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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Mães paralelas

De França chegam duas das primeiras estreias cinematográficas aconselháveis do ano. Retratos de solidão e desespero, "ABRAÇA-ME COM FORÇA" e "O ACONTECIMENTO" são ambos olhares crus e singulares sobre mulheres em constante fuga para a frente.

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"ABRAÇA-ME COM FORÇA", de Mathieu Amalric: Revelada em "Linha Fantasma" (2017), de Paul Thomas Anderson, e um dos pilares da série "Das Boot: O Submarino", a luxemburguesa Vicky Krieps volta a ter mais um papel memorável nesta adaptação da peça de "Je Reviens de Loin", de Claudine Galea.

Mas o novo filme assinado pelo actor que também tem feito nome atrás das câmaras (em títulos como "Tournée - Em Digressão" ou "O Quarto Azul") está muito longe de se confundir com teatro filmado, propondo antes uma experiência sensorial, tão realista como etérea, enquanto segue a protagonista para terreno narrativamente incerto.

O que arranca como o drama de uma mulher que se faz à estrada e aparentemente deixa o marido e os filhos para trás torna-se uma história de superação invulgar e original, que subverte as expectativas do espectador (em especial durante o primeiro terço) sem cair num exercício de estilo ostensivo.

Pelo contrário, a inquietação da protagonista é bem palpável, não só pelo desempenho de Krieps, a tornar credível uma mulher no fio da navalha e inicialmente difícil de decifrar, mas pela forma como Amalric não perde a mão num trajecto fragmentado e não linear, entre cenas calorosas do quotidiano em família e a solidão desconcertante de uma mãe longe de casa. Por esta altura já sabíamos, mas é sempre bom voltar a confirmar que temos aqui actriz e realizador.

3,5/5

"O ACONTECIMENTO", de Audrey Diwan: A segunda longa-metragem da realizadora de "Mais vous êtes fous" (2019), estreia que não passou pelas salas nacionais, chega com o Leão de Ouro do último Festival de Veneza e tem sido apontado como um verdadeiro acontecimento do cinema francês recente.

Adaptação de um livro parcialmente autobiográfico de Annie Ernaux, acompanha uma jovem estudante universitária e a sua tentativa de fazer um aborto na França dos anos 60, quando a interrupção voluntária da gravidez não só era punida por lei mas podia decretar a morte de quem a tentasse, muito por culpa da falta de condições de algumas soluções clandestinas.

Exemplo de um realismo social enxuto e sempre verosímil, "O Acontecimento" é um drama que olha sem maniqueísmos para um tema ainda polarizador, embora tome claramente partido de um dos lados. Mas mais do que um ensaio filmado sobre um tema fracturante, escolhe sobretudo o lado da protagonista, ao qual a câmara (à mão e a valer-se de travellings frequentes) se fixa de forma obsessiva, à pele e às vezes à carne - algumas cenas parecem encaminhar-se para o body horror, embora dois ou três momentos mais gráficos não joguem necessariamente a favor do filme.

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Fechando o ecrã no formato quase quadrangular de 1.37:1, é um retrato com contornos de thriller psicológico para o qual é decisiva a presença de Anamaria Vartolomei, brilhante enquanto mulher fora do seu tempo cuja gravidez indesejada ameaça de forma inevitável os seus projectos de vida, em especial os estudos e a ambição de ser professora.

"O Acontecimento" é muito bom a mergulhar num mundo que se fecha a uma jovem determinada que vive livremente a sua sexualidade e que reivindica o seu corpo, e o que mais choca é que esta história de época ainda seja a realidade de muitas mulheres. Mas é precisamente por Diwan traduzir tão bem essa tensão quotidiana que o salto temporal dos últimos minutos propõe um desfecho algo frustrante, ao passar por cima de uma fase da vida da protagonista que merecia um olhar atento. De qualquer forma, o novo cinema francês é bem capaz de vir a passar por esta câmara e este rosto...

3/5

Ressurreição, reciclagem e reinvenção

Como olhar para o legado da saga incontornável das irmãs Wachowski, 20 anos depois? "MATRIX RESURRECTIONS" responde com um capítulo muito mais auto-consciente e quase sempre empolgante, apesar de supérfluo.

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Se é para haver uma sensação (inevitável?) de déjà vu, então que seja assumida ao máximo, terá pensado Lana Wachowski ao aceitar continuar uma das sagas mais impactantes da viragem do milénio. Surgido mais por vontade da Warner Brothers do que por urgência criativa da realizadora (que desta vez dirige a saga sem a irmã, Lilly), "MATRIX RESURRECTIONS" vem confirmar o regresso insistente ao passado da esmagadora maioria dos blockbusters actuais - de sequelas a prequelas, de reboots a spin-offs.

Mas não era nada mau que muita concorrência do ano o tivesse feito com esta destreza e sentido lúdico. Não, este não é um filme que inventa a roda - dificilmente conseguiria fazê-lo numa saga onde não há mesmo amor como o primeiro -, e a realizadora assume-o logo aos minutos iniciais, numa réplica/homenagem/recontextualização de cenas clássicas dos anteriores que conjuga nostalgia e ironia, sinceridade e calculismo, com um embalo refrescante de humor e adrenalina.

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Se a adrenalina não é novidade numa trilogia que mudou as regras do cinema de acção das últimas décadas (goste-se mais ou menos dela), a injecção de humor torna este, com larga distância, no capítulo mais espirituoso de "Matrix". Nada contra, quando agora tem na mira a máquina de Hollywood actual e a rentabilização de franchises icónicos, alguns entretanto já moribundos de tão regurgitados.

A forma auto-referencial e inesperadamente directa que Lana Wachowski (juntamente com os co-argumentistas Aleksandar Hemon e David Mitchell) encontrou para discutir a liberdade artística e os compromissos com o sistema merece aplausos e alguns sorrisos, embora "MATRIX RESURRECTIONS" também acabe vítima da lógica que critica quando não volta a equiparar-se ao rasgo do primeiro terço.

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Por um lado, o filme não consegue evitar sucessões ocasionais de diálogos expositivos, já demasiado presentes nas sequelas anteriores - um peso inglório e em boa parte carregado por Jada Pinkett Smith. Por outro, as cenas de acção ficam muito longe dos melhores momentos de uma saga à qual não faltam sequências memoráveis. Algumas até estão demasiado próximas de um blockbuster de um qualquer tarefeiro, com movimentos difíceis de seguir, culpa de uma câmara epiléptica que, apesar de tudo, dá tréguas numa desconstrução habilidosa do bullet time, uma das coqueluches desta mitologia. Episódios como esse, ou como o da perseguição final entre arranha-céus, à noite, e com vários intervenientes (alguns surgidos de onde menos se espera), provam que a assinatura Wachowski ainda é capaz do melhor (um alívio depois de desastres como "Speed Racer", a série "Sense8" e sobretudo "A Ascensão de Júpiter"). Mas seria legítimo esperar mais nesse departamento...

Felizmente, "MATRIX RESURRECTIONS" acerta em cheio na vertente emocional, ao colocar a relação entre Neo e Trinity no centro deste regresso. E se Keanu Reeves não consegue disfarçar as limitações interpretativas (aceitemos que é mais feitio do que defeito), o filme ganha outro fôlego dramático com a presença de Carrie-Anne Moss, cuja entrega mostra que há um coração a bater neste conflito homem-máquina.

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A história de amor ganha terreno à discussão e alegorias cyberpunk, com a realizadora a tirar partido da química da dupla protagonista e do peso de um romance trágico. Ou talvez jogue só pelo seguro (o que nos leva às farpas do arranque), embora haja factor-surpresa mais do que suficiente nas novas caras da saga: Jessica Henwick a vestir muito bem a pele de jovem e intrépida aliada (a comandar uma equipa que merecia mais tempo de antena), Yahya Abdul-Mateen II numa versão tão desafiante como estranha de Morpheus, Neil Patrick Harris a destilar o carisma que se espera dele e Jonathan Groff num honroso e vibrante sucessor de Hugo Weaving como Mr. Smith.

Tudo somado, faz desta uma sequela muito mais bem-vinda do que a penosa "The Matrix Revolutions" (2001), mesmo que não fosse absolutamente necessária, e dos poucos blockbusters recomendáveis de 2021, ao lado de "007: Sem Tempo Para Morrer", de Cary Fukunaga; "Um Lugar Silencioso 2", de John Krasinski; ou "Eternos (Eternals)", de Chloé Zhao. Afinal, parece que este comprimido ainda não passou da validade...

3/5

Duas mulheres, duas histórias e memórias espanholas

Conduzido por uma Penélope Cruz em estado de graça, "MÃES PARALELAS" é mais um olhar sobre as mulheres, e sobretudo a maternidade e a herança familiar, que continua a colocar um filme de Pedro Almodóvar entre as estreias a não perder - mesmo que pudesse ter sido (ainda) melhor.

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Penélope Cruz ganha um brilho especial quando se entrega à câmara de Almodóvar e o novo filme do espanhol não vem desmentir essa alquimia mantida há mais de duas décadas. Nesta altura, a colaboração será, por si só, motivo mais do que suficiente para querer espreitar "MÃES PARALELAS", e a actriz confirma-se entre os trunfos ao viver uma mulher tão contraditória como as melhores personagens a que o autor de "Fala com Ela" ou "A Lei do Desejo" nos habituou.

Janis, assim se chama a protagonista (e qualquer ligação a outra famosa Janis não será coincidência), está no centro narrativo e temático de um drama que tanto acompanha a sua aventura na maternidade, a surgir de forma abrupta e a desenvolver-se de modo conturbado, como salta para um retrato mais amplo ao trazer memórias de um passado espanhol ainda por cicatrizar, com as marcas mais traumáticas (e trágicas) do franquismo.

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Se por um lado esta conjugação torna "MÃES PARALELAS" num filme particularmente ambicioso, este é um relato que resulta mais convincente quando segue de perto a relação de Janis com outra mãe solteira, mais jovem, que conheceu no hospital e da qual não se afastará tão cedo quanto pensava.

Quando se centra no elo entre essas duas mulheres, o filme propõe uma jornada às vezes rocambolesca, e que noutras mãos se tornaria telenovelesca, mas que Almodóvar conduz com mestria formal e equilíbrio emocional, entre enquadramentos meticulosos na qual a sua assinatura facilmente se adivinha, cores garridas e direcção artística esmerada. E o espanhol tempera com ambiguidade moral uma história avessa a heróis e vilões, sejam as personagens homens ou mulheres, ainda que o feminismo não deixe de ser evidente (e até literal, como o expressa uma t-shirt vestida por Janis).

Entre a pulsação do melodrama, injecções oportunas de humor e sugestões de terror psicológico (reforçadas pela banda sonora hitchcockiana do cúmplice de longa data Alberto Iglesias, a prometer um drama de faca e alguidar a certa altura), "MÃES PARALELAS" deixa um retrato envolvente de duas mulheres à beira de um ataque de nervos (ou até já para lá dele) amparado nos talentos de Cruz e de outras "chicas" igualmente dignas de aplauso: a revelação Milena Smit, credível na pele de uma jovem compassiva a tentar encontrar o seu lugar; a veterana Aitana Sánchez-Gijón, a dar espessura a uma mãe longe de idealizada (mas que não pede desculpa por isso nem é julgada pelo realizador); e a habitual Rossy de Palma, numa personagem que, não sendo essencial nesta história, dispara algumas das melhores tiradas.

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É pena, por isso, que a tensão dramática esmoreça quando Almodóvar se desvia para a questão da memória histórica e dos desaparecidos durante a Guerra Civil Espanhola, cenas em que o filme acusa demasiado o tema e nas quais nunca atinge o mesmo fulgor criativo.

A recta final é especialmente anticlimática, ao trocar a desenvoltura e inspiração da trama doméstica pelas boas intenções, fazendo conviver duas histórias cujo entrosamento demarca a relação entre o passado, o presente e o futuro no destino de Janis, mas que limita o potencial do filme. Também não ajuda que os conflitos entre as duas mães sejam resolvidos de forma demasiado conveniente, longe do Almodóvar mais intenso e visceral, mesmo que este sobressaia em sequências anteriores - e quando isso acontece, vislumbra-se a diferença entre um drama bem acima da média e o que poderia aproximar-se de uma obra-prima. O que não quer dizer que "MÃES PARALELAS" deixe de ter lugar cativo entre as estreias obrigatórias de 2021...

3,5/5

Os amantes passageiros

Com charme, humor e inteligência bem doseados, "AS COISAS QUE DIZEMOS, AS COISAS QUE FAZEMOS" é um regresso feliz de Emmanuel Mouret. Entre a comédia e o drama, o filme chegou cá na Festa do Cinema Francês e tem direito a passagem (infelizmente breve) pelo circuito comercial.

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Embora mantenha uma obra prolífica desde finais dos anos 90, Emmanuel Mouret não tem sido um habitué nas salas portuguesas, apesar de algumas estreias pontuais - e de o seu filme anterior, "Madame de Jonquières", estar disponível no catálogo da Netflix. Mas quem chegar à filmografia do realizador francês através do seu título mais recente talvez fique com curiosidade de espreitar o que está para trás.

Como outros dos seus filmes, "AS COISAS QUE DIZEMOS, AS COISAS QUE FAZEMOS" chega com comparações aos universos de Éric Rohmer ou Woody Allen, desde logo pela aposta forte nos diálogos - elemento privilegiado para a entrada neste retrato de uma certa burguesia francesa -, mas também pelo perfil romanesco cruzado com uma ironia muitas vezes certeira.

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Por muito que essa descendência até possa ser assumida, seria injusto reduzir este novelo singular de personagens e relações ao trabalho de um mero aluno aplicado. Mouret tem mesmo uma das abordagens mais originais e refrescantes dos últimos tempos às inquietações amorosas, com o mérito de não se levar muito a sério mas também de não olhar de cima para as angústias destes amantes e amados, traidores e traídos, que tão depressa estão juntos como se separam.

Partindo da chegada de um jovem tradutor (e aspirante a escritor) à casa de um primo ausente, na qual é recebido pela companheira grávida deste, "AS COISAS QUE DIZEMOS, AS COISAS QUE FAZEMOS" vai cruzando relatos amorosos dessas duas personagens e apresentando outras figuras, algumas à partida secundárias embora acabem por protagonizar, mais à frente, arcos narrativos destas cerca de duas horas que se percorrem sem esforço.

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Mouret mostra-se hábil na construção de um argumento fluído, não deixando que o espectador se perca na sucessão de (des)encontros em que o bem de uns implica quase sempre o mal de outros. Assim vai o amor? É uma visão possível, ainda que o tom esteja longe de ser cínico ou ancorado em percursos deterministas, cruzando um registo de farsa com desorientação existencial sem nunca fingir discutir mais do que problemas de primeiro mundo.

Apoiado num elenco coeso - liderado por Niels Schneider, Camélia Jordana, Vincent Macaigne e Emilie Dequenne - e num sentido de espaço que convence tanto nas cenas rurais como nas urbanas (intercaladas ao longo da acção), "AS COISAS QUE DIZEMOS, AS COISAS QUE FAZEMOS" está a milhas de um filme verborreico onde as palavras esmagam o cinema, mesmo que Mouret pudesse ter sido mais criterioso a dosear o recurso a música clássica em muitas cenas. E se na recta final talvez dê mais respostas do que precisava, até lá deixa um retrato ao qual não falta savoir faire, elegância e poder de sedução. Que volte depressa às salas portuguesas, e durante mais tempo...

3,5/5