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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Homens à beira de um ataque de nervos

Uma crise de meia-idade, um mergulho na culpa e um relato amoroso, todos no masculino e filmados por três veteranos que estão de volta este ano: Pedro Almodóvar, Marco Bellocchio e Woody Allen. O resultado é "DOR E GLÓRIA", "O TRAIDOR" e "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", respectivamente.

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"DOR E GLÓRIA", de Pedro Almodóvar: É estranho ver este drama ser tão louvado por vincar um suposto renascimento das carreiras do autor de "Tudo Sobre a Minha Mãe" e de Antonio Banderas. A última colaboração da dupla, em "A Pele Onde Eu Vivo" (2011), não só não tinha sido assim há tanto tempo como havia resultado numa obra que ia bastante mais longe no mergulho no trauma e noutros abismos emocionais. E sente-se falta de alguma dessa aspereza num filme que é, às vezes, mais interessante pelos paralelos entre o percurso do protagonista (um realizador veterano solitário e depressivo) e o de Almodóvar, numa espécie de autobiografia não oficial, do que pela(s) história(s) que conta.

Há várias sequências fortes, entre confrontos profissionais, amorosos e familiares, e a direcção artística é das mais esmeradas e facilmente reconhecíveis do cineasta espanhol - com destaque para um apartamento luxuoso, onde decorre a acção no presente, e uma cave transformada num lar, nas cenas que recuam à infância. Mas também há uma facilidade nem sempre muito credível (e até inesperadamente ligeira) na superação dos conflitos - da crise de inspiração ao mergulho nas drogas -,  que deixa o todo aquém da urgência de um testemunho como "Má Educação", talvez o filme de Almodóvar cujo argumento mais se aproxima deste olhar sobre (des)encontros no masculino.

De resto, sim, Antonio Banderas é convincente e comovente enquanto personagem-espelho do realizador (acabou premiado como Melhor Actor em Cannes) e Penélope Cruz volta a dar-se bem na nova colaboração com alguém que sabe sempre tirar o melhor dela (mesmo que aqui não acrescente muito a parceiras anteriores). Um reencontro a saudar, é certo, mas distante de uma epifania.

3/5

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"O TRAIDOR", de Marco Bellocchio: Um dos melhores biopics do ano (senão mesmo o melhor, merecidamente nomeado para a Palma de Ouro em Cannes) é também uma prova de que ainda é possível fugir aos estereótipos do "filme da máfia". E o retratado, Tommaso Buscetta, merece figurar entre os anti-heróis (ou vilões?) mais fascinantes dos últimos tempos, já que Bellocchio nunca olha de cima para o criminoso tornado informador numa denúncia histórica que atingiu, como poucas, a Cosa Nostra (a máfia siciliana).

Ao longo de quase duas horas e meia, esta combinação de drama e thriller recusa uma narrativa polida e formatada,  percorrendo vários anos da vida do protagonista e recompensando a atenção do espectador (sem se preocupar com uma insistência de explicações de contexto). Implacável na radiografia de um sistema corrupto, o realizador veterano viaja aqui entre a sua Itália natal, o Brasil e os EUA com uma fluidez que só não se mantém em duas ou três das muitas cenas de tribunal - cuja atmosfera de selva civilizacional, tão trágica como cómica, está entre as maiores singularidades do filme mas poderia sair reforçada com alguma economia narrativa. Em compensação, não faltam sequências de recorte superior, sobretudo momentos estratégicos de suspense e acção que mostram o octogenário num pico de forma - caso de uma cena de chantagem num helicóptero e, sobretudo, de um acidente automóvel filmado com um cruzamento invejável de criatividade e adrenalina.

Além deste olhar de cinema duro e adulto como poucos, "O TRAIDOR" eleva-se pela interpretação de Pierfrancesco Favino (actor que já tinha sido decisivo em "Suburra" ou "Saturno Contro"), capaz de moldar o protagonista enquanto figura ambígua, magnética e indecifrável - mas empática q.b.. E assinala aqui um dos grandes regressos de 2019, depois do menos entusiasmante "Sonhos Cor-de-Rosa" (2016).

4/5

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"UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE", de Woody Allen: O título até parece ter qualquer coisa de premonitório, tendo em conta que esta comédia é o exemplo mais recente de um realizador a chover no molhado. Woody Allen pode ir buscar novos rostos para o seu cinema, mas o tema e a abordagem continuam os mesmos de sempre, num filme new yorker a deixar a enésima carta de amor à cidade que nunca dorme.

O brilho da direcção de fotografia de Vittorio Stotaro é inegável, embora saia desperdiçado numa historinha de unir os pontos sobre um jovem casal universitário durante uma visita atribulada a Nova Iorque. Timothée Chalamet dá corpo ao protagonista erudito e neurótico, seguindo um modelo em tempos encarnado por Allen, que tem aqui direito a uma lição de vida. Elle Fanning interpreta a sua namorada, cujo contacto (e deslumbramento) com figuras da elite intelectual lhe baralha as prioridades. Mas nenhum destes arcos narrativos é especialmente aliciante, com desvantagem para o dela, basicamente um concentrado de encontros com figuras caricaturais que não vão além de manobras de sedução. Fanning, de resto, também não consegue dar grande espessura à sua personagem, ficando-se pelo refúgio em tiques e gestos, ainda que o principal culpado seja um argumento genérico.

Nem os diálogos são muito memoráveis, ficando o factor surpresa limitado a Selena Gomez, com o desempenho menos afectado e uma das poucas personagens interessantes, e a uma cena do protagonista com a mãe, perto do desenlace, com uma carga emocional que parece pertencer a outro filme (mais bem escrito e interpretado). Apesar da polémica à volta da estreia (descartada nos EUA), "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE" é das obras mais inócuas do seu autor.

2/5

Os ricos e os pobres

São dos filmes mais falados dos últimos tempos, por motivos muito diferentes, mas todos acabam por ter a luta de classes entre os pontos-chave: "JOKER", "OUSADAS E GOLPISTAS" e "PARASITAS", três estreias que marcam a recta final de 2019.

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"JOKER", de Todd Phillips: Há que aplaudir a audácia de um filme que tenta fugir à fórmula de boa parte das aventuras cinematográficas da Marvel e da DC. Esta origem de um dos maiores vilões do universo dos super-heróis não é (e mostra que não quer ser) a dose de mais do mesmo da temporada. Só que daí a ser um grande filme, ou mesmo um filme especialmente conseguido, ainda vai uma certa distância. E por muito que o realizador de "A Ressaca" aponte agora a Nova Hollywood e, em especial, obras de referência de Martin Scorsese como inspirações (inesperadas, admita-se, tendo em conta o seu currículo), a abordagem acaba por ser mais adolescente do que adulta, ainda que essa caução cinéfila seja aliciante para alguns - e até inclua a "benção" de Robert De Niro, cuja participação reforça os ecos de "Taxi Driver" ou "O Rei da Comédia" neste mergulho na solidão e indiferença urbanas.

Sim, é difícil não reconhecer a entrega de Joaquin Phoenix, embora a câmara fique tão deslumbrada com o seu corpo e esgares que se esquece de olhar com atenção para os secundários, peões ao serviço de uma retórica sisuda, repetitiva e sem grandes subtilezas - veja-se o discurso do protagonista numa das últimas cenas, a explicar palavra por palavra o que as quase duas horas anteriores já tinham salientado. No final, ao extremar tanto o olhar sobre as tensões sociais a partir de uma Gotham City atípica (mais próxima da Nova Iorque suja e agreste de thrillers dos anos 70), marcando um fosso intransponível entre ricos e pobres, "JOKER" não escapa ao maniqueísmo das histórias de super-heróis das quais pretende distanciar-se.

A intriga com mistério telenovelesco centrada na família Wayne também não ajuda, nem uma reviravolta que Phillips não resiste a desvendar com uma recapituação para o espectador menos atento, gestos que vão diluindo a perspicácia sugerida noutras sequências (como algumas das que denunciam o impacto da doença mental num homem com um quotidiano já de si conturbado). E depois também é muito difícil imaginar que este Arthur Penn vai algum dia tornar-se numa figura impenetrável, caótica, arrepiante e calculista como a que Heath Ledger encarnou de forma tão singular. Apesar do arrojo em fugir à linha de montagem hollywoodesca, este Joker perturba muito pouco...

2,5/5

Ousadas e Golpistas.jpg

"OUSADAS E GOLPISTAS", de Lorene Scafaria: Óscar para Jennifer Lopez? Ou nomeação, pelo menos? Essa expectativa tem alimentado as atenções em torno deste curioso filme de golpe baseado num caso real, mas até é Constance Wu quem mais sobressai ao longo do mergulho no submundo nova-iorquino. Não que J-Lo esteja mal, sobretudo porque assume aqui uma personagem mais interessante do que aquelas a que nos tem habituado, na pele de uma stripper que prepara um esquema para seduzir, drogar e roubar corretores de Wall Street.

Lopez, que também assume a função de produtora executiva, tem ainda a seu favor a química que nasce da sua relação com a co-protagonista, na medida certa entre a cumplicidade e a disputa, e a desenvoltura de uma realizadora que recusa olhar para estas mulheres apenas enquanto manipuladoras ou vítimas do sistema.

Filme surgido da ressaca da crise financeira de 2008, "Ousadas e Golpistas" é, felizmente, mais conciso do que "O Lobo de Wall Street" e menos esquemático do que "A Queda de Wall Street" (cujo realizador, Adam McKay, está aqui ao lado de Lopez ou de Will Ferrell na produção executiva). E também sabe fugir ao empoderamento feminino feito com mão pesada que tornou os também recentes "Viúvas" e "The Kitchen - Rainhas do Crime" em experiências frustrantes.

Através do percurso de Wu, cuja personagem conduz esta narrativa inspirada num artigo da New York Magazine, Scafaria molda um relato astuto e envolvente, auxiliado por uma montagem enérgica mas não gratuita e uma das bandas sonoras mais certeiras dos últimos tempos (de Janet Jackson a Fiona Apple, de Britney Spears aos Soulwax).

É verdade que o argumento nunca chega a explorar as outras mulheres do gangue como a dupla protagonista, que as muito faladas presenças de Cardi B e Lizzo são pouco mais do que cameos e que uma das últimas aliadas do golpe, de tão destrambelhada, torna a acção inverosímil em algumas sequências. Mas não deixa de estar aqui uma boa surpresa, e com mais rasgo do que muita produção mainstream norte-americana dos últimos meses.

3/5

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"PARASITAS", de Bong Joon-ho: O que é admirável no novo filme do cineasta sul-coreano nem é tanto a mistura de géneros, aliás já habitual na obra do autor de "Expresso do Amanhã" ou "The Host - A Criatura", mas a mestria com que é desenvolvida numa das suas obras mais memoráveis. E também uma das melhores do ano, ao partir de duas famílias de Seul com origens sociais bem diferentes que o destino (e alguma chico-espertice do clã mais humilde) se encarregará de entrecruzar.

A viagem entre a comédia negra e o thriller, com desvios ocasionais pelo terror (sangrento q.b., fica o aviso), segue num sentido a milhas da contenção de "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões", de Hirokazu Koreeda, outro olhar recente sobre uma família asiática empobrecida que fugia aos caminhos mais óbvios do realismo social. Ao longo de mais de duas horas, Bong Joon-ho não perde a mão e consegue ir surpreendendo até o espectador mais habituado às reviravoltas que os seus filmes costumam servir.

O resultado é tão lúdico como angustiante, entretenimento de topo e capaz de agradar a vários públicos sem perder de vista a capacidade de observação sobre o fosso económico da capital da Coreia do Sul - e não muito diferente do de outras metrópoles. "PARASITAS" pode até nem dizer nada de novo, mas têm surgido poucos filmes tão engenhosos e contundentes, que revelem um cineasta tão hábil na manipulação do espectador, recompensando-o com uma experiência que vai muito além de um exercício de estilo.

Abrilhantando por um elenco sem falhas e uma direcção artística à altura (a casa na qual decorre a maior parte da acção é todo um novo mundo por explorar), ainda consegue dar tempo e espaço e todas as personagens (e são muitas), motores de um conflito mais ambivalente do que aquele que o arranque sugere. Uma das estreias imperdíveis de 2019, portanto, e das mais desconcertantes.

4/5

Da fábula para adultos aos corredores de um hospital

A FESTA DO CINEMA FRANCÊS está bem e recomenda-se. Ou pelo menos foi essa a impressão que ficou com dois dos primeiros filmes exibidos na 20.ª edição, a decorrer no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.

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"BRANCA COMO NEVE", de Anne Fontaine: Numa altura em que a Disney insiste em rapar o tacho com a enésima versão em imagem "real" das suas adaptações de clássicos infantis, esta revisão para adultos da história da Branca de Neve é um antídoto a ingerir sem contra-indicações. Afinal, quem precisa de derivados na linha de "Maléfica" quando tem Isabelle Huppert como sucessora espiritual da Rainha Má, aqui consumida pelo ciúme face à capacidade de sedução da sua enteada?

Em vez de sete anões, a protagonista, encarnada com desenvoltura por Lou de Laâge, cruza-se com sete homens que não demoram a ceder aos seus encantos, caracterizados com doses variáveis de insegurança, vulnerabilidade e neurose. Os encontros sucessivos dão à narrativa um registo demasiado episódico e a realizadora demora algum tempo a acertar o tom, que vai do realismo ao thriller, do burlesco ao onírico, e com muitas insinuações eróticas. Mas a viagem física e emocional desta "princesa" que não precisa de ser salva vai-se tornando mais convidativa à medida que vai avançando, num relato de emancipação feminina e descoberta da sexualidade avesso a puritanismos e capaz de atrevimentos arriscados (mas muito franceses, dirão alguns) na era #MeToo e Time's Up.

Além de ser divertido ver Huppert a fazer o número maléfico com uma perna às costas, consecutivamente frustrada enquanto tenta despachar a protagonista, os secundários (Vincent Macaigne, Benoît Poelvoorde, Damien Bonnard...) são outro trunfo, e o filme consegue dar tempo e especificidade a cada relação deles com a heroína. Fontaine também se sai bem a desenhar uma atmosfera entre o reluzente e o nebuloso, sem precisar de um catálogo de CGI pronto a impressionar, mesmo que esta fábula adulta e deliciosamente adulterada não tenha a força emocional dos antecessores "Agnus Dei - As Inocentes" (2016) e "Marvin" (2017). Mas quem decidir aceitar os contornos peculiares da proposta não deverá dar o tempo por perdido.

3/5

 

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"VERDADE E CONSEQUÊNCIA", de Thomas Lilti: Ora aqui está um belo exemplo de cinema do meio, que não tendo grandes pretensões autorais é capaz de se dirigir ao grande público com sensibilidade e inteligência. Essa tem sido, aliás, uma característica habitualmente louvada na obra de um realizador que também é médico, conjugação com reflexo na temática dos seus filmes. Em França, foram acolhidos por milhares de espectadores enquanto vão acumulando aplauso crítico, embora fora de portas a recepção tenha ficado aquém desse fenómeno.

"Médico de Província" (2016) estreou em Portugal há uns anos sem grande alarido, mas a caminho estão o recente "Os Caloiros da Medicina" (2018) e o mais distante "Verdade e Consequência" (2014), ambos apresentados em ante-estreia nacional na Festa do Cinema Francês. Este último foi, aliás, a segunda longa-metragem e a grande rampa de lançamento para Lilti, enquanto avançou um olhar personalizado (e inspirado em algumas experiências do realizador) sobre o universo da medicina.

Os primeiros dias de um interno num hospital de Paris, à partida semelhantes às peripécias de tantos dramas médicos (sobretudo televisivos), são o mote para a radiografia minuciosa do quotidiano de uma equipa de profissionais de saúde, feita com um cruzamento de realismo e humanismo pouco habitual. E este retrato dos bastidores torna-se especialmente forte ao acompanhar os danos colaterais de dois casos de negligência, com a aventura iniciática do protagonista (Vincent Lacoste) e a sua cumplicidade com um colega mais velho (Reda Kateb) a abrir portas para o foco num sistema em crise.

Apesar de se tornar algo panfletário mais para o final e de resolver tensões de forma um tanto conveniente, "VERDADE E CONSEQUÊNCIA" mantém intacto e credível o seu estudo de personagens, auxiliado por um elenco sem mácula, dos protagonistas ao secundário mais discreto - todos pessoas com qualidades e falhas de carácter,  mesmo que Lilti não seja tão simpático com os que ocupam os lugares mais altos da hierarquia. E antes de apontar o dedo ao desleixo estatal pela Saúde (infelizmente, não exclusivo da realidade francesa), arrisca-se a deixar o espectador com o coração nas mãos em duas ou três sequências dramáticas filmadas com uma justeza emocional invulgar - que talvez ajudem a explicar porque é que esta história acabou por ter continuidade numa série televisiva. 

3/5

O amor é um lugar perigoso

Do Quénia e da Tailândia, respectivamente, "Rafiki" e "Manta Ray" passaram pelo QUEER LISBOA depois de terem feito um percurso elogiado em várias salas fora de portas. Mas entre as novidades da 23ª edição do Festival Internacional de Cinema Queer também ficam algumas curtas-metragens a reter (já outras, nem por isso).

 

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"RAFIKI", de Wanuri Kahiu: Esta edição do Queer Lisboa foi especialmente fértil em filmes que conciliaram o coming out e o coming of age, temática que está longe de ser novidade mas que continua a ser inspiradora. Infelizmente, também se mostrou mais inspiradora do que inspirada em muitas dessas novas obras, com variações pouco transgressoras de relatos de descoberta identitária e sexual.

 

"Port Authority", de Danielle Lessovitz, e "Skate Kitchen", de Crystal Moselle, foram exemplos simpáticos mas facilmente esquecíveis do cinema indie norte-americano recente - o primeiro com um romance entre um rapaz e uma rapariga trans, numa viagem à subcultura do voguing que uma série como "Pose" propõe com outra garra e carisma, o segundo uma resposta cândida e no feminino a "Kids", de Larry Clark, a partir do quotidiano de um grupo de skaters. Mais cru, "Sócrates", do brasileiro Alexandre Moratto, foi perdendo força ao ceder a muitos lugares comuns do realismo social, num remate a caminho do miserabilismo, desperdiçando a história de um adolescente homossexual orfão. Já "Carmen y Lola", da espanhola Arantxa Echevarría, conseguiu evitar algumas dessas armadilhas ao olhar para o relacionamento de duas raparigas da comunidade cigana, embora o final tenha sublinhado os desequilíbrios de um registo indeciso entre o quase documental e o quase telenovelesco.

 

É com a premissa de "Carmen y Lola", aliás, que a de "RAFIKI" mais se assemelha, ao também se centrar numa relação lésbica, ainda que num contexto completamente diferente. E aqui o contexto faz mesmo toda a diferença, ou não fosse este o primeiro filme do Quénia que olha para a homossexualidade de frente e sem julgamentos, o que o levou a ser banido dentro de casa, onde essa prática é considerada crime - por outro lado, garantiu um acolhimento de braços abertos em Cannes e marcou a estreia de uma obra do país na selecção do festival.

 

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Sendo um filme especialmente corajoso e engajado, tem outros méritos além dessa vertente e não merece ficar confinado a curiosidade sociológica. É certo que a narrativa abraça a convenção, como de resto acontece com "Carmen y Lola", cujo desenvolvimento das protagonistas segue as mesmas vias. Mas isso não é impeditivo de que vá surgindo aqui um drama vibrante, pela química das actrizes principais ou do olhar tão realista como garrido de um bairro dos subúrbios de Nairobi.

 

Kahiu cede, ocasionalmente, a alguns facilitismos dramáticos, nos diálogos ou na caracterização de parte das personagens secundárias, embora se saia bem numa conjugação difícil de idealismo, através da postura do casal face a uma homofobia institucionalizada e claustrofóbica, e de um sentido de urgência que se vai tornando cada vez mais acentuado. E se o choque de realidade do último acto é especialmente inquietante (e revoltante), "RAFIKI" não se afunda na vitimização e opta por um desfecho esperançoso, mas muito longe de utópico, num testemunho que daria uma boa sessão dupla com "And Then We Danced", outra das apostas meritórias do festival.

 

3/5

 

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"MANTA RAY", de Phuttiphong Aroonpheng: Primeira longa-metragem de um realizador com um percurso de dez anos no formato da curtas, este drama contemplativo confirma, por um lado, que o tailandês tem um sentido estético e atmosférico envolvente, expresso em três ou quatro sequências com uma força sensorial assinalável, mas também revela que essa singularidade formal não chega para suportar o seu filme de maior duração até agora. Por cada momento com algum fulgor há outros que vão tornando esta uma experiência de interesse intermitente, o que faz com que a relação entre dois homens de uma pequena aldeia costeira da Tailândia - um pescador e um desconhecido mudo que é encontrado por ele quase sem vida - vá ficando aquém do potencial dramático. E tanto é assim que a situação trágica dos refugiados Rohingya, uma das comunidades mais perseguidas do mundo, se arrisca a passar aqui praticamente despercebida junto de um espectador ocidental, apesar de o realizador assinalar que foi um dos motivos que o levaram a querer contar esta história. Com poucos actores, poucos diálogos e poucas viragens narrativas, Aroonpheng prefere deixar que as trocas de olhares ou a combinação de música e imagem falem por si (belo momento, aquele cantado pela personagem feminina que entra em cena a meio). Mas se a dedicação dos actores é palpável, o resultado talvez ganhasse se não os deixasse entregues a um argumento que se detém demasiadas vezes no lado mais místico e simbólico, que chega a ser hipnótico embora não mergulhe a fundo no conflito entre amizade, amor, intimidade e conjugalidade que esboça.

 

2/5

 

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Numa edição em que algumas longas-metragens seguiram um modelo mais padronizado, a competição de curtas mostrou-se um espaço dominado por abordagens que apontaram outras direcções. Em vários casos, promissoras: no atrevimento adolescente de "O Mistério da Carne" (Rafaela Camelo, Brasil), com a insolência a desafiar dogmas e conservadorismo; na sobriedade de "Tendresse" (Maxime Rappaz, Suíça), visita a uma sauna gay com a empatia a impor-se a tentações titilantes ou escabrosas; na melancolia de "Great Again" (Kirrilee Bailey, Austrália), com uma mãe e uma filha divididas pelas promessas e ameaças de Trump; na crueza de "Old Narcissus" (Tsuyoshi Shoji, Japão), relato da solidão e do envelhecimento entre passagens pelo humor e pelo S&M; no formalismo lúdico de "After... After... (Access)" (Jordan Lord, EUA), a juntar autobiografia e ironia; ou na candura de "A Gift" (Aditya Ahmad, Indonésia), com a lógica binária a sufocar o quotidiano de uma adolescente muçulmana.

 

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Mesmo que alguns dos filmes referidos acima tenham deixado a sensação de projecto inacabado, todos despertaram curiosidade em continuar a seguir as personagens e os realizadores. O mesmo já não se poderá dizer, no entanto, de "Printed Sunset" (Andrés Baron, Colômbia), retrato auto-indulgente e preguiçoso de um casal; de "Ant-Man" (Viet Vu, Vietname), provocação tosca e bocejante apesar do rigor e elegância formais; de "Pirate Boys" (Pol Merchan, Espanha), exercício documental demasiado hermético sobre trans e intersexualidade; e sobretudo de "Parsi" (Eduardo Williams, Mariano Blatt, Argentina), ensaio movido por uma voz off exasperante numa reflexão vaga e repetitiva sobre a diferença.

 

Também experimental, embora bem mais pop e ostensivo, "NEGRUM3" (Diego Paulino, Brasil) tem sido louvado como um retrato pungente da comunidade negra e queer paulista, mas parece perdido entre o apelo documental e a lógica de um videoclip. Estilo não lhe falta, só que o deslumbre pelos cenários e guarda-roupa sobrepõe-se a tudo o resto, ao ponto de uma enumeração de referências sugerir que o historial activista de Beyoncé ou de Solange está ao nível do legado de Nelson Mandela ou de Martin Luther King. Nada como (re)ver o filme de abertura do festival, o conterrâneo "Indianara", para lavar a vista (e as ideias) num manifesto que não se esgota na imagem.

 

Profissão de risco

Embora seja um filme à medida dos movimentos #MeToo e Time's Up, "WORKING WOMAN" não se limita a tentar captar o ar dos tempos. O apelo pode ser universal, mas o drama de Michal Aviad, em destaque no ciclo DIAS DO CINEMA ISRAELITA, ganha pela singularidade do seu retrato complexo e desconfortável de uma mulher "sob a influência".

 

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No papel, a premissa de "WORKING WOMAN" não anda longe da de (tele)filmes que têm "casos da vida" como mote, aqui com a tónica no assédio sexual no local de trabalho. Só que a história de Orna, cuja carreira promissora no mercado imobiliário sai gorada pelas investidas do chefe, é desenvolvida com nuances que a afastam tanto de um exercício programático e demonstrativo como a demonizações fáceis ou ao sensacionalismo de retratos comparáveis.

 

Michal Aviad, na sua segunda aventura na ficção, talvez deva parte da gestão desse equilíbrio difícil à sua experiência nos documentários, vincando este estudo de personagem com uma capacidade observacional assinalável. A realizadora israelita é bem sucedida no mergulho tanto na vida familiar como profissional da protagonista, não a limitando ao papel de vítima mesmo que vá dando conta da sucessão de microagressões a que é exposta logo deste os primeiros dias do novo desafio laboral.

 

Se o argumento não será sempre surpreendente, "WORKING WOMAN" dá a volta a um rumo esquemático pela atenção que a câmara vai dedicando à linguagem corporal e aos jogos de olhares, sobretudo de Orna, lado a lado com uma escrita perspicaz na abordagem dos relacionamentos, seja na esfera íntima ou pública - e principalmente nas situações em que essa fronteira se torna ténue.

 

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Liron Ben-Shlush, no papel da protagonista, é decisiva para que este drama se mantenha sempre assente num realismo bem captado, ao dar corpo à jornada de uma mulher cujo entusiasmo e brio profissionais vão sendo minados por obstáculos a que não sabe como reagir. "WORKING WOMAN" também não pretende apontar a solução, mas nos seus melhores momentos é certeiro na desmontagem dos abusos de poder que abrem caminho para a violência, psicológica e/ou física.

 

Hábil no desenho de uma atmosfera simultaneamente contida e claustrofóbica, às vezes a sugerir algum cinema de terror (ainda que longe da descida aos infernos do também recente "Custódia Partilhada", centrado na violência doméstica), Aviad vai moldando um novelo de tensão em crescendo com auge na cena mais explícita e crua, sem cair no gratuito. Infelizmente, também é a partir daí que vai perdendo algum impacto, numa recta final que não escapa por completo ao maniqueísmo evitado durante boa parte do filme, propondo uma resolução que, não sendo inverosímil, fica aquém do rasgo de outros momentos. O que não impede de encontrar em "WORKING WOMAN" muitos méritos além da discussão que poderá alimentar...

 

3/5

 

 

"WORKING WOMAN" é um dos filmes da 12.ª edição do ciclo DIAS DO CINEMA ISRAELITA, que decorre no Cinema City Alvalade, em Lisboa, de 19 a 22 de Setembro.