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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Três palcos caseiros para três álbuns a (re)descobrir

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As salas de concertos já voltaram a abrir portas, mas mesmo assim muitos artistas internacionais não devem pisar um palco português tão cedo. E nesses casos, tal como aconteceu durante grande parte do ano passado, a versão online é a resposta possível para descobrir algumas canções ao vivo. Canções como as de ELA MINUS, REY PILA ou SEVDALIZA, autores de três álbuns de 2020 que continuam a valer a descoberta ou a revisitação.

Num showcase caseiro para a KEXP, MINUS apresenta quase todos os pontos altos de "they told us it was hard, but they were wrong", disco de estreia que colocou a colombiana na linha da frente da pop electrónica actual. E nem o facto de estar sozinha impede que a actuação se saia bem tanto na faceta minimalista como na eufórica, à semelhança do que mostrou no concerto no Musicbox Lisboa há uns anos, numa promissora primeira parte dos Austra onde deu a conhecer esta música luminosa para tempos sombrios.

Também mais do que capazes de superar o desafio do palco, os REY PILA apostam na nata de "Velox Veritas", disco produzido por Dave Sitek (dos TV On the Radio) e editado pela Cult Records, de Julian Casablancas (dos The Strokes). O terceiro álbum dos mexicanos é talvez o mais conseguido e singles já de si infecciosos como "Drooling" ou "Dark Paradise" ganham outro embalo ao vivo, com a combinação de guitarras e sintetizadores a atingir o ponto de rebuçado - e defendida por uma banda coesa num cenário tão acolhedor como castiço.

Noutro comprimento de onda, SEVDALIZA lança o convite (difícil de recusar) para uma viagem a "Shabrang", o seu segundo álbum, cortesia de uma sessão Tiny Desk da NPR. Acompanhada de uma banda de luxo - belíssima conjugação de cordas, percussão, teclados e programações -, a irani-holandesa revela uma forma vocal à altura enquanto alia elegância e intensidade, do lamento de "Dormant" (a lembrar a escola dos Portishead) ao contacto com a tradição árabe que marca "Gole Bi Goldoon". Que 2022 permita o regresso a Portugal que já tarda...

Música colorida para um quarto escuro

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Com um terceiro álbum a caminho e agendado já para Abril, os NOPORN começaram por revisitar os anteriores através do regresso aos palcos possível no primeiro trimestre de 2021. Enquanto não chega "SIM", a dupla brasileira apostou em três actuações online caseiras em Fevereiro, transmitidas em directo para celebrar o Carnaval, nas quais repescou canções do álbum de estreia homónimo, de 2006, e de "BOCA", de 2016.

Já o showcase da passada sexta-feira, 12 de Março, foi o primeiro de mais uma série de três nas próximas semanas, todos com premissas distintas. O arranque fez-se com o espectáculo LADO B, que junta temas mais obscuros e há muito pedidos por alguns fãs do projecto da vocalista Liana Padilha e do produtor Lucas Freire.

"Ctrl + Alt + Del", "Ex Culpa", "Canibalismo", "Fumaça" (originalmente partilhada com os conterrâneos Tetine) e "Gang Bang" compõem um alinhamento pensado para as pistas, embora a pandemia tenha limitado a festa. Mas esta música de dança insinuante, com ecos do furor electroclash e letras sem travões do politicamente correcto, ainda tem cor e luz suficientes para iluminar um quarto escuro em noites de confinamento.

O efeito da bola de espelhos é tão ou mais forte em "Geleia de Morango", o novo single, que não está incluído nesta actuação (embora não deva faltar numa próxima) e desvia o hedonismo dos NOPORN para os ritmos da electrónica baleárica de inícios dos anos 90, cruzados com flashes da noite de São Paulo. O próximo avanço do terceiro álbum, "Pérola Suja", vai ser revelado ainda este mês e também bebe em memórias boémias e paulistanas da dupla. Mas enquanto não chega, há tempo para ir (re)descobrindo os lados B, tanto na versão original como no update ao vivo em 2021:

A loucura deles tem trilha sonora (e o Carnaval também)

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Numa altura em que a pandemia afecta e geralmente impede todo o tipo de celebrações, o Carnaval não foge à regra. Mas há quem procure alternativas para não deixar passar a data em branco. É o caso dos NOPORN, dupla brasileira que fez questão de assinalar uma das tradições mais expressivas do seu país através de três showcases online gratuitos, nas noites de 13, 14 e 15 de Fevereiro, a partir da sua conta do Youtube.

Em cada actuação caseira, a vocalista Liana Padilha e o produtor Lucas Freire propõem alinhamentos e cenografias diferentes enquanto revisitam um percurso iniciado em 2002. A primeira noite passou pelo álbum de estreia homónimo, editado em 2006, a segunda centrou-se no sucessor, "BOCA", de 2016, e a terceira vai dedicar-se a singles e música feita para outros contextos, como campanhas de moda.

"A minha loucura tem trilha sonora", diz Padilha em "Xingu", um dos primeiros temas do duo inicialmente formado com Luca Lauri (que entretanto se afastou das actuações mas continua como curador musical do projecto). E em versos como esse ia revelando o que esperar dos NOPORN, que começaram por dar eco musical e poético a noites loucas e longas em São Paulo.

Num registo mais falado do que cantado, a vocalista narrou histórias de amor e sexo gráficas e explícitas q.b. sem que o resultado soasse a um esforço de provocação gratuito, deixando também um olhar bem humorado sobre cenários e comportamentos em temas como "Maiô da Mulher Maravilha" ou o single 'clássico' "Baile de Peruas" - os títulos não enganaram. Cinco anos depois do segundo álbum, a proposta mantém-se, apesar de já não poder inspirar-se num circuito nocturno boémio e estonteante - sintomas de um mundo pós-COVID-19. Mas continua a haver espaço para a reflexão sentimental e sexual num terceiro disco a editar este semestre e que promete olhar para a monogamia, a violência, o ciúme, a posse ou o sexo digital. "Escolhemos começar no Carnaval, porque o Carnaval é fervo, é sobre corpos, liberdade. E essa é a nossa massa", explica Padilha nas redes sociais.

Apesar de brasileiro, musicalmente o Carnaval dos NOPORN deve mais à electrónica do que ao samba, com uma linguagem mestiça entre synth-pop, house, techno, pós-punk, descendências do electroclash ou mesmo acessos EBM (sobretudo nas versões das canções ao vivo, com um apelo rítmico atiçado pela percussão de Lucas Freire).

Se Rita Lee é apontada como referência identitária, pelo sentido de liberdade feminina da qual foi voz precursora e transgressora, temas como "Dois", "Preferia Nunca" ou "Tanto" estão mais próximos do frenesim tropical de conterrâneos como Letrux e Tetine (com quem o duo colaborou em "Fumaça") ou, fora de portas, com o embalo sintético e noctívago de Miss Kittin, dos Vive La Fête e até dos portugueses Micro Audio Waves. Música de e para quem se atreve a "misturar chantily e desespero" correndo o risco de "explodir de curiosidade", como atira Padilha no crescendo cacofónico de "Sonia", outra das canções a ouvir no alinhamento deste Carnaval improvisado:

Mínima luz, máxima intensidade

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Já havia bons motivos para prestarmos atenção ao "ELÉCTRICO", o programa nascido de um casamento feliz entre a Antena 3 e a RTP1 que resultou na melhor montra televisiva para a nova música portuguesa em muitos anos. Mas a segunda temporada, que tem sido emitida no primeiro canal nas noites de sexta-feira, oferece das poucas oportunidades para acompanhar concertos inéditos de artistas nacionais em tempos de salas encerradas (e sem data de reabertura à vista).

É verdade que não faltam actuações caseiras improvisadas com palcos virtuais, embora o empenho (louvável) do modelo do it yourself dificilmente garanta o melhor apuro técnico. E por isso as gravações do "ELÉCTRICO", registadas no Capitólio, em Lisboa, no ano passado, destacam-se como a aproximação possível à experiência de um concerto ao vivo - e com um cuidado na realização, edição e trabalho de som no qual a música sai valorizada.

O episódio mais recente é um dos exemplos mais claros, ao dar uma rara oportunidade de ouvir numa sala as canções de "Mínima Luz", o novo álbum dos TRÊS TRISTES TIGRES (e dos melhores editados por cá em 2020). Longe de imediato, como é habitual na banda de Ana Deus e Alexandre Soares, o sucessor do já distante "Comum" (1998) é daqueles que intrigam o suficiente à primeira audição para inspirar redescobertas com tempo, seja das palavras (muitas de Regina Guimarães, cúmplice de sempre, mas também de Luca Argel ou da vocalista) ou dos cruzamentos sonoros (com guitarras e sintetizadores entre a distorção e loops que se vão revelando viciantes).

O salto para o palco não só é conseguido como atira para um patamar superior a intensidade de canções como "Galanteio", "À Tona" ou "Língua Franca" (que contou com a harpista Angélica Salvi como convidada), onde ecos do rock alternativo e experimentação electrónica se juntam a uma eloquência particular. Essa carga mais visceral e trepidante ao vivo já elevava temas de discos anteriores, mas é bom confirmar que "Mínima Luz" não faz equivaler veterania e conforto.

Além dos TRÊS TRISTES TIGRES, o episódio mais recente do programa conduzido por Henrique Amaro e Vanessa Augusto recebeu Rita Redshoes, também ela com várias canções novas - "Contigo É Pra Perder" juntou-a a Camané no ponto alto da actuação, assente numa pop elegante e delicada. Depois da emissão às sextas, "ELÉCTRICO" repete ao domingo ao meio-dia, na RTP1, e segunda-feira, às 21h00, em versão FM na Antena 3 - e também está disponível na RTP Play.