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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Educação sexual (via comédias românticas)

A descoberta do prazer sexual de uma mulher de meia-idade e a relação atribulada entre dois homens estão no centro de duas (boas) comédias em cartaz. Uma mais romântica do que outra, ambas a merecer a ida às salas de cinema.

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"BOA SORTE, LEO GRANDE", de Sophie Hyde: Se para Godard uma mulher e uma arma eram suficientes para fazer um filme, para a realizadora de "52 Tuesdays" (2013) e "Animals" (2019) uma mulher, um homem e um quarto bastam. Pelo menos no título mais recente da australiana, no qual a única arma a apontar são mesmo os diálogos.

Motor narrativo de um encontro que à partida se limitaria ao sexo, a palavra quase nunca sai de cena nesta comédia falsamente romântica ancorada nos encontros entre uma mulher de meia-idade e um jovem trabalhador do sexo num hotel londrino. Ela, uma viúva e professora recém-reformada, tenta conhecer os prazeres do corpo dos quais se viu arredada num longo (e único) relacionamento amoroso - sem direito a experienciar um orgasmo nessa vida a dois. Ele, tão cordial e atencioso como sedutor e esquivo, escuta pacientemente os seus desabafos que expõem inquietações, dúvidas ou constrangimentos que acabam por iniciar uma cumplicidade reforçada em vários episódios.

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Filme de câmara que nunca abdica do minimalismo de espaços e personagens, "BOA SORTE, LEO GRANDE" consegue esquivar-se às acusações de teatro filmado que poderiam minar um projecto destes contornos - basta ver como Hyde é meticulosa quanto ao que e quando mostrar nas cenas de nudez e/ou sexo. Escrito pela comediante britânica Katy Brand, deve boa parte do seu charme não só aos diálogos vivos dos quais se alimenta mas também à química decisiva entre Emma Thompson e Daryl McCormack, ambos com carisma suficiente para que esta história viva sobretudo das suas interações.

Thompson tem aqui um dos seus papéis mais fortes em anos (e dos mais corajosos, em particular numa cena perto do fim) ao revelar as camadas de uma mulher madura que se confronta com o envelhecimento, o corpo, o desejo, a vergonha ou a culpa. Já McCormack é uma revelação num desempenho no qual faz muito mais do que reagir à performance de uma actriz de créditos firmados, passando de ouvinte a instigador, de um estereótipo a uma figura de corpo inteiro.

Dessa entrega e generosidade partilhadas nasce um filme menos ligeiro do que pode parecer à partida, sem deixar de se manter espirituoso durante boa parte do tempo. Só perto do final, quando troca a comunhão pelo conflito, é que "BOA SORTE, LEO GRANDE" perde alguma graça e espontaneidade, numa viragem pouco verosímil que faz notar a mão pesada da argumentista. Felizmente, é uma fragilidade dramática que o desfecho consegue corrigir, retomando a via cómica sem tirar peso a um relato envolvente e caloroso.

3/5

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"BROS - UMA HISTÓRIA DE AMOR", de Nicholas Stoller: Para o melhor e para o pior, o novo filme de "Um Belo Par de... Patins" (2008) ou "Má Vizinhança" (2014) nunca tenta enganar ninguém: é declaradamente uma comédia romântica e sujeita-se ao formato expectável de aproximação, afastamento e reconciliação da dupla protagonista. Mas o facto de o casal ser composto por dois homens, ainda uma raridade num filme de um grande estúdio em 2022 (sobretudo neste registo), é logo suficiente para esta história de amor se diferenciar dentro do género. Sobretudo quando o filme, escrito e protagonizado por Billy Eichner, é bastante certeiro a apontar especificidades dos relacionamentos gay, com um humor muitas vezes autodepreciativo (e autoconsciente) que desmonta estereótipos e tem uma visão despudorada da intimidade e da sexualidade.

"BROS - UMA HISTÓRIA DE AMOR" mostra-se particularmente astuto na primeira metade, quando aponta o dedo, quase sempre de forma hilariante, aos preconceitos e contradições da própria comunidade LGBTQIA+ a partir do quotidiano de um podcaster e director de um museu que, chegado aos 40 anos, acreditava já não ser capaz de se apaixonar.

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"Gay aos 40 Anos" ou "Aguenta-te aos 40" podiam ser, aliás, títulos alternativos desta comédia romântica produzida por Judd Apatow e que partilha alguns defeitos e virtudes com a obra do norte-americano: se a realização, embora competente, é pouco imaginativa, para não dizer televisiva (e logo quando a Netflix apostou em "Uncoupled", série com Neil Patrick Harris na pele de outro homossexual quarentão à procura do amor), o foco num protagonista neurótico, presunçoso e de humor cáustico é ousado q.b. - e vem acompanhado de um abraço sentido a uma vasta (e diversificada) galeria de secundários.

Aludindo aos arquétipos consolidados em "clássicos" com Meg Ryan e disparando farpas às produções pasteurizadas do Hallmark, Eichner dilui a irreverência e a transgressão num terceiro acto obrigatoriamente mais previsível, aderindo de forma deliberada às regras do jogo de comédias românticas com o grande público na mira. Mas quem souber ao que vai verá essa opção mais como feitio do que como defeito, sobretudo quando o protagonista (reflexo nada disfarçado do argumentista) sublinha que um relacionamento gay também tem direito a um final feliz no cinema - e nos seus próprios termos e condições.

Em paralelo, "BROS - UMA HISTÓRIA DE AMOR" não se esquece de quem ajudou a abrir caminho para que um filme assim fosse possível, numa homenagem breve mas determinante a activistas históricos que não surge como elemento estranho na trama amorosa. Já é mais do que se pode dizer de muitas comédias despejadas nos multiplexes, românticas ou nem por isso...

3/5

Cinema nada protocolar (cortesia da nova geração brasileira)

Depois do documentário "Deus tem AIDS", premiado no Queer Porto no ano passado, os realizadores brasileiros Fábio Leal e Gustavo Vinagre voltaram a estar em destaque na mais recente edição do QUEER LISBOA. Desta vez em separado, mas ambos com longas-metragens saudavelmente livres e transgressoras, cruzando humor e ansiedade pandémica.

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"SEGUINDO TODOS OS PROTOCOLOS", de Fábio Leal: Variação muito singular sobre o "filme da pandemia", a primeira longa-metragem do realizador (e actor, argumentista e produtor) de curtas como "O Porteiro do Dia (2016) ou "Reforma" (2018) foi criada durante o confinamento e explora as inquietações de um homem gay solitário, carente e hipocondríaco, interpretado pelo próprio.

O protagonista decide ter sexo após dez meses de privação, mas está decidido a tomar todas as precauções contra a COVID-19, o que o atira para um processo tão angustiante como delirante nesta crónica de medos e afectos sempre pessoal mas transmissível. Filme literalmente muito lá de casa, é um olhar lúcido e lúdico sobre as contradições de uma fase de incerteza, aqui alimentada pelo refúgio no isolamento e numa dieta de redes sociais.

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Capaz de conjugar humor autoconsciente (e em certa medida auto-crítico) e uma vulnerabilidade assinalável, Fábio Leal compensa com ideias visuais e de escrita os poucos recursos que tem à mão, mantendo um olhar tão clínico como sensual sobre um quotidiano atravessado por fases depressivas, pela tensão às vezes difusa entre a cumplicidade e o abuso ou por fantasmas da presidência de Bolsonaro.

Filmando o sexo entre homens com espontaneidade e fintando tanto o pudor como o choque, acompanha a tentativa de equilíbrio entre desejo e paranóia do protagonista enquanto recusa dar prioridade a corpos masculinos de beleza estereotipada. E no caminho do desespero ao gozo vai sugerindo ser um realizador para continuar a seguir: de uma conversa por webcam que não perde o fôlego ao longo dos cerca de dez minutos de duração, sempre com plano fixo, à entrada em cena da belíssima "Cuidado, Paixão", de Letrux, num dos momentos mais bonitos do filme, há aqui um claro olhar de cineasta.

3,5/5

Três Tigres Tristes.jpg

"TRÊS TIGRES TRISTES", de Gustavo Vinagre: Vencedor do Teddy Award de Melhor-Longa Metragem do Festival de Berlim este ano, o novo filme do autor de "Vil, Má" (2020) e "Desaprender a Dormir" (2021) foi dos mais arriscados e refrescantes do QUEER LISBOA 26. Distopia divertidíssima ambientada numa São Paulo a lidar com uma pandemia de sinais particulares (e com efeitos na memória dos infectados), segue o caminho errático de três jovens pela cidade num registo episódico que não se contenta com um género.

A comédia, muitas vezes a tirar partido da irrisão camp, marca boa parte da viagem, mas há desvios para o musical ou acessos oníricos num filme invulgarmente solto e genuinamente queer. Entre piscadelas de olho à obra de John Waters, Pedro Almodóvar ou David Lynch, Vinagre conjuga o humor com uma ode aos marginalizados, sejam homo ou transexuais, trabalhadores do sexo, seropositivos ou idosos deixados ao abandono. E por isso este é um retrato que acaba por esbarrar na tragédia, no racismo, na homofobia ou no conservadorismo, embora opte por enfrentá-los com um sorriso tão insolente como a postura dos três protagonistas.

Se o elenco se mostra irregular e às tantas o argumento dispara em várias direcções, esta nunca deixa de ser uma experiência que mantém doses generosas de provocação, graça e carisma entre quadros visuais muito inspirados (o realizador tem bom olho tanto para exteriores como interiores, das avenidas paulistas a uma curiosíssima loja de velharias ou um cardume de antologia). Uma aparição fulminante de Inês Brasil e a escola "Ru Paul’s Drag Race" contribuem depois para algumas das cenas mais esgrouviadas e reforçam que "TRÊS TIGRES TRISTES" também é, à sua maneira, um filme sempre pop.

3,5/5

A tradição já não é o que era... e o cinema (queer) agradece

A relação difícil entre modernidade (ou liberdade) e tradição dá o mote a dois dos filmes premiados no QUEER LISBOA 26, que se despediu há poucos dias do Cinema São Jorge e da Cinemateca. E tanto um como o outro mereciam ter vida longa em mais salas nacionais...

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"JOYLAND", de Saim Sadiq: Infelizmente para as suas personagens, o título da longa-metragem vencedora da Menção Especial do júri e do Prémio do Público do Queer Lisboa 26 é irónico. A alegria está longe de ser a sensação dominante do quotidiano da família paquistanesa no centro deste drama, o primeiro de um realizador conterrâneo que tem estudado Cinema nos EUA e cujo currículo conta com várias curtas. Uma delas, "Darling" (2019), premiada no Festival de Veneza, inspirou a história de um homem da classe média de Lahore que tenta mostrar estar à altura de uma tradição patriarcal rígida, embora acabe por se envolver com uma mulher trans quando encontra trabalho num clube nocturno.

Mas se "JOYLAND" pode parecer, à primeira vista, apenas mais uma história de amor queer, ainda que ambientada num contexto geográfico, social e religioso pouco associado a esses retratos, vai fintando expectativas e estereótipos enquanto também deixa um olhar poderoso, subtilmente transgressor e sempre compassivo sobre convenções de género.

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Revelando uma segurança impressionante para uma primeira longa-metragem, percebe-se porque é que arrecadou o Prémio do Júri da secção Um Certain Regard e a Queer Palm em Cannes, este ano. Do argumento muito bem carpinteirado a quatro mãos, pelo realizador e Maggie Briggs, à claustrofobia reforçada por um ecrã 4:3 e por uma câmara atenta às especificidades dos corpos e dos espaços, passando pela belíssima direcção de fotografia de Joe Saade (cujo esplendor visual tanto tira partido de luzes de telemóvel numa sequência de dança como dos néons que iluminam um quarto ou de uma noite no parque de diversões que dá título ao filme), este é um triunfo em várias vertentes.

Essa consistência também se deve ao equilíbrio de melodrama e de alguns momentos de descompressão (cortesia do humor, do desejo ou até da euforia numa montanha-russa) e, claro, a um elenco decisivo para moldar figuras de corpo inteiro, tão empáticas como contraditórias (e nenhuma recolhe a simpatia ou antipatia total do espectador, mérito de uma trama que poderia limitar-se à denúncia engajada de um sistema repressivo). Rasti Farooq, em particular, é extraordinária ao encarnar uma mulher que insiste em ser dona do seu destino, custe o que custar, e em boa parte responsável pelo efeito agridoce (o título engana, lá está) de um dos grandes filmes do ano.

4/5

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"WET SAND", de Elene Naveriani: "We believe in love/ God save us now", canta Michael Gira em "Our Love Lies", clássico dos Swans recuperado logo no início deste drama georgiano, vencedor do prémio de Melhor Filme no Queer Lisboa 26.

A escolha da canção não é acidental, como de resto não é nenhum elemento desta segunda e muito meticulosa longa-metragem da realizadora de "I Am Truly a Drop of Sun on Earth" (2017). Amar pode implicar morrer (ou ser morto) em comunidades opressivas e declaradamente misóginas e homofóbicas como a região na costa do Mar Negro na qual decorre este estudo de personagens intrigante, e algumas figuram locais descobrem-no da pior maneira.

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Ao partir da investigação de um (aparente) suicídio feita pela jovem neta da vítima, estranha numa terra estranha, Naveriani propõe um olhar sobre a identidade, a diferença, a intolerância e o silenciamento assente num realismo seco, imersivo e atmosférico. A realizadora mantém um percurso paralelo como artista plástica e isso talvez ajude a explicar o formalismo que também emana da conjugação de planos fixos rigorosos, muitas vezes de conjunto, com uma sonoplastia que torna a presença do mar, do vento ou da chuva em muito mais do que mero adereço.

Filme paciente enquanto desvenda o novelo de segredos, omissões e mentiras que envolve a morte na origem de um conflito moral (e a certa altura físico), "WET SAND" não dispensa acessos de humor - mesmo que cortantes, às vezes a lembrar a escola de Aki Kaurismäki - nem de romantismo - mesmo que mórbido q.b., e aí dá-se bem com a música cavernosa dos supracitados Swans ou dos She Past Away. A comprová-lo estão duas cenas de beijos (não por acaso, entre pessoas do mesmo sexo), rimas inspiradas de um drama ao qual não faltam singularidades, caso do caminho acidentado entre a mesquinhez e a esperança ou do ressentimento ao empoderamento.

3,5/5