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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Mulheres à beira de um ataque de nervos

Três das primeiras estreias do ano dão conta dos regressos de Maggie Gyllenhaal, Felicity Jones e Natalie Portman ao grande ecrã. Mas "A EDUCADORA DE INFÂNCIA", "UMA LUTA DESIGUAL" e "VOX LUX" são filmes de interesse muito variável...

 

The Kindergarten Teacher - Still 1

 

"A EDUCADORA DE INFÂNCIA", de Sara Colangelo: Estudo de personagem ambíguo e obsessivo, este drama que adapta "Haganenet" (2014), filme do israelita Nadav Lapid (que não teve estreia comercial em Portugal), oferece a Maggie Gyllenhaal um dos maiores desafios do seu percurso. E ela mostra estar à altura na pele de uma mulher cujo quotidiano rotineiro, com uma vida familiar e profissional em ponto morto, tem direito a novo fôlego a partir do deslumbre pelo potencial artístico (e literário e poético em particular) de uma das crianças do jardim de infância onde trabalha. À medida que esse fascínio inicial ganha intensidade e começa a dominar o dia-a-dia da protagonista, a realizadora não teme ir movendo o filme para zonas de sombra, embora com a sobriedade a impor-se a tentações de sensacionalismo (o que é especialmente assinalável num olhar sobre a exploração infantil). E da fuga para a frente da personagem de Gyllenhaal, sempre esquiva tanto para o espectador como para os que a rodeiam, nasce um retrato melancólico e adulto da frustração, sem julgamentos nem clichés do thriller psicológico (território do qual a acção se aproxima na recta final). Muito bem defendida por uma actriz capaz de traduzir essa ansiedade e inquietação, está aqui uma das boas surpresas recentes do cinema independente norte-americano - e uma nova chamada de atenção para uma cineasta depois da sua primeira longa-metragem, a pouco vista "Pequenos Acidentes", de 2014.

 

3/5

 

Felicity Jones stars as Ruth Bader Ginsburg in Mimi Leder's ON THE BASIS OF SEX, a Focus Features release.

 

"UMA LUTA DESIGUAL", de Mimi Leder: Não há nada de especialmente falhado neste relato da história (ou parte dela) da juíza Ruth Bader Ginsburg, a segunda mulher e primeira judia a ocupar um cargo no Supremo Tribunal de Justiça dos EUA. Mas como em tantos outros biopics, também não há nada de especialmente inspirado. Admita-se que a perspectiva de Mimi Leder ("Favores em Cadeia", "O Pacificador") nem é tão maniqueísta como parece à partida, já que vai expondo a postura inicialmente exemplar da personagem principal a algumas contradições e tensões com a família ou com outros aliados da sua cruzada contra a discriminação feminina. Só que nem essa ambivalência ocasional chega para tornar muito estimulante uma narrativa formatada e sem grandes ideias de realização, apesar da óbvia competência de recursos - dos cenários impecavelmente polidos a alguns diálogos certeiros ou a interpretações que não comprometem. Felicity Jones até consegue ir mostrando a mulher por trás do símbolo, ainda que o argumento não lhe dê tantas oportunidades como ela ou Ginsburg merecem - ocupado entre saltos temporais ou a impor a mensagem (meritória e pedagógica) às personagens (maioritariamente esquemáticas). Armie Hammer, que nas primeiras cenas parece limitar-se a repetir a pose de "Chama-me Pelo Teu Nome", também convence como a outra metade do "power couple" no centro da história, com uma contenção que ajuda a orientar o percurso obstinado da protagonista. Mas nem o capital de simpatia da dupla eleva o resultado acima de cinema morno, tão bem intencionado como bem comportado, e a fechar com uma sequência que não se distingue muito das de demasiados filmes ou séries de tribunal. Pedia mais garra, esta luta...

 

2,5/5

 

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"VOX LUX", de Brady Corbet: O actor que se estreou atrás das câmaras com "A Infância de um Líder" (2015) não faz a coisa por menos: o seu segundo filme chega com a pretensão de deixar "um retrato do século XXI". E não começa mal, no primeiro de três capítulos que acompanha, de forma intrigante q.b., uma adolescente aspirante a cantora que sobrevive um massacre no seu liceu, deixando pistas sobre as ligações que podem nascer entre a tragédia e a arte, a inadaptação e a procura de um rumo (pontes complementadas pela voz off de Willem Dafoe e a banda sonora de Scott Walker). Mas Corbet rapidamente se perde num ensaio sobranceiro que parte da carreira da protagonista, entretanto transformada numa estrela pop planetária, para colocar em cheque o individualismo e a falta de comunicação na era das redes sociais, com um olhar cínico sobre a fama e a sociedade de consumo ao qual não falta, como no arranque, um paralelo com a ameaça terrorista. Infelizmente, "Vox Lux" assenta numa personagem desinteressante e estereotipada, e mesmo que o seu narcisismo e futilidade sejam deliberados, o olhar do realizador sobre ela não é muito melhor. A faceta pessoal e profissional da figura interpretada por Natalie Portman (com uma postura tão afectada como em "Jackie"), na idade adulta, e antes por Raffey Cassidy, que regressa para encarnar a filha desta (com uma interpretação muito mais espontânea), tem uma tensão dramática aquém da que o filme procura e só realça que o seu autor tem pouco a dizer - ou que não encontrou aqui a forma mais conseguida de se expressar. O desenlace sublinha ainda mais a sensação de experiência falhada, ao apontar sugestões de um musical pós-moderno baseado em canções inéditas de Sia, tão medíocres que as cenas em palco chegam a tornar-se penosas. Decididamente, Corbet não faria mal em afinar a voz criativa...

 

1,5/5

 

Com grandes poderes vêm grandes... esperanças?

E ao sétimo filme, o maior super-herói da Marvel voltou a ser espectacular. "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA" não só é a aventura cinematográfica da personagem mais revigorante desde a trilogia de Sam Raimi como está entre os (poucos) blockbusters de 2018 a não perder.

 

Into the Spider-Verse

 

Depois de seis filmes (e duas participações especiais em aventuras de Capitão América e dos Vingadores), que futuro há para o Homem-Aranha no grande ecrã? As três fitas que sucederam à trilogia de Sam Raimi não ofereciam a resposta mais entusiasmante, com variações de Peter Parker e do seu alter ego muito abaixo das primeiras adaptações, que ou repetiram ideias ou trouxeram alterações escusadas (a ponto de "Homem-Aranha: Regresso a Casa" ter oferecido uma galeria de secundários completamente descaracterizada e quase sem vestígios da BD).

 

Mas afinal a história do aracnídeo no cinema ainda pode estar só no princípio, e isso nem é necessariamente mau, pelo menos a julgar pelo por uma lufada de ar fresco como "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA". Se é verdade que nunca houve tantos filmes de super-heróis como hoje, e que a rotina é muitas vezes o maior denominador comum de grande parte deles, a nova aposta da Sony mostra que não tem de ser esse o caminho... e que ainda é possível trazer sangue novo a um género consideravelmente explorado.

 

Into the Spider-Verse 2

 

O filme de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman também prova que a animação pode ser uma opção válida para adaptações de super-heróis, e até mais frutífera do que versões de imagem real. Raras vezes o ritmo, energia e lógica visual da BD foram tão bem transplantados para o grande ecrã como aqui, com a narrativa a ter legendas e onomatopeias entre os alicerces ("Scott Pilgrim Contra o Mundo" também já o tinha feito, é certo) enquanto vai conjugando animação digital e desenho à mão, integrando ainda elementos do cartoon ou do anime à medida que algumas personagens vão entrando em cena.

 

Além do trio de realizadores, há mais uma presença determinante: Phil Lord, que compõe com Rothman a dupla responsável pelo frenético e inventivo "O Filme Lego" e pelos divertidos "Agentes Secundários"/"Agentes Universitários", que aqui se encarrega do argumento e produção. E a irreverência desses filmes mantém-se na versão mais metaficcional e pós-moderna do Homem-Aranha já vista no cinema, capaz de propor um novo começo sem esquecer o que está para trás, homenageando a herança da personagem enquanto apresenta visões inéditas (com o caldeirão a incluir tanto um olhar sobre as minorias como influências do film noir ou da ficção científica).

 

Apesar do delírio visual, o maior corte com o passado talvez seja o facto de, desta vez, o Homem-Aranha não ser exclusivamente associado a Peter Parker. Já era assim na BD há anos, mas tendo em conta os filmes mais recentes, a mudança também é bem-vinda no cinema, até porque o original tem sucessor à altura em Miles Morales. Adolescente negro latino-americano, o novo protagonista é uma resposta certeira a uma nova geração de fãs e "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA" traduz muito bem o seu mundo.

 

Into the Spider-Verse 3

 

Nova Iorque mantém-se como cenário, mas a acção percorre agora as ruas de Brooklyn em vez das de Queens, a arte urbana e o hip-hop influenciam directamente a desenvoltura narrativa, "Grandes Esperanças" (de Charles Dickens) é o livro de cabeceira e a esfera familiar e comunitária de Morales é desenhada com mais textura e personalidade do que muitos filmes de super-heróis de carne e osso (ou do que muitos filmes, com ou sem super-heróis).

 

Tal como na história de Peter Parker, não falta a obrigatória picada de uma aranha nem sequer uma tragédia a moldar a origem, traços que ajudam a reforçar a mitologia enquanto o protagonista vai encontrando a sua voz. Essa procura dá, aliás, o mote a esta aventura inicial e não é difícil que o espectador se torne cúmplice: por muito que os superpoderes contem, esta jornada volta a comprovar que o lado humano é o que eleva o Homem-Aranha face a muitos vigilantes, independentemente de que está atrás da máscara. E além de Morales há aqui muitas figuras que a usam, num fortíssimo núcleo de secundários que abre a porta para a expansão deste universo. Mas ao contrário de outros filmes do género, "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA" não só é uma aventura auto-contida como nunca perde o rumo da viagem pessoal do seu protagonista. Se esse respeito até torna o final talvez demasiado conveniente, essa será uma limitação mais do que desculpável face à solidez e criatividade geral.

 

Into the Spider-Verse 4

 

Um dos maiores méritos dos realizadores e dos argumentistas é, de resto, colocarem várias peças em jogo ao longo de duas horas sem que esta aventura resulte numa manta de retalhos. Embora Peter Parker já não seja o protagonista, há tempo e espaço para versões nunca vistas no cinema, que rompem com o mimetismo de alguns filmes anteriores, numa história que é tanto um relato coming of age como do envelhecimento, experiência iniciática e passagem de testemunho. E até a profusão de vilões, noutros casos atabalhoada, não invalida que cada um tenha oportunidade de provar o que vale, sobretudo um Rei do Crime tão colossal como vulnerável, a nova versão de Dr. Octopus e um Gatuno enigmático e arrepiante.

 

O recurso ao humor, constante ao longo de quase todo o filme, não choca com a força de alguns episódios mais dramáticos, essenciais para o peso emocional (conferir no plano de antologia com pai e filho perto da entrada de um apartamento). Além do tom bem doseado, o argumento dá uma lição de economia narrativa a muita concorrência ao conseguir evitar uma overdose de diálogos explicativos, que certamente estariam presentes caso a aposta fosse entregue a mãos menos habilidosas. Mas nem as referências ao passado nem a introdução de várias personagens (e respectivas histórias pessoais) levam a que "HOMEM-ARANHA: NO UNIVERSO ARANHA" acumule palha narrativa.

 

Talvez até seja um filme demasiado despachado a espaços, como no desenvolvimento da dinâmica entre o protagonista e os seus aliados, mas pelo menos nunca se arrasta. Pelo contrário, é dos mais frenéticos do ano e não se perde entre a aceleração (mesmo que ameace no obrigatório conflito do terceiro acto, ainda assim mais imaginativo do que a média), experiência lúdica sem deixar de ser experimental dentro do seu campeonato - mas a deixar, finalmente, a esperança de um mundo melhor para o universo dos super-heróis no cinema...

 

4/5

 

 

A sangue frio

Comandado por uma Chloë Sevigny magnética e sem travão numa espiral de revolta, "A VINGANÇA DE LIZZIE BORDEN" não é só mais um drama de época a acompanhar uma mulher enclausurada. Mérito da actriz e de Craig William Macneill, realizador que transforma esta história verídica numa experiência agreste e sufocante.

 

LIZZIE

 

Chloë Sevigny confessou não ter ficado completamente satisfeita com esta adaptação de um caso verídico (já muitas vezes ficionado do outro lado do Atlântico) que foi o seu projecto de sonho durante os últimos anos - e do qual é actriz principal e produtora. Mas mesmo que algumas opções do realizador tenham colidido com as suas (incluindo várias sequências cortadas pelo caminho), o resultado está longe de a envergonhar.

 

A história trágica que abalou Massachusetts e os EUA em finais do século XIX, onde uma mulher da alta sociedade terá assassinado o pai e a madrasta (embora não tenha chegado a ser condenada), é retratada com um sentido atmosférico singular num biopic que junta traços de um drama a caminho do gótico, do thriller psicológico ou mesmo de sugestões de terror, evitando a familiaridade de tantos outros filmes de época baseados em episódios reais (e até pode ser visto, em parte, como um sucessor estimável do algo esquecido "Amizade sem Limites", de Peter Jackson).

 

Lizzie 2

 

Craig William Macneill (na sua segunda longa-metragem, depois de "The Boy", de 2015) não chega a escapar de alguma modorra narrativa, mas compensa através de uma câmara com um sentido de espaço evidente, que sabe tirar partido dos vários recantos da casa onde decorre quase toda a acção. Essa vertente sensorial sai reforçada pela fotografia de tons sépia de Noah Greenberg e de um trabalho de iluminação minucioso, que às vezes recorre apenas a velas e prova que menos pode ser mais.

 

A banda sonora de Jeff Russo também ajuda a desenhar este minimalismo com qualquer coisa de enigmático (ainda que conduza a um desfecho inevitável e já conhecido), com a música a complementar a tensão das imagens em vez de ser uma presença demasiado gratuita e sublinhada.

 

Entre uma direcção de actores igualmente segura, Sevigny tem o desempenho mais exigente e memorável, nunca atirando a protagonista para o estereótipo de vítima nem de vingadora e dando conta de um turbilhão emocional sem ceder à histeria. A câmara de Macneill consegue captar a insolência e ressentimento do seu olhar, elevando uma interpretação tão imponente como estranhamente arredada dos holofotes nesta temporada de nomeações (só as sequências dos homicídios, das mais cruas do filme, deveriam seriam suficientes para despertar atenções).

 

Lizzie 3

 

Kristen Stewart, na pele de empregada da família sujeita a ainda mais humilhações do que a protagonista (com a qual forma um par amoroso mais ficcionado do que comprovado), também convence numa personagem contida e vulnerável, e é bom vê-la continuar a procurar papéis desafiantes.

 

Com a presença masculina mais forte, Denis O'Hare compõe um patriarca apropriadamente altivo e ocasionalmente odioso, sem ser promovido a vilão de serviço num filme onde não há heróis. Nem há heroínas, aliás, já que o argumento alude a questões de empoderamento feminino (aliando ainda a luta de classes à de género) sem forçar a nota nem branquear a conduta das mulheres que conduzem esta história - uma lição que outros filmes da produção recente de Hollywood bem poderiam aprender...

 

3/5

 

 

Uma família japonesa, uma dupla de culto e o astronauta melancólico

Estreia da semana? "SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", o novo filme de Hirokazu Koreeda. Mas além do drama muito elogiado do realizador japonês, ficam também duas sugestões em cartaz há algum tempo: uma entre as apostas mais arriscadas da temporada, outra das mais aguardadas do ano.

 

Shoplifters

 

"SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", de Hirokazu Koreeda

 

Por um lado, o último filme de Hirokazu Koreeda não acrescenta nada de particularmente novo à sua obra, cuja fase mais recente (e mais popular) já conta com vários exemplos de dramas familiares (do emblemático "Ninguém Sabe" a "Tal Pai, Tal Filho"). Por outro, é bom ver aquele que será talvez o principal realizador japonês do momento regressar ao que sabe fazer melhor depois de "O Terceiro Assassinato", viragem para o thriller pouco entusiasmante que parecia encontrá-lo fora do seu ambiente (e que também chegou às salas nacionais este ano).

 

Sem se aventurar por rumos inesperados, "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões" volta a valer-se das qualidades associadas aos seus melhores filmes, com uma direcção de actores certeira (a imprimir uma espontaneidade invulgar) e um tom observacional que tanto acolhe o drama como a comédia, esquivando-se à manipulação e ao gag gratuito num relato do quotidiano familiar em ambiente tendencialmente caseiro.

 

Das cenas ancoradas nos pequenos roubos que inspiram o título à revelação (paciente) das ligações entre os protagonistas, Koreeda vai desenvolvendo um olhar sobre o amor e a cumplicidade que acaba por questionar as fronteiras que delimitam o conceito de família - às vezes de forma demasiado sublinhada, mas igualmente desarmante. E sabe como comover tanto nas sequências de partilha como nas de uma solidão retratada sempre com justeza e a serenidade possível, ainda que nem sempre agarre o ritmo narrativo com o mesmo equilíbrio - a recta final acaba por se mostrar algo arrastada, apesar de a última cena ser tão brilhante como implacável. A Palma de Ouro na mais recente edição do Festival de Cannes não foi mal entregue, portanto.

 

3,5/5

 

O Interminável

 

"O INTERMINÁVEL", de Aaron Moorhead e Justin Benson

 

O culto em torno de Aaron Moorhead e Justin Benson já começou há uns anos mas só agora chega a Portugal, uma vez que nem "Resolução Macabra" (2012) nem "Spring" (2014) tiveram direito a estreia comercial por cá - e as curtas metragens que o duo também assinou, muito menos.

 

Além de realizarem este híbrido de drama e ficção científica, os norte-americanos são protagonistas e produtores - Benson encarrega-se ainda o argumento - e essa dedicação é evidente num filme com uma aura particular de "labour of love", no qual os meios parcos não comprometem (aliás, até parecem encorajar) a profusão de ideias. E não faltam conceitos intrigantes nesta história de dois irmãos que escaparam de uma seita no interior dos EUA, durante a adolescência, e decidem regressar ao local já na idade adulta, procurando respostas que o espectador vai conhecendo em simultâneo.

 

Se a primeira metade do filme sugere traumas nascidos de possessões macabras ou invasões extraterrestres, a segunda encontra a dupla a afastar-se de lugares comuns rumo a territórios inclassificáveis q.b., numa das propostas mais arrojadas da temporada (tanto a nível narrativo como formal, com efeitos especiais lo-fi capazes de ofuscar muito CGI avultado). Só é pena que parte da tensão se esbata quando o argumento prefere ir dando mais espaço ao humor, nem sempre muito conseguido ou oportuno, diluindo a força de um exercício de suspense personalizado como poucos. Mas fica claro que Moorhead e Benson são nomes a ter debaixo de olho - e fica também a vontade de espreitar os filmes que estão para trás.

 

3/5

 

O Primeiro Homem na Lua

 

"O PRIMEIRO HOMEM NA LUA", de Damien Chazelle

 

Depois da garra de "Whiplash - Nos Limites" e da ligeireza de "La La Land: Melodia de Amor", Damien Chazelle parece confundir dolência (e alguma auto-indulgência) com maturidade no biopic de Neil Armstrong. Se é verdade que este retrato do primeiro astronauta a pisar a Lua é imune aos excessos glorificadores que contaminam tantos outros baseados em histórias verídicas e marcantes, essa contenção não chega para justificar as mais de duas horas que o jovem realizador norte-americano reclama para seguir os treinos e missão do seu protagonista.

 

Tecnicamente competente, e com uma atenção ao pormenor que agradará aos mais interessados por viagens espaciais, este não deixa de ser um drama de câmara tão ensimesmado como o desempenho de Ryan Gosling, num papel pouco desafiante e a encorajar mais um exemplo de underacting (ou apenas de um olhar pouco expressivo). No extremo oposto, Claire Foy tenta injectar algum rasgo à mulher do protagonista, uma das vozes mais críticas desta aventura histórica, mas a dinâmica do casal não foge muito à de outros onde o trabalho limita a relação. E como os restantes secundários ficam por explorar, o centro emocional do filme acaba por ser o luto de uma filha, para o qual Chazelle também não chega a ter uma perspectiva especialmente forte ou intrigante. Um grande passo para a humanidade, um biopic demasiado comedido...

 

2/5