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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

40 de 2019

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Julho é um mês mais dado a banhos do que a balanços, mas também é uma boa altura para recordar o melhor que o primeiro semestre de 2019 foi trazendo. No cinema, destaque para os regressos de Abdellatif Kechiche (apesar das polémicas), Clint Eastwood (mais do que um regresso, uma reconciliação), Christophe Honoré (idem, aspas) e Florian Henckel von Donnersmarck (não há dois sem três). Embora aquém do impacto que mereciam ter, "Brightburn - O Filho do Mal" e "Mirai" souberam fugir ao óbvio no universo dos super-heróis e da animação, respectivamente.

 

No pequeno ecrã, duas desilusões: "A Guerra dos Tronos" e "Black Mirror", com aquelas que foram, de longe, as suas piores temporadas. Valham-nos surpresas como "Pose", "Das Boot: O Submarino" ou "Boneca Russa" - um balanço mais completo ficará para depois, com outras séries cujas temporadas ainda estão a meio.

 

Nos discos, a synth-pop e arredores ficaram mais uma vez bem entregue aos Ladytron, TR/ST, Automelodi ou Boy Harsher, bandas que tem sido difícil encontrar num palco nacional (só mesmo a primeira, e já lá vão uns anos). Não por acaso, alguns dos melhores concertos vistos nos últimos meses foram mesmo fora de portas... Pelo menos vai ser possível ver Sharon Van Etten por cá daqui a uns dias (no NOS Alive), embora o convite também pudesse alargar-se a outras vozes femininas (Honeyblood, CARLA ou Requin Chagrin deixaram boas recordações nos últimos tempos). Além destes, vale a pena ir (re)descobrindo os nomes da lista abaixo:

 

10 FILMES

 

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"A Educadora de Infância", Sara Colangelo
"Agradar, Amar e Correr Depressa", Christophe Honoré
"Brightburn - O Filho do Mal", David Yarovesky
"Correio de Droga", Clint Eastwood
"Em Trânsito", Christian Petzold
"Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro", Abdellatif Kechiche
"Mirai", Mamoru Hosoda
"Nunca Deixes de Olhar", Florian Henckel von Donnersmarck
"Os Irmãos Sisters", Jacques Audiard
"Verão", Kirill Serebrennikov

Fora de circuito: "Bangla", Phaim Bhuiyan; "Entre Corredores", Thomas Stuber; "Mario", Marcel Gisler; "Napoli Velata", Ferzan Ozpetek

Filme nacional: "Gabriel", Nuno Bernardo

 

10 DISCOS

 

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"Careful", Boy Harsher
"Dreaming the Dark", Tamaryn
"Hypnos", Xeno & Oaklander
"In Plain Sight", Honeyblood
"Kill a Feeling", CARLA
"Ladytron", Ladytron
"Mirages au futur verre-brisé", Automelodi
"Remind Me Tomorrow", Sharon Van Etten
"Sémaphore", Requin Chagrin
"The Destroyer - 1", TR/ST

Álbuns nacionais: "Desalmadamente", Lena D'Água; "Do Outro Lado", PZ; "Enza", Throes + The Shine

 

5 CONCERTOS

 

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Automelodi no Maravillas Club, Madrid
dEUS no Coliseu dos Recreios, Lisboa
Javiera Mena na Sala Mon Live, Madrid
Mashrou' Leila na Botanique/Orangerie, Bruxelas
Throes + The Shine no B.Leza, Lisboa

 

15 CANÇÕES

 

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Foi cool? Sim, mas talvez até demais

Uma noite de belas canções às quais pareceu faltar um sentido de espectáculo à altura. Na sua estreia lisboeta, no Musicbox, JONATHAN BREE apresentou esta quarta-feira uma actuação singular e personalizada, mas que não fez inteira justiça a "Sleepwalking", o seu novo álbum.

 

Jonathan Bree no Musicbox Lisboa @Ana Viotti.jpg

 

No videoclip de um single como "You're So Cool", tudo faz sentido. Foi através dessa canção que JONATHAN BREE, apesar de uma longa carreira com os Brunettes desde finais dos anos 90 e de um percurso a solo mais recente, terá conseguido chegar a novos públicos nos últimos tempos. O suficiente para consolidar um fenómeno de culto em torno do cantautor e produtor neo-zelandês, alimentado por aquele que será o seu tema mais orelhudo sem perder a aura soturna da sua pop de câmara.

 

O vídeo ajudou, ao centrar-se numa actuação na qual tanto o músico como a sua banda surgem com a cara coberta por uma máscara, num cenário que lembra emissões televisivas dos anos 50/60, evocação reforçada por uma fotografia a preto e branco de tons esbatidos. Assente numa voz de barítono sussurrante e numa alternância entre ambientes intimistas e quase épicos (quando as cordas ganham protagonismo), "You're So Cool" terá sido, para muitos, o principal (e impressionante) cartão de visita de "Sleepwalking", terceiro álbum a solo e digno sucessor de "The Primrose Path" (2013) e "A Little Night Music" (2015).

 

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A máscara que se destacava aí, tal como na capa do disco, regressaria nos videoclips dos singles seguintes e mantém-se como elemento-chave dos concertos da Sleepwalking Tour, que passou por palcos portugueses esta semana no festival A Porta, em Leiria, pelo Maus Hábitos, no Porto, e finalmente pelo Musicbox, em Lisboa, na estreia do neo-zelandês na capital (com direito a sala esgotada, tal como a noite na Invicta).

 

Infelizmente, as opções cénicas que despertam curiosidade por este universo nos três ou quatro minutos de um videoclip revelam-se limitadas e repetitivas num espectáculo com certa de uma hora de duração (aliás, 55 minutos bem contados e sem direito a encore, o que acabou por saber a pouco).

 

Acompanhado por quatro elementos, dois músicos (na bateria e guitarra) e duas bailarinas (que pontualmente cantaram e se ocuparam da guitarra ou pandeireta), JONATHAN BREE adoptou uma postura tão teatral como estática, nunca se tendo dirigido directamente ao público para verbalizar cumprimentos ou agradecimentos, limitando a sua interacção às flores que atirou para as primeiras filas a meio do espectáculo.

 

Jonathan Bree no Musicbox Lisboa @Ana Viotti 2.jpg

 

A contrastar com a sua atitude contida, as duas bailarinas foram imparáveis, também elas com o rosto coberto e indumentária rendilhada, a deixar sugestões de um imaginário de outros tempos ou de atmosferas do cinema de terror. A carga cinemática foi sublinhada, aliás, por alguns arranjos de cordas, mas é pena que as tenhamos ouvido num formato pré-gravado em vez de entregues a músicos no palco. Essa frustração também passou pelo registo vocal, que às tantas deixou sérias desconfianças de playback - não tanto no caso de BREE, mas no das vozes femininas presentes em alguns temas.

 

Longe de arrebatar, o concerto foi ainda assim competente, até porque nas canções propriamente ditas nunca comprometeu. Esta discografia já tem uma mão cheia delas, e nenhuma dispensável, o que levou a um alinhamento que arrancou com episódios de compasso mais lento (caso da nebulosa faixa-título do novo álbum, na abertura) para ir ganhando maior dinamismo rítmico até ao final. Houve ecos das vozes e obra de Scott Walker, Serge Gainsbourg ou Leonard Cohen numa música que conseguiu ser sorumbática e onírica mas também dominada por uma sensibilidade pop envolvente, num espectro que foi do barroco ao minimalista (como quando ouvimos o neo-zelandês a capella, em alguns dos pontos altos da actuação).

 

Jonathan Bree no Musicbox @Ana Viotti 3.jpg

 

As imagens projectadas no ecrã ao fundo do palco, entre o preto e branco e o sépia, e os escassos adereços (entre leques e raquetes que se fizeram passar por guitarras) contribuíram para uma vertente lo-fi e artesanal, apropriada a estas canções, com um ambiente muito lá de casa. E além de "You're So Cool", que sem surpresas ficou entre os picos da noite, houve instantes tão bons ou até melhores em "Valentine" e sobretudo "Fuck It", com o crooning planante de BREE a atingir o ponto de rebuçado. Mas com uma duração mais longa e outro formato de espectáculo, o encantamento podia ter sido total.

 

3/5

 

 

 

 

Fotos @Ana Viotti/Musicbox Lisboa

 

Esta melodia ganhou outro nervo

Apesar de ser recomendável, o novo álbum dos AUTOMELODI fica aquém dos (óptimos) singles que o antecederam. Mas ao vivo "Mirages au futur verre-brisé" ganha outro fôlego e vertigem, como a banda canadiana deixou evidente na sua passagem por Madrid durante a digressão europeia (infelizmente sem datas em Portugal).

 

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Inicialmente projecto de um homem só, os AUTOMELODI tornaram-se uma dupla quando Xavier Paradis, veterano da cena electrónica de Montreal, convidou o guitarrista Dillon Steele para se juntar ao seu mergulho entre a cold wave, a synth-pop e o pós-punk. A aventura, que arrancou com o disco homónimo, em 2010, mostrou-se igualmente proveitosa no sucessor, "Surlendemains acides" (2013), e não desilude no terceiro longa-duração, o recente "Mirages au futur verre-brisé".

 

Ainda assim, não é desta que o projecto canadiano oferece um alinhamento imbatível de fio a pavio, já que singles brilhantes como "Toujours de jamais (hors-temps)", "Les Métros Disparus" , "Feux rouges, châteaux brillants" e sobretudo "La Poussière" acabam por não ter sucessão à altura num disco com alguma perda de fôlego na segunda metade - que embora dominada por uma produção inatacável, não conta com canções tão urgentes.

 

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Não que isso comprometa o lugar demarcado que a dupla foi capaz de encontrar na indietronica dos últimos anos. Com uma linguagem que deve tantos aos New Order, The Cure ou Ultravox como aos Indochine, Étienne Daho ou Serge Gainsbourg, os AUTOMELODI desenham um romantismo intrigante e a optar sempre pelo francês como idioma, não temendo cortar em algum charme e elegância quando levam as suas canções para o palco.

 

O concerto no Maravillas Club, em Madrid, a 18 de Maio, destacou-se por uma sonoridade bem mais ríspida e densa do que a dos discos, a encurtar consideravelmente a distância entre a synth-pop e o noise. Mas a música do duo nunca deixou para trás o embalo rítmico e melódico, com Paradis a oscilar entre o crooner eloquente e acessos de alma punk enquanto Steele apostou numa pose mais circunspecta, quase shoegazer, apenas desfeita quando se atirou a um desvario com ecos EBM ao trocar a guitarra pela percussão num tema.

 

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Os novos singles mantiveram-se tão infecciosos como na versão gravada e outros temas do disco, caso de "Angoisses d'Orléac", soaram mais propulsivos e viscerais. A coesão do alinhamento também saiu reforçada por viagens certeiras aos discos anteriores, do "clássico" "Schema Corporal", talvez ainda a canção mais pegajosa dos AUTOMELODI, a uma "La Cigale" servida numa versão rude e intensa, complementada por uma cacofonia de samples vocais.

 

"Digresse" também assegurou a força de um concerto sem pontos mortos e praticamente sem pausas - parco em palavras, o duo entregou-se quase por completo à música, e tanto essa postura como parte da sonoridade lembraram as actuações de uns The Soft Moon.

 

 

Embora não se tenha dirigido muitas vezes ao público, Paradis ainda saiu do palco em várias ocasiões para dançar freneticamente no meio dele - tal como dançou em palco, muitas vezes munido de uma pandeireta. Até porque nem faltava espaço, tendo em conta que a pequena sala contou com escassas dezenas de espectadores.

 

De qualquer forma, o acolhimento dos canadianos não deixou de ser vibrante, numa comunhão que só pecou pela brevidade: o catálogo do grupo permitia-lhe ter ido além da duração mínima de uma hora, já incluindo o encore de apenas um tema ("Buanderie jazz", regresso ao álbum de estreia e a um flirt curioso com a jangle pop). Mas foi uma limitação "pas grave", no final das contas, quando o que se viu e ouviu se revelou tão imponente e memorável...

 

"MIRAGES AU FUTUR VERRE-BRISÉ": 3/5

CONCERTO: 4/5

 

 

 

 

Quando o "ritmo de la noche" é latino e electrónico

Numa altura em que a pop latina dá cartas a nível mundial, JAVIERA MENA está entre os nomes que mais merecem atenção. Sobretudo num palco, como a chilena comprovou em Madrid ao apresentar "Espejo", o seu último álbum.

 

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"Esquemas Juveniles" (2006) começou a projectar a sua voz fora de portas, tornando-a uma das revelações chilenas de inícios do milénio (o lado dos Dënver ou de Gepe) depois de ter feito parte da dupla Prissa. E esse disco de estreia teve entre os fãs os Kings of Convenience, que se entusiasmaram por canções então tendencialmente acústicas e convidaram JAVIERA MENA para assegurar as primeiras partes de alguns concertos. Portugal chegou a ser um dos destinos da digressão, em 2009, com actuações em Lisboa e Braga. Mas não seria má ideia voltar a ouvi-la por cá dez anos e três álbuns depois, quando a cantautora já é uma das maiores certezas da pop latino-americana.

 

Esse estatuto ficou devidamente comprovado no concerto em Madrid, na Sala Mon Live, a 17 de Maio. Acolhida num espaço bem composto e com um público pronto a celebrar, a chilena apresentou "Espejo" (2018) e revisitou discos anteriores sempre com um grande sentido de espectáculo, numa conjugação fulgurante de música e imagem, com a sua presença e entrega no centro.

 

Javiera Mena @Mon Madrid 2.jpg

 

Não por acaso, o álbum de estreia foi o único sem direito a revisitações. E embora temas iniciais como "Quando hablamos" ou "Perlas" nao mereçam ficar esquecidos, JAVIERA MENA está hoje bem distante dos ambientes contidos e sussurrantes desses tempos, com a pop outonal de câmara a dar lugar a electropop garrida e tendencialmente agitada. O alinhamento foi mesmo uma carta de amor à música de dança, integrada sem preconceitos no formato canção: num desfile luminoso houve ecos synth-pop, ambientes baleáricos, disco (do space ao italo), Hi-NRG, house ou eurodance. E sem que o resultado se assemelhasse a uma manta de retalhos, mantendo uma fluidez contagiante.

 

O único desvio ao formato dançável deu-se quando a chilena de 35 anos de sentou ao piano para a balada "Quédate un ratito más" e "Mujer contra mujer", esta última uma versão do tema dos espanhóis Mecano. Entoada por toda a sala, a releitura do single da banda espanhola, de finais da década de 80, ficou como sinal mais evidente do activismo LGBT+ expresso há anos pela cantautora ("Nada tienen de especial/ Dos mujeres que se dan la mano/ El matiz viene después /Cuando lo hacen por debajo del mantel", cantou, acompanhada efusivamente por grande parte do público).

 

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Esse episódio vincou um dos momentos de maior comunhão de uma noite que arrancou logo em alta com "Hasta la Verdad", um dos singles de "Mena" (2010), o segundo álbum da sul-americana e também o mais coeso. Dele ouviu-se ainda a estupenda "Luz de Piedra de Luna", canção-chave na simbiose entre marcas latinas (na letra e voz) e ritmos sintetizados, claramente um dos momentos de passagem obrigatória desta discografia. Servida num encore que deixou o melhor para o fim, foi seguida da outra versão da noite: a de "Ritmo de la Noche", clássico das noites dançantes da alvorada dos 90s que fez todo o sentido numa noite de delírio colectivo.

 

"Intuición", um dos singles do último disco, mostrou que JAVIERA MENA não é indiferente à expansão do reggaeton, numa viragem estilística que ainda assim não destoou. E esta versatilidade musical foi acompanhada por um apuro visual assinalável, do imaginário cósmico que dominou o ecrã ao fundo do palco nos temas iniciais a cenários intimistas ou futuristas. Mas o maior aparato foi mesmo criado pela cantautora e pelos dois músicos que levou a palco, na bateria e programações, além do piano, sintetizador e guitarra que ficaram a cargo da própria.

 

Na recta final, a chilena trocaria os instrumentos por um sabre de luz com o qual correu até ao público das primeiras filas, em "Espada", um dos momentos mais calorosos de uma noite que nunca arrefeceu durante quase duas horas. Só é pena que um furacão pop destes não prometa passar por salas portuguesas tão cedo...

 

4/5

 

 

Balança o pé (e a perna, o braço ou o que estiver à mão)

Com um dos álbuns nacionais mais frescos da temporada na bagagem, os THROES + THE SHINE levaram novas e antigas canções ao B. Leza, em Lisboa, na passada quinta-feira. E confirmaram o que "Enza" já sugeria: há por aqui mais vida além do rockuduro através do qual se distinguiram.

 

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Sete anos depois de se terem feito notar ao cunharem o híbrido de rock e kuduro no registo de estreia, "Rockuduro" (o título não engana), os THROES + THE SHINE podem orgulhar-se de contar com uma das discografias mais prolíficas e consistentes surgidas por cá esta década. E se "Mambos de Outros Tipos" (2014), o álbum sucessor, ameaçava cristalizar uma fórmula personalizada como poucas, o mais electrónico "Wanga" (2016) abdicou de parte da crueza inicial numa viragem que "Enza" veio agora consolidar.

 

O trio luso-angolano explora mundos cada vez mais vastos e tem juntado regularmente outras vozes à sua, tanto em disco como nos palcos, e a nova fase não é excepção. A apresentação da colheita recente ao vivo deixou claro que o rótulo de rockuduro, sendo apropriado para algumas canções, é no geral limitador (2012 ficou lá atrás), com os convidados da noite a reforçarem a curiosidade evidente por outros territórios.

 

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Carlos Sousa Vieira/SAPO Mag

 

O arranque, no entanto, mostrou a banda entregue a si própria, e tão segura como se esperaria. Depois da saída de Diron Animal, um dos fundadores do grupo, em 2017, Mob Dedaldino parece estar cada vez mais à vontade como mestre de cerimónias, além de ter tido um papel mais activo na criação dos novos temas. O angolano mostrou-se incansável na tarefa de espicaçar um público inicialmente contido, longe da euforia imediata de outros concertos dos THROES + THE SHINE. Desta vez, os espectadores deram algum trabalho ao vocalista, mas não foi um esforço inglório: o crescendo de entrega e intensidade foi bonito de ver, e Mob acabou por ter todos a seus pés - até literalmente, quando apelou a que o públicose baixasse mais de uma vez para saltar ao seu aviso. O desafio foi aceite, tal como os muitos convites a braços no ar guiados pelos seus movimentos.

 

 

Igor Gomes, na bateria, e Marco Castro, na guitarra, teclados e programações, não reclamaram tanto protagonismo mas nem por isso deixaram de ajudar à festa, comprovando que este continua a ser um power trio de uma coesão inatacável. Os cúmplices de palco da noite não foram menos vibrantes: Da Chick entrou em cena na recuperação de "Keep It In", tema de "Wanga" na qual colabora; Mike El Nite sublinhou a aproximação ao hip-hop da recente "Musseque"; Cachupa Psicadélica deu voz ao mantra cósmico de "Solar", outra novidade; e o holandês Jori Collington, produtor de "Enza" (e metade dos Skip & Die) foi um elemento decisivo numa recta final mais sintética.

 

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A abertura, tal como no novo disco, ficou por conta de "ADN", canção que faz a ponte com os THROES + THE SHINE dos álbuns anteriores - tal como "Balança", o single de avanço, cujas reacções efusivas ao vivo pareceram atirá-lo para a lista de clássicos instantâneos. Mas as maiores surpresas vieram de canções como "Paraíso", cuja versão gravada convida os mexicanos Sotomayor e retoma a aventura latina de "Guerreros", que foi revisitada no concerto e deixou um dos episódios mais estrondosos.

 

Num raro desvio melancólico q.b., "Silver & Gold" confirmou ser um dos pontos altos de "Enza", e dos menos interessados no frenesim rítmico. Revelou antes que o trio também sabe explorar um R&B contemplativo e melódico, sem se tornar genérico, e já a milhas do rock ou do kuduro dos primeiros tempos. Noutro comprimento de onda, "Prayer" propõs uma incursão disco/funk igualmente bem sucedida, com um embalo contagiante a meio caminho entre a herança de James Brown e um Bruno Mars em fase de inspiração. E não ficou aquém do efeito de portentos como "Tá a Bater" ou "Hoje É Festa", que é o melhor que se pode dizer de uma canção nova.

 

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Carlos Sousa Vieira/SAPO Mag

 

O kuduro marcou, ainda assim, um dos picos de adrenalina do final do concerto, através de uma releitura de "Felicidade", de Sebem, quando a banda já tinha praticamente todo o público na mão e Mob passava tantos momentos em palco como fora dele, a dançar com os espectadores antes de convidar alguns a subir para a despedida na frenética e irresistível "Ndele" - já com poucas ou nenhumas lembranças de um arranque morno. "Todos nós sentimos a felicidade", cantou o aplicadíssimo mestre de cerimónias nos minutos finais. E ao longo desta hora e pouco, ninguém pareceu ter discordado.

 

4/5