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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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"Capitão Falcão": 10 motivos para não deixar passar este ovni

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A missão de "CAPITÃO FALCÃO" nas salas está a terminar. O filme de João Leitão, centrado no delirante primeiro super-herói português, despede-se do circuito comercial na próxima semana e é dos poucos (pouquíssimos, mesmo) que deram bom nome à comédia feita por cá em muito tempo, a milhas dos enlatados televisivos  e duvidosos (com "humoristas" ainda mais questionáveis) que inexplicavelmente têm direito a estreia.

 

Não é que, neste caso, as raízes televisivas não se notem. O projecto começou como uma série e, ao fim de quase duas horas de sessão, deixa a ideia de que funcionaria melhor em episódios de 15 ou 20 minutos do que como longa-metragem - com uma mão cheia de cenas muito bem construídas, admita-se, mas nem sempre tão articuladas ou valorizadas pelo conjunto. Seja como for, o concentrado de ideias, sobretudo o descaramento de um super-herói fascista durante o Estado Novo, é quase sempre divertido (às vezes, muito) e resulta num dos ovnis cinematográficos da temporada - vale a pena espreitá-lo na semana da Festa do Cinema por estes motivos e mais alguns:

 

1 - O genérico inicial: Se a primeira impressão é a que mais conta, as imagens de "Capitão Falcão" começam por impressionar nestas sequências de animação com uma versão muito livre e lúdica da História de Portugal. E também revelam uma rara atenção ao detalhe mantida em muitas sequências seguintes;

 

2 - O próprio Capitão Falcão: Depois de ver a interpretação de Gonçalo Waddington, torna-se difícil imaginar outro actor português capaz de se entregar tanto ao overacting que o protagonista pede. Mais do que os diálogos em si, os olhares ou a entoação são logo meio caminho para atestar o gozo evidente de um desempenho destes, ainda assim dado a nuances quando o herói revela uma faceta menos histriónica;

 

3 - Salazar: Ainda vamos a tempo de pedir um spin-off (nem que seja uma websérie com sketches)? O Salazar amável e caseirinho de José Pinto é um achado e compensa plenamente outros secundários demasiado esquemáticos. Uma cena na cozinha ou a do discurso final são de antologia e fazem pedir mais aparições do Senhor Presidente do Conselho;

 

4 - A banda sonora: Noutros casos remetida a mero papel de parede, aqui a música é todo um programa à parte. As composições de Pedro Marques mostram-se peça fundamental do desbragadamento do filme e a conjugação com a acção é tão meticulosa como o trabalho de um relojoeiro suíço, com alternâncias e contrastes muitas vezes abruptos mas sempre coerentes;

 

5 - As referências: Não é preciso conhecê-las todas (até porque é provável que um revisionamento desvende mais algumas), mas boa parte da diversão deve-se às piscadelas de olho ao universo da BD, cinema e televisão clássicos - mas não necessariamente canónicos. O Batman de Adam West, a escola dos Monty Python, Power Rangers, Green Hornet ou "A Guerra das Estrelas" passam por aqui...

 

6 - Os separadores: Como foi dito no ponto acima, a carga camp da série do Batman dos anos 50 é uma das maiores referências e as citações mais fortes, em jeito de homenagem, talvez sejam os separadores dinâmicos que pontuam a acção. Têm mais piada à primeira, mas acabam por ajudar quando interrompem algumas cenas que já vão longas lá para o meio;

 

7 - A componente técnica: "Nem parece português". Este comentário é muitas vezes injusto para o (bom) cinema que também se vai fazendo por cá, mas neste caso não há mesmo muitos (ou alguns) filmes nacionais com uma direcção artística tão devedora da BD e tão condizente com o tom do filme. O guarda roupa, a fotografia e as coreografias dos combates corpo a corpo mostram empenho e merecem elogios:

 

8 - Doces, muitos doces: A melhor cena do filme talvez seja a de um jantar, ainda antes da sobremesa, onde não faltam brandos costumes, mas é noutra que Capitão Falcão, apesar dos muitos defeitos que possa ter como homem e agente, prova que sabe valorizar a doçaria portuguesa... e de forma estratégica;

 

9 - A cena pós-créditos: Como qualquer filme de super-heróis que se preze, aqui também há um gancho para uma sequela já depois do desfecho. E com direito a ambiente sombrio e nervoso no primeiro vislumbre de um novo vilão...

 

10 - Puto Perdiz: Sem comentários.

 

 

 

Estreia da semana: "Embargo"

 

Com "Respirar (Debaixo d'Água)" (2000), a mais popular das suas curtas-metragens, ou a longa "Esquece Tudo o que te Disse" (2002), António Ferreira tornou-se para muitos um dos nomes do cinema nacional a seguir.

 

"Embargo", o seu novo filme, é agora mais um passo importante, que tanto pode dar mais visibilidade à sua obra como talvez tirar as teimas a quem não aderiu aos títulos anteriores.

 

Inspirado num conto homónimo de José Saramago, este drama com toques de absurdo acompanha o trabalhador de uma roulotte que tem a ideia da sua vida e pretende usá-la para mudar a indústria do calçado... mas acaba por ficar preso no seu próprio carro (e o filme vai mostrando que não é fácil sair).

 

Tal como a ideia do protagonista, a que dá mote ao filme oferece boas possibilidades. Se são bem aproveitadas é outra história. A Menção Especial do Júri na mais recente edição do Fantasporto sugere que sim, mas há quem não tenha ficado com tanta certeza. Nada como ir vê-lo para tirar as dúvidas.

 

Além de "Embargo", há mais nove(!) estreias esta semana e a lista pode consultar-se aqui.

 

 

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Estreia da semana: "Morrer Como um Homem"

 

Passou pela última edição do festival de Cannes e, já em salas nacionais, foi um dos destaques do Queer Lisboa 13 há poucas semanas. E hoje, "Morrer Como um Homem" conhece finalmente estreia nacional.

 

A terceira longa-metragem de João Pedro Rodrigues, sucessor de "O Fantasma" (2000) e "Odete" (2005), parece dar continuidade ao misto sinuoso de realismo e romantismo que tem distinguido o percurso do realizador. 

 

Neste caso, o filme adapta a história verídica de Ruth Bryden (Joaquim Centúrio de Almeida), conhecida travesti lisboeta, e desenha mais um retrato de uma Lisboa nocturna e fantasmagórica, palco de histórias de amor, sexo e solidão.

Tal como os antecessores dificilmente terá um acolhimento consensual, embora seja mais um testemunho a descobrir de um realizador que, pelo menos, tem marcado pela diferença - e já há quem garanta que não está abaixo do genial

 

Hoje é, também, o dia do arranque da sétima edição do Doclisboa, que decorre na Culturgest até 25 de Outubro.

 

Outras estreias:

 

"Loucos e Fãs", de Kyle Newman

"O Dia da Saia", de Jean-Paul Lilienfeld + "Deus Não Quis", de António Ferreira

"O Solísta", de Joe Wright (o realizador de "Orgulho e Preconceito" e "Expiação")

"Sininho e o Tesouro Perdido", de Klay Hall

 

 

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O Cartaz de Sexta

 

Na noite desta sexta-feira, Lisboa tem, pelo menos, duas propostas promissoras no palco e no grande ecrã. Infelizmente não poderei ver nenhuma, mas para quem estiver pela capital ficam as sugestões.

 

Na música, o destaque vai para o concerto dos Micro Audio Waves no MusicBox (às 00h30), e conhecendo um pouco a banda já se prevê que será no mínimo bom (ou mais do que isso, como a actuação de há dois anos na mesma sala).

E este ainda tem a particularidade de ser filmado, já que o espectáculo surge integrado nos Club Docs, documentários sobre artistas nacionais que serão exibidos este ano na RTP2 (sábado é a vez dos também recomendáveis X-Wife).

 

No cinema, merece referência o arranque do Queer Lisboa 13, Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. "Morrer como um Homem", o novo filme de João Pedro Rodrigues ("O Fantasma", "Odete") é o título da sessão de abertura (às 22h no Cinema São Jorge).

Tal como nas edições anteriores, o festival conta com curtas e longas-metragens, da ficção ao documentário, assim como com uma selecção de videoclips temáticos.

E este ano inaugura uma nova secção onde recupera alguns filmes marcantes - como "The Living End", de Gregg Araki (realizador do memorável "Mysterious Skin").

 

Ainda na sétima arte, chegaram esta semana às salas dois filmes a reter: o muitíssimo elogiado "Estado de Guerra", de Kathryn Bigelow (que tem no currículo o excelente "Estranhos Prazeres") e o menos aplaudido "Taking Woodstock", de Ang Lee (cujas sessões incluem a curta-metragem "Arena", de João Salaviza, premiada em Cannes).

 

E voltando à música... Mais a norte, no Porto, há Clubbing na Casa da Música com concertos de Ebony Bones e The Rakes. E se ainda for a tempo deles, pode ser que venha aqui contar como correram...

 

Tragédia (grega) à portuguesa

Chegou esta semana às salas "Mal Nascida", o muito aguardado novo filme de João Canijo (pelo menos por quem considera o antecessor, "Noite Escura", um dos melhores filmes portugueses dos últimos anos).

 

Estive à conversa com o realizador e com a actriz principal, Anabela Moreira, e parte dela pode ser vista no vídeo que deixo aqui:

 

 

Entrevista a João Canijo e Anabela Moreira