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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Música colorida para um quarto escuro

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Com um terceiro álbum a caminho e agendado já para Abril, os NOPORN começaram por revisitar os anteriores através do regresso aos palcos possível no primeiro trimestre de 2021. Enquanto não chega "SIM", a dupla brasileira apostou em três actuações online caseiras em Fevereiro, transmitidas em directo para celebrar o Carnaval, nas quais repescou canções do álbum de estreia homónimo, de 2006, e de "BOCA", de 2016.

Já o showcase da passada sexta-feira, 12 de Março, foi o primeiro de mais uma série de três nas próximas semanas, todos com premissas distintas. O arranque fez-se com o espectáculo LADO B, que junta temas mais obscuros e há muito pedidos por alguns fãs do projecto da vocalista Liana Padilha e do produtor Lucas Freire.

"Ctrl + Alt + Del", "Ex Culpa", "Canibalismo", "Fumaça" (originalmente partilhada com os conterrâneos Tetine) e "Gang Bang" compõem um alinhamento pensado para as pistas, embora a pandemia tenha limitado a festa. Mas esta música de dança insinuante, com ecos do furor electroclash e letras sem travões do politicamente correcto, ainda tem cor e luz suficientes para iluminar um quarto escuro em noites de confinamento.

O efeito da bola de espelhos é tão ou mais forte em "Geleia de Morango", o novo single, que não está incluído nesta actuação (embora não deva faltar numa próxima) e desvia o hedonismo dos NOPORN para os ritmos da electrónica baleárica de inícios dos anos 90, cruzados com flashes da noite de São Paulo. O próximo avanço do terceiro álbum, "Pérola Suja", vai ser revelado ainda este mês e também bebe em memórias boémias e paulistanas da dupla. Mas enquanto não chega, há tempo para ir (re)descobrindo os lados B, tanto na versão original como no update ao vivo em 2021:

A loucura deles tem trilha sonora (e o Carnaval também)

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Numa altura em que a pandemia afecta e geralmente impede todo o tipo de celebrações, o Carnaval não foge à regra. Mas há quem procure alternativas para não deixar passar a data em branco. É o caso dos NOPORN, dupla brasileira que fez questão de assinalar uma das tradições mais expressivas do seu país através de três showcases online gratuitos, nas noites de 13, 14 e 15 de Fevereiro, a partir da sua conta do Youtube.

Em cada actuação caseira, a vocalista Liana Padilha e o produtor Lucas Freire propõem alinhamentos e cenografias diferentes enquanto revisitam um percurso iniciado em 2002. A primeira noite passou pelo álbum de estreia homónimo, editado em 2006, a segunda centrou-se no sucessor, "BOCA", de 2016, e a terceira vai dedicar-se a singles e música feita para outros contextos, como campanhas de moda.

"A minha loucura tem trilha sonora", diz Padilha em "Xingu", um dos primeiros temas do duo inicialmente formado com Luca Lauri (que entretanto se afastou das actuações mas continua como curador musical do projecto). E em versos como esse ia revelando o que esperar dos NOPORN, que começaram por dar eco musical e poético a noites loucas e longas em São Paulo.

Num registo mais falado do que cantado, a vocalista narrou histórias de amor e sexo gráficas e explícitas q.b. sem que o resultado soasse a um esforço de provocação gratuito, deixando também um olhar bem humorado sobre cenários e comportamentos em temas como "Maiô da Mulher Maravilha" ou o single 'clássico' "Baile de Peruas" - os títulos não enganaram. Cinco anos depois do segundo álbum, a proposta mantém-se, apesar de já não poder inspirar-se num circuito nocturno boémio e estonteante - sintomas de um mundo pós-COVID-19. Mas continua a haver espaço para a reflexão sentimental e sexual num terceiro disco a editar este semestre e que promete olhar para a monogamia, a violência, o ciúme, a posse ou o sexo digital. "Escolhemos começar no Carnaval, porque o Carnaval é fervo, é sobre corpos, liberdade. E essa é a nossa massa", explica Padilha nas redes sociais.

Apesar de brasileiro, musicalmente o Carnaval dos NOPORN deve mais à electrónica do que ao samba, com uma linguagem mestiça entre synth-pop, house, techno, pós-punk, descendências do electroclash ou mesmo acessos EBM (sobretudo nas versões das canções ao vivo, com um apelo rítmico atiçado pela percussão de Lucas Freire).

Se Rita Lee é apontada como referência identitária, pelo sentido de liberdade feminina da qual foi voz precursora e transgressora, temas como "Dois", "Preferia Nunca" ou "Tanto" estão mais próximos do frenesim tropical de conterrâneos como Letrux e Tetine (com quem o duo colaborou em "Fumaça") ou, fora de portas, com o embalo sintético e noctívago de Miss Kittin, dos Vive La Fête e até dos portugueses Micro Audio Waves. Música de e para quem se atreve a "misturar chantily e desespero" correndo o risco de "explodir de curiosidade", como atira Padilha no crescendo cacofónico de "Sonia", outra das canções a ouvir no alinhamento deste Carnaval improvisado:

Mínima luz, máxima intensidade

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Já havia bons motivos para prestarmos atenção ao "ELÉCTRICO", o programa nascido de um casamento feliz entre a Antena 3 e a RTP1 que resultou na melhor montra televisiva para a nova música portuguesa em muitos anos. Mas a segunda temporada, que tem sido emitida no primeiro canal nas noites de sexta-feira, oferece das poucas oportunidades para acompanhar concertos inéditos de artistas nacionais em tempos de salas encerradas (e sem data de reabertura à vista).

É verdade que não faltam actuações caseiras improvisadas com palcos virtuais, embora o empenho (louvável) do modelo do it yourself dificilmente garanta o melhor apuro técnico. E por isso as gravações do "ELÉCTRICO", registadas no Capitólio, em Lisboa, no ano passado, destacam-se como a aproximação possível à experiência de um concerto ao vivo - e com um cuidado na realização, edição e trabalho de som no qual a música sai valorizada.

O episódio mais recente é um dos exemplos mais claros, ao dar uma rara oportunidade de ouvir numa sala as canções de "Mínima Luz", o novo álbum dos TRÊS TRISTES TIGRES (e dos melhores editados por cá em 2020). Longe de imediato, como é habitual na banda de Ana Deus e Alexandre Soares, o sucessor do já distante "Comum" (1998) é daqueles que intrigam o suficiente à primeira audição para inspirar redescobertas com tempo, seja das palavras (muitas de Regina Guimarães, cúmplice de sempre, mas também de Luca Argel ou da vocalista) ou dos cruzamentos sonoros (com guitarras e sintetizadores entre a distorção e loops que se vão revelando viciantes).

O salto para o palco não só é conseguido como atira para um patamar superior a intensidade de canções como "Galanteio", "À Tona" ou "Língua Franca" (que contou com a harpista Angélica Salvi como convidada), onde ecos do rock alternativo e experimentação electrónica se juntam a uma eloquência particular. Essa carga mais visceral e trepidante ao vivo já elevava temas de discos anteriores, mas é bom confirmar que "Mínima Luz" não faz equivaler veterania e conforto.

Além dos TRÊS TRISTES TIGRES, o episódio mais recente do programa conduzido por Henrique Amaro e Vanessa Augusto recebeu Rita Redshoes, também ela com várias canções novas - "Contigo É Pra Perder" juntou-a a Camané no ponto alto da actuação, assente numa pop elegante e delicada. Depois da emissão às sextas, "ELÉCTRICO" repete ao domingo ao meio-dia, na RTP1, e segunda-feira, às 21h00, em versão FM na Antena 3 - e também está disponível na RTP Play.

Pujança garantida, para eles e para elas

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Desafio do segundo álbum superado? Às primeiras audições, parece que sim: "Welfare Jazz" mostra que os VIAGRA BOYS continuam a levar-se muito pouco a sério mas não deixam de soar confiantes, e às vezes até urgentes, num alinhamento que expande as fronteiras do pós-punk sujo e desbragado de "Street Worms" (2018).

Se o primeiro single, "Ain't Nice", parecia jogar pelo seguro, com uma sonoridade talvez demasiado reconhecível, os suecos arriscam mais em aproximações à synth-pop ("Creatures", candidato a hino de underdogs), viagens instrumentais infecciosas ("6 Shooter", em modo jam session inspirada), mergulhos no blues ("I Feel Alive", com uma rugosidade devedora de Tom Waits) ou mesmo na country (no final a cargo de "To the Country" e "In Spite of Ourselves", versão de John Prine). 

As experiências nem sempre são certeiras, com o resultado a soar mais aliciante nos temas acelerados, e fica sempre a impressão de que o verdadeiro território destas canções é o palco. Os vídeos das Shrimp Sessions 2 partilhados pelo grupo nos últimos dias comprovam isso mesmo: com as influências do jazz sugeridas pelo título do disco a ganharem outro corpo ao vivo, o turbilhão instrumental é mais livre, robusto e vertiginoso, muito por culpa da presença dominante do saxofone.

Embora valha a pena ouvir tudo, o momento imperdível é, de longe, "GIRLS & BOYS", que sai a ganhar à versão gravada tanto na duração como na intensidade e embalo rítmico. E até há bongos como extra enquanto os sopros do incansável Oskar Carls roubam protagonismo ao vocalista Sebastian Murphy. As legendas são outra adenda a ter em conta e confirmam que o sexteto não perdeu o sentido de humor em tiradas como "Middle aged men fight in comments on which band this sounds like" (sobretudo quando não têm faltado comparações, de Iggy Pop aos IDLES). Que 2021 permita testemunhar esta pujança num palco português:

Há algo de envolvente no reino da Dinamarca

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Um dos regressos do ano a celebrar ficou a cargo de AGNES OBEL, que ao quarto álbum aprimorou qualidades que fazem dela uma cantautora a ter por perto. "Myopia" é um disco hipnótico tanto pela composição como pela produção, ambas a valorizarem uma voz tão capaz de confortar como de inquietar. E a segunda vertente talvez saia a ganhar nas novas canções, algumas das mais soturnas - ou até sinistras - do catálogo desta dinamarquesa radicada em Berlim.

As doses reforçadas de negrume não serão muito surpreendentes tendo em conta que Edgar Allan Poe ou Alfred Hitchcok estão entre as referências de uma obra que também deve muito à música clássica ou à folk, de Claude Debussy a Joni Mitchell. À aura gótica, a fase mais recente acrescentou um interesse pela manipulação vocal, enriquecendo o jogo de texturas de um alinhamento atmosférico e enigmático que mantém esse efeito no salto para o palco. Ou pelo menos é o que sugerem as versões ao vivo de alguns temas apresentadas na sala National Sawdust, em Brooklyn, no início do ano, com uma atenção aos arranjos tão minuciosa como no disco.

A alquimia de piano, cordas ou percussão, garantida por uma banda de três elementos, ajudará a explicar porque é que OBEL foi convidada para acompanhar os Dead Can Dance na sua digressão actual e leva a pedir que os promotores nacionais também se lembrem dela para um regresso a salas portuguesas em 2021 - até porque tem várias datas agendadas para cidades europeias ao longo do próximo Verão. Até lá, teremos sempre o precioso recurso ao arquivo virtual de actuações como a nova-iorquina, a ver e ouvir nos vídeos abaixo: