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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Pujança garantida, para eles e para elas

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Desafio do segundo álbum superado? Às primeiras audições, parece que sim: "Welfare Jazz" mostra que os VIAGRA BOYS continuam a levar-se muito pouco a sério mas não deixam de soar confiantes, e às vezes até urgentes, num alinhamento que expande as fronteiras do pós-punk sujo e desbragado de "Street Worms" (2018).

Se o primeiro single, "Ain't Nice", parecia jogar pelo seguro, com uma sonoridade talvez demasiado reconhecível, os suecos arriscam mais em aproximações à synth-pop ("Creatures", candidato a hino de underdogs), viagens instrumentais infecciosas ("6 Shooter", em modo jam session inspirada), mergulhos no blues ("I Feel Alive", com uma rugosidade devedora de Tom Waits) ou mesmo na country (no final a cargo de "To the Country" e "In Spite of Ourselves", versão de John Prine). 

As experiências nem sempre são certeiras, com o resultado a soar mais aliciante nos temas acelerados, e fica sempre a impressão de que o verdadeiro território destas canções é o palco. Os vídeos das Shrimp Sessions 2 partilhados pelo grupo nos últimos dias comprovam isso mesmo: com as influências do jazz sugeridas pelo título do disco a ganharem outro corpo ao vivo, o turbilhão instrumental é mais livre, robusto e vertiginoso, muito por culpa da presença dominante do saxofone.

Embora valha a pena ouvir tudo, o momento imperdível é, de longe, "GIRLS & BOYS", que sai a ganhar à versão gravada tanto na duração como na intensidade e embalo rítmico. E até há bongos como extra enquanto os sopros do incansável Oskar Carls roubam protagonismo ao vocalista Sebastian Murphy. As legendas são outra adenda a ter em conta e confirmam que o sexteto não perdeu o sentido de humor em tiradas como "Middle aged men fight in comments on which band this sounds like" (sobretudo quando não têm faltado comparações, de Iggy Pop aos IDLES). Que 2021 permita testemunhar esta pujança num palco português:

Há algo de envolvente no reino da Dinamarca

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Um dos regressos do ano a celebrar ficou a cargo de AGNES OBEL, que ao quarto álbum aprimorou qualidades que fazem dela uma cantautora a ter por perto. "Myopia" é um disco hipnótico tanto pela composição como pela produção, ambas a valorizarem uma voz tão capaz de confortar como de inquietar. E a segunda vertente talvez saia a ganhar nas novas canções, algumas das mais soturnas - ou até sinistras - do catálogo desta dinamarquesa radicada em Berlim.

As doses reforçadas de negrume não serão muito surpreendentes tendo em conta que Edgar Allan Poe ou Alfred Hitchcok estão entre as referências de uma obra que também deve muito à música clássica ou à folk, de Claude Debussy a Joni Mitchell. À aura gótica, a fase mais recente acrescentou um interesse pela manipulação vocal, enriquecendo o jogo de texturas de um alinhamento atmosférico e enigmático que mantém esse efeito no salto para o palco. Ou pelo menos é o que sugerem as versões ao vivo de alguns temas apresentadas na sala National Sawdust, em Brooklyn, no início do ano, com uma atenção aos arranjos tão minuciosa como no disco.

A alquimia de piano, cordas ou percussão, garantida por uma banda de três elementos, ajudará a explicar porque é que OBEL foi convidada para acompanhar os Dead Can Dance na sua digressão actual e leva a pedir que os promotores nacionais também se lembrem dela para um regresso a salas portuguesas em 2021 - até porque tem várias datas agendadas para cidades europeias ao longo do próximo Verão. Até lá, teremos sempre o precioso recurso ao arquivo virtual de actuações como a nova-iorquina, a ver e ouvir nos vídeos abaixo:

Este fogo deixa a alma lavada

Depois de dez anos sem actuar em Portugal, EMILY JANE WHITE apresentou o novo disco, "Immanent Fire", no Salão Brazil, em Coimbra, na passada quinta-feira. E além de canções recentes, como "Washed Away", revisitou uma discografia que não merece ficar limitada a um segredo bem guardado.

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"A última vez que actuei aqui foi há dez anos. Na altura tinha três álbuns, agora tenho seis", relembrou EMILY JANE WHITE entre os primeiros temas do concerto que a trouxe de volta a palcos portugueses, para uma visita dupla que também contemplou o Teatro Diogo Bernardes, em Ponte de Lima, na sexta-feira.

Foi uma ausência demasiado longa, tendo em conta que a norte-americana tem tido um percurso fértil entre a folk e descendências do indie rock, com uma aventura em nome próprio iniciada no belíssimo "Dark Undercoat" (2007) depois da participação em bandas de metal ou punk na adolescência e dos Diamond Star Halos no início da idade adulta (estes já mais próximos da toada melancólica e intimista que percorre a sua discografia).

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Se o despojamento instrumental e escrita confessional da estreia, aliados a um timbre dolente mas caloroso e aveludado, suscitaram algumas comparações iniciais com os relatos de Cat Power, a californiana foi definindo um lugar especial num universo que aceita heranças do gótico sulista, do blues ou do alternative country, assim como dos olhares de Emily Brontë ou Cormac McCarthy, sem que as suas canções fiquem confinadas a um género em particular.

O concerto no Salão Brazil permitiu atestar as variações que a sua música tem tido, ao longo de quase hora e meia que conseguiu incluir "Immanent Fire" na íntegra e vários episódios dos antecessores. Entre as novas canções, mais cheias, às vezes até surpreendentemente épicas, e o minimalismo à flor da pele das antigas, os saltos entre o presente e o passado deram-se sem solavancos, e quase sempre com John Courage (baixo) e Dan Roy Ford (bateria) a acompanharem a cantora - que por sua vez juntou o piano e a bateria à equação, num espectáculo que contou ainda com uma base pré-gravada nos arranjos de cordas, apontamentos electrónicos ou coros.

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Em comum, de álbum para álbum, manteve-se o tom sombrio de crónicas que partiram de uma vertente pessoal em "Dark Undercoat" e apostam numa visão mais global em "Immanent Fire", disco marcado por preocupações feministas, ecológicas e espirituais. Embora vestidos de negro, e num palco com um fundo da mesma cor, a artista e os músicos não fecharam a porta a algumas brechas de luz, seja pela voz capaz de manter alguma doçura no retrato da vulnerabilidade, seja pelo sentido melódico que impede que esta música se atire de cabeça ao desespero.

Foi o caso de momentos como "Washed Away", "Drowned", "Shroud" ou "Surrender", todos do novo álbum, todos vincados por uma atmosfera etérea de beleza quase angelical, num contraste com a faceta lânguida e árida de "Sleeping Dead" ou "Cliff", guiada pela guitarra. Já "Dew" quase só precisou de voz e piano para deixar um dos momentos mais comoventes, a lembrar a fase "White Chalk" (2007) de PJ Harvey, numa combinação que se manteve em "The Black Dove" antes de ceder terreno a uma marcha percussiva.

Mas esse reforço da bateria foi talvez demasiado imponente, tanto aí como em "Infernal" ou "Metamorphosis", com a instrumentação a sobrepor-se à voz. Nada que não tenha sido remediado no encore, com a cantora a apresentar-se sozinha em palco, à guitarra, em "Remains II", canção de "Emily Jane White House of Wolves Split EP" (2018), registo criado a meias com o conterrâneo Rey Villalobos (e apenas disponível para venda nos locais dos concertos, assinalou a norte-americana).

Depois de percorrido o novo álbum, houve tempo de mais regressos aos primeiros, com "Victorian America" e "Hole in the Middle", que fecharam em alta um alinhamento coeso e generoso, ainda que se tenha sentido a falta de "Wild Tigers I Have Known", um dos temas que revelaram EMILY JANE WHITE (não só, mas também, através do filme homónimo de Cam Archer, de 2006). Espera-se que tenha, pelo menos, ficado guardado para uma próxima visita a palcos nacionais, até porque a estreia em Lisboa já é mais do que merecida (além de que provavelmente chamará mais público do que o de uma bela sala bem composta). E de preferência, sem implicar esperar mais dez anos...

4/5

Uma noite de ataque massivo (mas com algum êxtase melancólico)

A transição de BLANCK MASS para o palco mantém o ambiente caótico de discos como "Animated Violence Mild", o mais recente do projecto de Benjamin John Power. E um dos melhores do ano passado, aliás, impressão que a noite de sábado no Musicbox, em Lisboa, só veio reforçar.

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Ao quarto álbum, a aventura a solo de um dos elementos dos Fuck Buttons já mostrou que não fica a dever nada à discografia da dupla. Antes pelo contrário, como tem sido comprovado sucessivamente depois da estreia homónima, em 2011. O que começou como exploração electrónica em terreno IDM ganhou outro nervo ao segundo registo, o óptimo e desconcertante "Dumb Flesh" (2015), que apostou numa linguagem explosiva consolidada em "Wold Eater" (2017) e aperfeiçoada em "Animated Violence Mild" (2019).

Se a experiência em álbum é intensa, através de uma gestão meticulosa de derivações noise e drone, trazidas dos Fuck Buttons, que chocam no melhor sentido com estilhaços de outros géneros, ao vivo Benjamin John Power consegue ter um impacto à altura. Apresentando-se sozinho em palco, munido de programações e sintetizador, foi presença mais do que suficiente para colocar em marcha um ataque sónico que valeu por uma multidão. A acústica da sala ajudou a tornar a estridência quase sem tréguas num espectáculo imersivo, sensação apurada pelo trabalho de luzes strobe e por um ecrã de imagens tão fragmentadas como os ingredientes desta música.

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No livro de estilo de BLANCK MASS, o electro pode não andar longe do black metal, o techno esbarra facilmente no trance, o industrial aceita contaminações de alguma produção hip-hop. E as vozes, mesmo quando não são utilizadas como mais um instrumento, disparam sempre sons imperceptíveis, sejam os gritos distorcidos de Power ou samples de cânticos de uma eventual soul futurista.

O título de uma canção como "Death Drop" diz logo ao que vem e acendeu o rastilho para uma noite na qual o novo disco foi dominante. E faixas como esta deram conta da fórmula do projecto em ponto de rebuçado, ao imporem um crescendo rítmico a caminho do arrebatamento sem que o lado abrasivo esmagasse a componente melódica. Afinal, este acaba por ser um ruído orelhudo. Power sabe-o e soube como ir conjugando temas recentes, algumas recordações estratégicas e momentos de transição para ir dando nuances a um poderio sonoro que pode parecer monolítico à primeira.

O compasso viciante de "No Dice" lembrou o esqueleto do clássico "Terrible Lie", dos Nine Inch Nails, reencaminhado para algo completamente diferente, com tanto de visceral como de celestial. Mais demolidora, "Dead Format" recuou até aos dias de "Dumb Flesh" e ofereceu competição séria à robustez de "Love Is a Parasite", um dos picos do novo disco, enquanto que "Please" deixou um dos escassos episódios desacelerados, num belíssimo cruzamento de melancolia e êxtase a convocar  a escola de Burial ou Four Tet - e um dos maiores momentos de entrega do público, que se deixou embalar pela oportunidade de harmonia no meio do caos.

Ainda assim, coube a "House Vs. House" vincar o cenário de maior euforia colectiva. Foi o que mais se aproximou de um êxito pop dentro do alinhamento da noite, com vários espectadores a tentarem trauteá-lo à medida que o corpo se moldava a um frenesim rítmico sem travões (e tiveram espaço para isso, numa sala bem composta mas longe de claustrofóbica). Se as letras do tema não eram perceptíveis, Benjamin John Power também não fez questão de dirigir quaisquer palavras ao público. Mas nem por isso deixou de se fazer ouvir - e foi trocando olhares cúmplices à medida que ia sendo aplaudido. Só lhe faltou regressar para o encore, embora ninguém lhe tire 1h15 de alta voltagem muito bem orquestrada.

4/5