mais evidentes.

 

Além deste caos emocional, que toma de assalto um dia-a-dia até então equilibrado, ainda que fechado em si mesmo, Thelma tem de lidar com as perguntas que se vão acumulando sobre o seu passado e as suas origens familiares, obrigando-a a questionar a relação respeitosa com os pais. E aqui o filme arranja forma de juntar uma investigação quase detectivesca ao que era uma tapeçaria formal já de si ecléctica.

 

Thelma 3

 

Felizmente, Trier consegue garantir que "THELMA" não resulte num agregado de pontas soltas e faz com que a jornada de auto-descoberta da protagonista seja uma aventura envolvente e até comovente, apesar de um olhar tão distanciado (mas não frio) como nos seus filmes anteriores. Mais uma vez, mostra-se também um director de actores sem falhas, com destaque para uma Eili Harboe convincentemente desamparada e desnorteada no papel principal. E continua a fazer da contenção o seu maior trunfo: veja-se como menos pode ser mais nas cenas em que as capacidades especiais de Thelma conduzem os acontecimentos, com a elegância e minimalismo a imporem-se à pirotecnia (a sequência durante uma ópera, por exemplo, é uma masterclass de atmosfera e suspense).

 

A banda sonora do conterrâneo (e cúmplice habitual) Ola Fløttum, serena e nunca intrusiva, ajuda a moldar este universo particular que só se torna menos fascinante no terceiro acto, quando o filme começa a acusar a duração (talvez não precisasse de quase duas horas) e deixa algumas sequências arrastarem-se (sobretudo as que insistem em levar o espectador questionar, demasiadas vezes, se são oníricas ou não). Mas se alguma modorra narrativa e redundância do argumento comprometem parte do entusiasmo, "THELMA" continua a ter lugar cativo entre as boas surpresas da rentrée - e Joachim Trier entre os novos realizadores europeus a manter debaixo de olho.

 

3,5/5